A Paz à vista

(Joseph Praetorius, in Facebook, 18/03/2025, Revisão da Estátua)

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Trump olha Putin como um igual? Olha-o como um estadista, em todo o caso, cujo Estado não depende de ninguém para entrar em guerra. Ao contrário das gentes em Kiev, em tudo dependentes do apoio externo para se baterem, fazendo-o, de resto, com desprezo assustador pelas vidas dos seus soldados.

As gentes em Kiev não estão, portanto, em posição de pôr condições. Podem, quando muito, chamar a atenção para este ou aquele detalhe, lançar este ou aquele apelo. Pôr condições, porém, é coisa a exigir que os ponham no seu lugar. Como fez Trump, justamente.

A troca de impressões de Trump com Putin – embora se não saiba tudo sobre ela, nem possa saber-se – revela as diferenças fundamentais entre os papéis e os respectivos protagonistas. A Rússia é sujeito. Os de Kiev são objeto. A Rússia tem projetos soberanos. Os de Kiev, têm meras oportunidades que, aliás, tendem a perder.

O cessar-fogo é pois, e para já, parcial. A Rússia poupará as infraestruturas de energia e outras. E os de Kiev não podem atrever-se a atacar com “drones” quaisquer instalações em território russo.

As questões da navegação no Mar Negro têm de ser mais cuidadosamente estudadas. Embora imediatamente. Como as demais ampliações do cessar-fogo.

Evidentemente, carece de sentido fazer cessar operações militares em qualquer quadrante, se isso significar o prosseguimento dos fornecimentos de armas por parte de quem queira prosseguir a guerra, à custa das vidas de soldados ucranianos.

O mesmo se dizendo quanto à mobilização, que se faz de modo tão ultrajante para os direitos das vítimas, enquanto os filhos das pretensas elites se passeiam em carros de alta cilindrada de Portugal à Polónia.

Há coisas a sustar desde já. Os norte-americanos não podem estabelecer conversações ao mais alto nível e conceder às gentes de Zelensky informações, satélites e técnicos de navegação que permitam atacar solo russo. Putin sublinhou a necessidade disso parar. Não há reparos a formular a essa posição.

As operações militares, terrestres, aéreas e navais, prosseguirão – com as acordadas exceções – enquanto o desenvolvimento do estudo das demais questões prossegue.

Quanto ao fundo das questões, Trump sabe bem que boa parte da população ucraniana fala russo e quer continuar a usar a sua língua.

Sabem os americanos perfeitamente, também, que a Igreja Canónica dirigida pelo Santo Metropolita Onofre não pode continuar a ver os seus bispos, sacerdotes e leigos espancados, presos e desaparecidos, não pode continuar a sofrer o roubo dos seus tesouros, o saque das suas bibliotecas, o desalojamento dos seus monges, a apropriação selvagem das suas igrejas e catedrais, com o comprometimento dos papistas do lugar – ou os equivalentes de Bartolomeu do Fanar – gente de sórdido oportunismo, de apavorante e cobarde violência, cuja conduta não pode deixar de ser repugnante aos olhos de qualquer americano, porque a América resulta da reivindicação – e concretização – da liberdade religiosa.

Não me venham com a treta da Igreja do Santo Metropolita Onofre ser instrumento de outro estado. Primeiro, por não ser verdade, depois, porque, desse ponto de vista, todas as estruturas do papismo haveriam de ser proibidas, por serem gente de estado alheio, como o sublinhava Locke na sua Carta sobre a Tolerância… Se insistirem nessa via, os resultados podem bem revelar-se surpreendentes.

A desnazificação, a desmilitarização, a neutralidade, a defesa das populações, das suas liberdades e dos seus direitos à existência – de tradição e cultura russa, de tradição e cultura romena, de tradição e cultura húngara, de tradição e cultura polaca – devem ser, no acordo de paz, cuidadosamente reguladas.

A Ucrânia, se conseguir existir – o que se não dá por demonstrado – não pode senão conceber-se, no plano interno, como estado federal – ou regionalizado, com muito amplas autonomias – e estritamente neutral no plano externo.

Os europeus devem ser mantidos longe disto, para não ouvirmos daqui a uns anos que tais acordos teriam sido mero truque para enganar russos. Esse é aliás um dos motivos pelos quais Zelensky não pode outorgar seja o que for. Para que não venham dizer-nos que é tudo nulo, por ter outorga de homem com mandato caducado.

A Europa perdeu importância. Foi vencida. Mas sobretudo perdeu credibilidade. Aviltou-se. É outra capoeira a cujas galinhas alguém arrancou as penas.

A paz fará agora o seu percurso, apesar de se manterem ainda algumas operações militares. E a Rússia festejará em paz a imposição da razoabilidade que tão dispendiosamente acabará por conseguir. À Europa resta-lhe, por ora, conformar-se à subalternidade onde se colocou e lhe cabe hoje em todos os quadrantes.

Dúvidas metódicas

(Ana Cristina Leonardo, in Público/Ypsilon, 14/03/2025)


“As preocupações da UE foram abandonando largamente a indústria alimentar e de bebidas até se chegar aos dias de hoje em que a tónica surge posta no rearmamento” 

Os russos estarão realmente interessados em tomar Vila Real de Santo António?


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Estavas, linda Europa, posta em sossego, / De teus anos colhendo doce fruto, / Naquele engano da alma, ledo e cego, / Que a fortuna não deixa durar muito… quando, de repente, não mais que de repente, canhões, drones e obuses vieram substituir pepinos tortos e outros legumes e frutas de design defeituoso.

A mudança foi radical e deu-se numa dúzia de anos. Estávamos em Julho de 2009 quando a comissária europeia para a Agricultura e Desenvolvimento Rural, a dinamarquesa Mariann Fischer Boel, que exerceria o cargo entre 2004 e 2010, anunciava a reabilitação dos produtos hortícolas defeituosos: “Trata-se de um exemplo concreto dos nossos esforços para eliminar burocracia desnecessária. (…) Na actual conjuntura de preços elevados dos produtos alimentares e de dificuldades económicas generalizadas, os consumidores devem poder escolher entre a mais vasta gama de produtos possível. Não tem qualquer sentido eliminar produtos de perfeita qualidade, apenas porque têm uma forma errada”.

Assistíamos então, digamos assim, à consecução de uma medida inclusiva avant la lettre. Havia que começar por algum lado — começou-se pelas hortas.

Pela mesma altura, outra polémica fazia exaltar entre nós os ânimos: a utilização de colheres de pau nos restaurantes. Mais papistas do que o Papa, os responsáveis nacionais optam por uma leitura estrita das normas bruxelenses, e foi ver restaurantes a serem multados pelo uso dos vetustos utensílios, entendidos agora como um perigo para a saúde pública, fonte de germes potencialmente assassinos. Na versão menos trágica, eram as colheres de pau, e considerada a porosidade da madeira, apontadas como causa provável de alteração de sabores: dava-se como exemplo a possibilidade de um arroz-doce poder revelar ao palato “uma mistela picante”.

Apesar de o Decreto Regulamentar n.º 4/99, de 1 de Abril não fazer qualquer referência às ditas e apenas mencionar que “os balcões, mesas, bancadas e prateleiras das cozinhas e das zonas de fabrico devem ser de material liso, lavável e impermeável”, logo os portugueses, educados no provérbio “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, desataram uns a deitar fora, outros a esconder as difamadas colheres, os últimos decerto habituados ao ditado “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas” — e quem conhecer algum ditado mais terrível do que este que fale agora ou se cale para sempre…

O opróbrio perseguia igualmente os galheteiros, as bolas-de-berlim vendidas na praia, o pão duro (que mais tarde alguém veio lembrar ser indispensável às açordas), as chávenas de café em louça nas esplanadas, a marmelada à fatia, etc., etc. Contas feitas, em nome da higiene e segurança alimentares, punha-se em risco tudo o que fosse artesanal, dos queijos de Azeitão à sopa de couves confeccionada com legumes colhidos directamente do quintal ao lado não registado nas Finanças.

Sempre me interroguei sobre quem seriam as desveladas almas que, nos gabinetes de Bruxelas ou de Lisboa, se dedicavam à tarefa de avaliar a forma dos pepinos, o comprimento dos bananas, a frescura dos coentros ou o diâmetro das maçãs. Gente que faria decerto inveja ao narrador da divertidíssima sátira ao conformismo nacional exposta no livro de Ruben A.O Outro que Era Eu (Assírio & Alvim, 1991), onde os mangas-de-alpaca, após arrumarem meticulosamente a secretária, partiam de fim-de-semana despedindo-se com gravidade, como se fossem embarcar para o Ultramar.

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Tudo depois se aligeirou, apesar de os brindes do bolo-rei terem mesmo ido à vida ou de há uns anos, numa pastelaria, me terem garantido que o rum fora obrigatoriamente removido dos baba au rhum devido à proibição de álcool a menores. Mas nem as colheres de pau seriam proibidas, apenas desaconselhadas, e as bolas-de-berlim voltariam às praias, o grito dos vendedores ambulantes continuando a alegrar petizes tolerantes ao glúten e arrebatando corações de pais e avós nostálgicos. O que nós não sabíamos era que vivíamos então os tempos abençoados dos agrimensores de hortaliças!

Mais crises, menos crises, mais chumbos ou menos chumbos de tratados europeus levados a referendo, os tempos abençoados dos agrimensores de hortaliças chegavam definitivamente ao fim a 22 de Fevereiro de 2022, com a invasão ordenada por Putin da Ucrânia. A partir daí, se descontarmos a proibição da vodka russa, as preocupações da UE foram abandonando largamente a indústria alimentar e de bebidas até se chegar aos dias de hoje em que a tónica surge posta no rearmamento.

Está bem de ver que a alteração da política externa norte-americana — com Donald Trump a suspender o apoio à Ucrânia e a insistir em negociações numa altura em que os avanços russos se tornam indesmentíveis — está na raiz da viragem armamentista.

Desde o início, porém, que mentes mais pragmáticas — e menos convencidas de que na História prevalece uma versão cor-de-rosa na qual os justos saem invariavelmente vencedores — vinham avisando que o optimismo de Ursula von der Leyen — que logo em Abril de 2022 afirmava (sic) “a falência do Estado russo é apenas uma questão de tempo”, convicção reforçadíssima pelas suas declarações no mês de Setembro seguinte, “os militares russos estão a tirar fichas dos frigoríficos para arranjarem os seus equipamentos militares, porque ficaram sem semicondutores”, ou, em Fevereiro do ano passado, quando anunciou que a guerra com a Rússia havia acelerado a transição ecológica da União Europeia, tornando-nos mais verdes (“ele [Putin] realmente impulsionou a transição ecológica”) — talvez fosse exagerado.

O que não deixa de me surpreender é como alguém que se enganou tanto e tão tragicamente continue responsável por delinear a estratégia futura que, desta vez, sim!, levará ao colapso da Federação Russa e à avaria definitiva de todos os seus frigoríficos, assim como ao reforço das energias renováveis, mesmo ignorando o facto de o nuclear estar de novo em alta, por exemplo, com Emmanuel Macron, contrariando o que dizia serem as suas convicções ecológicas, a mandar reactivar o reactor nuclear EPR de Flamanville, o mais potente reactor francês, ou mesmo a lembrar aos russos que a França dispõe de arsenal nuclear capaz de entrar em acção em caso de necessidade.

Os que viram a comédia negra de Stanley Kubrick, lançada dois anos após a crise dos mísseis em Cuba, Dr. Strange Love or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, sabem como a história acaba. E quem também poderia falar com grande à-vontade sobre o assunto seria a centena de sobreviventes de Hiroxima e Nagasáqui, se algum deles ainda estivesse vivo.

Tenho muitas dúvidas de que o voluntarismo europeu possa resultar em voluntários suficientes para ir combater os russos lá onde eles estiverem. O mantra dominante — e porque referi a obra de Kubrick, relembro outro filme, neste caso também uma comédia, embora menos negra, Vêm aí os Russos, de Norman Jewison, realizada em 1966 — é que ou nós vencemos os russos ou os russos vencem-nos a nós. No solo ucraniano não estariam em causa a independência e integridade do país, mas da liberdade e democracia europeias.

Não fica claro como, após mais de três anos de guerra substancialmente apoiada pelos EUA, os russos não foram vencidos, sendo agora, com o exército europeu imaginado por Macron, os 800 mil milhões orçamentados no ReArm e com Trump fora de cena, que a vitória estaria assegurada mais tarde ou mais cedo. Passaríamos de “até ao último ucraniano” para “até ao último europeu de bem”? E, arriscando levar com um “mais um putinista a soldo”: os russos estarão realmente interessados em tomar Vila Real de Santo António?

Se a presidente da Comissão Europeia nos garante que a Rússia “é uma ameaça existencial” que temos de vencer até à morte, já a Emmanuel Todd (por acaso enganou-se menos vezes do que ela) a vitória da Rússia na Ucrânia não só lhe parece assegurada como vir, por arrasto, acelerar a decadência europeia.

Estamos, pois, como na anedota dos prisioneiros judeus condenados ao fuzilamento e que acabam enforcados, o que não deixa de alegrar um deles: “Eu bem te disse que se lhes tinham acabado as balas!”

A Ordem das Grandes Potências: A nova realidade geopolítica de Trump

(A l e x a n d r e D u g i n, in ArktosJournal, 17/03/2025, Trad. Estátua)

Alexandre Dugin afirma que a visão geopolítica de Trump abandona o globalismo liberal em favor de uma “Ordem das Grandes Potências” multipolar, onde a verdadeira soberania pertence apenas aos estados civilizacionais autossuficientes, cada um consolidando o seu próprio grande espaço, anunciando a fragmentação da velha ordem mundial e a ascensão inexorável de hegemonias regionais.


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Hoje, a geografia da nova ordem mundial que Trump e os seus apoiantes estão determinados em construir está a tornar-se cada vez mais clara. Desta vez, Trump 2.0 está firmemente decidido a romper com o globalismo liberal de esquerda e com os neocons (que são, na sua essência, apenas outro tipo de globalistas) e recusa a comprometer-se com tais projetos. Ele está a cortar laços com o passado e a colocar o porta-aviões dos EUA num novo rumo.

O modelo de relações internacionais ao qual Trump adere pode ser descrito como a “Ordem das Grandes Potências“. Esta é uma extensão lógica de toda a ideologia MAGA — “Make America Great Again“. O próprio nome evidencia que não se trata do Ocidente, não se trata de espalhar a democracia liberal em todo o mundo, e não se trata de atlantismo, mas especificamente dos Estados Unidos como um estado-nação. De acordo com a visão de Trump, este estado deve libertar-se completamente do globalismo, juntamente com as restrições, obrigações e imperativos associados a ele. Aos olhos de Trump, quase todas as instituições internacionais existentes refletem a velha ordem, enquanto ele busca criar uma nova ordem. Isso aplica-se a tudo — à ONU, à NATO, á OMC, à OMS e todos os outros órgãos supranacionais. Ele vê-os todos como sendo criações de liberais e globalistas, enquanto ele próprio se mantém firme e consistentemente ancorado nos princípios do realismo.

Realistas e liberais são as duas principais correntes de pensamento em relações internacionais, opondo-se em todos os aspetos, especialmente na sua compreensão fundamental da soberania. Os realistas consideram a soberania absoluta, enquanto os liberais a veem como sendo relativa, esforçando-se para subordinar administrações nacionais a uma autoridade internacional superior. Na visão deles, isso deve eventualmente levar à unificação da Humanidade e à criação de um Governo Mundial. Os realistas rejeitam tal ideia categoricamente, vendo isso como um ataque à liberdade e à independência dos estados. É por isso que os trumpistas se referem aos globalistas como o “Estado Profundo” — a entidade que busca subordinar a política dos EUA a uma agenda supranacional.

Um protótipo de política globalista pode ser encontrado em “Fourteen Points” de Woodrow Wilson, que, após a Primeira Guerra Mundial, delineou o papel dos EUA como uma potência global responsável por promover a democracia liberal à escala planetária. Trump, por outro lado, no espírito da escola realista, gravita em direção à Doutrina Monroe anterior — “América para os americanos”, que implica evitar o envolvimento ativo na política europeia e a recusa de interferir nos assuntos internos de outros estados fora do continente americano (e mesmo assim, apenas quando eventos nas Américas afetam diretamente os interesses nacionais dos EUA).

No entanto, deve-se notar que o Trumpismo difere em alguns aspetos do realismo clássico. Para Trump, o que importa não é meramente o status legal da soberania, mas algo mais crucial — a capacidade de um estado conquistar, estabelecer, fortalecer e defender a sua independência frente ao mais sério rival potencial. Portanto, não se trata de soberania em geral, mas de soberania real, apoiada por um volume correspondente de recursos — económicos, militares, demográficos, territoriais, naturais, intelectuais, tecnológicos, culturais e assim por diante.

O proeminente estudioso americano de relações internacionais, Stephen Krasner, também ele defensor do realismo, referiu-se à soberania nominal puramente legal como uma “ficção” e até mesmo uma “hipocrisia”. John Mearsheimer, um realista clássico, tem a mesma visão. Donald Trump também compartilha dessa perspetiva. Na opinião deles, a verdadeira — real — soberania só pode pertencer a uma grande potência. Consequentemente, o realismo está a ser atualizado para um nível que não envolve apenas estados comuns, mas estados civilizacionais completos e autossuficientes. Esse é o tipo de ordem mundial que Trump prevê como o roteiro para sua revolução geopolítica. Por um lado, é uma rejeição completa do globalismo; por outro, é um movimento em direção à integração regional de “grandes espaços”, o que é necessário para a autossuficiência e autarcia de uma grande potência.

Disso decorre o curso lógico em direção à anexação do Canadá e da Groenlândia, bem como a prioridade das relações com a América Latina num paradigma que mais beneficiaria os Estados Unidos.

É interessante notar a ambiguidade do slogan MAGA. Não está totalmente claro a que “América” se refere. Apenas os EUA? Ou toda a América do Norte (incluindo Canadá e Groenlândia)? Ou talvez até mesmo todas as Américas, incluindo a América do Sul? Essa ambiguidade não é acidental. Ela abre o horizonte de um “grande espaço” sem estabelecer limites claros preventivamente. Além disso, o apelo de Trump para tornar a América grande novamente pode ser interpretado como um apelo para a sua expansão territorial. Da mesma forma, o termo “Mundo Russo” é usado, estendendo-se para além das fronteiras da Federação Russa com limites indefinidos. O “Mundo Russo” é sinônimo do estado civilizacional russo, ou seja, a Grande Rússia.

Trump, por sua vez, pensa em termos do seu próprio estado civilizacional — a Grande América. Ao mesmo tempo, ele não tem pressa, nem pretende, abandonar a hegemonia — pelo menos ao nível regional. Mas ele está a mudar a configuração dessa hegemonia. Não é mais uma ordem mundial liberal baseada em regras em constante mudança e na usurpação do poder por elites cosmopolitas internacionais (no espírito do projeto global “Open Society” de George Soros), como era operacionalizado pelo Deep State, que Trump desmantelou. Em vez disso, é a liderança dos Estados Unidos como uma grande potência entre outras grandes potências que possuem soberania real — não nominal — e capaz de competir com os EUA de uma forma ou de outra.

A nova ordem de Trump prevê quantas grandes potências? ​​O professor Mearsheimer reconhece apenas três: os EUA, a China e, ficando um pouco atrás das duas primeiras, a Rússia. Ele continua cético sobre a Índia, acreditando que ela ainda não acumulou o potencial necessário para competir seriamente com as outras. No entanto, existem outras perspetivas — alguns argumentam que a Índia também pode ser classificada como um estado civilizacional. No entanto, em relação aos EUA, China e Rússia, quase todos os realistas concordam: essas nações poderosas — embora poderosas de maneiras diferentes — possuem o mínimo necessário para reivindicar o status de grande potência.

Assim, em vez do mundo bipolar da Guerra Fria, em vez do mundo unipolar neoconservador, ou do mundo não polar dos globalistas liberais, o Trumpismo prevê um mundo tri ou tetra polar, com um equilíbrio de poder definindo a arquitetura da futura ordem mundial. Isso exigirá o restabelecimento de quase todas as instituições internacionais para que elas reflitam realidades reais em vez de serem resquícios fantasmas de eras passadas, não mais ancoradas na realidade concreta.

Tal projeto pode parecer bastante similar à multipolaridade. De facto, o Secretário de Estado dos EUA Marco Rubio reconheceu recentemente que vivemos em um mundo multipolar. China, Rússia e Índia concordariam prontamente com essa verdade, pois já possuem todas as características de polos. No entanto, Trump assume uma postura altamente crítica sobre o bloco multipolar dos BRICS, que inclui quase todas as principais civilizações e serve como uma personificação institucional e simbólica da multipolaridade.

Para Trump, a China aparece como o concorrente mais sério e até mesmo oponente. Ele provavelmente vê o BRICS como uma estrutura onde a China desempenha um papel fundamental como o estado mais poderoso — financeiramente, economicamente, tecnologicamente e assim por diante. Além disso, diferentemente do conceito de Trump de uma ordem de grande potência, o BRICS inclui não apenas grandes potências totalmente estabelecidas, mas também blocos civilizacionais emergentes, como o mundo islâmico, a África e a América Latina. Isso transforma o BRICS numa hexarquia e, juntamente com a civilização ocidental, em uma heptarquia.

Trump, no espírito do realismo frio e do pragmatismo americano, é cético em relação a qualquer coisa virtual ou potencial — isto é, algo meramente possível, mas ainda não realizado. Sua postura é essencialmente: “Primeiro, torne-se uma grande potência, depois conversaremos.” Qualquer aliança além da influência dos EUA — especialmente uma em oposição a ela — será percebida como uma ameaça.

Ora, onde é que a União Europeia se encaixa nesse quadro? Bruxelas, após a mudança de administração dos EUA, encontra-se numa posição difícil. Após a Segunda Guerra Mundial, a Europa tornou-se uma espécie de província ou mesmo uma colónia político-militar da América. Mas com o afastamento de Trump do globalismo, a UE deve dissolver-se ou passar por uma transformação radical.

Algumas nações europeias — Hungria, Eslováquia, Sérvia (não membro da UE), Croácia e, até certo ponto, a Itália e a Polónia — estão inclinadas em seguir Trump e adotar o slogan MEGA: “Make Europe Great Again” (Tornar a Europa Grande Novamente). Outras estão confusas, lutando para manter o rumo globalista anterior sem o apoio dos EUA. O futuro da Europa agora depende se ela abraçará a soberania real e os valores tradicionais — ou perecerá.

O gelo do velho mundo está a quebrar-se. O degelo já começou.

Fonte aqui.