A máquina de indignar 

(Daniel Oliveira, In Expresso Diário, 09/01/2018)  

Daniel

Daniel Oliveira

A nova polémica foi em torno da ida de Mário Centeno para o camarote presidencial do Benfica, no jogo entre o clube lisboeta e o Futebol Clube do Porto. Não vou aqui desenvolver o tema. Porque o que já se sabe permite dizer que os jornalistas não cuidaram de recolher a informação que mataria o assunto à nascença (parece que a polícia não o quer nas bancadas num jogo como este) e porque, mesmo que assim não fosse, o tema não tem dignidade para uma crónica.

O absurdo do tema não impediu um tabloide de tentar estabelecer um paralelo entre a ida de Centeno à bola (para uma bancada onde já se sentaram quase todos os políticos e pessoas famosas deste país) e um alegado perdão fiscal aos filhos do presidente do clube, já totalmente desmentido. Não é um perdão, mas uma isenção automática. Essa isenção não dependia das Finanças, mas de um parecer da Câmara de Lisboa. As Finanças limitam-se a aceitar uma certidão da câmara onde está o imóvel depois de se verificar o cumprimento dos critérios de reabilitação estabelecidos na lei. Ou seja, Centeno não tem nada a ver com o assunto. E a base para insinuar a existência de uma “cunha” foi um mail privado totalmente inócuo do filho de Luís Filipe Vieira para o seu pai. E quem escreve isto é um sócio do Sporting que não podia ter pior opinião do presidente do Benfica e alguém que já aqui deixou muitas vezes clara a sua pouca simpatia política pelo ministro Mário Centeno.

Os escândalos cadentes duram dois ou três dias, “incendeiam as redes sociais”, e morrem como nasceram. Fica a sensação de que se está rodeado de iniquidade e corrupção. Como equipara o corrupto a quem seja apenas normal, ajuda a esconder a corrupção, a trapaça e os verdadeiros negócios escuros. Resistirá quem não têm nada a perder. Nem sequer o seu nome.

É evidente que o jornalista que escreveu aquilo não acredita que tal relação exista. Mas isso permite alimentar mais uns dias uma suposta “polémica”, dando-lhe contornos de tema legítimo e permitindo criar a ideia de que há sempre mais umas coisas que devem ser esclarecidas. Até o Ministério das Finanças ter, como teve, de se explicar, em dois comunicados e uma declaração pública, conseguindo-se assim que um não tema entre no debate político e ninguém possa fugir dele. Um prolongamento do jogo muito lucrativo quando está em causa o “Cristiano Ronaldo das finanças” e o maior clube nacional. E isto vai-se sucedendo com novos assuntos, uns atrás dos outros, semana após semana, sem que nenhum alguma vez seja realmente dado como encerrado.

Esta é a primeira coisa que temos de estabelecer: se todos os assuntos valem uma polémica. Se não estamos a criar um clima de escândalo e indignação permanentes, em que tudo se igualiza no debate, tornando impossível a sociedade estabelecer prioridades e não se perder numa gritaria sem rumo.

Se olharmos para as últimas semanas, conseguimos identificar vários escândalos cadentes. Duram dois ou três dias, “incendeiam as redes sociais”, como agora se costume dizer, e morrem como nasceram. Quem partilha as notícias que os relatam, dando muitas visualizações que valem publicidade, raramente segue os esclarecimentos posteriores ou se apercebe como o assunto morre. Rapidamente passa para outro “escândalo” e esquece aquele. Nada chega a ficar realmente na memória, mas fica o incómodo, a sensação de que se está rodeado de iniquidade e corrupção. Uma sensação que não só degrada a democracia, como qualquer possibilidade de vivermos em sociedade.

Alguns gostam de apresentar esta sucessão de “escândalos” e indignações virais como um sinal de maior exigência da sociedade. É verdade que um maior escrutínio tornou as pessoas menos tolerantes perante alguns comportamentos. Mas, no essencial, é o oposto. Esta explosão de indignações tem muito pouco a ver com um trabalho mais profundo da comunicação social, capaz de fiscalizar melhor o poder. Pelo contrário, nunca a imprensa teve tão poucos meios para fazer o seu trabalho. Este clima nasce das redes sociais. O que elas têm de novo, dando acesso a todos à produção e consumo de informação, é que destruíram as instâncias intermediárias que hierarquizavam as notícias. Hoje, a comunicação social limita-se a seguir o ritmo imposto pelas redes sociais. Mesmo quando as notícias nascem na imprensa ganham uma dimensão que a imprensa não determina, estando por isso obrigada a dar-lhes uma relevância que não têm. E sem hierarquia as coisas deixam de ser inteligíveis.

O irrelevante é usado, e essa técnica é antiga, para esconder o fundamental. Donald Trump sabe fazê-lo, no seu Twitter, quase diariamente. A sucessão de grandes, pequenos e minúsculos “escândalos”, quase diários, que alimenta a máquina de cliques e partilhas virais de que negócios e vaidades pessoais dependem, cria um ambiente de desconfiança em relação a tudo: ao poder político, à economia, à justiça, aos sindicatos, às igrejas, às IPSS, às associações, aos vizinhos, aos familiares, à humanidade. Não é exigência democrática, é autossabotagem coletiva. Como viver assim é insustentável, há um momento em que as pessoas, cansadas e transidas de medo, escolhem ser governadas por quem “ponha isto na ordem”. Este caos informativo não alimenta a exigência e o escrutínio, alimenta a ansiedade e a demagogia. Sabemos o resultado destas duas coisas juntas: o autoritarismo.

Considero-me uma pessoa razoavelmente exigente comigo mesmo. Nunca, até há uns anos, duvidei da minha capacidade de cumprir, até acima da média, as exigências éticas e cívicas que tínhamos como assentes. Terei falhado algumas vezes, nunca por má-fé e tentando sempre corrigir os erros que tenha cometido como cidadão. Mas, desde que este ambiente se instalou, não tenho qualquer dúvida que não aceitaria ter um cargo político. Porque há uma diferença entre um cidadão honesto e um santo. Porque o clima político assente no pequeno escândalo impõe um suposto código de conduta insano e insensato que nenhuma pessoa normal pode cumprir. Nenhum código ético é absoluto. Nem tudo se equivale, nem tudo merece sanção. Qualquer código ético tem uma hierarquia e, acima de tudo, rege-se por um princípio de razoabilidade. Na realidade, os que o exigem são os primeiros a reconhecer que não o cumprem para logo depois acrescentar: “mas eu não sou político.”

Estou preocupado com o excesso de exigência ética com os políticos? Nada disso. Esta indiferenciação entre o que é importante e o que é irrelevante não corresponde a uma redobrada exigência cívica. Não distingue os honestos dos desonestos. No máximo, impõe aos políticos uma prova de resistência onde aguenta quem não dê grande importância à sua dignidade pública. Na realidade, como equipara o corrupto a quem seja apenas normal, ajuda a esconder a corrupção, a trapaça e os verdadeiros negócios escuros. Resistirá quem não têm nada a perder. Nem sequer o seu nome.

Desigualdade no século XXI

(Kaushik Basu, in Jornal de Negócios, 07/01/2017)

kaushik

Depois de um ano medíocre e desonesto, reminiscente da “década medíocre e desonesta” sobre a qual W.H. Auden escreveu no seu poema “1 de Setembro de 1939”, as “inteligentes esperanças” do mundo estão a dar lugar ao reconhecimento de que muitos problemas graves devem ser abordados. E, entre os mais severos, com as mais graves implicações de longo prazo e até mesmo existenciais, está a desigualdade económica.

 O nível alarmante de desigualdade económica em todo o mundo foi bem documentado por economistas proeminentes, incluindo Thomas Piketty, François Bourguignon, Branko Milanovic e Joseph E. Stiglitz, e instituições bem conhecidas, incluindo a OXFAM e o Banco Mundial. E é óbvio mesmo num passeio casual nas ruas de Nova Iorque, Nova Deli, Pequim ou Berlim.
Vozes à direita afirmam muitas vezes que essa desigualdade é não apenas justificável, mas também apropriada: a riqueza é uma recompensa justa pelo trabalho árduo, enquanto a pobreza é uma punição da preguiça. Isto é um mito. A realidade é que os pobres, na maioria das vezes, têm de trabalhar muito, geralmente em condições difíceis, só para sobreviver.
Além disso, se uma pessoa rica tem uma ética de trabalho particularmente forte, provavelmente isso é atribuível não apenas à sua predisposição genética, mas também à sua educação, incluindo quaisquer privilégios, valores e oportunidades que os seus ascendentes lhe possam ter proporcionado. Portanto, não há um verdadeiro argumento moral para a riqueza extrema no meio da pobreza generalizada.

 Isso não quer dizer que não haja justificação para nenhum nível de desigualdade. Afinal, a desigualdade pode reflectir diferenças nas preferências: algumas pessoas podem considerar a busca da riqueza material mais valiosa do que outras. Além disso, recompensas diferentes criam incentivos para que as pessoas aprendam, trabalhem e inovem, actividades que promovem o crescimento geral e a redução da pobreza.

Mas, a partir de um certo ponto, a desigualdade torna-se tão grave que tem o efeito oposto. E estamos muito além desse ponto.

Muitas pessoas – incluindo muitos dos mais ricos do mundo – reconhecem que a desigualdade severa é inaceitável, tanto moral como economicamente. Mas se o dizem abertamente, são muitas vezes rotulados de hipócritas. Aparentemente, o desejo de diminuir a desigualdade só pode ser considerado credível ou genuíno se as pessoas sacrificarem a própria riqueza.

A verdade, claro, é que a decisão de não renunciar, unilateralmente, da riqueza não desacredita a preferência por uma sociedade mais equitativa. Rotular uma pessoa rica, que é crítica da desigualdade extrema, como hipócrita, equivale a um ataque ad hominem e a uma falácia lógica, destinada a silenciar aqueles cujas vozes podem fazer a diferença.

Felizmente, esta táctica parece estar a perder alguma da sua força. É encorajador ver pessoas ricas que desafiam esses ataques, não só reconhecendo abertamente os danos económicos e sociais provocados pela desigualdade extrema, mas também criticando um sistema que, apesar de lhes permitir prosperar, deixou muitos sem oportunidades.

Em particular, alguns americanos ricos estão a condenar a reforma fiscal da administração Trump, que oferece cortes extraordinários aos que têm maiores rendimentos – pessoas como ele. Como Jack Bogle, fundador do Vanguard Group e beneficiário dos cortes propostos, disse, o plano – que irá certamente acentuar a desigualdade – é uma “abominação moral”.

No entanto, reconhecer as falhas nas estruturas actuais é apenas o início. O grande desafio é criar um modelo viável para uma sociedade equitativa. (Foi a ausência de tal modelo que levou muitos movimentos bem intencionados na história a acabar em fracasso). Neste caso, o foco deve ser a expansão dos acordos de participação nos lucros, sem sufocar ou centralizar os incentivos de mercado que são cruciais para impulsionar o crescimento.

Um primeiro passo seria dar a todos os residentes de um país o direito a uma certa parcela dos lucros da economia. Esta ideia foi avançada em várias formas por Marty Weitzman, Hillel Steiner, Richard Freeman e Matt Bruenig. Mas é particularmente vital hoje, à medida que a proporção dos salários no rendimento nacional diminui e a proporção dos lucros e rendas aumenta – uma tendência que o progresso tecnológico está a acelerar.

Há outra dimensão da participação nos lucros que tem recebido pouca atenção, relacionada com os monopólios e concorrência. Com a tecnologia digital moderna, a economia de escala é tão grande que já não faz sentido exigir que, por exemplo, 1.000 empresas produzam versões do mesmo bem, cada uma respondendo a uma milésima parte da procura total.

Uma abordagem mais eficiente seria ter 1.000 empresas, com cada uma a criar uma parte desse bem. Quando se trata de automóveis, por exemplo, uma empresa produziria todas as manetes de mudanças, outra produziria todas as pastilhas de travões, e assim por diante.

A legislação tradicional anti-monopólio e pró-concorrência – que começou em 1890 com a Lei Sherman nos EUA – impede que um sistema tão eficiente se estabeleça. Mas o monopólio da produção não precisa de significar um monopólio dos rendimentos, desde que as participações em cada empresa sejam dispersas. É tempo de uma mudança radical, que substitua as leis tradicionais anti-monopólio por uma legislação que exija uma maior dispersão das participações em cada empresa.

Estas ideias ainda não foram testadas, pelo que seria necessário muito trabalho antes de as pôr em prática. Mas, com o mundo a passar de uma crise para outra, e com a desigualdade a crescer, não nos podemos dar ao luxo de manter o status quo. A menos que enfrentemos o desafio da desigualdade, a coesão social e a própria democracia ficarão ameaçadas.


 Kaushik Basu, antigo economista-chefe do Banco Mundial, é professor de Economia na Cornell University.

 

O CAOS!

(Por Rui Melo Pato, in Facebook, 08/01/2018)

urgencias

(Declaração : declaro que sou médico, trabalhei em urgências e em cuidados intensivos muitos anos e fui gestor hospitalar).

A gripe tem servido todos os anos como arma de arremesso contra o todos os ministros da tutela, contra todos os primeiros ministros em exercício e, à boleia disto, veladamente, contra o SNS. É sempre assim, todos os anos e será sempre assim. É um clássico! Todos os anos pelo inverno, como lobos que descem à cidade, aparecem os bastonários ( e as bastonárias) a babarem corporativismo e as diversas oposições, todos montados na hipócrita indignação do “caos dos hospitais portugueses” . 

Não nego que o trágico desinvestimento na saúde durante o governo de Passos Coelho e que o actual governo ainda não corrigiu tem um óbvio efeito de carência de efectivos em época de picos de afluência, nomeadamente nos períodos epidémicos. Nenhum sistema de saúde, pelo menos na Europa que eu conheço, tem capacidade para responder normalmente nos períodos críticos, por melhor que sejam os seus planos de contingência. E no nosso panorama hospitalar, para além da falta de recursos humanos que nestas alturas é flagrante, existe também na maioria dos hospitais, uma preocupante falta de estratégia nas chefias das equipas que não estão ensinadas para estes períodos críticos , que não obedecem a um plano e a uma hierarquia presente e actuante. 

E, depois, há um factor que todos os exaltados críticos fazem de conta que não vêem, que para mim é gravíssimo e que depende muito mais da sociedade, das famílias e do sistema de segurança social do que do sistema de saúde: o estado em que chegam aos hospitais os nossos doentes idosos (que são a maioria) . Chegam desnutridos, escariados, infectados, tantos os provenientes das instituições como muitos dos que vêm das famílias. Basta que se vejam , nestas épocas, as salas de observações das urgências e logo se constata que a grande maioria são velhos, com infecções respiratórias, ou urinárias ou cutâneas que já têm muito tempo…que estão quase num estado de abandono.

E por isso as reportagens, as fotos que são exibidas nestas alturas, mostram estes nossos cidadãos neste péssimo estado como se eles estivessem assim por causa do “caos nas urgências” Não, meus amigos! O trágico é que estes doentes JÁ APARECERAM NA URGÊNCIA NESTE ESTADO CALAMITOSO !!! Eles estão mal na urgência superlotada mas não foi nas 24 ou 72 horas de urgência que ficaram naquele estado! 

Concluo: o congestionamento nos SU nas épocas gripais será sempre inevitável. São períodos críticos, sazonais e em que o SNS tem que ter a planificacão preparada. Mas é necessário não fechar os olhos ao panorama dos nossos idosos e da maneira como, infelizmente em muitos casos, estão a ser “armazenados” sem um acompanhamento clínico, sem um apoio nutricional, sem reabilitação, posicionamentos e… sem o apoio familiar!