As palavras e os factos após dois anos de guerra

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 07/03/2024)

Convém questionarmo-nos se a solução que vier a ser encontrada para o conflito será melhor para Kiev do que aquela possível de obter em 2022. Seguramente que não.


Convém questionarmo-nos se a solução que vier a ser encontrada para o conflito será melhor para Kiev do que aquela possível de obter em 2022. Seguramente que não.

Passados dois anos de guerra começa a ser tempo de comparar aquilo que tem sido dito com o que na realidade aconteceu e está a acontecer. Urge confrontar as palavras com os factos e tirar conclusões. Os factos vieram dar-nos razão, confirmando na generalidade os nossos comentários e previsões, que refletiam uma posição surpreendentemente minoritária. Ilustraremos o que pretendemos demonstrar com alguns exemplos.

Contrariando a maioria, que via nos recuos táticos dos militares russos em Kherson e Karkhiv, no verão e outono de 2022, o caminho para a vitória ucraniana, previmos com bastante precisão o desenlace da ofensiva ucraniana no verão de 2023, e explicámos com bastante rigor os motivos desse desaire militar e a incapacidade ucraniana para fazer recuar as forças russas até às fronteiras de 1991, e, em particular, expulsá-las da península da Crimeia.

O mesmo se pode dizer quando apontámos a perigosa ingerência de potências estrangeiras no conflito que opõe a Rússia à Ucrânia, com o recurso a soldados e agências nacionais a operar não oficialmente em território ucraniano. Vieram recentemente a público notícias que confirmaram o que afirmámos. Foi o próprio chanceler alemão Olaf Scholtz que referiu o envolvimento dos britânicos no conflito. Essa ingerência britânica foi também confirmada pelos altos comandos da Força Aérea alemã, numa conversa telefónica intercetada.

Os britânicos são fundamentais para a operação dos mísseis Storm Shadow, utilizados pelos ucranianos. Existem fortes suspeitas de terem operado os mísseis Patriot que abateram o avião civil russo que transportava prisioneiros de guerra ucranianos. Mas a interferência britânica foi particularmente útil e eficaz no que respeita à destruição de navios de guerra russos da esquadra do Mar Negro. Esse empenhamento terá mesmo levado o Chefe do Estado-Maior de Defesa britânico Almirante Sir Tony Radakin a protelar a sua passagem à reserva.

Num registo semelhante, veio também à liça o Presidente francês Emmanuel Macron, quando reconheceu a permanência informal de soldados franceses ao lado das forças ucranianas, confirmando aquilo que tínhamos vindo a alertar. O que até aí era feito dissimuladamente passou a ser assumido oficialmente. Afinal, as potências ocidentais estão envolvidas no conflito, estão em guerra com a Rússia, mas a meio gás. Dispenso de comentar a gravidade de que se reveste este tipo de atuação.

Também afirmámos que a Ucrânia tinha sido impedida de fazer a paz, em março de 2022. Essas afirmações não foram igualmente bem aceites. Mas declarações posteriores de vários responsáveis vieram confirmar, na íntegra, a justeza daquilo que tínhamos afirmado. Perdeu-se uma oportunidade de terminar a guerra em condições não desfavoráveis à Ucrânia.

Davyd Arakhamia, membro da delegação ucraniana às negociações em Istambul, e Naftali Bennett, antigo primeiro-ministro israelita, que liderou uma iniciativa de mediação de Israel, confirmaram aquilo que afirmámos. Recentemente, o “The Wall Street Journal” apresentou uma versão do acordo prestes a ser aprovada, não tivesse existido a intervenção de Boris Johnson junto de Kiev.

O que antes foi considerado uma suposição herética, afinal, é mesmo um facto. Entretanto, o antigo chairman do comité militar da NATO, o general alemão Harald Kujat veio confirmar tudo o que afirmámos: “houve negociações em Istambul com um excelente resultado para a Ucrânia”. “Todos os ucranianos mortos, assim como todos os russos mortos ou feridos depois de 9 de abril [de 2022], devem-se ao facto de a Ucrânia não ter sido autorizada a assinar este tratado de paz”.

Sempre dissemos ser uma falácia a convicção de que os fornecimentos de armas ocidentais fossem alterar a situação estratégica na frente de batalha a favor de Kiev. Pelo contrário, iriam prolongar os combates e exaurir ainda mais os ucranianos, mas não derrotar o Kremlin. Somos agora acompanhados neste raciocínio por Harald Kujat, que vem dizer exatamente o mesmo. Afinal, como sempre dissemos não há armas maravilha, “game changers” como foi afirmado tantas vezes por muitos especialistas espontâneos.

Convém questionarmo-nos se a solução que vier a ser encontrada para o conflito será melhor para Kiev do que aquela possível de obter em 2022. Seguramente que não. Após três anos de guerra na Bósnia, cerca de 100 mil mortes e um país destruído, o acordo assinado pelas partes em Dayton representou uma solução política consideravelmente pior daquela que teria sido obtida se o plano Cutileiro acordado em Lisboa, três anos antes, tivesse sido implementado. À semelhança do que aconteceu na Bósnia, o futuro da Ucrânia não se afigura diferente.

Contra a maioria, sempre negámos que a Rússia estava à beira de um colapso logístico e dissemos que essas afirmações eram falsas e não passavam de propaganda. Passados dois anos, o mainstream ocidental veio a descobrir, de um dia para o outro, que a Rússia já não combatia com enxadas e pás, nem roubava máquinas de lavar para lhes retirar os chips, e passou a estar em condições de invadir a Europa e de colocar armas nucleares no espaço. Este double thinking deve merecer uma reflexão muito cuidada dos leitores sobre a qualidade daquilo que lhes tem vindo a ser dito.

Antevimos, com um mês de antecedência, a demissão do general Zaluzhznyi das funções de Chefe do Estado-maior das Forças Armadas ucranianas. Também essa avaliação foi desvalorizada e considerada campanha desestabilizadora anti Ucrânia. Os factos mais uma vez falaram por si.

Sempre dissemos, ao contrário do que prevalecia no mainstream, que a guerra não tinha começado em 2022. Recordemos as palavras do Presidente Biden, em 24 de fevereiro de 2022, ao afirmar: “Os militares russos lançaram um ataque brutal contra o povo da Ucrânia sem provocação, sem justificação, sem necessidade”. Também neste tema mudou a narrativa. Num discurso no Parlamento Europeu, o secretário-geral da NATO Jens Stoltenberg contradisse a narrativa oficial: “a guerra não começou em fevereiro do ano passado [2022]. Começou em 2014”.

Do ponto de vista tático, fomos duramente criticados quando chamámos à atenção para a necessidade da Ucrânia estabelecer uma postura defensiva, a qual passava pela construção de uma linha fortificada, à semelhança da linha Surovikin, construída seis meses antes da ofensiva ucraniana do verão de 2023.

A sua construção teria permitido às forças ucranianas economizar meios e prepararem-se para um futuro embate com as forças russas em melhores condições. O que se está a verificar após a queda de Avdeevka comprova na plenitude o que afirmámos. As forças ucranianas encontram-se desprovidas de uma capacidade defensiva apropriada para fazer face aos desafios com que vão ter de se defrontar no curto prazo.

Também previmos a possibilidade de os ucranianos poderem vir a deparar-se com a situação difícil em que se encontram, devido à escassez do apoio ocidental. A situação ainda não se encontra no ponto que previmos, mas para lá caminha. Seria bom para Kiev que a nossa previsão não se concretizasse.

As baixas ucranianas têm sido um dos assuntos mais escamoteados na campanha mediática que acompanha a guerra. Depois dos 100 mil mortos ucranianos anunciados pela Presidente da Comissão Europeia, passados uns meses o “New York Times” (NYT), baseado em fontes ucranianas anónimas, indicou 70 mil, e, mais recentemente, o presidente ucraniano Zelensky indicou 31 mil baixas. As rigorosas fontes pró-ucranianas conseguem o milagre das rosas. As baixas ucranianas reduzem com o prolongamento da guerra.

A insanidade demagógica da Comunicação Estratégica que tem imperado no Ocidente impede os cidadãos de perceberem o quão dramática é a situação de Kiev neste capítulo. Procura a todo o transe esconder que as baixas ucranianas rondarão um número entre os 450 e os 600 mil mortos e feridos. Quem acompanha a situação conhece as dificuldades das autoridades militares em recompletarem as unidades que combatem na linha da frente. Um descuido, aparentemente involuntário, de uma parlamentar ucraniana do Partido “Servos do Povo”, referiu cerca de 25-30 mil baixas mensais.

Esta situação é o resultado da guerra de atrição levada a cabo pelas forças russas, tantas vezes negada. Infelizmente, a escolha de quilómetros quadrados conquistados como a métrica de excelência para avaliar o progresso e a situação de uma força militar, esquecendo todas as outras dimensões, nomeadamente as intangíveis, tem recolhido a preferência dos comentadores mais desinformados, e, como tal, mais suscetíveis de serem influenciados pelas fações.

Ataque preemptivo?

Uma das questões que tem suscitado debates bastante acessos prende-se com a natureza preemptiva do ataque russo, em 24 de fevereiro de 2022. Isto é, terá sido uma ação militar em antecipação contra um alvo que estava prestes a iniciar um ataque militar? Será absolutamente correto que “os militares russos lançaram um ataque brutal contra o povo da Ucrânia sem provocação, sem justificação, sem necessidade”, como afirmou nesse mesmo dia o presidente dos EUA, Joe Biden?

A profundidade do tema justifica uma análise que não faremos neste texto. Contudo, algumas notícias que vieram recentemente a público permitem reavaliar os motivos da ação russa. É sempre importante relembrar os relatórios da missão da OSCE na Ucrânia, localizada na linha de separação entre as forças ucranianas pró-governo e pró-russas, convenientemente esquecidos, que assinalavam nos dias que antecederam a invasão russa o dramático aumento de fogos indiretos da parte ucraniana. Eram, na prática, fogos de preparação do assalto ao Donbass pelos cerca de 100 mil militares ucranianos ali estacionados.

Muito interessante e clarificadora foi a intervenção de Evgeniy Muraev, ex-candidato presidencial e presidente do, entretanto, proibido partido “Nashi”, em 14 janeiro 2022, dias antes da invasão, e que só agora chegou ao nosso conhecimento. A marinha britânica estava a preparar a construção de bases na região de Odessa, em território ucraniano. Dizia ainda Muraev, “se nós tivermos no nosso território algum tipo de armamento que eles [os russos] considerem perigosos, então nós estaremos na zona de impacto. A federação russa atuará em conformidade, porque isso será uma ameaça à sua segurança nacional.”

Por sua vez, o NYT veio dizer aquilo que já se sabia, mas que não podia ser dito sem se ser acusado de difundir desinformação russa. Afinal a CIA estava presente na Ucrânia há mais de uma década, mesmo antes do Euromaidan. Segundo o NYT, a CIA admitiu ter ajudado a construir, equipar e operar 12 bases subterrâneas secretas ao longo da fronteira com a Rússia, para espiar e lançar ataques contra o território russo.

Para além disso, a CIA patrocinou e construiu a agência de informação militar ucraniana, tendo-a utilizado durante mais de uma década como arma de espionagem, assassinatos e outras provocações dirigidas contra a Rússia. Ainda segundo o NYT, a agência, durante esse período, formou, treinou e armou forças paramilitares ucranianas que participaram em assassínios e outras provocações contra as forças russas na Crimeia e na Rússia.

A longa ingerência de potências estrangeiras na Ucrânia tinha-se tornado inaceitável para a Rússia. A sua grande preocupação relativamente à Ucrânia era, e continua a ser, acima de tudo, de natureza securitária, procurando que não sejam colocadas bases militares e armamento no seu território. Mas isso não foi respeitado. Podemos antever sem grande margem de erro qual seria a reação dos EUA ou do Reino Unido perante uma situação similar nos seus territórios.

Antevendo um desfecho deste conflito bastante desfavorável para a Ucrânia, defendemos desde o seu início uma solução política mediada, em que a Ucrânia perdesse o menos possível. Esta abordagem foi violentamente criticada, como se estivéssemos a beneficiar o infrator e a fazer a apologia do agressor. Na “onda do que está a dar,” alguns dos que defendiam com profunda determinação a continuação da guerra até à derrota da Rússia, têm vindo convenientemente a reformular o seu discurso.

Primeiro, defendendo a continuação dos combates até que a Ucrânia se encontre numa situação negociável forte; mas como essa situação é cada vez menos plausível, reformularam uma vez mais o discurso. Alguns tiveram o descaramento de vir dizer que “sempre se soube que o conflito acabaria com cedências de parte a parte”, demorando dois anos a aproximarem-se daquilo que sempre defendemos, e que os factos aconselham que aconteça quanto mais depressa melhor.

Esquecendo a história – as tentativas das grandes potências derrotarem a Rússia no seu território tiveram sempre o mesmo fim. Suecos, polacos, franceses e alemães sabem do que falo – e os frequentes erros de cálculo norte-americano (Vietname, Afeganistão, Iraque e Líbia, entre outros), os europeus embarcaram em mais um erro de cálculo da grande potência, que se está a transformar numa aventura dolorosa para a maioria.

Por isso, faz cada vez mais sentido a mobilização das opiniões públicas contra a fação insana dos promotores da narrativa belicista que procura envolver a Europa numa guerra mundial cujos resultados não são difíceis de antecipar.


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Tanta verdade junta mereceu publicação…

(Estátua de Sal, 08/03/2024)

Não resisti a não publicar o vídeo do programa de Miguel Sousa Tavares, a 5ª Coluna, exibido em 07/03/2024. Nem sempre concordo com o MST mas, desta vez, todos os assuntos tratados são de uma atualidade candente e foram abordados contra a corrente das ladaínhas dos jornaleiros serventes das narrativas do poder dominante.

O primeiro assunto é do âmbito da política nacional e tem a ver a queda do governo de António Costa. Em véspera das eleições de dia 10, ainda o Ministério Público não informou os portugueses sobre o que de errado fez o ex-primeiro ministro, de que é acusado, que indícios existem contra ele, etc. Aliás, a revista Visão publicou, também nessa data, um artigo em que revela que o próprio Ministério Público não tem indicios de crime, nos dois casos que levaram às buscas que deram origem ao comunicado que fez cair o Governo:

“Ao fim de quatro anos de investigação e milhares de escutas telefónicas, o Ministério Público (MP) admitiu não ter a certeza de que foram praticados crimes nos casos do lítio e do hidrogénio, assim como noutras situações que envolvem antigos ministros, como João Galamba e João Matos Fernandes. Quando separaram as investigações por processos autónomos, os procuradores do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) assumiram estar ainda por “comprovar a existência de indícios da própria ocorrência de crime” naquelas duas situações, o que carecerá de análise necessariamente mais demorada”, acrescentaram”. (Visão, 07/03/2024).

MST pergunta, e eu também pergunto: como pode a justiça fazer cair um governo sem ter nada de sólido e concreto para acusar o chefe e outros membros do governo?! Um golpe de estado para levar o Chega e companhia ao poder? Quem sabe?

O segundo assunto é o horror dos crimes que Israel está a cometer na faixa de Gaza, nomeadamente contra crianças. MST compara, sem pejo, os crimes de Israel aos crimes dos nazis contra os judeus nos campos de concentração e no gueto de Varsóvia.

O terceiro assunto é sobre a guerra na Ucrânia e sobre as loucas decisões belicistas dos líderes europeus, com Macron à frente, que querem aumentar as despesas com armamento à custa do definhamento do estado social, e que ainda sonham com a possibilidade de derrotar a Rússia e sacarem-lhe os seus vastos recursos. Ora, qualquer mentecapto sabe que atacar a Rússia equivale a desencadear a III Guerra Mundial, mas é para esse cenário de morte e destruição do planeta que os líderes europeus nos estão a conduzir.

Por tudo isto, vejam o vídeo. MST é das poucas vozes que ainda vai tendo espaço, na comunicação social de larga audiência, para introduzir, de quando em quando, algum ruído nas narrativas dominantes que nos servem diariamente, em catadupa, por vezes quase até ao vómito.

Podem ver o vídeo aqui.

Estátua de Sal, 08/03/2024


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A tentação fascista das elites europeias

(José Goulão, in AbrilAbril, 30/01/2024)

Os mecanismos que regulam e garantem a gestão política pelas elites ao serviço das oligarquias afinam-se, tornam-se mais manipuladores e autoritários em tempos de crise da ordem internacional dominante.


O comportamento dos governos dos países europeus, entre eles a esmagadora maioria dos que se extinguiram no interior da NATO e da União Europeia, em relação à guerra na Ucrânia e ao extermínio da população palestiniana, em prática há mais de 76 anos pela entidade que materializou o sionismo – Israel –, obriga-nos a reflectir seriamente sobre a relação entre a Europa e o fascismo. Para ser mais correcto: sobre a incorrigível tentação fascista dos Estados europeus, como se o Terceiro Reich e a Segunda Guerra Mundial tivessem ficado definitivamente para trás depois de supostamente aprendidas todas as lições que nos deixaram.

Se observarmos com objectividade, dispensando as teorias manipuladoras e belicistas brotando do tentacular aparelho de comunicação/propaganda e dos historiadores regimentais que fazem da mentira instrumento científico, concluiremos, porém, que esta tentação não é surpreendente. Quando muito, manifesta-se de uma forma mais aberta e descarada do que seria de esperar nesta fase em que se realizam esforços intensos para combater o cepticismo crescente nos povos ocidentais quanto à democracia liberal como mãe de todas as felicidades, de todas as justiças; uma espécie de antecâmara do fim da história e desse prometido paraíso na Terra que seria a instauração do globalismo planetário.

Encontramos assim, pela ordem natural das coisas, uma interligação carnal entre a democracia liberal, a ordem internacional baseada em regras através da qual o imperialismo soterrou o direito internacional, e o sistema económico-financeiro do neoliberalismo, que sem qualquer hesitação poderemos qualificar como fascismo económico.

No Ocidente, um conceito geoestratégico transcontinental que se define a si próprio como «o mundo civilizado», o fascismo económico comanda a gestão política, que tenta manter-se nos parâmetros daquilo a que chamam a «democracia liberal» para que a ideia popularmente repudiada de fascismo não pareça presente na vida das pessoas.

Nenhum dirigente que integre as elites políticas europeias admite que se fale do nazifascismo que governa a Ucrânia e tolera que se compare o comportamento sionista em relação aos palestinianos, e mesmo aos judeus que não cabem no círculo de raça semítica «pura», às práticas nazis.

O envolvimento directo, desde 2014, da NATO e da União Europeia na guerra que o regime racista e de inspiração nazi de Kiev trava contra os povos ucranianos, sejam quais forem as suas origens étnicas uma vez as hordas banderistas no governo e nas forças armadas não poupam sequer as vidas dos ucranianos «puros», significa que o atlantismo e o europeísmo federalista tornam a democracia liberal cúmplice e aliada do fascismo.

O esvaziamento dos arsenais europeus de armas e o empobrecimento das populações como consequência das sanções e do esforço de guerra para sustentar Zelensky e os psicopatas que dele se servem – de forma a criar uma imensa plataforma de agressão aos povos da Federação Russa – significam que a democracia liberal está perante uma incómoda encruzilhada: a componente «democrática» começa a ser posta em causa pelas populações, apesar das operações de lavagem ao cérebro cientificamente praticadas pelo universo mediático corporativo; e a pressão das circunstâncias, isto é, a agonia da ordem internacional baseada em regras perante a afirmação cada vez mais sustentada do conceito de uma nova ordem recuperando a vigência do direito internacional, força-a a desvendar as suas tentações fascistas na medida em que os mecanismos tradicionais de liberalidade são inexoravelmente substituídos por um autoritarismo cada vez mais evidente.

Regresso às origens

A democracia liberal está a fazer, desta maneira, o caminho de regresso às origens. De um ponto de vista simplista, mas que respeita o rigor histórico, pode dizer-se que a estruturação da democracia liberal através das últimas cinco décadas nasceu na sequência do golpe fascista dos Chicago Boys no Chile, através do general Pinochet, que representou simultaneamente a vitória do neoliberalismo, o laissez faire, a anarquia capitalista sobre as tendências keynesianas, no quadro das relações de forças no interior do sistema imperialista. Provou-se que o capitalismo com «face social» é uma contradição aberrante. O capitalismo e o neoliberalismo são uma e a mesma coisa, indissociáveis. Também ele regressou às origens.

O fascismo, com a sua indispensável componente militarista, é o regime de sonho da selvajaria capitalista, o neoliberalismo, como demonstrou o regime terrorista do Chile engendrado e montado em Washington. A democracia liberal, sucedendo à «democracia ocidental», esta como cobertura do capitalismo keynesiano, é a fachada política do fascismo económico, como logo explicou Margaret Thatcher, admiradora confessa de Pinochet, num prólogo à avalanche neoliberal que marcou as telúricas transformações mundiais nos anos oitenta e noventa do século passado; e que pode personificar-se nas figuras de Ronald Reagan, Mikhail Gorbatchov e do golpista político polaco Woytila, mais conhecido pelo heterónimo de papa João Paulo II, além da já citada primeira-ministra britânica.

As oligarquias financeiras e económicas, de âmbito cada vez mais global, tendem a recorrer ao fascismo quando se sentem ameaçadas ou dão largas às pulsões gananciosas que arrasam direitos sociais, políticos e humanos para garantir lucros sem limites. Nessas condições, sendo a política ocidental uma alavanca do poder oligárquico, a democracia liberal cede gradualmente ao fascismo, ainda que sem admiti-lo.

As forças políticas fascistas avançam em todas as nações europeias, não só na Ucrânia, nos Estados bálticos, na República Checa, na Polónia, na Bulgária, Roménia, Moldávia, Hungria, Espanha, Portugal, França, Alemanha, Reino Unido, Áustria, Finlândia. Na Itália, nos Países Baixos e na Suécia ascenderam ao poder por via eleitoral, tal como Hitler na Alemanha: o nazifascismo, como se prova, não se impõe somente através de golpes militares. No entanto, nenhuma dessas organizações ou partidos, nenhum dos seus dirigentes admitem ser fascistas, são sempre qualquer coisa «democrata», «direita conservadora», «direita liberal» e outras. Como os neoconservadores norte-americanos, pais fundadores do fascismo aplicado às circunstâncias actuais, jamais admitiriam ser o que são: fascistas.

Os membros desta constelação transnacional declaram-se perfeitamente integrados no «quadro democrático», beneficiando da complacência dos órgãos de fiscalização das Constituições, mesmo que estas sejam explicitamente antifascistas, como acontece em Itália e em Portugal. Beneficiam dos favores do polvo mediático corporativo, que começa por expô-los como fenómenos «curiosos» e rapidamente evoluem para o tratamento sério e politicamente motivado, instilando nas populações indefesas, vítimas da asfixia do pluralismo informativo e de opinião, a ideia de que organizações desse tipo são peças legítimas do «jogo democrático» e estão aptas a governar. A palavra «fascismo», porém, está sempre ausente, e se alguém a denuncia, como ocorre a propósito da Ucrânia, é trucidado na comunicação social; por outro lado, quando alguém se confessa fascista, como aconteceu recentemente em momento de empolgante sinceridade durante o congresso da maior entidade salazarista portuguesa, o episódio é considerado «uma brincadeira».

A democracia liberal, conceito e prática essenciais na formatação da «civilização ocidental» como única admitida no espaço global, e cuja imposição é frequentemente exportada em forma de guerra, é ao mesmo tempo uma perversão da democracia e um caminho para o fascismo.

Numa democracia liberal quem decide o funcionamento da sociedade é uma elite burocrática, de formação tecnocrática e desumanizada, fiel aos poderes oligárquicos sem fronteiras, servida por um aparelho de comunicação/propaganda que recorre frequentemente a métodos de terrorismo mental para censurar a divergência política e a exposição de outras realidades. Ao banir, de facto, a liberdade de opinião e o pluralismo na informação, a democracia liberal pisa já os terrenos do fascismo.

Democracia, numa definição simples, é o sistema em que a vontade do povo livremente expressa se reflecte depois no funcionamento dos órgãos de poder. Estes têm a obrigação democrática de governar com o povo e não de governar contra o povo. Para identificar a democracia basta uma palavra, um substantivo. A experiência diz-nos que adjectivá-lo não é um bom augúrio. Se a casta política que sequestrou o poder e faz dele o que muito bem entende – desde que respeite as oligarquias económico-financeiras – necessitou de acrescentar «liberal» à democracia, como anteriormente recorreu ao adjectivo «ocidental», é porque, querendo afirmá-la como única, civilizada e distinta de outras formas de poder, adoptou um modelo – e principalmente um funcionamento – que acaba por falsificar o conceito autêntico de democracia. Como sabemos muito bem, pela experiência de todos os dias, a democracia liberal não ecoa a voz do povo, contraria-a, no fundo falta ao respeito ao povo submetendo-o a uma situação de maioria inerte, desprezada e humilhada.

A falsificação eleitoral

Quanto ao pluralismo político, é uma farsa. Os governos e outros órgãos de poder emergem apenas do círculo das classes políticas, cuidadosamente expurgadas de presenças daninhas, repartidas em rótulos partidários que, por muito diferenciados que sejam em matérias programáticas, que não cumprem, convergem ao serviço do essencial – o fascismo económico, o neoliberalismo. Quando os interesses oligárquicos, de vocação global mas tutelando, de facto, uma minoria planetária de 15% que corresponde ao conceito geoestratégico de Ocidente, se sentem ameaçados, a democracia liberal aceita reciclar-se em fascismo, num ápice ou gradualmente, conforme as circunstâncias e as urgências.

Na democracia liberal o povo tem liberdade de voto, sem dúvida. Mas o seu voto pouco ou nada influencia a governação; os eleitores são induzidos a escolher apenas entre os rótulos da classe política, os partidos com «vocação para governar», isto é, neoliberais, adoradores e serviçais da ditadura do mercado.

Como se constitui um rebanho eleitoral? O aparelho mediático é a ferramenta mais poderosa, rejeitando, silenciando, deturpando e caluniando as organizações e dirigentes dissonantes, adversários do capitalismo, sobretudo do neoliberalismo, em primeiro lugar reduzindo a pó as leis eleitorais que estabelecem tratamentos igualitários dos candidatos e a salvaguarda do pluralismo real.

As campanhas eleitorais são vazias de conteúdos políticos, dominadas por fait-divers transformados em acontecimentos magnos, isentas de ética, explorando as reacções mais primárias dos eleitores através da mentira, de calúnias lançadas sobre os verdadeiros adversários e da demagogia. A política transforma-se num espectáculo tacanho propício à alienação e que, de facto, impede a reflexão e o esclarecimento.

Regra geral, o formato escolhido para os debates, estruturados como combates de boxe (como caricaturas dos combates de boxe autênticos, que têm ética) são espaços de exibicionismo, narcisismo e fraude, incitando os eleitores a escolher em função de temas acessórios ou mesmo já previamente contaminados por preconceitos impondo decisões mais ou menos inevitáveis. Mesmo assim, como no caso de Portugal, existem os debates da primeira divisão, que preenchem todo o universo de acesso televisivo, e os de divisões inferiores, só acessíveis em canais de âmbito restrito. Uma violação óbvia do direito eleitoral. A primeira divisão, como se percebe, está reservada apenas aos dirigentes com «vocação para governar», servidores do neoliberalismo, portanto. Só esporadicamente, quando tem do outro lado da mesa os autênticos candidatos a primeiro-ministro, é que uma organização condenada à segunda divisão é autorizada à televisão aberta e de difusão geral.

Estes mecanismos que regulam e garantem a gestão política pelas elites ao serviço das oligarquias afinam-se, tornam-se mais manipuladores e autoritários em tempos de crise da ordem internacional dominante; muito mais ainda em fases de risco existencial, como a presente. A ordem internacional baseada em regras, isto é, a base «legal» do imperialismo e do colonialismo habituados à impunidade e ao poder inquestionável da força e dos proclamados desígnios históricos e divinos, agora também globalistas, da «nossa» civilização, vive o desespero de estar a ser posta em causa pelo resto esmagadoramente maioritário do mundo. Povos, culturas e civilizações condenados à submissão colonialista e imperialista durante centenas e centenas de anos, estão a perder o medo, aprendem a desafiar tabus e regras inimigas dos seus interesses, salteadoras dos seus bens, e começaram a rebelar-se contra a velha ordem.

A maioria dos Estados mundiais perceberam que podem desenvencilhar-se da submissão e associar-se como iguais dentro de um imenso espaço onde vigora o direito internacional, além de existirem condições para viverem e progredirem conservando a independência, a liberdade de defender os seus bens e interesses, beneficiando ainda de uma cooperação mutuamente vantajosa com os seus pares.

Em desespero, o Ocidente pretende, a todo o custo, impedir esta transcendente mudança recorrendo aos únicos métodos que conhece: o poder da força, a guerra, a tentação fascista e em última análise, se lhe for permitido, o extermínio da humanidade.

Quem pratica genocídios em campos de concentração ou em regiões onde vivem populações indefesas e abandonadas como a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, quem multiplica guerras sem fim para que a sua «ordem» e as suas «regras» arbitrárias e casuais sobrevivam, será capaz da «solução final» extrema, não duvidemos.

O fosso entre os povos ocidentais e as suas elites políticas submissas e corruptas, porém, está a alargar-se. O desequilíbrio de meios entre os dois campos parece intransponível mas ainda é possível inverter o jogo, como a história milenar – onde a «civilização ocidental» é apenas mais um episódio entre tantos – nos ensina.

O presente artigo foi originalmente publicado no sítio da Strategic Culture Foundation.


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