Chega: sexo, mentiras e Deus

(Paulo Pena, in Público, 28/09/2025)


A mobilização da extrema-direita nos EUA, no Brasil e em Portugal é enigmática. Dois filmes e o livro Por Dentro do Chega revelam como a religião e as redes sociais são aproveitados.


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Numa pequena cidade dos EUA, um contabilista obeso morreu subitamente no seu cubículo de trabalho. No seu funeral estavam apenas a mulher e os filhos, que mal o conheciam. O homem vivia em frente ao computador e falava pouco. Nessa mesma noite, longe da família enlutada, houve outro funeral. “Ajax”, a personagem que o contabilista protagonizava num jogo de computador, foi homenageada por milhares de pessoas, no mundo inteiro, que nunca viram o contabilista solitário, não sabiam quem era ou onde morava. Esse funeral foi épico, com amigos, aliados, inimigos e adversários, que celebravam os feitos heróicos de Ajax naquele jogo. Afinal, qual era a “vida” realmente importante do homem que morreu? Na realidade ou no jogo?

Esta história é contada por Steve Bannon, o antigo conselheiro de Donald Trump, que dirigiu a sua campanha vitoriosa em 2016, no filme American Dharma, de Errol Morris (2018). Bannon argumenta que o “destino” (dharma) da vida de milhões de pessoas está vazio — e pronto a ser preenchido por quem o saiba compreender. “Vem aí uma revolução”, explica o guru de Trump a um céptico realizador que o tenta confrontar. Bannon e Morris não parecem discordar sobre as causas desse vazio: as classes médias sentem-se hoje como os servos russos do século XVIII, ou como hamsters numa gaiola, concede Bannon, enumerando as razões materialistas que levam muitas pessoas a refugiar-se nos jogos, nas teorias da conspiração e na ficção para encontrar um sentido para as suas vidas. Estão reféns do sector financeiro e entregaram a sua auto-determinação às plataformas digitais e à inteligência artificial — tudo isso é verdade, argumenta o estratega político. Mas para se entender a mobilização que alimenta esta corrente política que nem sequer tem um nome consensual — “direita radical”, “extrema-direita” ou “direita populista” — é preciso juntar à realidade os mecanismos da pura ficção. Aqueles que procuram um sentido são os combatentes da “guerra” que os políticos como Trump, Ventura ou Bolsonaro seduzem para travar.

Um grande actor

Não será por acaso que Miguel Carvalho, jornalista que investigou o Chega nos últimos cinco anos, escolheu começar o seu livro (Por Dentro do Chega, com a chancela da Objectiva) por uma história que André Ventura criou. Ameaçado por uma suposta investigação judicial que pretendia prendê-lo — mas nunca existiu —, Ventura refugiou-se na luxuosa Quinta das Nespereiras, em Odiáxere (Lagos). O proprietário, Arlindo Fernandes, militante do Chega, conta que viu chegar, “borradinhos de medo”, o líder do partido e a sua mulher, mais um grupo restrito de dirigentes. Estávamos em 2020 e Ventura era deputado. O seu plano era passar à “clandestinidade”, numa lancha rápida com destino a Tânger, Marrocos. Um político como Ventura precisa de criar uma personagem, com um “destino”, um arco narrativo. É esse mecanismo que o liga aos votantes — mais de um milhão e 400 mil nas últimas legislativas.

Miguel Carvalho recolheu centenas de testemunhas, de dirigentes e militantes do Chega. Muitos, certamente sem conhecerem a teoria de Bannon, apontam essa explicação “Ajudei a nascer o Chega porque acreditei que era algo que Deus queria que eu fizesse. Entretanto, o André revelou-se um Saul e não um David. É um grande actor,” diz Lucinda Ribeiro, a mulher nascida em Meimoa, Penamacor, que organizou o crescimento do Chega nas redes sociais. A seu lado trabalhava outra mulher, de origem social bem diferente: Patrícia Sousa Uva gosta de se chamar a si própria de “dondoca”. O seu testemunho sobre Ventura também revela uma personagem construída: “É uma mistura de padre com chico-esperto do futebol de Mem Martins.”

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O grupo que geria as redes sociais de Ventura incluía ainda Gerardo Pedro, de Santarém. “Via-o a ralhar na CMTV, no ‘Rua Segura’, e deixei-me ir naquela conversa, era música para os meus ouvidos…” Hoje, Lucinda, Patrícia e Gerardo deixaram de se rever na personagem. “Sinto vergonha de ter andado nisto. Não é o que quero, nem para a minha filha… Este homem não pode governar o país. Não pode”, diz Gerardo Pedro. Mas o seu trabalho (muitas vezes de sapa, com perfis falsos, montagens e difamações sobre outros políticos) permitiu a Ventura libertar-se da sua ajuda. O líder é a personagem, como revela o livro: 80% dos fundadores do Chega já saíram do enredo.

Religião e política

“O meio é a mensagem”, explica Bannon ao cineasta americano (e seu adversário político) Errol Morris. Não se trata de uma citação nova, nem original. Quando Marshall McLuhan a escreveu, em 1967, não havia X, nem TikTok, nem Facebook, nem Youtube, ou qualquer das “redes” onde a maioria das pessoas hoje forma as suas opiniões, e onde os políticos da direita radical “pescam” os seus apoiantes. Mas a ideia continua a fazer sentido, seja ali ou na televisão, que reproduz de maneira acrítica os vídeos — encenados ao detalhe — que Ventura diariamente protagoniza.

As redes substituíram os media e têm consequências — pessoais, políticas, económicas, estéticas, psicológicas, morais, éticas e sociais — que nenhuma força política tradicional, de esquerda ou de direita, parece compreender. A extrema-direita foi hábil a identificar esta mudança estrutural no debate político. As redes são a sua casa (e o dono do X, Elon Musk, faz saudações nazis para os acolher).

“Aqui a gente destrói os caras”, explica Silas Malafaia, mostrando o seu telemóvel. É um pastor evangélico, celebridade nas redes e na televisão brasileira. Ele é a personagem principal de Apocalipse nos Trópicos (Netflix, 2024), o mais recente documentário da brasileira Petra Costa.

Entrevistado ao longo dos últimos anos, em visitas pessoais a Bolsonaro no Palácio do Planalto, ou a viajar no seu avião privado que — gaba-se — custou mais de um milhão de dólares, Malafaia é um religioso que quer ser influente na política, depois de ter herdado uma igreja evangélica que há dez anos tinha 15 mil fiéis. “Tem 100 mil agora”, exclama. “Evangélicos e católicos somos a maioria absoluta do país! A democracia é a vontade da maioria absoluta”, teoriza o evangélico rico.

Essa via para um regime político de faceta teocrática não existe apenas no Brasil ou nos Estados Unidos. Já chegou a Portugal há algum tempo. Lucinda Ribeiro é não só uma eficaz “guerreira” nas redes sociais, mas abriu as portas do Chega a um grupo demográfico novo: o voto evangélico.

Só na região de Lisboa há mais de mil igrejas evangélicas. As mais pequenas têm menos de 100 pessoas, enquanto as maiores (como a IURD ou a Igreja Maná) organizam muitos milhares. Miguel Carvalho aponta alguns nomes curiosos de congregações: “Assembleia de Deus Fogo para a Europa”, “Igreja Baptista Cristo Vive em Células”, “Igreja do Avivamento em Portugal”, ou “Igreja Evangélica Bola de Neve”.

Estas igrejas são espaços comunitários, raros, nas nossas sociedades, quando quase todas as formas de organização (incluindo a Igreja Católica, os sindicatos, as associações culturais) estão em crise. No início deste século, os evangélicos representavam 5% da população brasileira, sendo agora quase um terço dos 212 milhões de habitantes do Brasil. Ricardo Marchi, observador (muitas vezes participante) do Chega é citado por Miguel Carvalho: “Muitos evangélicos comprometeram-se com o Chega desde o início, compartilhando vídeos e textos de fiéis brasileiros contrários à agenda da esquerda (principalmente política de género e mobilização LGBTQIA+).”

Ventura deixou nas redes o convite: “O Chega é a religião dos portugueses comuns”; “Nós somos como aquelas seitas religiosas: fortíssimos”; “Sou muito religioso e acredito que o que me aconteceu a mim e ao Chega na História de Portugal, desde o meu percurso de comentador até ao Parlamento, é um milagre”; “Quero todas as igrejas cristãs com o Chega. Todas. Sem medo nem preconceito”; “Deus no Comando!”

“Olham para Ventura como Messias político e testa de ferro dos seus interesses”, explica, no livro de Miguel Carvalho, João Viegas, pastor evangélico português. “Somos um partido de fanáticos religiosos”, acrescenta Luís Alves, ex-dirigente do Chega, em Sintra.

Poder, dinheiro e favores são a moeda de troca neste negócio político-religioso, detalha o livro.

Silas Malafaia é um exemplo vivo: em 2002 apoiou Lula; em 2012 José Serra; em 2014 Aécio Neves; e em 2018 e 2022 Jair Messias Bolsonaro. Já apostou em todas as cartas do baralho político brasileiro. Nas últimas eleições (que perdeu para Lula da Silva), Bolsonaro recebeu os votos de 70% dos eleitores evangélicos.

Dois dias depois da eleição de 2018, Bolsonaro foi a um dos espectáculos religiosos de Malafaia, que ia dizendo, enquanto apontava para o Presidente eleito: “Deus escolhe as coisas loucas, as coisas vis, as coisas desprezíveis. É por isso que Deus te escolheu!”

Bolsonaro, Ventura ou Trump não precisam de ser “heróis”. Longe disso. São personagens políticas, e assim são vistas por muitos dos que os apoiam. Podem não ter palavra, desdizer-se, contradizer-se, errar, ser maldosos, cruéis, impreparados, boçais. Como diz Malafaia, “loucos, vis e desprezíveis”. Nenhuma dessas falhas lhes rouba votos, como demonstram as eleições na última década.

Em Por Dentro do Chega, Miguel Carvalho detalha as relações de Ventura com magnatas dos media (Marco Galinha e Mário Ferreira), com vendedores de armas, industriais e donos das maiores herdades do país. E, ainda assim, é visto como o político que quer acabar com o “sistema”. Nas páginas de Miguel Carvalho, constatamos que grande parte dos dirigentes, deputados e financiadores do Chega são investidores e negociantes de imobiliário. O preço das casas bate recordes e cria uma crise social profunda, mas o Chega é o partido que mais sobe nas eleições. O próprio André Ventura, imediatamente antes de se dedicar à política, aconselhava candidatos a vistos gold em negócios de compra de prédios. “Ventura provou que não é anti-sistema, é o próprio sistema”, critica uma antiga candidata do Chega em Braga.

Ficção e realidade

Essa candidata esteve em guerra com uma outra militante do partido que contradiz o senso-comum. Cibelli Almeida, pernambucana, veio para Braga com o marido, em 2011, para se matricular no doutoramento em Comunicação na Universidade do Minho. Juntou-se à Igreja Cristã Presbiteriana de Portugal. É contra o aborto, a “ideologia de género” e as uniões homossexuais. Com Maria Helena Costa (que submeteu o filho a “terapias de conversão sexual”), fundou a Associação Família Conservadora, que “compara desejo sexual masculino, pedofilia e homossexualidade”, segundo Miguel Carvalho. Manuel Matias — pai de Rita Matias — recrutou-as para as listas do Chega em Braga.

Mas havia outro tipo de religiosos que disputavam os lugares nas listas. Filipe Melo, sobrinho-neto do cónego Melo (activista anticomunista e ligado ao movimento terrorista MDLP), é o líder distrital do partido, e deputado em São Bento. Para os seus apoiantes, os evangélicos não passam de “uma seita”. Um deles fez um vídeo em que lambia uma bala e publicou-o nas redes sociais, como ameaça. Por isso, Filipe Melo escreveu nas suas redes um recado para Cibelli: “Não vai ser uma BRASILEIRA que vai mandar nos destinos de um partido nacionalista, patriótico.”

Cibelli Almeida fez queixa, dizendo que Melo era “xenófobo e machista”, o deputado alterou o texto, substituindo “BRASILEIRA” por “senhora”, mas manteve o resto. O líder pacificou-os: “Deus pode estar a usar o André Ventura para mudar a história de Portugal, como utilizou Bolsonaro para mudar a história do Brasil”, conclui a doutoranda ante a incredulidade do jornalista.

No documentário de Petra Costa, as imagens mostram o que foi essa mudança histórica. A 8 de Janeiro de 2023, as sedes do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, em Brasília, foram invadidas por hordas de pessoas, em transe religioso e político, que partiram estátuas, paredes, janelas, mesas e cadeiras, defecando nas sedes do poder político e judicial. Enquanto o faziam, proclamavam para os seus telemóveis que “o bem venceu o mal”. O fervor revolucionário que as anima — em Brasília, Washington, ou Portugal — é a “guerra” que Bannon antecipou, uma guerra em que a ficção invade a realidade.

“Ventura provou que não é anti-sistema, é o próprio sistema”, critica uma antiga candidata do Chega em Braga.

Miguel Carvalho recolheu depoimentos que ilustram este fervor escatológico em Lisboa. A senhora que limpava a sede do partido revela que “por vezes a sede parecia uma taberna! Rasca! Enfrascavam-se de uma maneira… Se esta gente governasse o país, eu emigrava…”

Não faltam, neste livro, provas de problemas sérios: trata-se de um partido sem democracia interna, onde o poder está concentrado nas mãos de André Ventura e que recebeu financiamentos ilegais. Na vida interna do partido, gravações não autorizadas, campanhas difamatórias, ameaças e agressões entre militantes e dirigentes são comuns. Tudo isto foi verificado através de documentos e testemunhos, mas não encaixa na construção narrativa que sustenta a imagem pública do Chega.

Depois de ler estas páginas, e de ver os documentários de Errol Morris e Petra Costa, também não restam dúvidas de que há um real fundo ideológico de extrema-direita nos slogans, nos métodos e nas intenções destes políticos. Mas essa é apenas a ponta do icebergue.

A ideologia ali é como uma ementa de restaurante, explica Miguel Carvalho. Cada um dos votantes, e mesmo dos dirigentes, escolhe o seu prato, mesmo que deteste a maioria da oferta. Na entrevista a Errol Morris, Steve Bannon diz o mesmo: “Se dermos cinco coisas por dia, três acabam por passar.”

Os dirigentes do Chega parecem não estar de acordo sobre nenhuma das bandeiras mais conhecidas do partido. Não são todos anticiganos, alguns são imigrantes (como Luc Mombito, o único amigo de juventude que André Ventura não traiu nas lutas internas), e vários cabem na definição de “bandidagem” com que o líder enche a boca.

O único ponto da ementa em que toda a gente parece estar de acordo é o sexo e a guerra de géneros que os anima. Orgulham-se de ser antifeministas, temem que as mulheres tenham demasiado poder, que os homens estejam a ser subalternizados, receiam que a homossexualidade esteja a ser ensinada nas escolas. No final de um congresso em Sagres, André Ventura — imitando Trump — dançou ao som de YMCA, a música dos Village People, em palco. Gerardo Pedro subiu ao palco, indignado: “Mas o que é esta merda?! Não tens vergonha de estar aqui a dançar a música dos rabetas?!”.

Curiosamente, isso parece fornecer a Trump, Bolsonaro e Ventura a bandeira da liberdade. Não estão apenas a “lutar contra as trevas” (Silas Malafaia), ou a deixar que o povo siga o seu dharma, mas a quebrar as grades do que chamam de “politicamente correcto”. A liberdade que Petra Costa vê no dever da democracia — “proteger o que é vulnerável da força bruta” — fica em cacos na marcha marcial dos algoritmos e das missas que alimentam esta revolta a que assistimos.

Steve Bannon gosta de repetir uma frase estranhamente ameaçadora: “É melhor reinar no inferno do que servir no céu.” (John Milton, Paraíso Perdido).

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Genocídio em Gaza: que diremos aos nossos filhos?

(António Garcia Pereira, in NoticiasOnline, 25/09/2025)

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Mais que tardiamente, Portugal reconheceu finalmente o Estado da Palestina, e apenas porque já o haviam feito, ou estavam a fazê-lo, outros 155 Estados. O Governo da AD tomou essa decisão, ainda assim com a discordância do CDS, não por convicção, muito menos por uma posição de princípio contra o genocídio do povo palestiniano praticado em Gaza pelo governo sionista de Israel, mas simplesmente para não ficar totalmente isolado perante os seus parceiros, desde logo a própria Europa.

Europa essa que, sob o comando da senhora Ursula von der Leyen e invocando pretextos como o do “direito de defesa de Israel”, persegue e encarcera violentamente manifestantes pró-Palestina, como sucede em França ou na Alemanha, onde o simples acto de empunhar uma bandeira palestiniana serve de pretexto para tal repressão. Também na Europa, o Reino Unido declara como terrorista uma organização pró-Palestina (Palestine Action) e persegue e prende os seus membros ou apoiantes. Tudo isto ao mesmo tempo que os diversos governos europeus mantêm relações diplomáticas, comerciais e militares, inclusive o fornecimento de armamento e munições, com o governo de Israel.

Deste modo, sob pena de o reconhecimento do Estado da Palestina não passar de um gesto de profunda hipocrisia, e sob pena de o genocídio prosseguir, impune e sem entraves, é preciso cortar todos os apoios e todas as relações com Israel. Porque do que se trata, em particular em Gaza, é verdadeiramente de um genocídio, tal como a própria ONU já declarou formalmente.

Não esqueçamos – e não o esqueçam sobretudo os mais “distraídos” ou ignorantes, a começar pelos comentadores do pensamento sionista dominante – que a “Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio”, adoptada por unanimidade pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 9 de Dezembro de 1948, através da Resolução n.º 260, e que entrou em vigor a 12 de Janeiro de 1951, define o genocídio precisamente nos seguintes termos:

Artigo 2.º

Na presente Convenção, entende-se por genocídio os actos abaixo indicados, cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, tais como:

a) Assassinato de membros do grupo;

b) Atentado grave à integridade física e mental de membros do grupo;

c) Submissão deliberada do grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição física, total ou parcial;

(…)

Assim, despojar uma população inteira das suas casas, destruir essas casas, expropriá-las das suas terras, privá-la de quaisquer direitos, arrasar cidades e vilas inteiras e condená-la à morte por fome e doença, isso já não é apenas apartheid; é genocídio. Mas, sobretudo, é genocídio matar deliberada e sistematicamente dezenas de milhares de adultos e de crianças que simplesmente procuram comida, que se dirigem a um hospital ou aí são tratados, ou que se deslocam por corredores que as próprias tropas israelitas lhes indicaram como sendo seguros.

E atinge-se o cúmulo da brutalidade e da desumanidade quando os sionistas e os seus propagandistas se atrevem, de forma arrogante e provocatória, a proclamar que “não há fome em Gaza”, que não bombardeiam hospitais, mas apenas “refúgios do Hamas”, e que, quando um atirador israelita mata deliberadamente a tiro crianças com uma tigela vazia na mão, tal é feito por um bem maior e não constitui assassinato de crianças, mas sim a eliminação de futuros terroristas!

Tudo isto enquanto se abatem, sem dó nem piedade, jornalistas (cerca de 200, e mais em apenas dez semanas do que qualquer outro exército no mundo num ano inteiro!) no próprio exercício das suas funções, como já vimos suceder inclusive em directo, simplesmente porque os genocidas não querem testemunhas.

Os judeus que justamente proclamam e denunciam “Não em nosso nome” são, por toda a parte, dura e violentamente atacados e perseguidos. Tal como o são também os militares, sejam eles americanos ou israelitas, que denunciam o genocídio ou se recusam a participar nele.

É preciso afirmar, com todas as letras, que o que estamos hoje a assistir é, tal como no tempo do Terceiro Reich, a uma brutal limpeza étnica: a eliminação física de toda uma população sob argumentos de matriz nazi, como o de que são seres inferiores ou mesmo animais. E os judeus que o praticam, bem como os que a apoiam, são autores de um verdadeiro crime contra a Humanidade e estão, afinal, a fazer precisamente o mesmo que os nazis lhes fizeram nos anos 30 e 40 do século passado.

Todos aqueles, judeus e não-judeus, que fingem ignorar toda esta sanguinária barbárie têm as mãos sujas de sangue palestiniano. Deviam pensar seriamente no que farão amanhã, quando o manto de silêncio, de manipulação e de contra-informação já não puder encobrir a terrível realidade e brutalidade do genocídio em curso, e no que irão dizer aos seus filhos ou netos quando estes, justamente, lhes perguntarem: “E tu, o que fizeste para denunciar e combater todo este horror?”

O corte imediato de todo o tipo de relações e cooperações com Israel; o fim do fornecimento de quaisquer bens, em particular de natureza militar; o boicote à participação israelita em quaisquer eventos, seja qual for a sua natureza; e a perseguição criminal dos responsáveis por crimes de guerra – com Netanyahu, os seus ministros e os chefes militares à cabeça – são exigências que já não são apenas democráticas, mas, acima de tudo, humanitárias e mesmo civilizacionais.

Vamos hesitar e fingir que não vemos nem compreendemos, ou vamos lutar, sem esmorecer, para que essas exigências se cumpram e a Justiça seja realizada?

Fonte aqui

Trump a gozar com quem trabalha

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 27/09/2025)


É com uma ironia mordaz que Trump se afasta da guerra na Ucrânia e transfere “a pasta” para os europeus. Mentes ingénuas esperavam outro desfecho julgando que Trump não se lembraria da forma como foi tratado pelos europeus durante a campanha eleitoral norte-americana e de que lado da barricada estiveram.


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Trump fez furor na Assembleia-Geral da ONU. Qual um Jedi, com o sabre de luz em riste pronto a desferir golpes contra qualquer força do mal ou ideia malévola que se atravessasse no seu caminho (migração, alterações climáticas, transição verde, Tribunal Penal Internacional, etc.). No seguimento desta performance e de um encontro de sete minutos com Zelensky, Trump publicou na sua rede social um post que deixou muita gente em transe, dando a sensação de uma mudança súbita de posição sobre a guerra na Ucrânia, passando a apoiar incondicionalmente e sem reservas a causa de Kiev.

Trump teria adotado a narrativa de Zelensky, a dos dirigentes europeus e do seu enviado especial Keith Kellogg. Trump teria abraçado os objetivos maximalistas de Zelensky. Mas será mesmo assim? uma leitura cuidadosa nas entrelinhas do post mostra-nos sinais claros de algo muito diferente.

“Penso [Trump] que a Ucrânia, com o apoio da União Europeia, está em posição de lutar e reconquistar toda a Ucrânia na sua forma original. Com tempo, paciência e o apoio financeiro da Europa e, em particular, da NATO, as fronteiras originais de onde esta guerra começou são uma opção muito viável. Por que não?”

E acrescentou, “A Rússia tem lutado sem rumo há três anos e meio uma guerra que deveria ter levado menos de uma semana para ser vencida por uma potência militar real… Na verdade, parece um «tigre de papel». Quando as pessoas que vivem em Moscovo e em todas as grandes cidades, vilas e distritos da Rússia descobrirem o que realmente se passa com esta guerra… onde a maior parte do seu dinheiro está a ser gasto na luta contra a Ucrânia… que será capaz de recuperar o seu país na sua forma original e, quem sabe, talvez ir além disso! Putin e a Rússia estão em GRANDES dificuldades económicas, e este é o momento para a Ucrânia agir.”

Como dizem os anglo-saxónicos, last but not the least. O melhor estava para vir. Trump terminou o post desejando o melhor para ambos os países. “Continuaremos a fornecer armas à NATO para que a NATO faça o que quiser com elas. Boa sorte a todos!”

Por outras palavras, sendo os russos uns inúteis, estarem a combater há três anos e meio sem objetivo, com a economia à beira do colapso e filas sem fim para comprar gasolina por toda a Rússia, deverá ser fácil para a Ucrânia ganhar a guerra. Perante o estado calamitoso do tigre de papel russo, a Ucrânia vai ser capaz de prevalecer sem a ajuda norte-americana.

Como a UE está a fornecer à Ucrânia a ajuda de que esta necessita e como a Ucrânia, segundo Trump, tem um grande espírito de luta, vai ser capaz de reconquistar o seu país. Ou seja, se Kiev continuar a atacar a vitória será sua, nem precisará de parar nas fronteiras de 2014, podendo marchar até Moscovo, se assim o desejar. Será difícil ler as palavras de Trump sem entrever uma grande dose de ironia e sarcasmo. Há mais quem faça uma interpretação muito semelhante das suas palavras.

O correspondente-chefe do The Telegraph nos EUA Rob Crilly afirmou que Trump está a lavar as mãos da guerra na Ucrânia. “O que à primeira vista parece uma reviravolta impressionante pode, na verdade, ser uma má notícia para Volodymyr Zelensky.” Depois de perceber que não vai conseguir acabar com a guerra nem convencer Zelensky da posição de extrema vulnerabilidade em que se encontra, Trump está a informar o mundo de que os Estados Unidos se vão afastar do conflito, como tinha vindo a sugerir.

Trump não prometeu apoios adicionais à Ucrânia nem intensificou as ações sancionatórias e punitivas à Rússia. Ao invés, está a passar a responsabilidade pela resolução do conflito para a Europa e para a NATO, leia-se, para o pilar europeu da NATO, uma vez que os EUA também dela fazem parte. O seu objetivo, esse inequívoco, é o de continuar a vender armas aos europeus para continuarem a apoiar o esforço de guerra ucraniano.

O editor de defesa e segurança do Guardian Dan Sabbagh publicou um artigo em que, no fundamental, reiterou as mesmas ideias. A mudança de tom de Trump é valiosa para a Ucrânia, mas é preciso mais do que palavras. Segundo Sabbagh, para além de Trump não se mostrar muito convicto da sua implementação, o endurecimento das sanções económicas não irá ajudar a Ucrânia a vencer a guerra.

Ao condicionar as sanções à Rússia pela imposição prévia de sanções pelos europeus – que ele sabe serem irrealizáveis – como sejam a interrupção de todas as importações de petróleo e gás russo e sanções secundárias a outros países que comprem petróleo a Moscovo, como a China e a Índia, Trump está a fazer bluff. Está ciente de que os europeus não têm capacidade para lhes impor tarifas de 100%. Apostou que não o iriam fazer e acertou.

Sabbagh vai ainda mais longe e diz que um fornecimento mais concertado de armas dos EUA certamente ajudaria a Ucrânia, mas não a ajudaria a vencer a guerra. Sublinha ainda que a “necessidade mais premente da Ucrânia é melhorar a sua defesa aérea. Mas não é isso que Trump lhe está a oferecer. É conhecido o nível em que se encontram os arsenais norte-americanos. Em contrapartida, Trump aconselhou a Ucrânia a ter paciência. Afinal, “com tempo, paciência e o apoio financeiro da Europa acabará por prevalecer.”

Estando Kiev a ganhar a guerra e Moscovo a perdê-la, como avançado pela narrativa da Ucrânia e dos países europeus, então porque é que Kiev e a Europa precisam dos Estados Unidos e Washington precisa de se envolver em negociações para encontrar um fim para a guerra? Estes raciocínios terão estado presentes na mente de Trump quando sugeriu aos ucranianos, no seu post, para seguirem em frente, se acham que vão ganhar a guerra.

Aliás, não será difícil, uma vez que a economia russa está esfrangalhada e os russos fazem fila nos postos de gasolina. É isso que Kellogg, Starmer, Macron e Merz têm vindo reiteradamente a dizer. Então por que não deixar a Ucrânia ganhar e prescindir dos americanos? Não sendo mais precisos, podem ir embora ou, como escreveu Crilly no The Telegraph, Trump está a lavar as mãos da guerra da Ucrânia. No fundo, Trump está a dizer basta! Vou-me embora.

Zelensky saiu da reunião com Trump em Nova Iorque dizendo que Trump forneceria garantias de segurança após o fim da guerra. Não percebeu o que lhe foi dito. Trump continua a não lhe dar garantias de segurança. Afinal, se a Ucrânia vai ganhar a guerra, qual é a necessidade de garantias de segurança e de forças de manutenção da paz, ou seja do que forem? Se a Ucrânia está a ganhar e tem tudo sob controlo não há necessidade de perder tempo a falar de forças de paz. Por que estamos a discutir medidas de apoio e forças de manutenção da paz quando está bastante claro que a Ucrânia, por si só, com a ajuda da NATO e da UE, vai vencer a guerra? muito provavelmente, Trump terá pensado nisto enquanto batia com as pontas dos dedos no teclado.

Perante estes desenvolvimentos lógicos, Trump dever-se-á ter interrogado sobre o motivo do frenesim em redor das garantias de segurança. Provavelmente nem as sanções e as tarifas contra a China serão necessárias porque a economia da Rússia já está em colapso. Sem que isto obstaculize a Ucrânia de continuar a receber armas dos EUA, pagas pelos europeus, algo que estes podem continuar a fazer indefinidamente.

Tudo o que Kiev precisa de fazer é continuar a lutar até vencer. Embora Trump não o diga de modo explícito, parece demasiado evidente que a Ucrânia terá de lutar por si mesmo, sem as garantias de segurança proporcionadas pelos EUA, sem o apoio financeiro e as armas oferecidas pelos norte-americanos.

Portanto, se a Ucrânia está a ganhar a guerra e a Rússia está a perdê-la, podemos imaginar Trump a perguntar-se: porque será que a Ucrânia e a Europa precisam dos Estados Unidos? Porque precisa Washington de se envolver nas negociações para encontrar um fim para a guerra?

É com uma ironia mordaz que Trump se afasta da guerra na Ucrânia e transfere “a pasta” para os europeus. A notícia que prometeu dar há umas semanas foi agora transmitida através deste post. Mentes ingénuas esperavam outro desfecho julgando que Trump não se lembraria da forma como foi tratado pelos europeus durante a campanha eleitoral norte-americana e de que lado da barricada estiveram.

A ingenuidade quanto à possibilidade de outro desfecho, não deixa de ser tremendamente irresponsável. A esperança de que pudesse ser de outra maneira foi alimentada por incapazes, apesar de serem conhecidas as declarações, por exemplo, do Secretário de Estado Marco Rubio, que tem vindo a dizer serem indesejáveis novas sanções contra a Rússia, porque se os Estados Unidos seguirem esse caminho queimarão, de uma vez por todas, as pontes com Moscovo e isso comprometerá todas as iniciativas para uma resolução negociada.

A humilhação continuou quando os países europeus e a Ucrânia propuseram no Conselho de Segurança uma Resolução a criticar a Rússia, em que se reiterava a integridade territorial da Ucrânia, independência, soberania e em que se apelava à cessação imediata das hostilidades. Os EUA romperam com os seus aliados ocidentais e votaram contra.

Regressando a um tema desenvolvido em artigos anteriores. Qual será a reação dos povos quando ficar claro que a Ucrânia não está a ganhar e que a Rússia afinal não está tão debilitada como os dirigentes europeus andaram a apregoar e lhes tentaram fazer crer? Não deixa de ser estúpida a insistência nessa line to take estafada, repetida ad nauseam, quando está mais do que comprovada a sua falsidade. Num exercício de cinismo, Pjotr Sauer num artigo recente no Guardian, sem perceber o sarcasmo do post, vem questionar a justeza da afirmação de Trump quando este afirmou encontrar-se a economia russa à beira do colapso.

Segundo ele, afinal a “guerra trouxe um boom para algumas pessoas [na Rússia] no início [da guerra]”. A admissão da manipulação (des)informativa levada a cabo por alguma comunicação social ocorre lentamente, infelizmente através de deslizes, e não de modo deliberado. Não só se coloca agora apenas a questão de saber quanto tempo vai ser necessário para os europeus perceberem o buraco em que nos encontramos, mas também qual será a solução. Quanto mais tarde isso acontecer, pior.