Donald Trump dissocia os Estados Unidos da União Europeia

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 20/02/2025)


Contrariamente ao que havíamos imaginado, em 1991, a queda do « Império americano » não se assemelhará à da URSS. Os aliados europeus ocidentais de Washington pretendem perpetuá-lo, com ou sem o seu líder. Segue-se que o Presidente Donald Trump os irá abandonar em campo aberto.
Depois de ter dissociado os Estados Unidos dos « sionistas revisionistas » no Poder em Israel, o Presidente Trump dissocia-os da OTAN e da União Europeia : ele já não quer que o seu país tenha a ver seja o que for com o « Império americano » e os seus mercenários que são os « nacionalistas integralistas » ucranianos.


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Depois de ter dissociado os Estados Unidos de Israel [1], Donald Trump começou a dissociá-los da União Europeia. Tal como com Israel, primeiro ele deu a impressão de dar carta branca aos membros da UE e ao Reino Unido, depois iniciou o corte da ligação.

Recorde-se : o Presidente Trump deixou os dirigentes ocidentais convencerem-se que podiam na Ucrânia, por si sós, combater a Rússia. Durante muitas reuniões em Paris, em Londres e em Kiev, os dirigentes da UE e do Reino Unido esforçaram-se a anunciar que iam conjuntamente garantir a segurança do continente face ao perigo de « invasão russa ». Eles imaginaram colocar os seus países sob os guarda-chuvas nucleares britânico e francês e não mais sob o dos Estados Unidos. Eles pensaram numa guerra continental contra a Rússia e uma reorganização de alianças em torno do Reino Unido, da França, da Alemanha e da Polónia.

E depois : nada de nada. Os Estados Unidos suspenderam a sua coordenação com a UE [2]. Já não se concertam mais a propósito das medidas coercivas unilaterais que tomam contra a Rússia. O 17º pacote de «sanções» da UE foi o último lançado em Bruxelas com Washington. O 18º já o será em solitário. Anuncia-se que será de uma amplitude sem precedentes, mas sem os Estados Unidos, ele está condenado ao fracasso de antemão.

Os Estados Unidos assistiram à preparação de um « tribunal penal internacional para julgar os “crimes russos” na Ucrânia », no seio do Conselho da Europa, mas eles põem-se à margem [3]. A seus olhos, esta jurisdição não tem nenhum significado. Os tribunais penais de Nuremberga e de Tóquio tinham seguido a vitória dos Aliados sobre o nazismo, mas este antecipa a vitória dos «nacionalistas integralistas » ucranianos, colaboracionistas dos nazis, sobre a Rússia. Ele não é validado pelas Nações Unidas e não tem qualquer hipótese de o ser, tendo em conta o direito de veto russo.

Hoje, o Reino Unido e a UE devem ater-se às evidências. Não dispõem dos meios militares para aplicar a sua política. Estão encerrados nas suas contradições denunciando os danos colaterais ucranianos da “operação militar especial” russa, ao mesmo tempo que se comprazem com os danos colaterais palestinianos da guerra israelita contra o Hamas, portanto muito mais severos. Foram eles próprios que se afastaram dos Estados Unidos, a quem não levaram a sério.

Resta-lhes uma arma : o confisco de activos russos que eles congelaram já. Estes permitiriam então reconstruir a Ucrânia, sem que eles mesmos tivessem que pagar. No entanto, confiscar bens por motivos políticos, é violar o direito à propriedade. Uma tal decisão seria irreversível. Ela só é possível em tempo de guerra contra um inimigo. Confiscar estes activos é, pois, declarar guerra a um inimigo muito mais poderoso do que o conjunto formado pelo Reino Unido e pela UE.

Para além do facto de que os seus exércitos não resistiriam dois dias numa guerra contra a Rússia, a UE iria inspirar medo a todos os seus parceiros no planeta : se é possível confiscar os bens russos, porque é que Bruxelas iria parar neste “excelente” caminho e não confiscaria já agora os activos de qualquer Estado que não tivesse condenado a Rússia ?

Em 14 de Fevereiro, durante a Conferência sobre Segurança de Munique, o Vice-Presidente JD Vance avisou o Reino Unido e a UE. Ele declarou : « a ameaça que mais me preocupa na Europa não é a Rússia. Não é a China. Não é um qualquer agente externo. O que mais me inquieta, é a ameaça que vem do interior – o recuo da Europa em certos dos seus valores mais fundamentais, valores que são partilhados com os Estados Unidos da América ».

Entenda-se bem aquilo que se passa. O Presidente Donald Trump anunciou que, agora, exigia que todos os aliados consagrassem 5% do seu PIB às despesas militares. Sendo este número impossível de alcançar – ele implica uma duplicação de despesas — a saída dos Estados Unidos do comando integrado da OTAN era previsível. Simultaneamente, o Presidente garantiu repetidamente que a União Europeia havia sido criada para prejudicar os Estados Unidos, quando a UE é o componente civil do «Império Americano», do qual a OTAN constitui o braço militar. Agora, depois de ter constatado que, nem o Reino Unido, nem a UE, são capazes de por em causa «o Império Americano», que os seus dirigentes são dependentes do «Império Americano» em prejuízo dos seus cidadãos, que se recusam a ser livres e independentes, Washington corta as amarras com eles.

Notem bem que Donald Trump não ataca os Europeus Ocidentais. Ele deixa-os apenas derivando em perseguição de uma quimera.

Para aqueles que, como eu, imaginavam a dissolução da OTAN e da UE depois da da União Soviética, é um passo em frente. Mas para súbditos britânicos e os cidadãos europeus, é uma catástrofe.

Nos próximos meses, assistiremos à reconciliação russo-americana. Tudo aquilo que formatou a nossa maneira de pensar será votado ao esquecimento. Chegou o momento dos Ocidentais substituírem suas elites e repensarem as suas sociedades. Mas, eles não estão preparados para isso, de todo.

Enquanto em 1991, imaginávamos a dissolução do « Império Americano » à semelhança do da URSS, constatamos que aquilo que o Presidente Donald Trump pretende concretizar é um cenário completamente diferente. Tal como Mikhaïl Gorbachev, ele deseja trazer o seu país de volta aos seus fundamentos (Make America Great Again!)-(«Tornar a América Forte Outra Vez»-ndT), mas os seus aliados europeus, esses, pensam prolongar esse Império.

Em Bruxelas, a administração da UE ainda não aceitou este cowboy. Ela espera que ele seja assassinado em breve ou que perca as eleições intercalares e seja forçado a entrar na linha. De uma certa maneira, aquilo que se joga hoje é o fim da Guerra Fria, quando os serviços de retaguarda (stay-behind) da OTAN faziam e desfaziam os governos Europeus Ocidentais. Os dirigentes da UE, a começar por Ursula von der Leyen e Kaja Kallas, têm origem directa nessas operações secretas. Eles são as crias do « Império Americano » e pretendem perpetuá-lo.


Notas

[1] “Donald Trump dissocia os Estados Unidos de Israel”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 13 de Maio de 2025.

[2] «Russland-SanktionenEnde der Absprache mit den USA», Florian Flade & Ben Huebl & Joerg Schmitt, Süddeutsche Zeitung, 27. Mai 2025.

[3] “A justiça dos “vencedores” que perderam”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 2 de Junho de 2025.

Tantas vezes vai o cântaro à fonte…

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 05/06/2025)


Com estes ataques, Zelensky escalou o conflito transportando-o para um ponto sem retorno. Não restará a Putin outra solução que não seja a de também escalar.


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Nas noites de 30 e de 31 de maio, nas vésperas da segunda ronda de negociações entre russos e ucranianos, em Istambul, com vista a discutir a paz na Ucrânia, Kiev levou a cabo duas poderosas operações militares em território russo. Falamos da destruição de três pontes nos oblasts de Kursk e Bryansk e dos ataques a cinco bases aéreas estratégicas (Murmansk, Irkutsk, Ivanovo, Ryazan e Amur) localizadas na profundidade territorial russa, apenas bem-sucedidos em dois casos (Murmansk e Irkutsk).

A terem sido todos os ataques eficazes, as consequências para a capacidade de bombardeamento estratégico russa teriam sido catastróficas. Não foi o que aconteceu. Estima-se que tenham sido afetadas 13 aeronaves (8xTU-95. 4xT-22M3 e uma de transporte), três delas irreparáveis, de uma frota de 132. Apesar do dano causado, o nível destrutivo dos ataques foi baixo.

O presidente Zelensky assumiu a responsabilidade pelos ataques elogiando publicamente o feito e o seu executor, o general Vasyl Malyuk, chefe do serviço de segurança (SBU). Segundo os ucranianos, foram usados na operação 117 drones, que teriam destruído cerca de um terço da capacidade russa. Estes ataques levantam uma série de questões merecedoras de atenção.

O momento escolhido foi a véspera das negociações, em Istambul, onde os ucranianos estavam obrigados a comparecer. Está longe de ser verdade, esta ideia recorrentemente apresentada, de que os ucranianos se encontram altamente comprometidos com a paz. Estes ataques não podem ser dissociados da tentativa, sem sucesso, de boicotar as negociações. No entanto e dito isto, não se está a afirmar que os russos estejam particularmente empenhados na imediata resolução política do conflito.

Como já nos habituou, o objetivo de Kiev com esta operação prendia-se mais com o seu impacto mediático do que com os reais benefícios militares. “Um espetacular golpe de propaganda”, como lhe chamou a BBC. Mas ia para além disso. Pretendia mostrar aos seus patrocinadores, que não está acabada, que pode provocar dano ao adversário, que pode ser um bom investimento, num momento em que algumas fontes de abastecimento começam a secar, sobretudo do lado norte-americano. Não foi por acaso, que Lindsey Graham, coincidentemente em Kiev na véspera do ataque, dizia que a Ucrânia não estava a perder a guerra, que ainda está em jogo e que é preciso apoiá-la enviando mais armas e munições.

Tudo indica que houve serviços estrangeiros envolvidos no ataque e que alguns norte-americanos tiveram conhecimento prévio. A Axios deu nota disso, retratando-se uma hora mais tarde. O secretário de defesa Pete Hegseth terá acompanhado a operação em tempo real. Parece pois difícil escamotear algum envolvimento norte-americano. Entre outros aspetos, importa saber quem informou os ucranianos da localização exata das aeronaves russas.

Desconhece-se se o presidente Trump estava informado dos ataques, mas não se pode deixar de estranhar o facto de se ter mantido em silêncio, quando antes tinha sido tremendamente vocal sobre os ataques russos da semana anterior à Ucrânia. Estamos recordados do seu post na Truth Social a mandar Putin parar. A isto deve acrescentar-se as suas declarações enigmáticas: “o que Vladimir Putin não compreende é que se não fosse eu, montes de coisas más já teriam acontecido à Rússia, realmente más. Ele está a jogar com o fogo!

O ataque à aviação estratégica russa coloca-nos perante um outro assunto de extrema gravidade. É um facto que os russos já haviam utilizado os TU-95 para atacar a Ucrânia, o que dava aos ucranianos legitimidade para os atacar. Mas os TU-95 também integram a frota de bombardeiros estratégicos russos, que transportam armamento nuclear e isso confere uma outra dimensão, não escamoteável, aos ataques.

Os bombardeiros estratégicos russos encontravam-se estacionados na pista em conformidade com o estabelecido pelo novo Tratado START, que exige a permanência das aeronaves ao ar livre em locais observáveis pelos satélites, de forma a permitir o seu controlo pela outra parte, normalmente em bases aéreas designadas, para verificar não só a sua localização, mas também o tipo de armamento (nuclear ou convencional) com que poderão estar equipadas.

Teoricamente, a Rússia não estava obrigada a fazer esse exercício, uma vez que suspendeu a sua participação no Tratado, em fevereiro de 2023, interrompendo as inspeções e a partilha de dados. A Ucrânia alavancou oportunisticamente este contexto.

Este comportamento dos ucranianos levou o ex-assessor de Trump, Stephen Bannon, a afirmar: “Estamos [EUA] a ser arrastados para uma possível Terceira Guerra Mundial que ofusca as duas primeiras. E isso acontece todos os dias da forma mais flagrante. A Casa Branca disse não ter conhecimento dos planos dos ucranianos. Simplesmente atacaram a tríade nuclear da Rússia… o país que patrocinamos [Ucrânia] e com o qual fazemos negócios está agora a arrastar-nos para a sua guerra. Pensam que podem atacar território russo e arrastar-nos para um conflito com a Rússia. Estamos a ser arrastados para um conflito que se pode transformar em metástase.”

No mesmo sentido, pronunciou-se o ex-conselheiro de segurança nacional Mike Flynn ao afirmar que “a audácia de Zelensky infligiu um insulto geopolítico a Trump e aos Estados Unidos. Zelensky pôs em risco a segurança global sem pensar duas vezes, dando luz verde a ataques a aeroportos russos sem o conhecimento de Trump… se a Ucrânia está disposta a atacar com consequências estratégicas sem notificar a Casa Branca, já não somos apenas aliados com uma certa dessincronização: somos um partido de guerra a voar às cegas e fora de controlo.”

Estes ataques não afetaram a situação no campo de batalha, onde as forças russas continuam a avançar e onde as forças ucranianas começam a demonstrar uma dificuldade cada vez maior em as deter. Para além do impacto mediático, as consequências do ataque não produziram mudanças significativas nas forças estratégicas russas nem produziram alterações no equilibro nuclear estratégico entre os EUA e a Rússia. Se havia a intenção de o alterar, isso, claramente, não foi conseguido.

O dilema da resposta

Estes ataques à aviação estratégica russa foram mais um caso de espetacularidade, a juntar a tantos outros (os ataques ao Crocus City Hall e ao Kremlin, à ponte de Kerch, aos radares de aviso prévio estratégico, os assassinatos seletivos, etc.) e podiam ter justificado uma resposta musculada do Kremlin, que optou até agora por não a dar.

O Kremlin tem demonstrado uma paciência estratégica assinalável. A Rússia tem preferido absorver essas provocações. Os defensores deste comportamento russo argumentam que, estando a Rússia a ganhar a guerra, não é conveniente responder a essas provocações, porque isso daria azo a uma escalada incontrolável e o pretexto para atores exteriores se intrometerem no conflito. Por outro lado, alguns analistas incautos, sobretudo no Ocidente, confundem paciência com passividade, veem fraqueza no comportamento do Kremlin, e caucionam a ultrapassagem de todas as linhas vermelhas. No final do dia, o Kremlin recuará sempre, porque tem medo, segundo eles.

Ao contrário do seu habitual estilo bombástico e fanfarrão, Medvedev veio agora, num tom sério e sem estridência, dizer que a retaliação vai ser inevitável: “tudo o que precisa de explodir, explodirá, aqueles que precisam de ser eliminados, serão eliminados.” Com este ataque ao sistema nuclear estratégico russo, depois de ter atacado os radares de aviso prévio, Kiev ultrapassou todas as linhas vermelhas russas.

Com estes ataques, Zelensky escalou o conflito transportando-o para um ponto sem retorno. Não restará a Putin outra solução que não seja a de também escalar. Os desenvolvimentos a que assistimos representam uma mudança na direção de uma guerra em larga escala.

Zelensky sabe que a Ucrânia não tem hipótese de vencer uma guerra contra a Rússia. A única forma de se manter à tona da água é envolver o ocidente num conflito direto com a Rússia, tão cedo quanto possível, mesmo que isso passe pela destruição do seu país e a aniquilação do seu povo. Veremos se os europeus percebem que se estão a envolver num jogo de soma negativa, e não caiem na armadilha. Para além de se procurar perceber quais os termos da escalada retaliatória russa, é preciso perceber como vai o designado ocidente responder.

O encontro de dia 2 de junho em Istambul poderá ter sido a última tentativa de resolver o conflito sem ser pela via militar. Tudo indica que a Ucrânia se irá arrepender desta audácia. E veremos se o arrependimento ficará apenas em Kiev.

Que grande patranha e que grande sarilho em que estamos metidos

(Raquel Varela, in Facebook, 04/06/2025, Revisão da Estátua)


(Antes de mais, o seu a seu dono: o título deste artigo foi tomado de empréstimo pela Estátua ao habitual comentador das publicações do nosso blog, Whale Project, até porque o texto original não tinha qualquer título e considerei que o que escolhi assenta que nem uma luva…

Assim, esta publicação acaba por ter o concurso de mais que um autor, além da Raquel Varela, como decorre deste intróito e de uma das imagens que acompanha o texto, que é do Alfredo Barroso.

Estátua de Sal, 05/06/2025)


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Figura central da direita – Álvaro Santos Pereira – avançou ontem com a necessidade de rever a Constituição para “poder haver despedimentos individuais”, sem justa causa. Porque, diz ele e a UE – leia-se banqueiros e corporações automóvel e militar -, Portugal tem défice. Por volta das 21 horas, é ouvirem. O que está mal? 47% de pobres? Salários miseráveis? Habitação para ricos? Não! O que está mal, diz este cavalheiro do PSD, é que não se podem despedir todos.

Imagem da autoria de Alfredo Barroso e obtida do seu Facebook 🙂

Nunca votei PS na vida, nunca tive ilusões. Mas, quem desta vez votou no Partido fascista Chega, na IL e no PSD agora tem duas coisas a fazer: ou sai para a rua a lutar, ou espera que lhe chegue a casa, a si ou aos filhos e netos, uma cartinha a dizer “despedido” porque “me apetece”, o país precisa de si no olho da rua para combater o “défice” ou seja, remunerar capitais privados através da dívida pública. De caminho vendem, na Banca, a casa que acabaram de perder por serem despedidos – é o “mercado” a funcionar diz o partido fascista Chega, a IL, o PSD e o PS. E, claro, investir em armas “que vêm lá os russos”, diz o Almirante, que quer rever a Constituição, para dar mais poderes a si próprio.

Não acho que a Constituição é o grande centro estratégico da esquerda – para mim é um erro, porque essa linha política não dialoga com milhões de trabalhadores em Portugal que não compreendem o que quer dizer “defender a Constituição”, já que podem ser despedidos a qualquer hora, ou nunca tiveram um contrato digno. E tanta gente de esquerda, que vive no Príncipe Real, e que foi contra greves no tempo da Geringonça, esqueceu-se deles. Mas, o que este Governo, da AD quer – apoiado pelo PS, Chega e IL -, é acabar com os poucos que tinham esse direito, atingir sobretudo transportes, logística, operários fabris e funcionários públicos. Não é por acaso a campanha da AD foi contra a greve na CP.

A luta não pode ser só contra a mudança da Constituição, que para muitos é uma letra morta, nada protege, não os vai mobilizar. Queremos muito mais do que a Constituição, queremos Abril.

O truque é este – não são 50 anos de regime a desmoronar, são 48 anos de regime liberal a desmoronar, e 2 de Revolução de Abril, que foram os melhores anos da nossa vida, mesmo de quem como eu não era nascido. São – exatamente – 48 anos de ditadura, 2 anos de revolução com direitos, e 48 de democracia liberal, cujo texto é a Constituição.

Mas, a Constituição é um texto, o contexto só pode ser de luta, para todos, ninguém fica para trás, sob pena da esquerda ficar a falar sozinha. Todos no país que trabalham ou têm pequenos negócios têm que sair à rua, não só pelo que está bem na Constituição, mas por muito mais: por direitos para todos, incluindo para os pagos a recibos verdes, pequenos empresários, pequenos agricultores, e todos os trabalhadores. Atacar de frente o escândalo das taxas que pagam os pequenos empresários, os impostos altíssimos, a ignomínia dos salários baixos, os horários de trabalho que impedem estar com a família e o ócio. E impedir que o Estado saque dinheiro da Segurança Social, com layoffs escandalosos, e proibir quem não é residente permanente (individual ou empresa) de comprar casas. Esse deve ser o texto do contexto.

Os sindicatos, se querem continuar a existir (a base do que deles resta são estes trabalhadores protegidos), vão ter que lutar na batalha da sua vida – a qual vai ter que ser claramente política e não deve haver medo de a considerar política. Política de enfrentamento com o Governo e com todos os partidos que o apoiam – de frente ou às escondidas e com mais ou menos gritos. Ser apartidário é correto, ser apolítico é um erro que pode ser fatal. Dizer que representam todos é um erro. Os sindicatos só podem representar quem defende direitos.


E para terminar um vídeo em que autora desenvolve o enquadramento histórico-económico que, no seu entender, conduziu à situação política atual.