Grandes manobras de guerra na Europa sob comando dos Estados Unidos

(Manlio Dinucci in Rede Voltaire, 09/06/2024)

Os Ocidentais fazem a pressão subir mais um degrau. Eles acabam de permitir à Ucrânia utilizar as suas armas para atacar a Rússia. Em princípio, os fabricantes de armas são os responsáveis pela sua utilização, mas eles escondem a sua responsabilidade invocando o direito da Ucrânia em se defender. Além disso, assumem autorizar que Kiev utilize mísseis de longo alcance fingindo ignorar que não podem ser utilizados sem o seu sistema de satélites. Finalmente, ponderam autorizar o uso de armas atómicas, em violação do Tratado de Não-Proliferação.


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O Presidente Biden autorizou a Ucrânia a « lançar ataques limitados dentro da Rússia com armas de fabrico americano », disseram funcionários norte-americanos. Alguns Aliados dos Estados Unidos já tinham ido mais longe. Há semanas, a Grã-Bretanha permitiu à Ucrânia utilizar os seus sistemas de mísseis de longo alcance Storm Shadow para atacar em qualquer parte da Rússia, e a França e a Alemanha assumiram recentemente a mesma posição.

A decisão anunciada pelo Presidente Biden deve-se, em particular, à pressão exercida pelo Secretário de Estado, Antony Blinken, para eliminar as restrições ao uso das armas dos EUA pela Ucrânia. O Secretário-Geral da OTAN-NATO, Stoltenberg, foi encarregado de anunciar a decisão de Washington aos Aliados Europeus. Intervindo no Conselho da União Europeia, declarou : «Segundo o Direito Internacional, a Ucrânia tem direito à legítima defesa. E o direito de autodefesa inclui também atacar alvos militares legítimos no interior da Rússia».

Ao mesmo tempo, a Polónia anunciou a compra de mísseis de longo alcance aos Estados Unidos e declarou estar « pronta a acolher armas nucleares da OTAN ». O mesmo fez a Suécia : assim que entrou na OTAN, declarou estar «disponível para acolher armas nucleares dos EUA em caso de guerra».

A França testou um novo míssil nuclear lançado do ar e destinou 13% do seu orçamento militar à modernização do seu armamento nuclear.

A que alvos na Rússia são dirigidos os mísseis de longo alcance fornecidos pelos Estados Unidos e outros países da OTAN à Ucrânia, ficou demonstrado pela notícia difundida por Kiev que « um drone ucraniano tomou como alvo um segundo radar militar russo de longo alcance ». Ora, trata-se de um radar de alerta precoce, projectado para detectar mísseis balísticos, inclusive hipersónicos, e aeronaves a até 10 mil km de distância.

É impossível que o Exército ucraniano esteja à altura de efectuar sozinho um tal ataque na profundidade do território russo. O Exército ucraniano está com crescentes dificuldades, tanto que Kiev aprovou uma lei que lhe permite recrutar presos de delito comum, incluindo criminosos, dispostos a ir para a frente de combate em troca da liberdade.

Além disso, um ataque deste tipo requer uma rede militar de satélites que a Ucrânia não tem. Quem realiza ataques deste tipo contra a Rússia são, na realidade, forças dos EUA e forças da OTAN sob o comando dos EUA. Países como a Itália, que «abrigam» armas nucleares dos EUA, violando o Tratado de Não-Proliferação, são assim transformados na primeira linha de um confronto nuclear com a Rússia, mais perigoso do que o da Guerra Fria.

Breve resumo da revista de imprensa Grandangolo de Sexta-feira 31 de Maio 2024, às 21h30, no canal de TV Byoblu.

Fonte aqui.


Imperialismo agrícola na UE

(Michael Hudson, in Resistir, 19/06/2024)

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Desde a Segunda Guerra Mundial, os estrategas comerciais dos Estados Unidos têm baseado a sua política internacional no controlo de dois produtos fundamentais:   o petróleo e os cereais. Em termos económicos, têm sido o pilar da balança de pagamentos dos EUA, as principais categorias de excedentes de exportação (juntamente com as armas), especialmente à medida que a economia americana se desindustrializou.

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Professor: maldita profissão

(António Guerreiro, in Público, 21/06/2024)

António Guerreiro

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Tal como acontece com outras situações, acontecimentos e misérias que costumam suscitar exclamações de nacionalismo negativo, às avessas, do tipo: “Isto, só neste país”, também a falta de professores não é só neste país, está longe de ser um problema exclusivo de Portugal. A França e a Alemanha – para mencionar as duas grandes potências da União Europeia – estão actualmente a viver o mesmo problema.

Lá, como cá, o prestígio da profissão de professor é uma coisa do passado, de um tempo em que os professores podiam não ser um grupo profissional muito bem pago, mas faziam parte de uma burguesia que tinha outros privilégios (por exemplo: tempo e autonomia), entretanto suprimidos. Não fazendo já parte de uma burguesia que goza de um excedente de tempo (férias longas, horários semanais curtos), os professores tornaram-se uma classe proletarizada. Pior do que isso: uma classe sujeita a violência, permanentemente confrontada com as suas próprias impossibilidades e com as impossibilidades da instituição-escola.

Estas considerações sobre tal assunto nasceram da circunstância de ter visto e ouvido, há alguns dias, num jornal televisivo, dois ilustres professores a comentar as recentes medidas deste governo para tentar resolver o problema da falta de professores: um, António Carlos Cortez professor de Língua Portuguesa e Literatura Portuguesa no Colégio Moderno (também poeta, crítico e ensaísta); o outro, Nuno Crato, professor universitário, ministro da Educação entre 2011 e 2015. Ambos são muitas vezes convocados para falar publicamente sobre assuntos da escola e da educação, e ambos (cada um à sua maneira; no caso de Nuno Crato, à maneira de ex-ministro que se isenta de quaisquer responsabilidades) dizem coisas muito sensatas, que os cidadãos gostam de ouvir. Este é aliás um domínio em que todos têm qualquer coisa a dizer porque toda a gente passou pela escola. Essas coisas sensatas ditas pelos que acumularam experiência e saber nesta matéria referem-se geralmente à transmissão do saber e à formação e informação, numa perspectiva que evoca quase sempre um discreto humanismo e alguma nostalgia.

Chama-me a atenção nestes discursos o facto de quem os profere dar uma ideia da escola como se ela fosse toda a mesma, como se entre o Colégio Moderno e uma escola das periferias urbanas não houvesse um muro invisível a separá-los, como se as questões da “superestrutura” pedagógica (relacionadas com programas, matérias, horizontes de saber, ideologias tecnocráticas) pudessem ser transferidas de um lado para o outro, pressupondo uma ideal comunidade escolar isenta das fronteiras que passam no interior das cidades e até no interior de muitas escolas. A escola – e aí reside um grande problema – não é uniforme, ao contrário do que parecem sugerir os discursos sempre muito bem-intencionados e muito sensatos destes professores. A escola é, pelo contrário, muito diversa – terrivelmente diversa. E um professor do Colégio Moderno que fizesse uma viagem a algumas escolas que se situassem pouco mais à frente, no mesmo eixo urbano, sentiria certamente uma grande estranheza. Se lá ficasse por uns dias, em missão de professor, iria perceber que a escola se impõe como uma experiência física total. E talvez lamentasse não ter tido, na sua formação de professor, sessões de ortofonia. Também iria perceber que o seu desencanto de longa data é, ainda assim, um luxo decadentista a que nem todos os professores têm direito. O desencanto é uma espécie de spleen, uma afectação que tem o seu elemento diletante.

Dizer que a escola não é uniforme é dizer pouco. A luta de classes pode ter desaparecido, até nas fábricas, nos anos 80 do século passado. Mas na escola ela persiste e não dá sinais de abrandar.

Nathalie Quintane, uma consagrada escritora francesa e professora numa escola no sul de França, narrou a sua “epopeia”, em versos livres, enquanto aluna, estudante e professora, ao longo dos mais de trinta anos em que atravessou o vasto território da “Éducation Nationale”. Trata-se de um livro de 2021, intitulado Um hamster à l’école. É como um hamster que esta professora se sente: alguém que faz a roda girar a grande velocidade e que fica extremamente concentrada no efeito de óptica que a velocidade produz. A imagem do hamster exprime uma surda estranheza face ao estatuto de professora. Se não fosse o seu investimento na literatura, confessou Nathalie Quintane numa entrevista, “acho que teria mergulhado numa longa depressão, mais ou menos denegada”.