Me(r)diologia

(Por José Gabriel, in Facebook, 08/10/2024)

Montenegro quer os jornalistas e os utilizadores das redes sociais, cegos, surdos e mudos.

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A propósito da conferência “O Futuro dos Media”, em que Montenegro botou discurso, gostaria de deixar aqui duas ou três notas.

1 – Notei que nenhum jornalista abandonou a sala, como deveria fazer quem ainda tem a coluna vertebral no lugar – eu sei, a dependência, o patrão, o medo, a vidinha. Quando não, a cumplicidade.

2 – Montenegro sonha montar uma limitação de liberdade de expressão – a começar pelas redes sociais -, onde há, acha ele, abuso de opinião que é preciso controlar. Salazar não diria melhor.

3 – O 1º ministro quer meter no bolso o que resta – que não é muito – da autonomia da RTP, retirando-lhe a publicidade o que, parecendo uma medida virtuosa, deixa a estação na total dependência do governo. Isto só poderia ser feito aprovando uma rigorosa legislação cautelar que protegesse a independência da RTP. Não vejo sinais de que tal possa acontecer.

4 – O tom severo-paternal usado chegou à repreensão pelos auriculares dos jornalistas, acusados de sopro alio-auditivo, momento cómico da tarde.

5 – Montenegro deixa escapar sinais uma cultura (?) autocrática – isto é um eufemismo – cujas sintomas parecem ser, ao próprio, opacos.

6 – A conferência do 1º ministro proporcionou a André Ventura a espantosa oportunidade de lhe fazer uma crítica pela esquerda!

7 – A sensação de irrealidade que estes eventos nos provocam, nem sequer tem o mérito de nos fazer flutuar numa elegante e imaginativa cena surrealista; apenas, na sua mediocridade, nos dá a ideia de que, em vez de água, chove merda.

A camisa-de-onze-varas

(Por Miguel Castelo Branco, in Facebook, 19/09/2024)


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Já todos terão compreendido que a camisa-de-onze-varas em que voluntariamente se meteu a Europa vai requerer uma habilidade extrema no retorno a um clima de desanuviamento e boa vizinhança com essa metade do continente que é a Rússia.

O futuro da Europa foi comprometido, pelo que não só o Leste corre grande perigo, mas também a Europa central e ocidental, pois o fito desta luta foi o de separar a Europa da Rússia, do Médio Oriente e da Ásia Central, privando-a de mercados e debilitando-a para a converter num mero apêndice norte-americano. Mas tão ameaçada como a Europa da UE foi a Rússia, ou não é esta o último Estado europeu com projeção mundial? Quem a quis ver destruída?

Para saber o motivo do ódio contra a Rússia de Putin, há que compreender o aspecto psicológico das fracas lideranças ocidentais, ou seja, a incontida raiva dos pequenos contra tudo o que é grande, posto que os adoradores do McDonald´s não queriam que o mundo terraplanado com que sonhavam, fosse contrariado pela aspiração à grandeza e à força saudável que emana de Moscovo.

Por ora, e já que subitamente todos falam de negociações e de paz, Putin venceu a partida e parece-nos que era bem exagerada a tese que dava a Rússia como vencida. Há dez anos, quando se começaram a adensar as nuvens que levaram à presente guerra, Putin fez os primeiros comentários verdadeiramente azedos e lúcidos às diferenças que separaram a Rússia dos EUA. Na altura, afirmou ter sido, «A América construída sobre o extermínio de milhões de homens e que a essa limpeza étnica se juntou a escravatura», para logo duvidar que «se Estaline, em Abril de 1945, possuísse a bomba atómica a teria mandado lançar sobre a Alemanha, tal como os EUA o fizeram sobre o Japão, uma nação sem essa arma». Indiferentemente de ter sido Estaline responsável por inumeráveis crimes, não queria ver a Europa desfeita, pelo simples mandato da geografia nos impor o facto de vivermos no mesmo continente.

Se, como tudo indica, a guerra não sobreviver até ao próximo ano, curiosos ficamos por saber quais os Estados europeus – e quem em sua representação e com que argumentos -, se voltarão a sentar à volta de uma mesa com os russos.

Não, o Serviço Nacional de Saúde não é um caos

(Por José Gabriel, in Facebook, 17/09/2024, revisão da Estátua)


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“Ao princípio era o Caos, a Noite, o negro Érebo…”, conta-nos Hesíodo, ao descrever a autocriação do Mundo. O Caos é, assim, a realidade primordial, o infinito e escuro abismo, o indeterminado, no interior do qual tudo se gerará por um processo a que os biólogos chamariam mitose, já que é um processo assexuado, por cisão de elementos, sendo que o Caos poderia ser considerado uma potência divina andrógina, da qual emergirão, numa elegante, poética – e dialética – sucessão as potências divinas primeiras – Gaia, Tártaros, Eros, Anteros –  da interação das quais toda a realidade devirá – incluindo os deuses, que só no final deste processo têm direito à existência, não tendo, portanto, nenhum papel nesta história.

Muitos séculos mais tarde, o poeta romano Ovídio, com aquele despachado espírito latino, identificou a noção de Caos com confusão e desordem, dando ao conceito diferente sentido e compreensão do que se encontra na complexa teia narrativa da Teogonia do poeta grego.

E a noção lá se foi degradando, como se o mito das idades, também narrado por Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias – a Idade do Ouro, a Idade da Prata, a Idade do Bronze, a Idade dos Heróis e a atual, Idade do Ferro; atual para o poeta, já que, passados todos estes séculos, nós podíamos, pelo menos ao ver a nossa televisão, acrescentar-lhe a Idade dos Calhaus – ganhasse nova razão. E assim, desde o divino Hesíodo, passando pelo descuidado Ovídio, aos comentadores, produtores de notícias, fabricantes de percepções p’ró povo, a beleza e a grandiosidade da inicial ideia de Caos, foi-se transformando em caos, dispositivo rasca de manipulação de consciências ao serviço de quem mais pagar aos seus titereiros.

Que bizarro percurso argumentativo é este que aqui percorres, descuidado José? – perguntareis.

Eu explico. Depois de ouvir, em vários canais de notícias televisivos, a palavra caos aplicada ao Serviço Nacional de Saúde, e constatando que os métodos de montagem de notícias e linguajar narrativo não diferem muito do que já víamos aquando do governo anterior, notamos que alguma coisa está a decompor-se, já que o cheiro não engana.  Quer dizer: parece que a alguém interessa – muito para lá do âmbito de um confronto partidário – fazer germinar na consciência dos cidadãos a noção e a convicção de que o SNS está um caos, se reduz a um caos, e que importa alguém pôr mão a esta situação. Quem? Há alguns anos, os dois partidos eleitoralmente dominantes, PS e PSD – apesar das diferenças óbvias, já que o primeiro votou a favor da fundação do SNS e o segundo votou, desde logo, contra -, argumentariam entre si qual dos dois seria capaz de tal façanha.

Mas, notem: hoje, as cloacas televisivas não poupam na adjetivação, nas mentiras, nas deformações torpes da realidade e do acontecido, mesmo com a direita no poder. Como nenhum de nós acredita que a comunicação social televisiva – e não só – o faz por escrúpulo e corajosa vontade de servir a verdade, pois há muito que a verdade é a última coisa que interessa a esta gente, forçoso é concluir que esta violenta campanha de distorção da realidade e de mentira grosseira – de onde estão sistematicamente ausentes a crítica procedente e a vontade de informar com probidade e verdade – sobre o SNS, esta brutal pressão sobre a consciência dos incautos, só tem uma explicação e ela está cada vez mais à vista: os interessados, os donos dos grandes grupos privados que sobrevoam o sector da Saúde – desde os Hospitais às seguradoras, passando por outros poderosos interessados – já não se satisfazem com a fatia que recebem do orçamento da Saúde, já não lhes chega o poder fáctico que já têm neste domínio. Já nem lhes chega o serviço dos seus mainatos ministeriais, os quais lhes vão fazendo o jeito consoante a fragilidade ou fortaleza das suas consciências – longe de mim igualá-los nas suas práticas e intenções -, lhes vão ajeitando os mecanismos de gestão e governo das Unidades de Saúde, até que os seus principais protagonistas – os seus profissionais e os seus utentes – percam complemente qualquer controlo eficaz sobre a sua direção, objetivos e funcionamento.

Numa palavra: eles já não se contentam em condicionar a ação de governos e ministros; eles querem governar e promover diretamente os seus interesses. Para isso, já têm ao seu serviço o aparelho ideológico que mora nos esgotos televisivos, os quais não se cansam de falar do tal caos sem produzir uma única notícia sobre o seu extraordinário desempenho – por vezes proezas! -, sobre a dedicação e sobre as competências que habitam nas unidades públicas de Saúde. E bem sabemos como mecanismos ideológicos de manipulação condicionam a perceção da realidade e, a partir daí, promovem comportamentos desadequados e visões do mundo distorcidas.

A manobra está a caminho. E nunca este jogo esteve tão perigoso, E não nos enganemos: a triste amostra de ministra da Saúde que agora governa não é a doença, por muito torpes que sejam algumas das suas intervenções. Ela é um sintoma. Uma verruga. De uma doença que nos pode ser, política e fisicamente, fatal.

 E não, o SNS, com todas as suas dificuldades e insuficiências não é o caos, não é um caos. Mas pode vir a ser um defunto, se quem deve cuidar não tiver a coragem que se impõe. Se os cidadãos não sacudirem a poeira da indiferença, lavarem os olhos das ilusões, endireitarem a coluna. E ouvir quem, verdadeiramente, está com eles.

Finalmente, ocorre perguntar a razão deste ódio do capital e suas metástases liberais a um sistema tão obviamente bondoso como o SNS? Os interesses, sim, são muitos milhares de milhões em causa e os gulosos bem sabem que há que sugar depressa os recursos, pois um sistema de saúde convencionado com a iniciativa  privada – para além dos casos razoáveis e já hoje praticados – é financeiramente insustentável seja para que país for.

Mas o ódio tem raízes mais profundas que o interesse e a cupidez, por muito que estas sejam determinantes. Lembrem-se de que os serviços nacionais de saúde surgiram no pós-guerra, em países da Europa do Norte, na altura governados por coligações e/ou acordos entre sociais-democratas e comunistas. E correspondem ao que de mais generoso e avançado havia nos projetos e pensamento político do tempo, obedecendo à mais avançada aspiração de Marx, “de cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades”. Nenhuma outra instituição dos estados modernos se aproxima, sequer, deste nível de exigência, desta excelência ética e política. E se os cidadãos se lembrassem de aplicar este objetivo a outras realidades sociais?  Daí, suscitar ódios verdes a quem sonha apropriar-se dos recursos públicos distribuídos pelo sistema e impedir que este possa, outrossim, progredir e positivamente contaminar outros domínios do Estado. Daí, a urgência de as populações defenderem o SNS a todo o custo. Quem não percebeu que esta é uma questão de vida ou de morte, acorde. Antes que seja tarde.