O “vento da mudança” soprou na direção errada

(Lucas Leiroz in Strategic Culture Foundation, 18/06/2024)

Mais de três décadas após o “vento da mudança”, integração entre Rússia e o Ocidente parece ter fracassado.


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Há mais de três décadas, a lendária banda de rock alemã Scorpions lançava uma das canções mais virais de todos os tempos, a famosa “Wind of Change”. A canção narra os sentimentos de uma juventude europeia angustiada e, ao mesmo tempo, esperançosa diante do fim da Guerra Fria e do começo da “integração” entre soviéticos e ocidentais. A letra conta de forma bastante honesta a emoção da união de dois mundos separados por mais de quatro décadas, ainda que visivelmente desde uma perspectiva ocidental.

Em dezembro de 2023, eu estava em Minsk, capital da República de Belarus, quando, durante o jantar, a canção de Scorpions tocou no restaurante e imediatamente todos os russos/belorrussos começaram a cantá-la de forma absolutamente espontânea, como uma reação natural ao som que ecoava da rádio. A cena surpreendeu até mesmo os poucos turistas ocidentais que estavam ali na ocasião.

Mesmo já conhecendo “Wind of Change” há muitos anos, tive naquele momento, pela primeira vez, a curiosidade de ler os comentários nos vídeos da canção no YouTube e outras plataformas sociais. É impressionante a quantidade massiva de comentários em língua russa. Claramente, a canção é amada no “russkiy mir” – o que explica a cena que vi em Minsk.

I follow the Moskva and down to Gorky Park
Listening to the wind of change

Meses depois, eu estava andando pelo Gorky Park em Moscou, em pleno verão russo, diante da atmosfera de alegria coletiva que prevalece na capital russa durante essa estação. Imediatamente, me recordei dos versos da banda alemã, cuja epifania se dá precisamente em um passeio pelo Gorky Park.

Senti por alguns segundos o utópico “vento da mudança” soprando em meu rosto, mas rapidamente retomei a memória recente de três passagens pela zona de conflito na fronteira russo-ucraniana. Imediatamente, percebi que o “vento” narrado pelos alemães soprou na direção errada.

The world is closing in
And did you ever think
That we could be so close like brothers?

Para os corações mais puros no final dos anos 1980 e começo dos anos 1990, o mundo parecia realmente preenchido por uma atmosfera de “mudança” capaz de fazer Ocidente e Eurásia “mais próximos”. Para os corações inocentes, o fim da Guerra Fria representaria o começo de uma era de harmonia e cooperação entre todos os povos.

Esta era, de fato, uma possibilidade. Mas o Ocidente escolheu o caminho contrário. Escolheu, orientado por seu desejo megalomaníaco de dominação mundial, o caminho da confrontação, do ódio e da guerra com a Rússia.

Após a catástrofe política, econômica e social da era Gorbachev-Iéltsin – quando a URSS foi liquidada e a Federação Russa fora fundada já à beira de uma guerra civil -, o jovem Vladimir Putin oferecera à OTAN, inocentemente ou não, a proposta que definiria os rumos dos laços entre Moscou e Ocidente: a possível entrada da Rússia na OTAN.

Obviamente, os EUA, já experientes em décadas de conhecimento da ciência geopolítica (infelizmente, ignorada na URSS como uma “ciência alemã”), rejeitaram a proposta de Putin. Afinal, como poderia a Rússia, o centro do “Heartland”, entrar na aliança atlântica?!

A condição tácita para o acesso russo à OTAN era simples: a Rússia teria de se dividir em dezenas de países, formando etno-Estados fracos e fantoches do Ocidente. Com sua grandeza territorial intacta, a Rússia não dava ao Ocidente uma “garantia de segurança” suficientemente forte para entrar na aliança, já que, a qualquer momento, o maior país do mundo poderia simplesmente deixar a OTAN e se tornar um inimigo, tendo força suficiente para enfrentar os EUA e seus vassalos.

Enfim, Rússia e Ocidente não ficaram “tão próximos” como gostariam os músicos dos Scorpions.

The wind of change blows straight
Into the face of time
Like a storm wind that will ring
The freedom bell for peace of mind
Let your balalaika sing what my guitar wants to say

Muitos fatores impediram que os sonhos utópicos dos músicos alemães se realizassem. Aliás, já na própria letra dos Scorpions, reflete-se alguma mentalidade racista, vendo os russos como um povo “primitivo” e ignorante quanto às inovações culturais do Ocidente capitalista – talvez eles não soubessem que o gênero musical do rock surgiu na URSS e na Alemanha ocidental quase simultaneamente, nos anos 1960, sendo a guitarra elétrica tão comum para os russos da URSS tardia quanto a tradicional balalaica.

De forma ingênua, a canção reflete os pensamentos de uma juventude europeia impressionada com a “descoberta” do mundo russo-soviético, como uma “novidade interessante” para a entediada sociedade ocidental. A dor dos soviéticos que viam seu país ruir nunca fora levada em conta pelos artistas ocidentais – que, embebidos da ideologia dominante, tinham convicção de que fazer parte do Ocidente era o melhor para todos os que estavam no “outro lado do mundo”.

Os ocidentais sempre tiveram uma visão racista e supremacista em relação aos russos, expressa até mesmo nas obras mais inocentes e amigáveis – como esta canção dos Scorpions. Ver os russos como um povo “atrasado” e “primitivo” é um dos princípios básicos de toda a ideologia russofóbica que prevaleceu no Ocidente durante século XX e permanece prevalecendo agora no século XXI. Para a OTAN, assim como para os nazistas históricos (alemães) e atuais (ucranianos), a Rússia é uma terra bárbara, primitiva e ansiosa pela chegada da “civilização ocidental”. Esta mentalidade impediu qualquer diálogo frutífero de paz ao longo dos anos pós-Guerra Fria.

Take me
To the magic of the moment
On a glory night
Where the children of tomorrow dream away

As ambições de dominação mundial e a russofobia – herdadas dos nazistas asilados pelos EUA e pela Europa após a Segunda Guerra Mundial – levaram os países ocidentais a apoiarem toda forma de medidas contra a Federação Russa.  O fomento ao separatismo em áreas como a Chechênia e ao neonazismo no entorno estratégico russo, principalmente na Ucrânia, levaram a sucessivas crises contra Moscou.

A Rússia venceu os separatistas do Cáucaso e neutralizou as ameaças russofóbicas na Geórgia, mas demorou em prestar atenção ao problema ucraniano. Após oito anos de guerra no Donbass, Moscou tomou a acertada decisão de intervir para interromper o genocídio de russos étnicos em Donetsk e Lugansk – e diversas outras regiões de maioria étnica russa.

No Donbass, as “crianças do amanhã” ao lado russo da (então) Ucrãnia não tiveram uma infância lúdica e amável, mas um verdadeiro inferno com aviação, artilharia e drones ocidentais. Com amplo apoio da OTAN, a Junta de Kiev avançou seus planos de “desrussificação” e implementou um genocídio étnico e cultural nas regiões orientais, levando milhares de crianças e civis inocentes ao martírio.

Para as crianças do Donbass, nunca houve qualquer “noite gloriosa” – pelo menos, não antes de 24 de fevereiro de 2022, quando finalmente as forças militares da Federação Russa deram um fim ao genocídio iniciado pelos neonazistas em 2014. Para aquelas crianças, o verdadeiro “vento da mudança” aconteceu precisamente na noite em que os mísseis russos atingiram as bases das milícias fascistas ucranianas.

O que o mundo ocidental chamou de “invasão injustificada”, as crianças inocentes do Donbass chamaram de “esperança” – ou simplesmente de “mudança”. Sem dúvidas, para aquelas crianças, a madrugada de 24 de fevereiro de 2022 foi uma “noite gloriosa” – a primeira desde 1991, quando milhões de russos repentinamente se tornaram estrangeiros em suas próprias terras.

In the wind of change…

Há dois anos, a esperança de cada russo étnico nas Novas Regiões – e em todos os territórios de maioria russa – é a vitória militar de Moscou. Mais do que isso, a esperança na vitória russa se estende a uma convicção de que a derrota do regime de Kiev desencadeará um efeito dominó de mudanças em todo o cenário geopolítico mundial, trazendo uma reconfiguração total da ordem global.

O vento da mudança pós-Guerra Fria soprou na direção errada. O Ocidente nunca fora tão russofóbico como agora. Nunca houve [no Ocidente] tanta demonização e marginalização da Rússia como nos tempos atuais, quando EUA e Europa tentam inutilmente “cancelar” o maior país do mundo. O fim da Guerra Fria e do comunismo, em vez de representar um verdadeiro “vento de mudança”, trouxe consigo o aumento do racismo e do fascismo como armas de guerra a serviço do desejo de poder do Ocidente.

E é precisamente a Federação Russa que agora apresenta ao mundo uma alternativa para mudar [para melhor] o rumo da humanidade. Os ventos que sopraram na direção errada nas últimas décadas agora parecem finalmente favorecer o surgimento de um novo mundo, onde os povos podem finalmente ser mais próximos e amigáveis, através de um sistema mundial multipolar e sem hegemonias.

Resta saber se o Ocidente aceitará o inevitável destino da humanidade.

Fonte aqui.


BRICS, outra maneira de moldar o mundo

(José Goulão, in AbrilAbril, 13/06/2024)

Levar a sério o significado que Washington, Bruxelas e a NATO pretenderam dar actualmente ao desembarque na Normandia equivale a acreditar que uma equipa de futebol amadora com apenas cinco jogadores foi capaz de derrotar o campeão mundial até então invencível e no zénite do seu esplendor.


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A recente comemoração do 80.º aniversário do dia do Desembarque na Normandia (Dia D) foi uma encenação, uma patética operação de propaganda do mundo unipolar norte-americano para tentar corromper a História e procurar convencer as opiniões públicas internacionais de que a realidade actual no mundo é consequência natural dessa narrativa adulterada segundo métodos tacanhos.

A ausência ostensiva da Federação Russa e a monopolização da vitória contra o nazifascismo pelos países que hoje integram a NATO, ignorando a parte que contribuiu decisivamente para o triunfo dos Aliados na II Guerra Mundial, e sem a qual não teria havido Dia D, é mais um acto da tragicomédia através da qual se pretende reescrever a História.

O formato deste ano para celebração do Dia D simula que os supostos vencedores do nazifascismo, hoje amigados na NATO, incluindo todos os derrotados no conflito de 1939-45, são os mesmos que actualmente combatem o novo fascismo e o «novo Hitler» personificado por Vladimir Putin. Há estórias para crianças muito mais convincentes, nas quais a dualidade entre o Bem e o Mal é exposta com maior criatividade e inteligência do que neste conto para indigentes.

A generalidade dos povos do mundo sabe muito bem – e não esquece – que o nazifascismo foi derrotado porque a União Soviética não apenas conseguiu finalmente travar as hordas hitlerianas, que até então pareciam invencíveis, como reduziu de maneira drástica o seu poder, as suas capacidades militares, circunstância que tornou possível reconfigurar a frente Ocidental e gerar o Dia D.

Levar a sério o significado que Washington, Bruxelas e a NATO pretendem dar actualmente ao desembarque na Normandia equivale a acreditar que uma equipa de futebol amadora com apenas cinco jogadores foi capaz de derrotar o campeão mundial até então invencível e no zénite do seu esplendor.

Numerosos analistas militares sérios e profundamente conhecedores das causas e consequências dos mais determinantes feitos alcançados durante a II Guerra Mundial asseguram que uma hipotética presença do lendário general Patton, endeusado segundo os delírios de Hollywood, nas terríveis e decisivas batalhas de Estalinegrado e Kursk contra as tropas nazis teria sido um zero à esquerda, um empecilho e um pesadelo para os generais soviéticos.

Do fim da URSS aos BRICS

A ordem mundial nascida da II Guerra Mundial acabou com a extinção da União Soviética. É ponto assente. Qualquer outra versão está totalmente desfocada da realidade ou tem intenções propagandísticas como gato escondido com o rabo de fora.

Querer transplantar a guerra contra o nazifascismo para o momento actual é uma manobra primária na qual só acredita quem quer ou tenha sido irremediavelmente envenenado pelos conteúdos tóxicos da comunidade mundial de propaganda, também conhecida por teia internacional de comunicação social corporativa.

Nem a Federação Russa é a Alemanha hitleriana, nem Vladimir Putin, apesar do seu reaccionarismo ideológico e da reactivação dos ambientes sociais retrógrados associados à Igreja Ortodoxa, é Adolf Hitler.

Pelo contrário, e por muito que pese aos polícias de opinião que põem cada vez mais as garras de fora e montaram uma paranóica e pidesca caça aos «amigos de Putin» em cada canto, são os países congregados no Dia D da NATO que financiam, alimentam, armam  e prolongam na Ucrânia a existência de um regime que se reclama herdeiro do nazi-banderismo hitleriano. Ao mesmo tempo que choram, com lágrimas de crocodilo, a ascensão das correntes fascistas (disfarçadas ou não) na Europa. Ou seja, dão o exemplo e depois queixam-se… ou fingem fazê-lo.

Com a desagregação da União Soviética nasceu uma nova ordem mundial, unipolar, sob o domínio imperial e colonial dos Estados Unidos da América. Segundo a «doutrina Wolfowitz» formulada para gerir a nova situação, os Estados Unidos não deveriam (não devem) permitir a existência de qualquer potência com dimensão e poder capaz de rivalizar com Washington. Nem mesmo a União Europeia, como se percebe todos os dias nas andanças das relações transatlânticas, melhor dizendo, na submissão europeia à América.

Nato e nazismo, uma irmandade

Durante quase 20 anos, os aliados da NATO, com destaque esmagador para os Estados Unidos, puseram e dispuseram dos restos mortais da União Soviética; e tudo fizeram, inclusivamente inserindo ministros nos governos de Moscovo, entregando nominalmente a presidência a aberrações humanas e políticas como Boris Ieltsin, para submeter a Rússia à nova ordem unipolar, à selvajaria neoliberal, à ditadura económico-financeira – e, no caso, também política – do Ocidente, prenunciando a sua desagregação territorial.

Simultaneamente, fazendo gato-sapato das promessas feitas em 1990 a Mikhail Gorbatchov, a NATO e depois a União Europeia foram-se expandindo em direcção às fronteiras russas, montando um cerco militar ao território da Federação e acabando por desencadear uma guerra por procuração contra Moscovo através do golpe fascista da Praça Maidan em Kiev, em 2014.

Até que chegou Vladimir Putin, nos primeiros anos do século XXI. Os abutres não estavam satisfeitos, havia ainda muita carniça disponível, afinal a herança económica, industrial e tecnológica soviética não estava tão decomposta como garantiam os salteadores, além de que as matérias-primas disponíveis em volumes astronómicos eram cada vez mais indispensáveis para um mundo ocidental e «civilizado» que se gabava da desindustrialização, da miraculosa e enfática «transição verde» e que, sobretudo a partir de 2008, começou a perceber, ainda que não o admitindo, que a economia de casino tinha mais buracos que um queijo suíço.

Putin tentou arrumar a casa, deu grandes passos nesse sentido e, vade retro socialismo, recuperou o nacionalismo ruralista massivo, de braço dado com a ultramontana mas muito enraizada Igreja Ortodoxa, que nem durante a União Soviética deixara seus créditos por mãos alheias.

Vladimir Putin olhou igualmente para o exterior do país, percebeu desde muito cedo que do Ocidente não havia que esperar coisa boa na bagagem das hordas militares que se iam instalando nas suas fronteiras e, com a inteligência estratégica que não pode deixar de se lhe reconhecer, apostou fundo no conceito de Eurásia, esse imenso continente de Lisboa a Vladivostoque e às Ásias mais orientais, República Popular da China incluída.

Primeiro, com alguns vizinhos, consolidou a organização securitária designada Tratado de Segurança Colectiva (TSC); depois, também agregando a vizinhança, aprofundou a União Económica da Eurásia.

O passo seguinte provocou abalos geoestratégicos. Nasceu a Organização de Cooperação de Xangai (OCX) em torno do eixo formado pelas duas bestas negras de um Ocidente unipolar e senhor do mundo, disparado em direcção ao domínio globalista. Nele se uniram a Rússia e a China, respectivamente o maior país mundial em área e o país mais populoso, com um crescimento económico fulminante e um imparável desenvolvimento industrial e tecnológico. O cenário não poderia ser mais aterrador para uma «civilização» ultra minoritária no plano planetário, afinal o acanhado «jardim» de Borrell afogado nos pântanos do neoliberalismo e a temer em cada dia que passa a explosão descontrolada de uma revolta social, porque a paciência do ser humano tem limites perante o acelerado avanço do esclavagismo, por muito que tentem poli-lo.

Além da Rússia e da China, juntaram-se à OCX o Cazaquistão, o Quirguistão, o Tajiquistão, o Uzbequistão e depois o Irão, permanecendo uma série de observadores regionais, entre eles o Afeganistão. A Bielorrússia será em breve um membro de pleno direito.

Os objectivos principais da OCX são «a paz, a segurança e a estabilidade na região», a «confiança mútua, amizade e relações de boa vontade», a «efectiva cooperação» entre os Estados membros e, escândalo dos escândalos, «promover uma nova ordem internacional democrática, justa e racional».

O interminável pesadelo

«Eles querem criar uma nova ordem internacional», gemeu um dia o então ministro português dos Negócios Estrangeiros e emissário do Departamento de Estado norte-americano, Santos Silva.

Os lamentos irados de SS não tinham só a ver com a Organização de Cooperação de Xangai: centravam-se já no papel crescente, activo e organizado desenvolvido, a partir de 2008, pelo grupo de países chamado BRICS, uma sigla enunciando os Estados membros: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Na cena internacional surgia assim uma organização de grandes nações de quatro continentes, representando mais de 40% da população mundial e mais de 30% do PIB em paridade de poder de compra, que passou a contestar activamente a «ordem internacional baseada em regras», um heterónimo de unipolaridade adoptado pelo poder colonial e imperial dominante. As «regras», desconhecidas, casuísticas e arbitrárias, mais não são do que os instrumentos para que o chamado Ocidente Colectivo, governado a partir de Washington, possa gerir o mundo não apenas à margem, mas também contra o direito internacional e a Carta das Nações Unidas. 

No fundo, a «ordem internacional baseada em regras» é o instrumento de um bando de foras-da-lei que, invocando os mais nobres valores humanistas e democráticos, se acha no direito de submeter e agregar nações retirando-lhes os mais elementares mecanismos de soberania, de manter um assalto permanente contra o planeta multiplicando guerras sem fim, saques de bens, de recursos naturais e matérias-primas; além de penalizações arbitrárias, cruéis e mortíferas contra as populações de países que não cumprem as suas «regras». Uma acção desenvolvida sem respeito pelo meio ambiente do planeta e que agrava a deterioração climática, ao mesmo tempo que diz combatê-la.

O BRICS declara-se nos antípodas destas práticas. Assenta na afirmação da soberania de Estados, considerados iguais entre si, que procuram a cooperação mutuamente benéfica nos planos bilateral e multilateral; e na restauração plena do primado do direito internacional. Entre os princípios invocados pelo BRICS estão o de «evitar a militarização das relações internacionais»; o desenvolvimento harmónico e igualitário, com respeito pelo ambiente, das relações livres entre os países do planeta, «independentemente dos seus sistemas políticos, ideologias, culturas, religiões e raízes civilizacionais»; e «combater o branqueamento de capitais, o financiamento do terrorismo e reforçar o diálogo anticorrupção» – matéria compreensivelmente incómoda para os países das «regras internacionais», porque mexe potencialmente com os paraísos fiscais, a gestão de organizações terroristas como a al-Qaida, o ISIS e tantas outras denominações de ramos dessas mesmas entidades manobradas por estruturas imperiais.

As linhas programáticas do BRICS e as acções já desenvolvidas no terreno cativaram dezenas de nações do mundo, de todos os continentes, incluindo Europa, algumas das quais já integraram o grupo e outras que fazem fila para serem admitidas. A rejeição das relações de tipo colonial e imperial e o tratamento igualitário entre Estados ameaçam, de facto, a ordem «ocidental» e «civilizacional» vigente nos últimos 500 anos; abrem novos horizontes à esmagadora maioria das nações do mundo que, ao mesmo tempo, pretendem um funcionamento democrático e verdadeiramente supranacional da ONU.

Para o BRICS, o ano em curso, sob a presidência da Federação Russa e antecedendo a presidência do Brasil, tem vindo a ser dedicado à integração harmónica dos países admitidos em Janeiro último: Irão, Etiópia, Egipto e Emirados Árabes Unidos.

Outra das linhas da actual presidência tem sido a de reforçar a realização de operações comerciais e financeiras utilizando moedas nacionais dos Estados-membros, de forma a dispensar progressivamente a presença do dólar nas relações internacionais. A criação pelo BRICS de uma moeda transnacional alternativa ao dólar é uma ideia no ovo e de concretização difícil, mas ainda assim bastante para inquietar as instituições financeiras internacionais como o FMI e o Banco Mundial e, sobretudo, Washington, como centro do poder global neoliberal.

Thomas Hill, do Atlantic Council, instituição ao serviço da NATO, escreveu que «os esforços de desdolarização são um desafio significativo para os interesses dos Estados Unidos», como se percebe, uma heresia provocatória. Hill acrescenta que «isso pode limitar a capacidade dos Estados Unidos para executar défices e garantir baixas taxas de juro» – e também a impressão em massa de dólares sem qualquer valor em termos de riqueza para despejar sobre o mundo os seus descontrolados défices orçamentais e a dívida astronómica que o «establishment» não tem a menor intenção de liquidar.

No próximo mês de Outubro realiza-se em Kazan, na República do Tartaristão, integrada na Federação Russa, uma cimeira do BRICS com importância transcendente porque, entre outros temas com peso estratégico – não apenas para o grupo – vão ser apreciadas as candidaturas de numerosos países.

Entre os cinco BRICS existem divergências sobre esta e várias outras matérias. A Índia, ao contrário da China, deseja uma ampliação muito gradual – certamente porque o regime de Narendra Modi se caracteriza por funcionar como uma enguia no cenário internacional, tentando beneficiar do melhor dos mundos entre os círculos anti-imperiais e o Ocidente, o qual, por sua vez, não perde uma oportunidade para acicatar os diferendos territoriais e as contradições ainda existentes entre Nova Deli e Pequim.

Os países membros, contudo, têm conseguido encontrar consensos nas suas cimeiras, aguardando-se com alguma expectativa o tipo de influências que a presença dos novos membros irá exercer. 

O BRICS evoluiu para o conceito de BRICS+ ou BRICS Plus, reflectindo o alargamento, para já, a nove países; mas esta designação corresponde igualmente a uma plataforma de inovação, criatividade e sustentabilidade já representada em 186 países. Trata-se, como se define no seu website, de «uma plataforma internacional de negócios de ponta com a participação de cientistas, especialistas, investidores, políticos e figuras públicas para melhorar a qualidade de vida dos povos em todo o mundo, aperfeiçoando os padrões de responsabilidade ambiental e social do funcionamento das empresas, governos e sociedades».

O BRICS é uma nova realidade com peso no cenário mundial. Apresenta-se como uma forma de moldar o mundo alternativa ao sistema de cunho imperial e ao seu caminho para impôr um globalismo susceptível de reduzir os cidadãos a simples máquinas.

O grupo tem igualmente como um dos seus objectivos o de favorecer parcerias estratégicas, a exemplo da que foi estabelecida entre a Rússia e a China e que tem vindo a ser reforçada e consolidada em sucessivas cimeiras entre Vladimir Putin e Xi Jinping.

Entre os países que solicitaram formalmente a adesão ao grupo estão a Argélia, Bahrein, Bangladesh, Bielorrússia, Bolívia, Cuba, Cazaquistão, Koweit, Paquistão, Senegal, Tailândia, Venezuela, Vietname e Iémen. Quanto aos que que já manifestaram interesse em integrar-se, destacam-se a Turquia (membro da NATO e repudiado pela União Europeia), Angola, Arábia Saudita, Camarões, Colômbia, Indonésia, Jamaica, Mianmar, Nicarágua, Síria, Tunísia, Somália, República Democrática do Congo e Zimbabwe, entre vários outros.

O BRICS+ não deve ser encarado isoladamente, mas sim no âmbito de um sistema de reorganização de relações entre as nações, à margem dos mecanismos coloniais, imperiais e globalistas, centrado na região da Eurásia – estratégica à escala global.

O novo sistema de relações igualitárias entre nações independentes e soberanas assenta também num inovador sistema multimodal e transcontinental de mobilidade que institui rotas através do mundo alternativas aos velhos, desgastados e penalizadores movimentos ditados pelos interesses imperiais e coloniais. O sistema criado pela China inspirado nas antigas rotas da seda e o Corredor Internacional de Transportes Norte-Sul, entre a Índia, o Irão e a Rússia, são dois exemplos em pleno desenvolvimento; além do memorando de entendimento já estabelecido na OCX para estabelecer um corredor de mobilidade entre a Bielorrússia, Rússia, Cazaquistão, Uzbequistão, Afeganistão e Paquistão.

As inquietações do Ocidente enquanto dono e senhor do mundo têm razão de ser. Um cenário que enquadra o BRICS+, a Organização de Cooperação de Xangai, a União Económica da Eurásia, com poder de atracção, envolvendo as mais populosas nações do mundo, assente no respeito pelo direito internacional, na soberania dos Estados, ameaça o status quo, apresenta-se efectivamente como alternativa à «ordem internacional baseada em regras». A multipolaridade contesta a sério, pela primeira vez desde o fim da guerra fria, a unipolaridade imperial.

Existe, inegavelmente, um confronto de grandes proporções e decisivo para o que poderá ser o mundo num futuro que não é longínquo.

Testemunhamos no presente um combate sem quartel entre uma ordem mundial em degradação, desmascarada mas militarmente poderosa, belicista, acima das leis internacionais, ancorada em privilégios seculares usurpados, arrogante, segregacionista e xenófoba, que não hesita em violar compromissos assumidos ou em assumi-los de má-fé ciente de que irá violá-los, tudo em nome de uma «civilização» única e dominante; e uma ordem mundial em ascensão, potencialmente apoiada pela maioria das nações do mundo, mesmo algumas que não estão em condições de se manifestar nesse sentido, onde prevalecem as relações entre países soberanos e iguais, guiada pelo direito internacional. Um frente-a-frente entre a unipolaridade e a multipolaridade; entre a «ordem baseada em regras» e o direito internacional; entre a guerra como instrumento prioritário de decisão e o desejo em evitar soluções militares; entre o sistema de uma nação prevalecendo sobre as «aliadas» transformadas em ovelhinhas dóceis alimentando-se de erva tóxica cultivada no «jardim» de Borrell; e uma «selva» de nações dispostas a manter relações mutuamente benéficas, muitas delas ansiosas por libertar-se finalmente da canga colonial. Um confronto entre o capitalismo financeiro e especulativo e o capitalismo industrial e produtivo, entre o G-7 e os BRICS+ conjugados com a Organização de Cooperação de Xangai e outras entidades transcontinentais afins, um sistema cada vez mais determinante no G-20.

A velha ordem não abdica nem está disposta a partilhar o controlo geoestratégico. A exploração da situação sempre irresolúvel no Médio Oriente, sobretudo na Palestina, e a criação artificial da guerra na Ucrânia, em 2014, são exemplos flagrantes dessa recusa ocidental em admitir que a relação de forças mundial está a alterar-se.

Para assegurar os privilégios seculares, a «nossa civilização» tem como objectivos estratégicos indispensáveis o desmantelamento da Rússia em várias «nações», a exemplo do que conseguiu fazer com a União Soviética. E a desestabilização permanente da China recorrendo à armadilha de Taiwan, à ameaça militar permanente e à guerra comercial, tecnológica e das sanções. O «Ocidente colectivo» crê que, rompendo o eixo estratégico Pequim-Moscovo, tem a sobrevivência garantida. Antes disso, porém, pode acontecer que se vire o feitiço contra o feiticeiro. O que aconteceu nas eleições europeias ao truculento napoleãozinho Macron, em França, e ao invertebrado Scholz, na Alemanha, parecem ser advertências para levar a sério. E também não é por acaso que os mais destacados dirigentes europeus invertem a estratégica económica de que tanto se ufanaram e falam agora na necessidade de «reindustrializar» os seus países. Uma correcção de rota que depende do resto do mundo e não dará frutos amanhã.

Quem sabe se mais depressa podem ruir fragorosamente os pilares da União Europeia e as pontes transatlânticas do que a parceria estratégica entre a Rússia e a China?

Mais depressa ainda, a irresponsabilidade psicopática dos que não desistem de continuar donos do mundo pode jogar a cartada desesperada, lançar as armas nucleares para o campo de batalha e então a nova ordem internacional será a dos cemitérios. E não temos assim tanta certeza de que o bom senso prevaleça e, no mínimo, se avance para sérias e credíveis negociações de paz na Ucrânia; e de que haja coragem para travar Israel, porque não se sabe até onde os delírios esotéricos e divinos do sionismo podem chegar. Sobre nós continua, ainda e sempre, a pairar a sentença proferida pelo criminoso de guerra Ariel Sharon ao jornal Guardian de que mais depressa acaba o mundo do que se destrói Israel.

E os povos?

Todos estes confrontos se travam, é natural recordá-lo, à revelia dos povos de todo o mundo e, no essencial, contra as pessoas, contra os seres humanos, as maiores vítimas das guerras, da fome, das migrações, das catástrofes ambientais, da perversão ideológica, do envenenamento mediático. A velha ordem tem as mãos sujas de tudo isto; a ordem em ascensão tem linhas programáticas diferentes mas tudo se passa nos terrenos do capitalismo, sabendo-se ainda que em ambos os campos do confronto a selvajaria neoliberal tem deixado feridas profundas no ser humano. É um confronto titânico à margem dos povos e de que os povos sofrerão as mais nefastas consequências. 

Uma ordem internacional justa e humanista só poderá ser instaurada pelos povos inconformados com o uso e abuso da sua condição humana ao serviço de interesses minoritários contrários aos seus. Por quanto tempo mais durará a sua paciência? Conseguirão despertar antes de a insanidade dominante dar cabo do que ainda resta?

Zelensky monta a armadilha que ameaça destruir-nos

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 13/06/2024)

Para financiar o esforço de guerra, o ilegítimo Zelensky, que actualmente usurpa o lugar de presidente, prepara-se para vender o que ainda lhe resta.


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A Ucrânia de Bandera, que tem privatizado, de forma absolutamente furiosa, as propriedades estatais que ainda lhe restam e lhe foram deixadas pela Rússia e URSS, já tem grande parte das suas valiosas terras negras nas mãos da Blackrock, Monsanto e de outros interesses norte americanos. A estas se juntam interesses energéticos, mineiros, agro-industriais e imobiliários.

Agora, para financiar o esforço de guerra, o ilegítimo Zelensky, que actualmente usurpa o lugar de presidente (já percebo aquele beijo de Von der Leyen, os usurpadores reconhecem-se mutuamente), prepara-se para vender o que ainda lhe resta. As receitas do FMI, e dos acordos financeiros com a União Europeia, assim o exigem e os negócios em causa constituem, em alguns casos, importantes monopólios naturais.

Todos sabemos quem mais vai lucrar com a compra destes bens estatais. Os EUA ficam com a melhor fatia, mas o Reino Unido, Alemanha, França, por esta ordem, também ficarão com a sua parte. Se o Hotel Ucrânia é o mais famoso bem de todos os anunciados neste novo pacote, segue-se uma lista, que o próprio regime de Kiev diz ser uma “large privatization”. Empresas energéticas, Porto de Odessa, sector mineiro, destilarias, fábrica de maquinaria pesada como locomotivas…

O mais grave disto tudo, o mais trágico para todos nós, é que a venda do país aos interesses dos EUA e do ocidente não é inocente e está muito para além de um simples acto de corrupção ou entrega do país aos interesses estrangeiros. Consciente ou inconscientemente, a aquisição de grandes e lucrativas propriedades, pelas grandes corporações ocidentais, constitui um passo importantíssimo para o agravamento do conflito e que julgo passar ao lado de muito boa gente, normalmente concentrada na vertente especificamente militar. Nestes casos, a vertente militar não mais é do que o pico do Icebergue, que esconde toda a complexidade de relações económicas que, na base, constituem a razão de ser de tudo o que se passa. O recurso ao militar acontece quando as relações na base se tornam inconciliáveis.

Zelensky, certamente ciente de que a guerra só se ganha com a entrada directa dos EUA, nem que tenhamos todos nós de perdê-la (nas guerras todos perdem) para ele a ganhar, à medida que entrega o seu país às oligarquias que sustentam o aparelho político estado-unidense, saberá da importância que tem, o domínio das propriedades ucranianas, por aqueles poderosos interesses. Que melhor forma de proteger o acesso ao mar negro, se não entregando o Porto de Odessa aos interesses ocidentais?

A história diz-nos que os interesses corporativos ocidentais, em especial os estado-unidenses, protegem os seus bens, nem que, para tal, tenham de invadir países e ocupá-los. Neste sentido, Zelensky, sabe que, quanto maior o domínio das corporações americanas na Ucrânia, maior é a probabilidade de agravamento do conflito e de entrada directa dos EUA.

Intencional ou coincidentemente, está em causa um desenvolvimento que, potencialmente, pode atrair os próprios EUA para uma espécie de “armadilha”, conduzidos pela cobiça por dinheiro fácil, do estado e do povo, que caracteriza as corporações imperialistas. Diria mesmo que esta é a história norte-americana no que toca às suas intervenções militares. O seu povo é conduzido, pelos interesses económicos, para “armadilhas” montadas por, e em prol desses mesmos interesses, que envolvem e tornam o estado dependente de guerras reais e potenciais. As famosas guerras eternas.

Já as antigas Companhias das Índias, dos Países Baixos, Portugal ou Inglaterra, detinham, inclusive, exércitos privados para defenderem os seus activos nas colónias. Nos EUA, como noutras potências capitalistas, a defesa desses interesses está acometida aos respectivos complexos militar-industriais, bem como às empresas privadas de recrutamento militar (as PMC).

As potências imperialistas, ao longo da história, intervêm militarmente nos locais onde estão ameaçados os seus interesses monopolistas. O que considero descabido é que esta apropriação da propriedade ucraniana, pelo ocidente, não seja reconhecida como um dos mais importantes factores que influenciam a escalada militar. Todos olham para a parada e resposta das armas, mas poucos olham para as relações materiais subjacentes, as quais, deixam sem saída política, os líderes de ambos os países, que não seja a defesa dos interesses que, em cada momento, se manifestam, mais ou menos sub-repticiamente.

Contudo, no meio disto tudo, existem forças mais poderosas que se movem no sentido contrário aos interesses de Zelensky e do seu gangue da Galícia. Esta guerra nasceu como proxy (por procuração) e, para os EUA, em princípio assim terá de morrer. A batalha decisiva, pela manutenção da hegemonia do sistema imperialista norte americano, joga-se no pacífico. O desafio Chinês obriga a concentração exclusiva e isto leva o próprio partido democrata a exigir do seu representante no Médio-Oriente, Israel, uma atitude diferente e mais conciliadora, de forma a que o conflito não se estenda para lá do desejável. Que o consiga, tenho dúvidas, mas, pelo menos, tenta-o.

Os EUA, estando plenamente conscientes da “armadilha” montada por Zelensky, não deixam de aproveitar o ganho, mas, é aos países europeus que foi reservada a defesa dos seus interesses corporativos e militares na Ucrânia. Enquadrando tais interesses no que Blinken refere como “área de segurança transatlântica”, tal classificação, do meu ponto de vista, não arrasta os EUA para o conflito. Arrasta, isso sim, a própria OTAN e, em especial, a Europa. Como já foi sublinhado inúmeras vezes, é a europa quem tem de arcar com a maior fatia de esforço.

Este esforço será pago com mais armas, dinheiro, vindo este dos 300 mil milhões de euros congelados, os quais Biden, na próxima cúpula do G7, não deixará de entregar á Ucrânia. Estando tais reservas, sobretudo, em bancos europeus, adivinhem que moeda e que sector financeiro entrará em colapso, após este confisco? Para já a Arábia Saudita deixou caducar, no dia 9 de Junho, o acordo que mantinha com os EUA, para a venda exclusiva de petróleo em Dólares (o acordo Petrodólar). Mas, durante muito tempo ainda, os EUA usufruirão do estatuto de moeda de reserva. Já o Euro e a Libra Esterlina não se podem gabar do mesmo e quando os países do sul global acelerarem a retirada, já em marcha, das reservas depositadas em bancos europeus, é que veremos.

E destes factores resulta outro movimento que se afirma em contradição com os interesses do regime de Kiev. Esta tensão entre “interesses dos povos europeus” e “interesses corporativos” dos EUA, ameaça destruir a democracia restante de muitos países europeus e partir nações inteiras. As últimas eleições para o Parlamento Europeu são já um resultado disso mesmo. França, Alemanha, Bélgica, Países Baixos, Dinamarca, assistiram a resultados importantes, que representam sobretudo a ansiedade popular pela normalização das suas vidas. Trabalhadores, agricultores, pequenos empresários, estão fartos de instabilidade, austeridade e pessimismo. Aos povos europeus foi-lhes subtraída a esperança numa vida melhor.

Os mesmos que subtraíram e negam, todos os dias, tal esperança, são quem acusa de movimentos “populistas”, “extremistas”, “radicais”, todos os partidos que se opõem ao belicismo do designado “centro político”. A cada um que atira com a palavra “paz”, eles respondem com a acusação de “putinista”; a cada um que atira com a máxima de que “nem mais uma bala para alimentar o conflito Ucraniano”, respondem com um contundente “agente do kremlin”. Estereotipar, dividir, tribalizar, tornou-se a palavra de ordem de um suposto “centro político”, que se auto-elegia como capaz de unir o espaço entre as margens.

Desistindo deste papel de “moderação”, o próprio “centro moderado” é também atirado para uma margem. Atirado para a margem que defende a continuação da guerra, da confrontação, figuras como Macron, Sholz, Sunak ou a burocrata Von Der Leyen, acabam a conduzir as populações para as forças que, neste quadro niilista, mais organizadas e financeiramente poderosas surgem: as forças reaccionárias. Estas forças, pressentindo e vivendo do descontentamento, atraem quem se sente desagradado pela situação económica, pelo medo de uma guerra em larga escala e a falta de perspectivas de crescimento, recuperação e desenvolvimento.

Neste quadro, a única resposta dos dirigentes mais belicistas é a de contrapor ao medo da guerra, o medo da extrema direita. E este é o drama que se vive na Europa, nos EUA, no Ocidente colectivo. A sensação – aparente apenas – de que não existe uma alternativa válida, faz com que sejam acenadas apenas duas alternativas que, à superfície, mutuamente se excluem: ou existe a opção do “centro moderado”, pelo confronto, pelo belicismo, pelo sacrifício económico e social, em nome de “valores europeus” que ninguém sabe bem o que são; ou a opção “autocrática”, “autoritária”, “ditatorial”, da extrema direita, mas na qual o “centro moderado”, através de um contraditório processo de reescrita da história e paradoxal confusão filosófica, integra as soluções à esquerda.

Bifurcados entre duas alternativas terríveis, acaba-se a escolher entre Macron e Le Pen, porque se considera uma de “extrema direita” e o outro um “centrista liberal e moderado”. Contudo, dizer que Le Pen é mais de direita que Macron, é cometer um erro crasso. Macron é mais dissimulado e polido, mas não é menos destrutivo. Macron tornou-se, hoje, um dos principais incendiários da guerra nuclear. Sem utilizar o termo, todos sabemos qual a consequência do envio de tropas da OTAN para a Ucrânia. Também sabemos qual será o resultado da instalação de bases de F16 nos países bálticos. E todos sabemos onde vai acabar a autorização de utilização de mísseis SCALP lançados por aviões Mirage II, contra território Russo reconhecido.

E o que dizer de Sholz e do seu SPD? Já não basta o facto deste partido ter sido conivente com a subida do poder nazi e de Hitler, decidindo não alinhar com as forças progressistas, comunistas e democráticas que combatiam, então, o nazismo, nas ruas e nos locais de trabalho, como hoje, é outra vez o SPD que volta a atirar a Alemanha contra a Rússia, privando o seu país dos recursos que o tornaram uma potência mundial. O que diria Karl Marx se soubesse que o museu, em sua memória, situado em Trier, é gerido pela Fundação Friedrich Herbert (sim a que financiou o Partido Socialista em Portugal), organização ligada ao SPD?

É então a política “moderada” (o termo “moderado” vale como elogio por si só) que ameaça conduzir-nos para uma guerra nuclear. Eu pergunto o que é que isto tem de “moderado”! É que, por absurdo, mesmo que se reconhecesse toda a culpa à Rússia e a Putin, seria dos “moderados” quem se esperaria o maior esforço de diálogo e paz. Ao invés, é dos “moderados” que esperamos o contrário: a ultrapassagem constante de linhas vermelhas, as russas e a suas próprias. Quantas linhas vermelhas esta gente já ultrapassou, na sua escalada?

Quer Zelensky consiga o seu copo cheio – a entrada dos EUA na guerra – ou seu copo meio cheio – a entrada da Europa na guerra -, qualquer das soluções é devastadora para as nossas vidas e tal devastação é o que resulta de quando se apoia, se é cúmplice e conivente com gente que faz do ódio, da xenofobia, o seu modo de vida. O ódio que vejo nos Ucranianos da Galícia, contra a Rússia, compara-se ao ódio dos sionistas, contra os árabes palestinos. Um ódio tribal, selvagem, bárbaro e medieval. Na Ucrânia ou na Palestina, o ódio nunca venceu barreiras, só as construiu.

Como diz um amigo meu, quando nos mandarem enfiar o capacete e pegar na metralhadora, talvez nos lembremos que a paz é o maior bem que a civilização nos pode garantir. Talvez nesse dia acordem para a “armadilha” em que fomos apanhados e consigam ver, no horizonte, quem, de facto, com palavras de veludo, exaltações à “democracia” e acusações aos “extremismos” nos está a levar para a extrema destruição!

Fonte aqui.