Heróis de guerra

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 27/10/2023)

O imperador Frederico II, do Sacro Império Romano-Germânico, que passou quase todo o seu reinado em guerra (chegou a participar pessoalmente numa Cruzada), disse um dia, num momento de lúcida reflexão: “Se os meus soldados pensassem, não restaria nenhum nas fileiras.” Esta semana, inscrevendo-se no cortejo a Jerusalém dos mesmos dirigentes ocidentais que aqui há tempos desfilavam em Kiev — e pela ordem protocolar estabelecida: primeiro os Estados Unidos, depois a Inglaterra e a seguir os vassalos da União Europeia — Macron lá foi também oferecer a sua solidariedade, na defesa dos “valores comuns” que nós, ocidentais, teremos com a Israel de Benjamin Netanyahu e os seus ministros ortodoxos, executores mandatados da vontade do profeta Abraão. Mas fez mais o Presidente francês: sem uma palavra sobre o futuro dos palestinianos, propôs uma coligação militar do Ocidente — e das democracias, presumo — contra os terroristas muçulmanos do Hamas: uma nova Cruzada, enfim.

Desde que o mundo é mundo, desde que é invocável o valor da civilização contra a barbárie ou as guerras santas dos fiéis contra os hereges, ou qualquer outro invocado justo pretexto, que é insaciável a vontade de sangue e morte dos grandes do mundo. A única diferença relevante é que dantes combatia-se nas guerras a pé e a cavalo, com espadas e lanças, e agora combate-se com uma tão sofisticada e tão cara panóplia de armas que, à falta de outros motivos mais nobres, a guerra é sempre uma imperdível oportunidade de negócios para a mais rentável indústria mundial, a do armamento — como o explicou o ex-Presidente Eisenhower e como o vimos, por exemplo, na metódica destruição aérea de Belgrado.

ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Qualquer guerra é necessariamente precedida de uma preparação, que começa junto da opinião pública antes mesmo de as forças combatentes estarem prontas para avançar. Há excepções, claro, em casos flagrantes, mas essa é a regra: a propaganda a favor da guerra deve antecedê-la e jamais esmorecer, custe o que custar em sacrifício de soldados ou de civis. Vemo-lo há 20 meses na Ucrânia, onde, por maiores que sejam os danos causados, ali e no mundo em geral, e por maior que seja o impasse militar no terreno, qualquer tímida tentativa para falar de paz — e a própria palavra paz — é vista imediatamente, e por ambos os lados, como uma capitulação, uma traição inadmissível. Não por acaso, vemos sempre Zelensky ou Putin a falar aos generais e às vezes aos soldados, a condecorá-los, a incentivá-los, mas nunca os vemos entre os civis vítimas da guerra, ao contrário do que fazia Churchill depois de cada bombardeamento da aviação alemã sobre as cidades inglesas. Em Israel, as sondagens e os testemunhos dos jornalistas relatam-nos a existência de uma clara maioria, mesmo entre as famílias dos reféns em poder do Hamas, favoráveis à ofensiva terrestre sobre Gaza, ainda que ela tenha como desfecho quase inevitável a morte de todos eles. Seria curioso fazer saber aos reféns o resultado destas sondagens e fazer-lhes a mesma pergunta: “Concorda que, em vez de negociar a vossa libertação, Israel invada Gaza, com o resultado presumível de morrerem você e todos os outros reféns?”

Saiba mais aqui

 

Mas o pacifismo, muito embora por vezes tenha triunfado contra todas as esperanças (Gandhi, Mandela), não é, só por si, uma solução universal nem uma doutrina sempre aceitável. Há uma diferença entre ser a favor da paz como solução preferencial ou ser pacifista por definição. Na série da Netflix que estou a ver — “The Pacific”, de Steven Spielberg e Tom Hanks —, um capitão marine, vendo um soldado destroçado, física e emocionalmente, pela violência dos combates contra os japoneses, diz-lhe: “A única razão que nos pode fazer continuar é sabermos que esta é uma guerra justa.” Porque há guerras justas e que têm de ser travadas, como a do Pacífico depois do ataque japonês a Pearl Harbour, ou a primeira guerra do Iraque, depois da invasão do Koweit por Saddam Hussein. E há guerras absolutamente injustas e por razões manipuladas, como a segunda guerra do Iraque, levada a cabo para satisfazer a vaidade de George W. Bush e o desejo de mostrar a importância de alguns serviçais, como o Portugal de Durão Barroso. E depois há situações em que é difícil ver claro e o pacifismo vem a ser julgado como uma opção nefasta — mas regra geral, só depois da guerra travada e ganha. Talvez o caso mais notável — e, por isso, tantas vezes citado a propósito ou a despropósito — seja o acordo de Munique, assinado entre o PM inglês Neville Chamberlain e Adolf Hitler. Recebido triunfalmente em Inglaterra por uma opinião pública ainda traumatizada por uma guerra terminada apenas 20 anos antes e de uma ferocidade inaudita, Chamberlain seria impiedosamente julgado por Churchill: “Entre a guerra e a desonra, você escolheu a desonra. Mas terá a guerra.” Churchill não dispunha de muito mais informação do que Chamberlain sobre o grau de rearmamento da Alemanha ou a natureza profunda do nazismo. Mas tinha mais instinto político e nenhum medo da guerra, ao contrário de Chamberlain, que, antevendo o seu horror, queria evitá-la até ao limite. Na verdade, olhando friamente para os factos, ambos tinham razão: nada deteve Hitler e, menos de um ano depois de Munique, a guerra, inevitável e justa, começava; e o que se seguiu foi uma tragédia mundial.

Transplantando para os dias de hoje, com as devidas e muitas diferenças, poderíamos ver em António Guterres o Chamberlain de agora e em todos os que desfilam em Jerusalém, mais Netanyahu, mais Zelensky (este, aliás, já consagrado como tal) os Churchills do nosso tempo. Mas a percepção é falsa e parte de premissas falsificadas. Analisando aquilo que António Guterres disse no seu discurso perante o Conselho de Segurança da ONU acerca do conflito em Israel, podemos questionarmo-nos se, tal como já o havia feito no início do conflito na Ucrânia, a sua emotiva declaração não terá comprometido uma posição de intermediário, dele e da ONU, no conflito. Na Ucrânia, ainda conseguiu, depois de uma reacção negativa da Rússia, negociar com ela a saída de civis da Azovstal e o primeiro acordo de exportação de cereais ucranianos através do Mar Negro. Agora, a avaliar pela reacção de Israel, tal estará definitivamente fora de questão. O que, se diplomaticamente poderá ter sido uma precipitação, não significa que não tenha razão no que disse. Essencialmente, Guterres disse três coisas: que o ataque de 7 de Outubro do Hamas foi uma barbaridade que nada pode justificar; mas que esse ataque também não pode justificar a “punição colectiva” de todo um povo, como a que Israel está a levar a cabo em Gaza; e que o 7 de Outubro não apareceu do “vácuo”, mas de uma “ocupação sufocante” de 56 anos, em que os palestinianos foram expulsos das suas terras, viram as suas casas destruídas e ficaram condenados a viver em guetos, cercados de muros e instalações militares. Tudo isto é rigorosamente verdade, tudo isto seria intolerável em qualquer lado do mundo e tudo isto é feito à revelia das decisões das Nações Unidas. Nenhum secretário-geral da ONU pode ignorá-lo e deixar de insistir para que aquilo que a ONU decide seja aplicado. Ou então não está lá a fazer nada.

Numa televisão perto de mim, vi uma denominada “especialista em política internacional” dissertar contra Guterres e classificar a ONU como “pró-palestiniana” porque ao longo da sua história aprovou várias decisões contra Israel. Seguindo o seu raciocínio, a ONU não poderia então tomar posição sobre nenhum assunto, discutindo-o e votando: ou seja, teria a importância política e jurídica de uma reunião de Tupperware. Mas a “especialista” parece ignorar que a ONU não é uma entidade dotada de autonomia própria em matéria de decisões, mas sim o resultado da opinião de todos os seus membros, expressa na Assembleia-Geral onde estão representados todos os países do mundo, mais de 190, e no Conselho de Segurança, com 15 membros, 5 dos quais permanentes, com direito de veto. A Assembleia-Geral, senhora “especia­lista”, aprova moções, que não são vinculativas mas reflectem a vontade da maioria dos seus membros — e já aprovou dezenas condenando Israel; o Conselho de Segurança aprova resoluções, que são vinculativas para todos os membros da ONU — e já rejeitou dezenas condenando Israel graças ao veto protector dos Estados Unidos, mas, mesmo assim, aprovou algumas, nomeadamente a 242 e a 336, que são estruturantes juridicamente nos termos do conflito palestiniano e que, se tivessem sido cumpridas por Israel ou impostas pelos desfilantes de Jerusalém, não teriam conduzido à situação em que hoje estamos e que desembocou no 7 de Outubro.

Portanto, Srª “especialista”, não é a ONU que é pró-palestiniana, são os países que aceitaram os princípios da Carta das Nações Unidas, entre os quais Israel, os países que aceitam a prevalência do direito internacional, que condenam a ocupação israelita das terras dos palestinianos.

2 Poucos portugueses saberão quem é Umaro Sissoco Embaló e não perdem nada em não saber. Trata-se do pouco recomendável Presidente da pouco recomendável Guiné-Bissau, esse Estado cuja história independente tanto dignifica a confraria dos PALOP. Mas, além de se autodefinir, não como um ditador, como correntemente o vêem, mas apenas como “um defensor da ordem e da disciplina”, o ilustre Umaro Sissoco Embaló deve ter outros atributos de mérito tão elevados que levaram o Presidente Marcelo a atribuir-lhe a mais alta condecoração habitualmente reservada a Chefes de Estado estrangeiros: o Grande Colar da Ordem do Infante D. Henrique. Umaro Embaló passa, assim, a figurar ao lado de figuras como Nelson Mandela, François Mitterrand ou Lech Walesa, a quem outros Presidentes portugueses haviam atribuído idêntica condecoração. Não sei se o problema estará em Marcelo não conseguir encontrar mais ilustres pescoços prontos a inclinarem-se diante das suas generosas mãos ou na sua continuada incapacidade de conseguir entender que um Presidente não condecora em nome próprio ou das suas escolhas pessoais, mas em nome de todos nós e alguém que todos nós respeitemos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Mas onde estão as dúvidas?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 20/10/2023)

Enquanto vamos vendo desfilar imagens de terror, destruição e sofrimento humano de uma violência inaudita, assistimos aqui, paralelamente, a uma espécie de competição Benfica-Sporting pela primazia do mal ou a prevalência do bem, com cada lado a desafiar o outro a denunciar as vilanias dos seus, enquanto cala as dos próprios. Tal como na Ucrânia, o que interessa é a vitória dos nossos “bons” e a derrota dos “maus” deles, mesmo que no final tudo o que restar seja, como escreveu Eugénio de Andrade, “um horizonte de cidades bombardeadas”, ou “duas nações, a dos vivos e a dos mortos”, como escreveu Mia Couto. Mas eles acreditam que mais vale a sua razão sobre os mortos do que a paz entre os vivos.

Temos assim, de um lado, aqueles que não são capazes de dizer com todas as letras que o ataque do Hamas em Israel representou o ponto extremo da bestialidade humana, um verdadeiro festim da morte, levado a cabo — a palavra custa-lhes a sair da boca — por terroristas (e não me refiro aos jornalistas, que, tal como explica e pratica a BBC, não têm nem devem adjectivar como terroristas ou qualquer outra coisa um dos lados de um confronto). E temos, do outro lado, aqueles para quem o terror é exclusivo de organizações terroristas e os crimes de guerra, de uma crueldade programada, com que Israel se sacia há 10 dias em Gaza, são apenas uma “legítima defesa” e justa retaliação. Não por acaso, são os mesmos que vivem a denunciar os crimes de guerra e os ataques a civis da Rússia na Ucrânia, cuja dimensão e cenário de guerra não tem absolutamente nada a ver com o que está a acontecer em Gaza.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Mas será assim tão complicado tentar ver claro? Condenar, de todas as formas e em todas as circunstâncias, um terror como o de 7 de Outubro e exigir que o Hamas liberte os reféns que fez. Condenar também Benjamin Netanyahu e o seu Governo de extremistas e fanáticos religiosos, que vêm destruindo paulatinamente o Estado de direito em Israel e que, para protegerem os colonatos ilegais da Cisjordânia, deixaram o país indefeso contra o Hamas. Aceitar que Israel tem o direito de perseguir e caçar, um por um, todos os executantes e mandantes do 7 de Outubro, como o fez sempre ao longo da sua História, depois de Munique ou de Entebbe, depois de cada ataque mortífero do terrorismo islâmico, e através do Kidon, a unidade especial de extermínio do Mossad. Perceber que neste caso são muitos os inimigos a perseguir e isso levará muito tempo. Que a sociedade israelita, em estado de choque, exige uma reacção em força, a destruição da raiz do mal em Gaza, a eterna garantia do “nunca mais” e, simultaneamente, a libertação de 150 reféns: uma missão quase impossível e absolutamente impossível sem derramamento de sangue inocente. Mas não aceitar também que isso equivalha à destruição sistemática da cidade, à morte indiscriminada de civis debaixo dos bombardeamentos (que já vai em três mil, dos quais grande parte crianças), não aceitar a desculpa do “escudo humano”, que afinal foi Israel que proporcionou. Indignar-se contra a punição colectiva de todo um povo privado de água, alimentos, energia, intimado a debandar das suas terras e casas para aquilo que o Presidente Herzog garantiu ser uma “zona segura”, no Sul de Gaza, mas onde 600 mil fugitivos continuam privados de tudo, bombardeados na mesma e até impedidos por Israel de receber o auxílio internacional estacionado há dias do outro lado da fronteira egípcia. (Quando oiço o activíssimo embaixador de Israel em Lisboa dizer que “não há um problema humanitário em Gaza”, só posso concluir que ele não considera aquela gente como humana.) Nem tão-pouco se pode aceitar a estratégia, já denunciada por Hussein, da Jordânia, de Israel aproveitar a situação que está a criar em Gaza para “exportar” mais um milhão de refugiados palestinianos para fora do seu território, dando mais um passo em direcção à solução final: na Palestina, um só povo, um só território, uma só nação — a judaica. Por isso, finalmente, a comunidade internacional tem a obrigação de exigir a Israel que desvende os seus planos para quando der por terminado o exercício do seu direito, que será de defesa ou de vingança, conforme a dimensão e duração do mesmo. Porque não é aceitável a declaração do Presidente de Israel à CNN Internacional de que não será mais possível falar de paz ou de dois Estados com os palestinianos.

Saiba mais aqui

 

Mas essa é, sempre foi e continuará a ser a questão central: quando foi a última vez, desde a cimeira falhada de Camp David, em 2000, com Clinton, Ehud Barak e Yasser Arafat, que Israel quis falar de paz com os palestinianos? O que fez Israel desde então a não ser precisamente promover a emergência do fanatismo religioso dos islamistas do Hamas em Gaza para assim dividir os palestinianos e enfraquecer a OLP, o único interlocutor com quem poderia discutir? Foi uma brilhante jogada de estratégia política, que 20 anos depois — 20 anos de Sharon e Bibi — acaba agora de mostrar os seus resultados.

Ultimamente, e com o pretexto justamente de não ter interlocutor com quem negociar, Israel conseguiu, com sucesso, tirar partido do cansaço geral em todo o Médio Oriente de uma questão que parecia adormecida num impasse definitivo e experimentou a tentação de negociar a paz separadamente com vários países árabes, começando por Marrocos, a quem cedeu o seu sofisticado sistema de escutas em troca do reconhecimento diplomático. Daí até aos Acordos de Abraão, negociados sob a égide dos Estados Unidos, com vários países outrora inimigos, foi um passo — não pequeno, mas de gigante. Faltava a Arábia Saudita, o país do príncipe “assassino”, como lhe chamou Biden, antes de a necessidade política o ter obrigado a visitá-lo e a curvar-se diante dele. Mas faltava também outro dado essencial: em nenhum desses acordos bilaterais, incluindo o iminente acordo com os sauditas, estava presente qualquer cláusula sobre o destino dos palestinia­nos e muito menos sobre a criação do Estado Palestiniano, há tanto tempo reclamado pela comunidade internacional: era como se o problema não existisse, eles não existissem. Foi fácil ao Hamas explorar o sentimento de abandono que, a seguir à comunidade internacional, os palestinianos sentiram por parte do próprio mundo árabe. O 7 de Outubro do Hamas teve como objectivo político impedir, desde logo, o acordo com a Arábia Saudita e, antevendo e provocando a resposta sangrenta de Israel, levantar a rua árabe contra os acordos de paz negociados pelos líderes no silêncio dos seus palácios. E por mais selvática que tenha sido a acção desse sábado sangrento, aos olhos populares foi também a primeira vitória árabe contra Israel em muitos anos: morreram mil civis desarmados, mas morreram também 300 soldados israe­litas, cujas sofisticadas barreiras defensivas foram ultrapassadas. Desde o Yom Kippur, quando Israel foi atacado simultaneamente pelos exércitos de dois países, que não se via nada assim. Mas agora os atacantes que apanharam Israel de surpresa eram um exército de guerrilha, armado de AK-47 e granadas de mão fabricadas em casa. Chamem-lhes assassinos ou combatentes, eles mudaram todo o panorama estabelecido.

Agora seria altura para respirar fundo e pensar — um luxo que parece antes um milagre impossível de alcançar entre dois opositores que só pensam no extermínio mútuo. Mas deve saudar-se o extraordinário esforço diplomático que os Estados Unidos e o Presidente Biden têm estado a fazer para segurar a mão vingadora de Is­rael e obrigá-los a pensar. Fosse Trump o Presidente, e já tudo teria ido pelos ares. Fosse a UE a gerir a crise, e a sua gestão seria uma anedota dentro da tragédia.

Mas o que aí vem, por mais esforços diplomáticos americanos — os únicos viáveis —, não será nada de bom. Ou será mau ou será catastrófico. Para que fique de lição, convém não esquecer que tanto o Hamas como o actual Governo de Israel chegaram ao poder por voto do povo em eleições livres. Não há mesmo inocentes ali.

2 Por voto do povo e em eleições livres, duvido que Luís Montenegro alguma vez chegue a primeiro-ministro de Portugal. A menos que o PS um dia decida suicidar-se e pôr-lhe à frente, para lhe disputar o lugar, Pedro Nuno Santos. Mas, mesmo assim, não sei: a forma, o tom e as razões invocadas por Montenegro para anunciar o chumbo ao Orçamento, sem apresentar qualquer alternativa, ainda que vaga, para mim representam o fim da linha. Não vejo o que possa ainda sair dali que entusiasme um eleitor a votar num PSD dirigido por ele. Por mais que uma maioria possa estar cansada deste Governo, ou vir a estar, entre o cansaço de viver assim e a tentação do vazio não vejo os portugueses a embarcarem no navio-fantasma de Luís Montenegro.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Animais

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 13/10/2023)

Miguel Sousa Tavares

“Eles são animais e vamos tratá-los como tal”, esta declaração do ministro da Defesa de Israel, Yoav Galant, referindo-se aos palestinianos do Hamas (ou a todos os de Gaza?), ficará para a história, mas está errada. Os animais não fazem aquilo, só os homens são capazes de matar a sangue-frio inocentes por ódio irracional, por simples prazer ou em nome de Deus. Neste caso, em nome de Alá, o Misericordioso. Por temor, chamamos bestas aos animais que nos assustam, mas é a bestialidade humana que caminha connosco desde sempre e que faz da História da Humanidade um relatório incompreensível de atrocidades sem fim. Mas se elas são inexplicáveis à luz daquilo que nos imaginamos ser, a sua classificação moral é tão mais simples quanto maior é o horror. O ataque do Hamas de 7 de Outubro, visando essencialmente civis indefesos, é o horror, a bestialidade em estado puro. Cada um daqueles atacantes, no seu prazer assassino, não tem perdão nem justificação alguma. E sobre este ponto não há mais nada a dizer. O que não significa que isto possa ser o início ou o fim da conversa.

Esta história dura há 78 anos e é uma interminável saga de conflitos, guerras e massacres, que talvez um dia acabem por pegar fogo a todo o planeta. Dura desde a criação do Estado de Israel por deliberação da ONU, em 1948, e ocupando 77% do território da Palestina, onde quase todos eram palestinianos. Hoje, 74% são judeus e 21% palestinianos e o Estado de Israel, à revelia das Resoluções da ONU, ocupa 90% do território, incluindo Jerusalém Este, tem 250 mil colonos ilegalmente instalados na Cisjordânia e fez de Gaza, onde vivem mais de 2 milhões de palestinianos cercados por um muro, “a maior prisão a céu aberto do mundo”, nas palavras do ex-Presidente francês Sarkozy. Nenhum povo, nenhuma nação do mundo, excepto a mais desprezível, deixaria de se revoltar, e pelas armas também, contra aquilo que necessariamente veria como uma ocupação da sua terra. O “nosso” lado da narrativa pode chamar terrorista ao outro lado, como outrora a Autoridade Inglesa na Palestina chamava terroristas aos comandos judeus — dos quais um viria a ser primeiro-ministro de Israel. Sem dúvida que podemos chamar terroristas aos militantes do Hamas que atacaram um festival de música, matando, mutilando e raptando inocentes: vimos as imagens do ataque, vimos os corpos dos mortos e a proximidade da violência não permite outra linguagem. Mas o que chamaremos aos pilotos dos F-16 israelitas que, em retaliação (e antes até, por várias vezes) atacam edifícios de habitação em Gaza, sabendo que lá dentro estão civis, velhos, mulheres, crianças? A única diferença é que aqui as vítimas não estão num festival de música mas em suas casas, e, embora morram às dezenas de cada vez e sob cada bomba, não os vemos a morrer nem temos imagens da proximidade dessa violência. Mas não ignoramos que há um piloto treinado para a guerra que deliberadamente ataca alvos onde sabe que pode causar mais mortes civis. E há um Estado ocupante que se reserva o direito de cortar a água, a alimentação, a electricidade e a energia a mais de 2 milhões de civis cercados por um muro que ele ergueu, e manifestamente empenhado em fazê-los desaparecer todos dali, de uma vez por todas. E onde estão agora as vozes daqueles que tanto se indignaram, acusando a Rússia, de usar “a arma da fome”, quando esta, invocando, e com razão, o incumprimento do acordo de exportação de cereais pelo Mar Negro, recusou a sua renovação?

Podemos sempre dizer que não há inocentes nesta longa e fatídica história. Será verdade no que diz respeito ao terror e às retaliações mútuas sucessivas, mas não o é no que diz respeito à História.

Só por má-fé é possível ignorar que há um lado que funciona à revelia do direito internacional e das Resoluções do Conselho da Segurança da ONU e que tudo tem feito e fará para evitar que jamais exista um Estado Palestiniano viável ao lado do Estado de Israel. E há outro lado que tem o direito de não se conformar com isso.

Israel tem direito à sua existência e à sua segurança, os seus cidadãos têm direito a uma vida normal na terra que escolheram. E o outro lado, os do outro lado, também. Há dias vi na televisão o presidente da Associação de Amizade Portugal-Israel, lastimando-se, compreensivelmente, que os seus familiares em Israel tivessem de estar a refugiar-se em bunkers para se protegerem dos rockets do Hamas. Gostaria de lhe ter perguntado se, apesar de tudo, preferia sabê-los ali, protegidos pelo Iron Dome israelita contra os pífios foguetes palestinianos, ou na Faixa de Gaza, ao alcance dos mísseis da Força Aérea e da artilharia de Israel.

E não vale a pena virem com o argumento da superioridade moral, política e constitucional do Estado de Israel comparativamente ao mundo árabe. Claro que todos nós — eu, pelo menos — me revejo incomparavelmente mais no que são os valores de Israel, sobretudo os seus valores fundadores, do que naquilo que são os valores das sociedades islâmicas. Mas não só esses valores têm regredido drasticamente em Israel sob a influência sinistra dos ortodoxos e a liderança política desse traste que é “Bibi”, ao ponto de hoje pouco distinguir o fanatismo religioso do poder israelita do dos islamistas, como foi Israel quem fomentou a emergência do Hamas, contra o laico e muito mais moderado OLP, segundo o velho princípio de dividir para reinar. E quanto à questão de fundo, mesmo sem discutir o fundamento moral do argumento, acho que a História já nos deu suficientes lições para não valer a pena insistir na tese da ressurreição do espírito das Cruzadas. Depois do Iraque e do Afeganistão, já era tempo de este clube de idiotas que governam o mundo aprenderem alguma coisa de útil sobre o passado.

Saiba mais aqui

 

Portanto, afinal de contas, não é assim tão complicado: olhar o mal nos olhos e não desviar o olhar; entender a raiz do mal, sem o desculpar; procurar a solução que sabemos justa; e aplicar a mesma lei a todos, amigos e inimigos. Houve 70 anos para fazer isto e nada foi feito. Agora, chegados a este ponto, é esperar que os animais à solta se transformem milagrosamente em seres humanos lúcidos.

2 Se o Orçamento é, por natureza, uma gestão de expectativas futuras, o meu receio é que este Orçamento seja optimista demais. Continuar com um superavit nas contas públicas, manter apoios sociais, arrancar a sério com o investimento público e cessar as cativações, baixando para alguns os impostos directos e apostando numa descida da inflação, parece-me demasiado bom num ano que se anuncia com duas guerras no horizonte e instabilidade garantida nos mercados de combustíveis. Para quem paga impostos, a grande notícia é, finalmente, a actualização dos escalões do IRS, pondo fim à sua indecente subida sub-reptícia todos os anos, e a descida das taxas, mas só para quem ganha até €2 mil por mês — os outros são ‘ricos’. É que, tal como explicou esta semana Pedro Nuno Santos, os portugueses deviam deixar de pedir a descida do IRS, pois que se só 58% deles é que o pagam e, destes, só 17% pagam a sério, descê-lo para todos significaria ter de cortar na despesa pública ou ter de deixar de viver dos poucos pagadores esforçados.

Como sempre, o Orçamento tem coisas boas e coisas más, cuja análise não cabe agora aqui. E, como sempre, a oposição, toda ela, é contra o Orçamento — todo ele. Certamente terá ocasião de justificar melhor e mais detalhadamente porquê. E seguramente irá um pouco mais fundo do que a apreciação do líder da oposição, ao classificar o Orçamento como “pipi e betinho”. Francamente, Luís Montenegro é candidato a quê — a ser o mais engraçadinho do Café Central de Espinho?

P.S. — Sérgio Furtado, jornalista da TVI, que eu não conheço pessoalmente, acaba de receber o prémio Mário Mesquita de Jornalismo, da Sociedade Portuguesa de Autores, de que confesso desconhecia a existência. Fraco reconhecimento para quem tem feito na Ucrânia um longo e reiterado trabalho de reportagem de guerra — autêntico e não encenado, como alguns fazem, nomeadamente os repórteres-vedeta da CNN Internacional. Corajoso, objectivo, imparcial e despido de sensacionalismo: um verdadeiro exemplo daquilo que o jornalismo deve ser, mesmo nas mais difíceis circunstâncias. E neste país em que, a começar pelo Presidente da República, a mais banal das personagens é alcandorada ao estatuto de herói, este homem que diz não querer “estar apenas de passagem” por um país em guerra, para melhor o compreender, é digno de todo o respeito e admiração. Que a sorte o acompanhe sempre!

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.