MONTEPIO

(In Blog O Jumento, 08/01/2018)

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A regra de gestão dos fundos soberanos é a de investir em instituições financeiras com um triplo A, isto é, instituições que as agências de rating consideram seguras, garantindo o retorno do investimento. A regra faz sentido. Não é aceitável que um país invista menos na saúde ou noutro sector para dispor de fundos que permitam acorrer a situações graves, para depois investir esse dinheiro na roleta russa de instituições privadas mal geridas.

Acontece que o Montepio não passa disso mesmo, de uma instituição privada mal gerida, lá por ser um banco mutualista isso não significa que seja um banco dos pobres que ficou em situação difícil por ter acorrido às situações de pobreza, digamos que o Montepio não é uma instituição de caridade e qualquer cliente do banco sabe disso.

Todas as agências de rating (*), incluindo a DBRS, consideram o investimento a longo prazo no Montepio como altamente especulativo, isto é, consideram que há uma elevada probabilidade de perdas. Como é que nessas condições pode ser aceite um investimento de uma instituição tutelada pelo Estado no Montepio?

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(*) Notações financeiras do Montepio

Parece que quem defende este investimento pressupõe que, tal como a Santa Casa, também o Montepio prossegue fins sociais, sugerindo-se que o dinheiro que se destina a ajudar os pobres é bem, investido num banco que serve os pobres. Sejamos claros, mesmo que no passado recente um frade franciscano, que parece mandar mais neste país do que o famoso DDT, se tenha alcandorado em eminência parda do Montepio, este não está como está porque o padre franciscano usou os dinheiros do banco para acorrer à pobreza.

Consulte-se o crédito do banco aos particulares e fica-se a saber que a sua TAEG  não é propriamente o preço de uma sopa dos pobres. O Montepio é um banco como qualquer outro, rege-se pelas regras dos bancos comerciais e se está em situação difícil é porque foi mal gerido. Ora, um banco mal gerido, mesmo que entre os seus gestores tenha tido um famoso franciscano, que é o pai espiritual de muito boa gente do poder, é um mau banco e os maus bancos fazem tanta falta como o BANIF ou o BPN.

Não há bancos bonzinhos e bancos mauzinhos, donos disto tudo e pais deles todos, há bancos maus e perigosos porque são mal geridos e bancos bons porque são bem geridos. O Montepio é um mau banco e o sistema financeiro português, a economia portuguesa e a segurança económica dos portugueses só ganha com um sistema financeiro onde não existam maçãs como o Montepio.

Não é escandaloso que haja um banco vindo da “economia social”, ou uma instituição da “economia social” que invista num banco com essas características. O que é escandaloso e criminoso é que uma instituição como a Santa Casa invista num banco considerado lixo por todas as agências de notação contratadas pelo próprio banco.

O Montepio é um banco, que se rege pelas regras da banca, que concorre com os outros brancos e por isso deve ser tratado como todos os outros bancos, sendo politica, ética, jurídica e moralmente inaceitável que uma instituição tutelada pelo Estado seja obrigada investir os seus recursos neste ou em qualquer outro banco. Veremos se o banco do homem que é uma espécie de pai espiritual de algumas personalidades políticas de maior peso do país vai ficar sujeito às regras que se aplicaram ao BES, ao BPP, ao BANIF ao BPN e a todos os outros bancos, ou se vai ser protegido, assumindo-se que mesmo entre os pequenos investidores na banca há os que se lixam e os que são protegidos por Deus.

Só uma pequena dúvida, porque razão o Montepio não se financiou junto do Estado como todos os outros bancos, tendo preferido levar a sua situação tão longe, para agora tentar resolver os seus problemas com os fundos da Santa Casa?

Fonte aqui

A política das catástrofes

(António Guerreiro, in Público, 07/01/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Há cerca de dois meses, a seca estava na ordem do dia, era assunto dos noticiários e até foi difundido um anúncio de iniciativa ministerial a apelar aos cidadãos para que reduzissem o consumo da água. Entretanto, choveram umas pingas, a terra ficou húmida e verdejou um pouco. Foi o suficiente para as preocupações se dissiparem e o assunto deixar de assomar nas vozes públicas. Observando o que se passa no terreno, a situação catastrófica não se atenuou e não devemos esperar por chuva abundante quando o tempo em que ela é mais copiosa já começa a ficar para trás. A não ser que o Governo e demais entidades a quem cabe a tarefa de gerir o Inferno que aí vem tenham substituído os alarmes públicos pela oração à Virgem, a aparente tranquilidade que se vive por esses lados é de uma grande imprudência. Mas não é uma falha pontual: a denegação das questões do clima e a recusa em aceitar a ideia de que entrámos num novo regime climático fazem parte das posições do poder político. Um dos fenómenos da vida política, social e cultural do nosso tempo, em que o espaço público parece tão alargado que todos parecem poder aceder a ele, é o facto de haver grandes zonas de exclusão, onde falta a voz pública e os seus amplificadores. As vítimas principais da seca, as que mais sofrem os seus feitos, são um exemplo desta obliteração.

O sueco Andreas Malm, que escreveu um livro sobre o Antropoceno (o nome que se dá à nova época geológica), reduzindo-o a uma simples máscara ideológica, mobilizou para este campo a análise marxista, às vezes demasiado vulgar, mas com algumas iluminações a que não devemos fechar os olhos. Este geógrafo tenta mostrar que por trás desse “ecrã ideológico” está uma velha oposição com novas roupagens: hoje, diz ele, as classes opõem-se pelo maneira como as transformações do planeta dividem as populações entre as que são apanhadas nas falhas abertas pelos processos geo-tecnológicos, responsáveis pelo novo regime climático, e as que têm meios de se proteger e de evitar zonas de risco. Se a catástrofe seguir o seu curso, como parece inevitável, a médio prazo vai deixar de haver espaços herméticos, protegidos. Não haverá nenhuma green zone. Na perspectiva de Malm, sem antagonismos não é possível qualquer mudança política. Por isso, ele denuncia no conceito de Antropoceno aquilo que nele está ao serviço da narrativa de uma humanidade pirómana em que todos somos culpados, ainda que seja sabido que os dezanove milhões de habitantes do estado de Nova Iorque consomem mais energia do que os novecentos milhões que habitam em toda a África sub-saariana. E, por isso, ele submete à crítica “o mito do Antropoceno” e aponta os “maus usos” e as contradições desse conceito. O que na análise de Malm parece demasiado vulgar e esquemático é a sua insistência numa categoria ideológica e historicamente cristalizada como é a categoria política da classe. O antagonismo de classe precisa hoje de ser substituído por outros antagonismos. Verificámos isso recentemente, com os grandes incêndios de Junho e Outubro.

De repente, emergiu um antagonismo entre o litoral e o interior, e entre as zonas urbanas e as zonas rurais. Ora, a denegação e o silêncio do poder político sobre a catástrofe climática só se consegue manter enquanto esta atravessar os campos, matando toda a vida que neles existe, mas sem afectar fortemente as cidades, para as quais trabalham os institutos meteorológicos e a protecção civil, com os seus divertidos alertas coloridos (do amarelo ao vermelho), como quem conta histórias de fantasmas a gente adulta, mas analfabeta quanto à meteorologia.

 

Somos Todos "Hackers"

(Por Dieter Dillinger, in Facebook, 07/01/2018)

balsemao

Francisco Pinto Balsemão, o magnata da comunicação social, escreveu no Expresso de ontem um curioso editorial ou testamento.
Para além dos elogios feitos ao seu jornal, que comemora 45 anos de idade, Balsemão define a época actual como “era da pós-verdade” e considera os escribas das redes sociais como “hackers”, o que é calunioso, dizendo o seguinte: “Os “hackers” não existem só para penetrar em sistemas de comunicação teoricamente inatacáveis. Existem também para espalhar, organizadamente, falsidades que convêm aos poderes políticos, económicos, culturais ou desportivos que os contratam”.

Que grande MENTIRA. Eu, por exemplo, e todos os amigos deste facebook não fomos contratados por ninguém. Coloquei a foto de Sócrates na minha página muito antes de ser conhecida a “Operação Marquês” e ficará para sempre qualquer que seja o futuro do ex-PM na justiça ou fora dela.

De resto, a foto era uma alusão humorística à notícia de que Sócrates teria ido estudar filosofia para Paris, pretendendo fazer um paralelo com o Sócrates ateniense do ano V antes de Cristo.

Para Balsemão, as pessoas inteligentes são as que param para ler o Expresso, depois de o comprar como é evidente. O Expresso é para ele o “porto de abrigo, onde as pessoas param, refletem, pensam por si próprias, saem do turtbilhão em que todos nos deixámos envolver, definem em liberdade o rumo que querem seguir”.

Ora, nada mais falso. O Expresso, a Sábado, a Visão, a SIC e toda, mas toda a comunicação social, escrita, falada e vista está CONTRA o Governo de ANTÓNIO COSTA e esses que fazem na Comunicação Social uma CENSURA antisocialista, anticomunista e antibloco de esquerda é que estão pagos pelos interesses capitalistas que não se satisfazem com o mercado livre e a possibilidade de fundarem uma empresa na hora, mas querem fazer do Estado o seu negócio principal, isto é, apropriarem-se dos sistema de saúde como negócio e da segurança social, etc.

A ganância capitalista não tem limites. Se fosse possível, o País seria governado por uma empresa como a quase falida Impresa que terá vendido a um jornalista sem dinheiro por dez milhões de euros quase uma dúzia de revistas, pelo que dizem por aí. Custa-me a acreditar que aquilo tenha esse valor, talvez sejam 10 ou 100 mil euros apenas.

Balsemão diz que pratica o bom e verdadeiro jornalismo e às vezes até acontece, mas no geral, no Expresso, só estão pessoas que condenaram Sócrates antes de qualquer julgamento (Micael Pereira, etc.) e tudo o que possa ser negativo para o Governo actual da PÁTRIA aparece nas páginas do Expresso.

O magnata diz que o Expresso é para as pessoas inteligentes e, por isso mesmo, exigentes. Geralmente não vejo isso, apesar de nada ter a ver com um pasquim como o “Correio da Manhã”, mas o fundamental é que é muito mais inteligente expressar nas redes sociais aquilo que uma pessoa pensa do que estar limitado ao pensamento de outros que servem interesses financeiros.

Balsemão não percebeu que no facebook ou nos blogs pensamos, escrevemos e não pagamos nem recebemos NADA.

Eu não sei se sou inteligente ou não, nunca medi o meu QI, mas sei que 16.450 incêndios no verão passado não foram obra de um qualquer espírito santo, mas sim de muitos INCENDIÁRIOS. Não acredito que algo arda espontaneamente como pretende o especialista Xavier e o DIAP de Leiria mais a PJ e a PGR e, naturalmente, o Expresso.

O “INTELIGENTE” Expresso nunca analisou esse problema e nem o quer fazer. Por isso, não vale a pena parar para ler o Expresso porque sai dele muito pouco, salvo alguns números na secção de economia e, mesmo assim, não o suficiente para termos uma verdadeira ideia do que é o atual OE 2018.