(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 18/09/2025)

O problema é que nem a Europa nem a NATO querem o fim de qualquer das guerras, estão alinhadas de corpo e alma com o lobby israelita e com o lobby das armas.
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Andamos todos entretidos nas nossas vidas, tratando do que temos de tratar e discutindo outras coisas, umas importantes, outras não tanto, e não queremos entender ou rendermo-nos à evidência de que, num mundo à parte, um escol de dirigentes políticos endoidecidos se prepara para nos servir uma guerra mundial ao virar da esquina. Uma guerra cujas razões ou inevitabilidade não enxergamos e cujas consequências nem sequer conseguimos imaginar em todo o seu horror.
Não, em vida da minha geração o mundo nunca esteve tão perto da guerra. Não o mundo cuja forma habitual de vida é a guerra — em África, no Médio Oriente ou em disputas religiosas ou tribais por esses tristes trópicos. Mas sim o mundo inteiro, a Humanidade como a conhecemos. Em 1979, a União Soviética, de Brejnev, e o seu sinistro séquito de personagens resolveram instalar mísseis de longo alcance nos limites dos países da Cortina de Ferro, os SS-20, apontados às principais capitais europeias. A NATO convocou uma cimeira de urgência para o seu quartel-general em Bruxelas e eu estive lá a cobrir a reunião para a televisão portuguesa. Foi a célebre reunião em que milhares de manifestantes, vindos de vários pontos da Europa, gritavam “better red than death”, instando os dirigentes da Aliança a não responderem à ameaça soviética. Eu, porém, torcia intimamente para que respondessem, e foi o que fizeram: a instalação recíproca dos Cruises e Pershings II americanos apontados ao Leste não só fez recuar a ameaça iminente como, a prazo e em consequência, conduziria à implosão da URSS. Gosto de recordar este episódio porque há quem se esforce para nos convencer de que agora estamos exactamente na mesma situação. Mas é falso: primeiro, já não existe a União Soviética, mas sim a Rússia — que, mesmo que alimente veleidades imperiais, não se move por ideologia, mas por interesse nacional, o que é mais racional. Em segundo lugar, a NATO tem hoje 32 e não 12 membros e deixou há muito de ser uma organização militar estritamente defensiva para passar a ser o longo braço armado do cerco à Rússia. E, finalmente, em 1979 os russos tinham-nos na mira de novos mísseis nucleares de longo alcance, enquanto hoje o que leva o primeiro-ministro polaco a declarar que estamos à beira da Terceira Guerra Mundial foram 19 drones, de um total de 450, que, num ataque à zona ocidental da Ucrânia, ultrapassaram a fronteira e caíram no lado polaco, danificando um telhado de uma casa e um tejadilho de um carro. Um “teste”, uma “provocação” ou, melhor ainda, um “ataque”, como logo o classificaram todos os dirigentes nacionais da NATO, o seu secretário-geral e a imprensa que desde a invasão da Ucrânia os segue acriticamente, e que é quase toda. Obviamente, a explicação de um mero erro de cálculo não podia convencer quem se esforça para nos convencer todos os dias de que estamos à beira da guerra e que, se não nos endividarmos perante as empresas de armamento americanas, Putin passará o próximo Verão, não na Crimeia, como Tchékhov e tantos outros russos célebres, mas na Côte d’Azur ou na Comporta.

Assim lançados na sua velada de armas, os nossos dirigentes ocidentais mergulharam numa histeria de declarações, sanções, exclusões do espaço aéreo, convocação urgente do Conselho de Segurança da ONU e dos embaixadores russos nas suas capitais para “explicações”— que jamais seriam aceites. O nosso Paulo Rangel saltou logo na dianteira, convocando o embaixador russo em Lisboa para se ir explicar às Necessidades, no que eu imagino que tenha sido uma eloquente conversa: “Sr. embaixador, vocês quiseram atacar a Polónia para quê?”; “Bem, sr. ministro, nós não quisemos nem atacámos a Polónia”…; “Terá sido, sr. embaixador, a preparação para a invasão em grande escala da Europa?”.
Na véspera, por infeliz coincidência, Israel tinha repetido uma operação inaudita em termos de lei internacional: tinha bombardeado a capital de um país terceiro para matar no seu solo inimigos internos que perseguia. Com a agravante de os alvos serem os mesmíssimos negociadores do Hamas com quem era suposto estar a tentar chegar a um acordo de paz para Gaza e de o país agredido ser o país anfitrião das negociações e a que Netanyahu passou a chamar um país que “alberga terroristas”. Todos os dias, aliás, numa televisão em frente de si, os poucos repórteres de imagem palestinianos que ainda não foram mortos — e os únicos que Israel não pode impedir de lá estarem — mostram aos nossos estimados dirigentes ocidentais torres de habitação a serem destruídas como no 11 de Setembro em Nova Iorque, hospitais e acampamentos a serem bombardeados, crianças esfaimadas a serem mortas a tiro quando querem arranjar comida. Mas, com excepção de Espanha e de Pedro Sánchez, eles não vêem nada, fazem-se de mortos. Pior: nos Estados Unidos da América expulsam-se estudantes, professores, funcionários públicos ou jornalistas de televisão que mostrem alguma espécie de solidariedade para com os palestinianos; em Inglaterra prendem-se centenas de manifestantes contra o genocídio de Gaza; na Alemanha cancelam-se todos os que ousem condenar o maior crime a que estamos a assistir neste século. Assim vão as democracias ocidentais de referência. Assim se comportam, como coniventes com a loucura assassina de Israel, os que nos querem antes arrastar para uma guerra terminal com a Rússia por causa de uns drones que falharam o alvo. Sim, Putin é um assassino, não há qualquer dúvida sobre isso, mas Netanyahu é bem pior, em quantidade e em ostensiva indiferença; sim, a invasão da Ucrânia é ilegítima e intolerável, mas tudo o que se passa na Palestina desde há décadas é bem mais grave e insuportável. E há — eu pelo menos acredito — outra diferença fundamental: querendo, a Europa poderia conseguir o fim da guerra da Ucrânia, mas o fim do genocídio em Gaza duvido. O problema é que nem a Europa nem a NATO querem o fim de qualquer das guerras, estão alinhadas de corpo e alma com o lobby israelita e com o lobby das armas. Mas, descuidando-se, arriscam-se a ver o início de uma guerra nuclear, não por causa da Rússia na Ucrânia, mas por causa de Israel com todos à sua volta.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


