Afinal, o que diz Cavaco? Nada

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 29/09/2023)

Miguel Sousa Tavares

Eu sei que venho com algum atraso, mas era preciso corresponder ao repto de Durão Barroso: ler o livro antes de o comentar. E acontece que o livro é de tal forma aborrecido que duvido até que Durão Barroso, o seu apresentador, o tenha lido todo. Falo, obviamente, de “O Primeiro-Ministro e a Arte de Governar”, a última obra do grande estadista Cavaco Silva que tanto entusiasmou a nossa direita, na medida em que tanto irritou a nossa esquerda. Mas sosseguem, uns e outros: não há quaisquer motivos para uma ou outra coisa.

Sobre Cavaco Silva, o homem e o personagem, o seu perfil ético, cívico e político, remeto para o artigo que Luís Aguiar-Conraria aqui escreveu há 15 dias e que eu não me importaria de ter assinado. Apenas realçaria o episódio da venda das acções do BPN, não cotadas em Bolsa, com um lucro de 300%, por decisão do presidente do banco e seu amigo pessoal, Oliveira e Costa. Tudo poderia ter ficado no domínio de um negócio entre amigos com dinheiros de um banco privado não fosse o caso de terem sido negócios desses que levaram o BPN à falência e obrigaram os contribuintes a pagar a conta. Que Cavaco Silva não se tenha perturbado com a revelação do episódio é uma coisa; outra coisa é que se tenha vindo gabar dele, afirmando ter sido a sua competência como professor de Finanças que o tornou possível e que nem mesmo alguém que nascesse duas vezes seria tão sério como ele.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Sobre Cavaco Silva e a sua lenda de estadista e “fazedor” é tudo uma questão de opinião. A minha, e sempre dita desde então, é que ele foi o primeiro-ministro a quem o acaso pôs nas mãos uma oportunidade única para mudar Portugal e desperdiçou a oportunidade. Herdou um país com contas postas em ordem por Ernâni Lopes e que, contra as suas dúvidas, entrara na União Europeia pela mão de Mário Soares. Encontrou paz so­cial e institucional, uma enxurrada de dinheiros como nunca visto e maioria para governar. E começou por vender a agricultura a Bruxelas por 600 milhões de contos, em dinheiro da altura, com isso desmantelando o mundo rural e dando início ao processo de despovoamento do interior que, entre outras coisas, hoje está na origem da grave crise habitacional dos centros urbanos. Depois fez o mesmo com as pescas, com a construção naval, com as minas e com as indús­trias transformadoras, declarando que Portugal iria viver da prestação de serviços. Apostou tudo nas estradas, para, como disse ironicamente Ribeiro Telles, “os espanhóis trazerem mais depressa os produtos agrícolas deles para os nossos supermercados”, e, em contrapartida, começou o trágico processo de desmantelamento da ferrovia, liquidando uma empreitada que exigira 150 anos de esforço da nação. Engrossou o Estado para a eternidade e, das “reformas da década” que diz ter feito, uma — a da Saúde — já fora feita antes, com a criação do SNS, e outra — a do financiamento da Segurança Social — foi feita depois por Vieira da Silva, sendo que todas as outras, a começar pela da Justiça, permanecem por fazer até hoje. Mas criou a lenda e esse foi o seu grande feito.

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Não admira que, ciclicamente, Cavaco se sinta tentado a escrever e acrescentar a sua biografia, não vão outros, como eu, deslustrá-la. É disso, mais uma vez, que, directa ou subliminarmente, trata este livro, dividido em três partes. Na parte do meio, ele, o ex-eurocéptico, canta loas à Europa, a cuja construção se amarra e descreve sem grande originalidade nem distanciamento: na Wikipédia há peças semelhantes mais interessantes. A terceira e última parte é composta por duas conferên­cias e sete artigos já publicados, entre os quais o “célebre” artigo sobre a Lei de Gresham, que ele estima um marco no pensamento político português, pois que o republica 19 anos depois “porque não parece ter perdido pertinência”. Os outros artigos, está bem de ver, são todos a bater no actual Governo e já por demais lidos e comentados. Resta, então, como original, a primeira parte do livro, que lhe dá título.

Para quem esperava de alguém que foi PM durante dez anos uma reflexão política profunda e meditada sobre o exercício do poder e a sua capacidade transformadora, as instruções de Cavaco são qualquer coisa de absolutamente indigente, variando entre o banal, o cómico e o ridículo.

Essa primeira parte é difícil de classificar, mas talvez se possa dizer que é uma espécie de manual de instruções para a Universidade de Verão dos jotinhas, em particular aqueles que aspiram a um dia virem a ser primeiros-ministros. Para quem esperava de alguém que foi PM durante dez anos uma reflexão política profunda e meditada sobre o exercício do poder e a sua capacidade transformadora, as instruções de Cavaco — a que ele chama “reflexões normativas” — são qualquer coisa de absolutamente indigente, variando entre o banal, o cómico e o ridículo. O que dizer da afirmação de que a escolha das pes­soas para o Governo “não pode ser feita na praça pública, para não prejudicar a aceitação dos convites”, ou que “o PM deve apresentar-se devidamente preparado sobre cada um dos pontos da agenda do Conselho de Ministros”? Mais cómicas são as afirmações de que “é mesmo muito provável que os ministeriáveis do partido estejam ansiosos que o telemóvel toque” ou que “as reuniões do Conselho de Ministros devem decorrer sem dispensa do formalismo necessário. Dentro da sala, os ministros devem tratar-se uns aos outros pelas respectivas designações oficiais e evitar informalidades excessivas e tratamentos por tu” (imaginem: “srª Ministra da Coesão Interterritorial, pode passar-me a água? Faça favor, sr. Ministro dos Transportes e Comunicações”). Mais a sério, é de reter a afirmação de que “o exercício de funções de chefe do Executivo é uma tarefa muito exigente”, quanto mais não seja porque é preciso manter sempre um olho vigilante no PR, pois que “a principal preocupação do PM no seu relacionamento com o PR deve ser a de evitar que o Presidente utilize os seus poderes para impedir o Governo de executar o seu programa e que tenha sucesso na sua acção”. Isto dito por quem exerceu ambas as funções é, enfim, uma reflexão carregada de sentido. Talvez mesmo a única. Porque o resto, se querem a minha opinião, não vale 17,75 euros e, sobretudo, o tempo perdido.

2 O que aconteceu na Madeira, isso, ultrapassa o ridículo para cair no domínio da total falta de decência. Um chefe de Governo que promete, jura, diz e volta a dizer que não governará se não lhe derem maioria absoluta e que logo, perante o insucesso, se enterra num pântano de malabarismos semânticos para tentar demonstrar que a palavra “não” dita por um político não significa o mesmo que a palavra “não” dita por uma pessoa de bem. E que, acto contínuo, começa a negociar um acordo para o sim com um partido que os madeirenses nem devem saber o que seja, com um programa de governo que mistura hotelaria com brócolos e subsídios ao turismo com subsídios à esterilização dos gatinhos. Um chefe do partido da oposição local que, tendo perdido 8 deputados em 19, longe de pensar em demitir-se, quer é saber se o chefe do Governo se demite, porque ele continua a ser “a alternativa”. É o dirigente nacional do principal partido da oposição que resolve ir cavalgar antecipadamente uma vitória regional que afinal o não foi, mas que canta vitória na mesma, sem se dar conta do ridículo a que se presta. Parecem garotos a brincar à política.

3 “Basicamente, sou uma puta. Ob viamente, o que eu quero é ter bens materiais, sentir a minha vida boa.” Esta frase, escutada e gravada pela PJ há dois anos, pertence a um dos arguidos da Operação Tempestade Perfeita e foi dita em conversa com outro comparsa nos negócios montados no Ministério da Defesa, e não só, para roubar o Estado português. Trata-se de dois directores de serviços, um cargo superior da Administração Pública, falando com o à-vontade de quem não esconde o que faz, o que quer e a total ausência de escrúpulos com que ac­tuam. Provavelmente, os seus processos acabarão prescritos, arquivados por falta de provas, amnistiados pela visita papal, e, até lá, eles continuarão a receber o seu ordenado, embora suspensos de funções, com o processo disciplinar a aguardar pelo processo-crime — ou seja, de férias pagas e prolongadas. Nada que os incomode, presumo. Todavia, pergunto: esta puta não terá pais, mulher, filhos que encarar? Alguns amigos ou conhecidos que o julguem honesto, o homem que lhe serve o café de manhã?

Esta puta vai andar por aí como se nada fosse, à espera que a justiça funcione e os outros se esqueçam dele? Não se vai internar voluntariamente na prisão ou num convento? “Basicamente, é uma puta”? Não, o que ele é é um chulo. Puta, ao pé disto, é uma profissão honesta.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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Lampedusa, o destino da Europa e do mundo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso,22/09/2023)

Miguel Sousa Tavares

Lampedusa é uma pequena ilha de Itália, entre África, a Sicília e o continente italiano. Tem 7 mil habitantes e em apenas três dias da semana passada recebeu 10 mil imigrantes vindos de África e com origem maioritária em portos da Tunísia. Aparentemente, o acordo que o Governo de coligação de extrema-direita, chefiado pela primeira-ministra Giorgia Meloni, estabeleceu com o Governo tunisino — dinheiro contra retenção de imigrantes — não está a funcionar como ela esperava. Nos dois anos em que o seu parceiro de coligação e de Governo e líder da Liga, Matteo Salvini, foi ministro do Interior num anterior Governo, ele chegou a mobilizar a Marinha de Guerra contra as frágeis embarcações dos imigrantes: milhares morreram afogados na travessia do Mediterrâneo e apenas 7 mil num ano e 8 mil noutro conseguiram atingir a costa italiana. Mas desta vez, e contra todas as expectativas, Meloni recusou voltar a dar a Salvini a pasta do Interior e adoptou uma política muito mais branda e humana para com os imigrantes. Resultado: só este ano e até agora entraram em Itália 127 mil desesperados do Norte de África e do Sahel, vítimas de guerras ou de ditaduras alguns, mas vítimas sobretudo da fome e das alterações climáticas a maioria, todos em busca de uma réstia de esperança numa vida decente. Lampedusa recebeu os seus resgatados com um insuperável humanismo e generosidade, como outras partes de Itália e da Sicília o fizeram, e também a Grécia, mas de forma bem menos pacífica e generosa. Tudo perante o silêncio e a indiferença da Europa. Mas há sempre um limite suportável, e a população de Lampedusa chegou agora ao seu, perante o anúncio de que as autoridades se preparam para estabelecer novo acampamento permanente na ilha para acolher mais imigrantes. Como escreveu Helena Matos no “Observador”, o que diria a população de Porto Santo se tivesse de acolher mais imigrantes do que os próprios residentes?

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

No domingo passado, Meloni levou Ursula von der Leyen a Lampedusa para que ela visse com os próprios olhos aquilo que a Europa não quer ver. E, enquanto elas se reuniam em Lampedusa, mais a norte, em Itália, Salvini recebia Marine Le Pen e, juntos, os dois expoentes máximos da extrema-direita xenófoba e anti-imigração europeia combinavam uma possível lista comum às europeias do ano que vem e uma estratégia comum do tipo “regresso às canhoneiras” em que Salvini se distinguiu no passado. Em Lampedusa, Von der Leyen apresentou um vago “projecto europeu” em 10 pontos, compreendendo patrulhas navais euro­peias, um corredor para imigração legal (qual?) e repatriamento da ilegal (para onde?), além da solene declaração de que será a Europa, e não os traficantes de seres humanos, a decidir a sua política de imigração. Uma bela frase que esbarra, contudo, na realidade dos factos. E a realidade é aquilo que, dias depois, Meloni disse na Assembleia-Geral da ONU: “A Itália não pode e não quer continuar a ser o depósito de imigrantes da Europa”, apenas porque é o país cujas costas ficam mais próximas das de África. Longe desta malfadada geo­grafia, Portugal, pela voz da ministra Ana Catarina Mendes, aparecia nas páginas do “La Repubblica” de sábado passado como um exemplo a seguir. “Devido à nossa baixa natalidade”, explicava a ministra, “estamos abertos a receber imigrantes para preencher as nossas necessidades de trabalho.” Eles são úteis e bem-vindos, acrescentou, e temos leis para os acolher decentemente (veja-se Odemira e não só…). Todavia, quando perguntada o que faríamos quando as necessidades de imigrantes estivessem preenchidas, a ministra preferiu divagar e esquecer a pergunta. Outros — a Polónia, a Hungria, a Eslováquia — são frontais e sem subterfúgios: não querem receber imigrantes nenhuns e não têm nada a ver com o assunto. A Polónia, um país vagamente democrático e sem qualquer espírito europeu, lançou-se mesmo na construção de um muro de fronteira contra a imigração, como fez Trump na fronteira com o México. Bruxelas chegou a ameaçar a Polónia com o corte de dinheiros europeus — uma represália lógica e justa —, mas recuou entretanto, uma vez que a Polónia se tornou um dos maiores apoiantes da Ucrânia, e essa é a única solidariedade europeia que hoje conta.

Na recente cimeira do G20 falou-se muito da Ucrânia, e Zelensky lá teve direito ao seu tempo reservado para, como sempre, pedir mais armas para aquilo a que o secretário-geral da NATO, julgo que entusiasmado, avisou que irá ser ainda “uma guerra prolongada”.

No G20 falou-se muito da necessidade de continuar a guerra, mas não se falou nada da necessidade de estabelecer um diálogo para a paz. Falou-se muito do aumento das despesas militares e de continuar a armar a Ucrânia, mas não se falou nada de dinheiro para combater as secas e a fome no Terceiro Mundo. Falou-se da história mal contada da “chantagem alimentar russa”, mas ninguém disse, como Guterres, que “o mundo precisa dos cereais ucranianos e precisa dos alimentos e fertilizantes russos” — e que os fornecimentos de uns estão ligados aos outros.

Não se falou das alterações climáticas nem das tragédias ou dos fluxos migratórios provocados por elas. E ninguém lembrou, como Guterres, que à volta daquela mesa estavam reunidos países responsáveis por 80% dos gases com efeitos de estufa e que era de estranhar que nenhum dos líderes mundiais ali presentes “sentisse o calor”. No G20, como nos discursos dos grandes do mundo na ONU, o que agora verdadeiramente os preocupa é o poder crescente dos BRICS e o seu futuro alargamento a países do Médio Oriente: o petróleo, a eterna luta pelo petróleo, e a irritação de verem países tradicionalmente abertos à boa e velha “ordem liberal”, como o Brasil e a Índia, “a fazerem agora o jogo de Putin” — isto é, a defenderem que se comece a procurar a paz em lugar de continuar a guerra sem fim à vista. Definitivamente, o mundo já não é o que era, e ao Ocidente já não resta mais do que entrincheirar-se atrás de muros e bombardear os bárbaros do Leste e do Sul, que nos assaltam sem razão. Stoltenberg e a sua NATO defenderão o Leste, Salvini e Le Pen o Sul, a VII Esquadra americana o Extremo Orien­te, e alguns intelectuais escreverão que, afinal, a história continua. Como se não o soubéssemos. Lampedusa é apenas uma minúscula ilha no mar da indiferença em que naufragamos.

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2 Mesmo neste tempo da internet e das notícias constantes online, gosto de manter um velho hábito de, quando ausente da terrinha, deixar comprados, para depois ler, os jornais da minha ausência. Fiquei assim a saber que, se as novidades não foram muitas, foram, pelo menos, divertidas. Marcelo andou a comentar decotes no Canadá, enquanto alguns intelectuais da Mui Nobre, Leal e Sempre Invicta se escandalizaram ao retardador com a escultura de uma jovem nua abraçada a um velho Camilo. (Larga a peça, Eça!, ou ainda te cortam a cabeça em Lisboa.) Cavaco lançou a sua muito publicitada “Arte de Governar”, rodeado de “ajudantes”, numa coisa dantes chamada Grémio Literário e hoje mais conhecida por Clube Literário do PSD (já gastei os meus 17,75 euros para matar as saudades, não a curiosidade). E, segundo as melhores opiniões, as europeias do ano que vem serão absolutamente determinantes em Portugal para decidir: a) se Montenegro continua à frente do PSD; b) se Costa resiste ou avança Pedro Nuno; c) se Marcelo pode finalmente dissolver tudo à cacetada; d) se o Chega cresce ou o CDS renasce. O que tem isto a ver com a Europa — com a crise migratória, com as alterações climáticas, com a continuação da guerra, com o alargamento a Leste e com o fim dos nossos queridos dinheirinhos europeus? Pois, nada. Mas quem disse que as europeias servem para discutir a Europa?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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Chuva miudinha

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso,08/09/2023)

Miguel Sousa Tavares

E

m alguns lugares restritos no mapa choveu granizo, mas, de resto e de norte a sul, os primeiros dias de Setembro trouxeram apenas uma chuva miudinha aos campos, à disposição dos espíritos e à vida política. Desde as areias de Monte Gordo, um mês antes, Marcelo foi alimentando as expectativas da imprensa sem notícias com a segunda volta do Conselho de Estado, marcada para a primeira semana de Setembro. Aí, avisou ele, teria ocasião de proferir a intervenção final — aliás, já escrita, houvesse o que houvesse —, porém dando antes generosamente o direito a António Costa de se defender da previsível catanada. Mas Costa, repousado das férias, optou por aquilo que qualquer estratego aconselharia: se a sentença já estava dada, mais valia abdicar da defesa. E parece que Marcelo ficou assim meio sem chão, desarmado pelo silêncio da vítima e desarmado pelos avisos que, concertado ou não com o primeiro-ministro, o governador do Banco de Portugal lançara para cima da mesa dois dias antes. Que sentido faria voltar à carga com o caso TAP e o caso Galamba, voltar a falar da “folga” orçamental ou da “justa luta” dos professores quando Mário Centeno alertava para uma possível recessão no horizonte próximo importada de fora, na miragem da “folga”, que afinal não é assim tanta, e na necessidade de continuar a reduzir a dívida para “não sermos outra vez apanhados desprevenidos”? Quando na véspera a Rússia e a Arábia Saudita tinham mais uma vez feito subir os preços do petróleo e a guerra da Ucrânia, cuja continuação Marcelo tão entusiasticamente apoiara na sua visita a Kiev e que é razão primeira para todos os problemas económicos que a Europa e Portugal enfrentam, promete assim eternizar-se sem fim à vista e com o aplauso geral de quem nos governa?

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Não, não há almoços grátis. Não há sol na eira e chuva no nabal. Não há guerras que sirvam aos povos e não aproveitem aos vendedores de armas, de alimentos e de energia. Não há PRR que nos salve, não há dinheiro que chegue para fazer funcionar uma economia paralisada, não há planeta que resista a tamanha criminosa estupidez.

De que mais resta falar se todos os dias somos confrontados com imagens apocalípticas de seca ou inundações até em lugares inimagináveis há uns anos, de incêndios imparáveis ou icebergues a desfazerem-se no oceano, e os líderes que elegemos só pensam em mais armas, mais munições, mais aviões para a guerra da Ucrânia? Vamos entreter-nos a falar do beijo de Rubiales em Espanha, da proibição da abaya em França ou da heróica revolta do adjunto do ministro Galamba?

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Temos então, aqui, a “birra”, ou o “amuo”, de António Costa no Conselho de Estado a dar origem àquilo que Luís Montenegro, sem mais, classificou como “a mais grave crise institucional” de que ele tem memória. Ora cá temos, assim, uma crise institucional para nos animar e desviar as atenções nesta rentrée de chuva miudinha. Mas como não há milagres, o essencial permanece. E o essencial são as escolhas, como disse há tempos Marcelo, antes de a seguir começar a desdizer-se: governar é escolher. Por exemplo: pagamos os tais 6 anos, 6 meses e 23 dias aos professores, acumulando mais da despesa permanente de que fala Mário Centeno, ou investimos o dinheiro na construção de habitação pública para os jovens e a classe média? Investimos nas Forças Armadas ou na Saúde? Em comboios do século XXI que tirem os carros da estrada ou em radares para multar os carros na estrada? Agravamos a despesa pública com mais apoios e subsídios ou desagravamos a sério os impostos e apostamos na criação de riqueza pelos privados?

Ou, como até aqui, continuamos a apostar que há dinheiro para tudo — para satisfazer todos os lobbys, todos os grupos de interesses e todos os eleitorados — e não é preciso fazer escolhas?

2 Com o indisfarçável entusiasmo que sempre põe nestas coisas “disruptivas”, o “Público” noti­ciou com grande destaque que “a Bienal de São Paulo conta outra história de Fernão de Magalhães”. Fiquei curioso: o que levaria uma exposição de arte a desvendar uma outra versão da extraordinária história desse navegador do século XVI para além do facto de Magalhães reunir em si características hoje quase interditas nos círculos artísticos — ser homem, branco, ao que se sabe heterossexual e, pior ainda, português e logo de Quinhentos? E que nova versão seria essa digna de merecer duas páginas num jornal de referência, chamada de primeira página e todo esse destaque na Bienal de S. Paulo? Acaso teriam descoberto que ele, afinal, não imaginou e comandou uma expedição de circum-navegação que deu a volta ao mundo, provando que a Terra era redonda, que chegou lá abaixo à Terra do Fogo e descobriu a passagem do Atlântico para o Pacífico, depois imortalizada com o seu nome, que foi o primeiro navegador a cruzar todo o Pacífico, que assim baptizou, e que morreu em combate em Mactan, nas Filipinas, aos 41 anos, não podendo fazer parte dos 18 sobreviventes que, três anos depois da partida, regressaram a Espanha, completando, em 1522, uma das mais fantásticas aventuras humanas? Que teria a Bienal descoberto de novo que tanto entusiasmou o “Público”? Pois parece que descobriram que Magalhães não foi morto em combate pelo chefe tribal da ilha de Mactan, Lapu-Lapu, mas sim pela sua mulher — que assim, por proposta do cineasta/escultor filipino Ti­diak Kahimit (a quem a humanidade tanto deve), é justo passar a ser ela a heroína da história, pois que matou o homem que se atreveu a dar a volta ao mundo numa casca de noz e ir incomodar os filipinos no seu exaltante remanso. E, então, a Bienal dedica à heroína uma escultura à entrada, da autoria do dito cineasta/escultor, e antes de se passar por um “espaço multimédia e que é também — explica o “Público” — um espaço de encontro e discussão”, baptizado com o nome arrebatador de “Sauna Lésbica”. E tudo, todavia, acontecendo num edifício desenhado por um dos mais extraordinários artistas do nosso tempo, Oscar Niemeyer — que, fosse ainda vivo, não teria direito a convite, pois que, tal como Magalhães, sofria de três males hoje sem remissão: ser homem, branco e heterossexual. E tudo parte integrante do objectivo central da Bienal, que é, ensina-nos ainda o “Público”, o de “coreografar um novo pensamento capaz de combater a negação dos saberes não hegemónicos”. Razão pela qual certamente nós, contribuintes portugueses, estamos lá representados por dois artistas de raça negra, cujo nome vocês jamais ouviram e escolhidos pela nossa curadora, Grada Kilomba. A mesma que há uns tempos protagonizou uma feroz discussão — acompanhada ao pormenor pelo “Público” —, envolvendo todos os crocodilos excelentíssimos que zelam pela nossa cultura, a qual consistia em saber quem merecia representar Portugal na Bienal de Veneza: se uma mulher negra ou um branco que se apresentava como o primeiro artista sem sexo definido. Excluin­do a primeira, estávamos perante um caso de machismo e racismo; excluindo o segundo, estávamos perante um caso de atentado aos direitos LGBTI. Após fascinantes e exaltadas discussões, e sem que jamais o jornal ou outrem nos tivesse mostrado qualquer coisa da obra de ambos os candidatos, ganhou o segundo. Mas, como se vê, neste pequeno mundo fechado nunca se perde de vez.

Agora, porque têm de meter o Fernão de Magalhães ao barulho, mais de 500 anos sobre a sua morte, é o que me ultrapassa. Confesso que já não me resta paciência alguma para este masoquismo diletante com que nos comprazemos a denegrir uma História de que qualquer outro povo se orgulharia todos os dias. Sim, eu conheço a saga da escravatura e do colonialismo sem freio, e tudo o mais, e tenho sobre isso o mesmo juízo implacável que qualquer pessoa informada tem de ter. Mas também conheço a história dos outros povos à época — colonizadores e colonizados, brancos, negros, amarelos e índios, dos que chegavam e dos que viam chegar — e das barbaridades que todos cometiam. Nada disso me impede de pasmar de admiração quando vejo os sinais no mundo da passagem desse pequeno povo, de escassa gente e desmedida coragem, que, tendo apenas o mar pela frente, foi por ele adentro — para fazer muitas coisas boas e más, mas também para saber o que havia para além do conhecido, descobrindo ilhas e estreitos, navegando oceanos virgens e inventando os Brasis que hoje conhecemos.

Será talvez um argumento infantil, mas quando vejo esta gente confundir alhos com bugalhos e querer julgar a História pelos olhos de hoje, vendo apenas o mal e não também o fantástico, dá-me vontade de lhes perguntar porque não experimentam embarcar numa coisa parecida com aquilo a que então chamavam naus e tentarem chegar vivos às Berlengas.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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