Viva a liberdade de matar jornalistas!

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 16/06/2024)

Este é o rosto de mais um jornalista morto pelas forças ucranianas. O jovem repórter Nikita Tsitsagi não será esquecido.

(A narrativa oficial propagandeada da guerra na Ucrânia só pode manter-se com base em manipulações, mentiras e encenações. Ora, os adversários mais perigosos dessa maquinação perversa são os jornalistas não arregimentados pelo Império, que nos trazem o viés não maquilhado da realidade. Por isso, são alvos predilectos do fogo dos nazis ucranianos, comandados pelas elites assassinas e alucinadas do Ocidente.

Estátua de Sal, 16/06/2024)




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“O telhado acaba de desabar. O chão range debaixo dos meus pés. Ouço a madeira a crepitar e o fumo entra-me pelas narinas. As solas dos meus ténis fervem porque tudo à minha volta está em brasa. Isto é o inferno. Eu, e o Nikita, gritamos à procura de alguém ferido. O silêncio é absoluto”.

Recordo esta passagem do meu livro com tristeza ainda atordoado com a notícia. Nikita Tsitsagi, repórter russo, morreu esta manhã, nos arredores de Ugledar, no Donbass, como consequência de um ataque das forças ucranianas. Nunca mais o verei, nunca mais trabalharemos juntos, nunca mais beberemos cerveja naquela esplanada junto ao rio.

Teria cerca de 26 anos. Era tão novo quando o conheci que para o distinguir do então jornalista, agora soldado, Nikita Tretyakov o baptizei de “Nikita, the kid”. Conheci-o através do jornalista italiano Luca Steinmann no princípio do Verão de 2022. Trabalhámos os dois em, pelo menos, três ocasiões. A cobertura do ataque ucraniano a um bairro em Petrovsky, Donetsk, a inauguração do memorial Saur Mogila e a abertura do ano escolar em Mariupol. Cruzávamo-nos invariavelmente em Donetsk na cobertura de bombardeamentos.

“Nikita, the kid” morreu debaixo de bombas, provavelmente ocidentais, lançadas pela artilharia ucraniana. Recordo que o ataque contra jornalistas, independentemente da nacionalidade, é crime de guerra segundo as leis internacionais. Vários jornalistas e correspondentes foram atacados pelas forças ucranianas esta semana. Nikita é o segundo a morrer em poucos dias.

Dói-me pensar que haverá uma mãe e um pai a chorar, neste momento, a morte de um filho tão jovem.

Se estivesse à frente deles, dir-lhes-ia que era um rapaz corajoso, honesto e sério. Falava muito bem inglês e ajudou-me muito e aos poucos jornalistas ocidentais no terreno. A minha memória do Donbass é cada vez mais uma sepultura de rostos conhecidos. Apesar de todas as evidências, os tambores da guerra soam em toda a Europa para gáudio dos nossos líderes. Se acontecer, esta é a tragédia que nos espera.

Não te esqueceremos, Nikita.

Quando os poderosos controlam a opinião pública, as eleições não são reais

(Caitlin Johnstone, 12/06/2024, Trad. Estátua de Sal)

Tenho ignorado a corrida presidencial dos EUA porque as eleições são manipuladas.

Quando alguém diz que as eleições presidenciais dos EUA são manipuladas, há uma série de coisas que isso pode significar. Pode estar a alegar-se que os votos são ativamente adulterados para garantir um resultado específico, como os republicanos comumente alegaram nas eleições de 2020. Mas não é essa a afirmação que estou a apresentar aqui – apesar de os EUA terem as eleições mais disfuncionais de qualquer democracia liberal do mundo.

Pode também estar-se a falar sobre como a corrupção legalizada nos Estados Unidos permite que os ricos manipulem os resultados eleitorais e comprar lealdades políticas através de donativos de campanha . Embora, certamente, tal seja um facto bem estabelecido, também não é disso que estou a falar.

Também se poderia estar a falar do facto de que não importa quem ganha as eleições, uma vez que o presidente dos EUA é apenas uma figura de proa que finge governar um país que é, na verdade, governado por plutocratas não eleitos e gestores de impérios, em agências governamentais secretas. Novamente, isso é absolutamente verdade, mas não é disso que estou a falar neste ensaio específico.

Na verdade, poderíamos resolver todos os problemas do sistema de votação americano e, mesmo assim, as eleições presidenciais dos EUA ainda seriam manipuladas. Seria possível corrigir as leis de financiamento de campanha até ao ponto em que os ricos já não pudessem utilizar os donativos de campanha para alcançar os resultados políticos desejados, e as eleições presidenciais dos EUA ainda seriam manipuladas. Poderíamos dar ao presidente dos EUA todos os poderes reais de liderança governamental que, quando crianças, nos levaram a acreditar que ele tem, e as eleições presidenciais dos EUA ainda seriam manipuladas.

As eleições presidenciais dos EUA continuariam a ser manipuladas, porque a opinião política dominante continuaria a ser moldada pelas pessoas ricas e poderosas, que controlam as fontes a partir das quais os americanos foram treinados para obter a sua informação. Enquanto os ricos e poderosos puderem manipular a opinião pública em grande escala, através dos meios de comunicação social corporativos, de Hollywood e da manipulação de algoritmos do Silicon Valley, poderão manipular as eleições como quiserem.

Há uma citação atribuída a Albert Einstein que circula nas redes sociais há anos e que geralmente diz algo como:

 “Chegará um momento em que os ricos serão donos de todos os meios de comunicação e será impossível o público formar uma opinião informada”.

Ao contrário da maioria das citações fixes que circulam na internet, atribuídas a Einstein, esta é baseada em algo que o renomado físico teórico realmente disse – exceto que ele não estava prevendo algo que aconteceria no futuro, ele estava falando sobre algo que já acontecera, quando ele escreveu sobre isso em 1949.

Em seu ensaio “Porquê o socialismo ?”, Einstein escreveu o seguinte para a Monthly Review (sublinhado a negrito nosso):

“O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia de capital privado cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado, mesmo por uma sociedade política democraticamente organizada. Isto é verdade uma vez que os membros dos órgãos legislativos são selecionados por partidos políticos, em grande parte financiados ou de outra forma influenciados por capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses dos sectores desfavorecidos da população. Além disso, nas condições actuais, os capitalistas privados controlam inevitavelmente, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). É, portanto, extremamente difícil, e na maioria dos casos mesmo impossível, que o cidadão chegue a conclusões objetivas e faça uso inteligente dos seus direitos políticos. 

Era verdade quando Einstein o escreveu, há 75 anos, e continua a ser verdade até hoje. Continua a ser verdade hoje porque Einstein não dirigia as suas críticas às pessoas e acontecimentos individuais do seu tempo, mas aos sistemas sociais abrangentes que ainda existem hoje.

Num sistema capitalista, aqueles que controlam o capital controlam quais as ideias e informações que serão ingeridas pela maioria das pessoas. Num sistema democrático de governo – mesmo com um sistema de votação sólido e sem dinheiro permitido a financiar políticos – isto dará sempre aos ricos a capacidade de manipular as eleições, condicionando a opinião pública através da propaganda. 

E é isso que eles fazem . Além de comprarem meios de comunicação inteiros e de controlarem os seus acionistas, os ricos investem dinheiro para reforçar o controle narrativo por outros meios, como grupos de reflexão operações de informação online como NewsGuard Wikipedia , e a manipulação de algoritmos por megacorporações online como o Google. Isto dá-lhes a capacidade de moldar a visão do mundo da maioria do público, garantindo assim que as eleições resultem em resultados que reforcem o status quo sobre o qual foram construidas as suas fortunas.

Isto é verdade em todas as eleições de consequências significativas nos EUA, não apenas nas eleições presidenciais, e é verdade em todo o mundo ocidental, não apenas nos Estados Unidos.

Estamos a ser psicologicamente manipulados em grande escala desde a infância, e as nossas mentes são continuamente moldadas por pessoas que usam a sua riqueza para dominar as nossas narrativas partilhadas sobre como as coisas são, sobre o que está a acontecer no mundo e sobre o que deve ser feito a esse respeito.

Somos ensinados sobre o nosso mundo por pais profundamente doutrinados e professores profundamente doutrinados, que cresceram no mesmo ambiente de informação que nós – o qual reforça o status quo –, e a nossa doutrinação continua, através de todos os écrans das nossas vidas, até ao nosso último suspiro.

Podemos consertar tudo o que está errado no nosso sistema político, mas a não ser que também eliminemos a capacidade da classe capitalista manipular psicologicamente o público – para apoiar um status quo político que foi artificialmente moldado pelos poderosos, para o benefício dos poderosos -, nada de significativo mudará. As guerras vão continuar, a oligarquia vai continuar, a desigualdade e a injustiça vão continuar, a exploração e a extração vão continuar, o ecocídio vai continuar.

É por isso que eu coloco sempre a tónica na importância do controlo da narrativa e na forma como está a acontecer – porque é daí que surgem todos os nossos outros problemas e porque, enquanto não resolvermos esse problema, não conseguiremos resolver os outros.

Felizmente, é possível resolver esse problema. Nós, pessoas comuns, estamos em desvantagem porque não nos podemos dar ao luxo de comprar todos os meios e plataformas mais influentes da nossa sociedade para impor as nossas preferências políticas como os plutocratas podem fazer, mas estamos em vantagem porque somos muito mais do que eles – e porque temos a verdade e a autenticidade do nosso lado.

Nenhum de nós pode enfrentar sozinho a máquina de propaganda imperial, mas juntos podemos travar uma guerra de informação com o objetivo de desmascarar as narrativas imperiais e desacreditar a propaganda imperial aos olhos do público. Podemos fazê-lo utilizando todas as plataformas e meios de que dispomos para despertar as pessoas para a verdade em todas as oportunidades, para que possam ajudar a juntar-se à luta. Quanto mais pessoas perceberem que foram enganadas durante toda a sua vida sobre o que se passa na sua sociedade, mais pessoas haverá para ajudar a enfraquecer o controlo da narrativa imperial.

Todos os desenvolvimentos positivos no comportamento humano são sempre precedidos por uma expansão da consciência , quer estejamos falando dos seres humanos como indivíduos ou como coletividade. Isto não é diferente. Se você puder aproveitar todas as oportunidades para ajudar a espalhar a consciência da verdade e abrir outro par de olhos para a realidade da nossa situação, então estará a usar a sua energia para atacar o império no seu ponto mais fraco, da maneira mais eficiente possível.

Ganhando ou perdendo, se você dedicar sua vida a essa luta, no final poderá dizer com certeza que deu tudo de si.

Fonte aqui.


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A tentativa de ‘maidanizar’ a Geórgia

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 13/06/2024)

A CE argumenta que “a adoção da lei sobre agentes estrangeiros será um obstáculo no caminho da Geórgia para a UE.” Não se percebe como é que o pleno funcionamento das instituições democráticas pode minar o desejo da Geórgia aderir à União. Deveria ser o oposto.


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Tornou-se antiquado mudar regimes através de golpes militares. Essa prática foi substituída por técnicas mais “modernas”, como as “revoluções coloridas” levadas a cabo em vários países do antigo espaço soviético, inspiradas na teoria da ação não violenta de Geene Sharp, ou como a Lawfare.

Das várias revoluções coloridas, duas tiveram lugar na Ucrânia (2004 e 2014) e uma na Geórgia (2003), derrubando governos democraticamente eleitos. Eduard Shevardnadze, eleito presidente da Geórgia em 1995 e em 2000, foi afastado através de uma revolução colorida, que colocou Mikheil Saakashvili no poder. Tanto num caso como no outro sabemos quem as financiou e instigou.

Os poderes instaurados através destas manobras sediciosas acabam por ser, mais tarde ou mais cedo, afastados eleitoralmente, sendo necessário promover novas “revoluções” para reinstalar proxies. Foi o que aconteceu em 2014, na Ucrânia, e se ensaiou o ano passado e este ano, em Tbilisi, onde se encontra em curso uma nova tentativa, tendo como leitmotiv a contestação à lei “Sobre a Transparência da Influência Estrangeira”.

Em 2012, o estratega do golpe que afastou Shevardnadze foi derrotado eleitoralmente por Bidzina Ivanishvili, líder o partido “Sonho Georgiano” (SG). Desde então, o SG tem ganho com grande vantagem todas as eleições legislativas.

Depois de avanços e recuos, a referida lei foi aprovada em maio de 2024, após um veto presidencial. A larga maioria parlamentar do SG permitiu anular esse contratempo – eram necessários 76 votos, o SG controla 84 lugares. Não obstante a democraticidade do processo legislativo georgiano, mereceu a condenação da Comissão Europeia (CE) e dos EUA. Sem explicar porquê, a CE argumenta que “a adoção da lei sobre agentes estrangeiros será um obstáculo no caminho da Geórgia para a UE.” Não se percebe como é que o pleno funcionamento das instituições democráticas pode minar o desejo da Geórgia aderir à União Europeia (UE). Deveria ser o oposto.

Enquanto decorriam os debates no parlamento, os ministros dos Negócios Estrangeiros dos Estados bálticos, da Islândia e o presidente da comissão parlamentar de assuntos exteriores do Bundestag, numa inaceitável ingerência nos assuntos internos da Geórgia, encabeçaram uma manifestação de estudantes até ao parlamento, em protesto contra a lei sobre os agentes estrangeiros. Paradoxalmente, vimos agentes estrangeiros a contestarem a aprovação por um parlamento democraticamente eleito de um projeto de lei dedicado à “transparência sobre a influência estrangeira”, que pejorativamente apelidaram de “lei russa”.

Tivessem dirigentes georgianos feito o mesmo na Alemanha ou em qualquer país báltico zeloso da sua soberania e teriam sido detidos e enviados de volta ao seu país. Não será difícil imaginar qual seria a reação de um qualquer país da CE, se o presidente da comissão de relações exteriores da Duma ou o ministro russo dos Negócios Estrangeiros reciprocasse e encabeçasse uma manifestação numa qualquer capital europeia. O que parece inaceitável nuns sítios, parece aceitável noutros.

Mais de 60 países por todo o mundo adotaram leis sobre agentes estrangeiros, nomeadamente as democracias ocidentais, muito semelhantes e nalguns casos mais exigentes do que a georgiana. Os EUA, que estão por detrás destas ações desestabilizadoras, aprovaram em 1938 a Lei de Registo de Agentes Estrangeiros (FARA). A própria UE adotou, em dezembro de 2023, legislação sobre agentes estrangeiros, o designado “Pacote de Defesa da Democracia”, nalguns aspetos mais rigorosa do que a lei americana.

A lei russa sobre agentes estrangeiros – aprovada em 2012 e modificada em 2019 e 2021 – foi determinante para pôr fim às ONG financiadas pelos EUA, Reino Unido e UE que, segundo o governo russo, ao serviço de interesses estrangeiros, desempenharam durante mais de duas décadas um papel sedicioso, procurando minar a confiança dos cidadãos no governo, promovendo a chamada oposição política, dando-lhe dinheiro e instruções.

A lei aprovada pelo parlamento georgiano pretende tornar transparente o financiamento das ONG, procurando prevenir a interferência estrangeira em assuntos de política interna do Estado georgiano. Por isso, exige que as ONG declarem as suas fontes de financiamento. Quando mais de 20 por cento do seu orçamento for proveniente de fontes estrangeiras devem registar-se como agentes estrangeiros. Em benefício da transparência, têm de declarar a origem do dinheiro.

Segundo Nikoloz Kharadze, presidente da Comissão de Assuntos Exteriores do parlamento georgiano, “há cerca de 25 mil ONG ativas na Geórgia, 90% das quais recebem fundos do estrangeiro. Com esta lei, os georgianos poderão ficar a saber quais das 25 mil ONG são totalmente financiadas por governos estrangeiros hostis”. Num país cuja população não atinge os quatro milhões de habitantes, haverá cerca de uma ONG por cada 160 cidadãos, sem se saber de onde vem o dinheiro para sobreviverem.

Ainda com a lei em discussão, o primeiro-ministro da Geórgia Irakli Kobakhidze afirmou que “o projeto de lei tem como principal objetivo proteger a Geórgia da ‘ucranização’, reforçar a soberania e assegurar o desenvolvimento estável [do país], uma condição necessária para a integração da Geórgia na União Europeia. Evitar a ‘ucranização’ é uma condição necessária para a integração da Geórgia na União Europeia, e este é o principal objetivo deste projeto de lei”.

Os verdadeiros motivos destes grupos industriados e pagos para derrubarem o governo não têm nada a ver com os argumentos avançados pela UE, mas sim com o facto da Geórgia não ter cedido a pressões para abrir uma nova frente militar contra a Rússia. De salientar que o presente governo continua a definir como principais objetivos da sua política externa a adesão à UE e a cooperação com a NATO. Mas isso parece não chegar. O que é mesmo necessário é uma política de intensa hostilidade à Rússia.

É fácil compreender o motivo de um país com 3,7 milhões de habitantes, uma larga fronteira com a Rússia, dependente economicamente de Moscovo e localizado no Cáucaso do Sul, uma zona de extrema importância geoestratégica para a Rússia, pretender desenvolver uma política acomodatícia com o Kremlin, que nunca permitirá a instalação de bases militares pertencentes a potências hostis em território georgiano.

Antecipando o que seria uma política de confrontação com Moscovo, para onde é insistentemente empurrada por Bruxelas e Washington, Kobakhidze disse que, “hoje, a Ucrânia está em ruínas. É o resultado de Maidan, isto não acontecerá na Geórgia”.

Por seu lado, procurando interpretar a vontade popular georgiana, Washington mostrou uma “profunda preocupação com as ações antidemocráticas do SG, bem como com as suas recentes declarações e retórica”, dizendo que “estas ações podem comprometer o futuro europeu da Geórgia e são contrárias à Constituição da Geórgia e aos desejos do seu povo.”

Numa ameaça velada, o Porta-voz do Departamento de Estado Matthew Miller assinalou que “o Governo da Geórgia ainda tem tempo para voltar atrás. Não se trata apenas da lei recentemente aprovada, mas também das declarações que estão a fazer ao rejeitarem o caminho que têm vindo a percorrer há tanto tempo.”

O Secretário de Estado Antony Blinken anunciou recentemente uma revisão global de toda a cooperação bilateral dos EUA com a Geórgia. “Hoje, como parte desta política, estamos a tomar medidas para introduzir restrições de vistos a dezenas de cidadãos georgianos, incluindo funcionários e membros das suas famílias.” Não deixa de ser insólito Blinken anunciar uma nova política de imposição de restrições de vistos à Geórgia com base na Lei norte-americana dos agentes estrangeiros. A resposta de Tbilisi foi clara: “a independência nacional não está à venda por um visto de viagem.”

A sequência de acontecimentos rocambolescos relacionados com a aprovação desta lei não tem fim. A presidente da Geórgia, Salome Zurabishvili, também com a nacionalidade francesa, e ex-diplomata francesa, ela própria acusada de ter recebido avultadas quantias do exterior, não só vetou a lei como apelou ao presidente francês Emmanuel Macron para intervir nos assuntos internos da Geórgia. No dia 27 de março de 2024, o Senado francês aprovou uma lei para combater a interferência estrangeira, e em 23 de maio de 2024 veio dizer “que a lei georgiana de ‘influência estrangeira’ é incompatível com os valores da UE”.

Por outro lado, Kobakhidze veio dizer publicamente ter sido ameaçado de morte pelo comissário europeu Olivér Várhelyi por causa da sua lei “pró-russa” relativa aos agentes estrangeiros. O primeiro-ministro georgiano afirmou que Várhelyi o “intimidou” ao citar a tentativa de assassinato de [Robert] Fico [primeiro-ministro eslovaco]. Várhelyi confirmou o conteúdo da conversa, dizendo terem sido as suas palavras descontextualizadas, o que se faz sempre quando diz o que não devia ter sido dito.

Os desenvolvimentos narrados com a aprovação da lei georgiana sobre os agentes estrangeiros mostram alguns factos profundamente desagradáveis, como seja a infinita falta de pudor dos dirigentes ocidentais. Estes comportamentos não são compagináveis com a retórica da Ordem baseada em regras. Para os amigos tudo, para os outros a lei. Não tem precedente sancionar deputados legitimamente eleitos pelo povo por adotarem uma lei sem qualquer impacto fora do seu território.

O Sul Global não estará desatento a estes acontecimentos e à arrogância que os suporta. A autoridade moral do Ocidente está a esboroar-se. Não bastava a condescendência com os acontecimentos na Palestina. Estes eventos mostram uma Europa sem autonomia e completamente subserviente e manietada a interesses que não são os seus, que a dividem e corroem.

Washington parece não perceber que o mundo está a mudar. É tremenda a falta de habilidade em lidar com o assunto, empurrando Tbilisi para o colo de Moscovo. A persuasão poderá produzir mais efeitos do que a coação. Afinal, não é com vinagre que se apanham moscas.