Moscovo mobiliza-se, a NATO falha: a verdadeira guerra militar-industrial

(In canal do Telegram, Sofia_Smirnov74, 05/04/2025, Revisão da Estátua)


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Na longa guerra de logística, coordenação e arte de governar, a Rússia está a provar que a mobilização industrial vence batalhas antes mesmo que elas sejam travadas. Um relatório contundente do Royal United Services Institute (RUSI) da Grã-Bretanha (quão mau isso é quando autoridades do Reino Unido estão a ter que admitir uma realidade parcial) expôs o que a elite de defesa do Ocidente se recusa a admitir: o complexo militar-industrial da Rússia não é apenas resiliente, é dominante.

Enquanto a Europa Ocidental hesitava, enredada em burocracia e ideologia de mercado neoliberal, a Rússia executou uma estratégia industrial de guerra centralmente coordenada. A economia de guerra de Putin, longe de entrar em colapso devido às sanções, redirecionou fundos, redirecionou a produção nacional e empurrou a produção de defesa para uma velocidade de ponta, operando 24 horas por dia com linhas de crédito apoiadas pelo Estado e uma única estrutura de comando centralizada e focada. O resultado? Armas modernas, produção crescente e entrega real às linhas da frente. Compare isso com a Europa Ocidental e os EUA, sem centralização, apenas a capacidade de oferecer enormes incentivos para aumentos mínimos na produção, a um custo extorsivo.

A Europa, é claro, nem sequer tinha um plano. O RUSI admite que os membros europeus da NATO não tinham os dados nem a coordenação para se mobilizarem. Em vez de produzirem armas de forma eficiente, estão a sufocar em mercados de defesa fragmentados e cadeias de abastecimento pesadas, onde parafusos custam o preço do ouro e os prazos de entrega rivalizam com épocas geológicas. Incentivar empresas privadas de armas com sinais de mercado não é mobilização, é ideologia capitalista de casino disfarçada de estratégia. O resultado são milhares de milhões em gastos desperdiçados em produções pouco úteis. Um keynesianismo militar baseado em fantasias, que alimenta burocratas e acionistas, mas não soldados ou defesa soberana.

O contraste é gritante: o orçamento de defesa da Rússia atingiu 6,3% do PIB em 2024, e é agora 32,5% da despesa total do estado, enquanto o complexo militar industrial ocidental ainda depende de promessas alavancadas e ciclos de debate e promoção exagerados, esperando que startups de drones, tipo boutiques, possam igualar a produção prodigiosa da Uralvagonzavod ou da Kalashnikov Concern. Na Rússia de Putin, as linhas de produção zumbem, não por lucro, mas por sobrevivência e soberania. Os contratos de defesa ocidentais, entretanto, são preenchidos com comissões de lobistas, comissões de doadores e lixo sobrefaturado.

E apesar do barulho, a campanha de rearmamento da NATO parece mais um golpe de Wall Street do que uma estratégia de guerra. Com todo o dinheiro investido, onde estão as munições? Os projéteis de artilharia? O equipamento básico? Em lado nenhum. Em vez disso, a Ucrânia está a ficar seca, o complexo militar industrial dos EUA está ocupado a contar os lucros trimestrais, e a Europa não consegue sequer coordenar as compras sem que Paris e Berlim tropecem um no outro.

Esta não é apenas uma guerra no terreno, é uma guerra de modelos. A economia de guerra, verticalmente integrada e liderada pelo Estado russo está a superar a arquitetura de defesa desregulamentada, privatizada e inflacionada do Ocidente em todas as métricas significativas: velocidade, volume, custo-eficiência e resultados.

Até o Pentágono admite discretamente que o seu Retorno do Investimento (ROI) é uma piada comparado ao retorno múltiplo da Rússia na mobilização industrial.

E aqui está o verdadeiro problema: a Rússia não precisa de gastar mais que a NATO. Ela só precisa de construir mais, durar mais e ter mais estratégias. Isso já está a acontecer. O Ocidente está a apostar em crédito infinito, mercados especulativos e campanhas de relações públicas. A Rússia está a apostar em aço, soldados e soberania.

Quando a próxima fase desta guerra for escrita, ela não será decidida em livros brancos de think tanks ou em cimeiras para aquisição de armas. Ela será decidida nas trincheiras e nas linhas de montagem. E agora mesmo, as linhas de montagem da Rússia estão, fácil e indiscutivelmente, a vencer.

Fonte aqui

Como a América Eliminou o Gasoduto Nord Stream

(Seymour Hersh, in A Tertúlia Orwelliana, 05/04/2025, Trad. de Fernando Oliveira) 

Foto do Comando de Defesa Dinamarquês, mostrando a fuga de gás resultante das explosões que destruíram 3 dos 4 gasodutos Nordstream no Mar Báltico.

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O Centro de Mergulho e Salvamento da Marinha dos EUA pode ser encontrado num local tão obscuro como o seu nome — o que outrora foi um caminho rural na cidade rural de Panama City, uma cidade turística actualmente em expansão no sudoeste da Florida, cerca de 110 km a sul da fronteira do Alabama. O complexo do centro é tão desinteressante como a sua localização – uma estrutura pardacenta de betão pós Segunda Guerra Mundial que tem o aspecto de uma escola secundária profissional do Oeste de Chicago. Do outro lado do que é agora uma estrada de quatro faixas temos uma lavandaria que funciona com moedas e uma escola de dança.

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A União Europeia perdeu a alma e o rumo

(Viriato Soromenho Marques, in Jornal de Letras, 02/04/2025)


Os focos de tensão mundial são imensos. Israel quebrou o cessar-fogo com o Hamas e prossegue o massacre de civis desarmados. Há fumos de uma agressão dos EUA e de Israel contra o Irão. A matança de combatentes prossegue na Ucrânia. E a União Europeia, em vez de contrariar estas tendências disruptivas, junta-se a elas trocando a sua alma original de força promotora da paz e dos direitos humanos à escala global, pela pulsão de morte, enraizada numa russofobia fanática que nos ameaça devorar a todos.


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NA SEGUNDA DÉCADA deste século tentei compreender se a UE poderia sobreviver às consequências da consistente oposição, liderada pela Alemanha da chanceler Merkel, à indispensável reforma da união monetária do euro. A minha aposta consistia em defender a relação entre a criação de um verdadeiro orçamento federal e a edificação de uma união política, capaz de gerar um governo europeu, com pelo menos o mesmo grau de legitimidade democrática e constitucional que existe nos governos dos Estados-membros. Infelizmente, a realidade, que deve ser sempre a pedra de toque do conhecimento objetivo, mostrou-me que a eventual bondade das minhas propostas – apoiadas na coerência da doutrina e nas lições históricas de sucesso – não colhiam junto dos decisores e atores europeus, individuais e coletivos. Em 2014 e 2019 publiquei dois livros sobre o declínio do projeto da unificação europeia (1). A UE estaria condenada a perder relevância e coesão interna. A recusa do federalismo iria conduzir a um precário “sistema internacional europeu”, uma “nova balança da Europa”, na qual a zona euro, em vez de cola para uma união política posterior, se tornaria, progressivamente, num fator de conflito e desagregação cada vez mais ameaçador.

 Se antes do começo da guerra na Ucrânia, a UE já tinha perdido a alma, isto é, um sentido de propósito com um valor maior do que a simples rotina do business as usual, hoje, mais de três anos de sangrento conflito revelam-nos que a desorientação reinante nas três capitais europeias principais (Bruxelas, Berlim, Paris, acicatadas por Londres, que com o cheiro a pólvora parece ter regressado ao período anterior ao Brexit), está a degenerar num tóxico delírio de impotência e belicismo que nos ameaça arrastar para a autodestruição física.

A UE OSCILOU ao longo dos trinta anos que precederam a guerra da Ucrânia, entre ser um mero figurante, ou um cúmplice de segunda linha da continuada determinação dos EUA para usar a Ucrânia como bastião da sua hegemonia militar na Europa. Os documentos dizem-no sem equívocos, desde o livro de Zbigniew Brzezinski (The Grand Chessboard, 1997) até ao relatório RAND, contendo uma estratégia de aceleração da provocação a Moscovo em torno da Ucrânia (Extending Russia, 2019): com a anuência dos Estados europeus membros da NATO, os EUA prosseguiram com a expansão da Aliança Atlântica, e com a tentativa permanente de nela integrar Kiev, com vista a uma política de mudança de regime e fragmentação da Rússia, como etapa preliminar à contenção e enfrentamento da China. Quando a Rússia passou da diplomacia ao uso da força militar para defender o seu interesse nacional, a UE não só seguiu incondicionalmente a resposta dos EUA, como foi num crescendo de agressividade, sem se preocupar com os danos económicos e sociais imediatos e as consequências estratégicas negativas de longo prazo de transformar a Rússia num inimigo. Seguiram-se três anos de escalada, com a subida de degraus que nos aproximaram de um conflito direto da NATO com a Rússia.

 A vitória de Trump mudou as regras do jogo. Washington parece querer parar a guerra na Europa o mais depressa possível. Percebeu que continuar a escalada, seria um convite à III Guerra Mundial. Trump, por outro lado, mostrou sem máscaras as cartas do jogo geopolítico e militar americano: o que moveu os EUA não foram valores altruístas, mas interesses materiais grosseiros (acesso a matérias-primas estratégicas, encomendas para a indústria de armamento, ocupação do vazio deixado pelas sanções à Rússia na venda de combustíveis fósseis norte-americanos à Europa…). Contudo, aquilo que irritou os dirigentes europeus não foi isso, nem sequer as ameaças de Trump à integridade territorial da Dinamarca, ou do Canadá, mas sim o desejo norte-americano de acabar com uma guerra na Ucrânia, que, a continuar, transbordará para a totalidade do território europeu.

A guerra submete sempre as lideranças políticas a uma prova de fogo. O conflito que devasta a Ucrânia e partes da Rússia, mostrou a perigosa combinação de ignorância e arrogância – nas questões de estratégia militar e relações internacionais – de figuras como Ursula von der Leyen, Macron, Starmer, para não falar de Mark Rutte, Kaja Kallas ou António Costa. Num artigo recente no Público (14 03 2025), Ana Cristina Leonardo recorda a total impreparação de von der Leyen: em abril de 2022 afirmava que “a falência do Estado russo é apenas uma questão de tempo”; em setembro desse ano declarava, com um sorriso de troça: “os militares russos estão a tirar fichas dos seus frigoríficos para os seus equipamentos militares, porque ficaram sem semicondutores”; em fevereiro de 2024 chegou ao ridículo de afirmar que a guerra com a Rússia tinha sido boa para a ecologia europeia, auxiliando a transição energética! O panorama nas capitais nacionais, com escassas exceções não é melhor. Alguém consegue imaginar Luís Montenegro a dizer qualquer coisa, com a densidade de um pensamento, sobre o que significa para o futuro de Portugal a continuação desta guerra?

 O BELICISMO IRRACIONAL da UE é um sinal do seu colapso moral e intelectual. Significa também que na Europa o voluntarismo e o decisionismo arbitrários substituíram o respeito pelas leis, mesmo das leis constitucionais. Vejamos dois exemplos.

Apesar de o Parlamento Europeu (PE) ter sido afastado pela Comissão Europeia da discussão do plano de rearmamento de 800 mil milhões de euros, através do truque de usar o artigo 122º do Tratado de Funcionamento da União Europeia (equiparando, com esse ardil, a corrida aos armamentos à resposta a um “desastre natural”), o PE não deixou de aprovar uma resolução que constituiria uma autêntica declaração de guerra à Rússia, caso Moscovo ainda considerasse a UE como uma entidade credível (2).   De salientar que desde o começo da guerra, a CE atua em matéria de segurança e defesa em constante transgressão das suas competências (artigo 24º do TFUE). Outro exemplo do desrespeito pelo quadro legal ocorreu na Alemanha. A 18 de março, o Parlamento alemão efetuou uma revisão rápida da Constituição federal, para permitir que os artigos limitando as dívidas do governo federal e dos governos estaduais (introduzidos em maio de 2009), fossem suspensos para permitir a criação de um fundo especial, num horizonte de 12 anos, ascendendo a 500 mil milhões de euros, a obter nos mercados da dívida, destinados essencialmente a revitalizar a indústria de armamento, as forças armadas e infraestruturas. Para além de juntar a uma economia em declínio um aumento exponencial da dívida pública germânica, a urgência na aprovação desta revisão, antes da entrada em funcionamento do novo Bundestag eleito em fevereiro, ficou a dever-se a mais um motivo de baixa política: com o novo parlamento, esta proposta não teria sido aprovada, pois a nova composição do Bundestag impediria a revisão de obter os dois terços dos votos necessários para uma alteração constitucional...

Os focos de tensão mundial são imensos. Israel quebrou o cessar-fogo com o Hamas e prossegue o massacre de civis desarmados. Há fumos de uma agressão dos EUA e de Israel contra o Irão. A matança de combatentes prossegue na Ucrânia. E a União Europeia, em vez de contrariar estas tendências disruptivas, junta-se a elas trocando a sua alma original de força promotora da paz e dos direitos humanos à escala global, pela pulsão de morte, enraizada numa russofobia fanática que nos ameaça devorar a todos.

Referências:

  1. Os meus livros, publicados na editora Temas & Debates/Círculo de Leitores, foram os seguintes: Portugal na Queda da Europa (2014) e Depois da Queda. A União Europeia entre o Reerguer e a Fragmentação (2019).
  2. European Parliament resolution of 12 March 2025 on the white paper on the future of European defence (2025/2565(RSP)https://www.europarl.europa.eu/doceo/document/TA-10-2025-0034_EN.html