MULHER REPUDIADA A NORTE

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 20/05/2017)

Autor

                                     Clara Ferreira Alves

Esta do repúdio, vindo de uma estrutura rosa, faz-me lembrar o divórcio dos países e religiões que assim o consentem e em que o marido começa por repudiar a mulher

Há tempo que não me ria tanto. Parece que existe pelo país marialva, algures a norte, um secretariado de uma comissão política de uma distrital de um partido, que poderemos referir por “estrutura rosa nacional” segundo a notícia (bem escrita por Isabel Paulo) do Expresso, (Ver notícia aqui) que está inconformada e “revoltada”. E está não apenas inconformada e revoltada como se reuniu para decidir se iria divulgar ou não um documento de protesto a que chamou moção de repúdio. Esta do repúdio, vindo de uma estrutura rosa, faz-me lembrar o divórcio dos países e religiões que assim o consentem e em que o marido começa por repudiar a mulher. Some-te! No antigamente, mulher repudiada era a que não conseguia produzir descendência, a que não prestava. A princesa Soraya, casada com o Xá da Pérsia, foi repudiada por ser estéril. A coisa não teve muito chá mas a pobre Soraya, que, dizem, era amada pelo Xá, teve de levar com a moção de repúdio e passou o resto da existência a passear de hotel em hotel a tristeza e a humilhação. Na Índia, a prática do repúdio, com ou sem moção e com ou sem monção, leva mulheres ao suicídio.

Não será o caso de Ana Catarina Mendes, dirigente nacional e, dizem, a número dois de António Costa e da estrutura rosa nacional. A estrutura pode ser rosa à vontade mas não aprecia mulheres que mandam nem a ingerência do pink power. Assim sendo, puxando as calças, e já diria o Eça “que calças, que talento!”, de um político da estrutura rosa local, e puxando os galões, o secretariado da comissão da distrital pariu (salvo seja) um documento em que repudia o posso, quero e mando do PS nacional, embora se venha a verificar na notícia que é o quero, posso e mando da dita Ana Catarina Mendes, que terá “desrespeitado e desconsiderado” um tal Joaquim Barreto porque não foi avisado do apoio da estrutura rosa nacional a um jantar de militantes nem do convite a Manuel Pizarro da secretária-geral-adjunta para representar o partido. No dito jantar, se bem depreendi. O Barreto foi desconsiderado. A secretária-geral-adjunta (e desvaneço-me em ternura por estes títulos) não entendeu que não cabe ao líder da distrital do Porto representar o PS num encontro autárquico de Fafe. A coisa foi assim posta por um dirigente da distrital bracarense, afirmando que Ana Catarina é a “autora moral do abuso” e o dito Pizarro, celebrizado pela briga com Rui Moreira, o “autor material da ofensa”. Isto só com um duelo ao amanhecer mas havendo mulher no meio… faça-se o repúdio!

A dita moção de censura, ou repúdio, foi logo entregue ao secretário-geral do partido, que felizmente também usa calças, mas os dirigentes bracarenses, ao tempo da dita notícia, ainda não tinham tido uma satisfação. Fonte próxima do deputado Barreto, cuja existência nos tinha passado despercebida (e se calhar também ao secretário-geral da estrutura rosa), torna António Costa “corresponsável e conivente pela inabilidade política da sua nº 2, que já deveria ter sido afastada depois da forma intrometida e trapalhona como atuou no caso do Porto”. Gosto desta linguagem, imagino que no recato da autarquia, no gabinete dos paços do conselho, a língua seja mais solta. A gaja anda a meter o bedelho onde não deve, as gajas quando se armam em mandonas… comigo isto não passa, é uma desfeita, é uma afronta!

Isto sou eu, a escriba, claramente praticando a virtude do mui imaginar, antes que o dito Barreto me repudie e repudie estas afirmações imaginárias por carta.

E o Costa não dava retorno!

Na reunião da distrital participaram todos os membros da comissão política, todos ou quase membros masculinos, a avaliar pela notícia, incluindo um ex-deputado, um ex-presidente da câmara de Fafe, um líder concelhio desavindo com o PS nacional, um ex-governador civil de Braga pai do secretário nacional do PS para a Organização nacional e “uma das ausências mais notadas da noite”. Entretanto, também o dito Pizarro criticou Ana Catarina Mendes pelo Porto e a zanga com Rui Moreira, que levou a cisões autárquicas em Fafe, Vizela, Barcelos, Celorico de Basto e Amares.

Ora, isto faz de Ana Catarina Mendes uma verdadeira Trump desta trapalhada a norte. E faz desta intriga que ocupa estas cabecinhas (muitas delas ex, mas não repudiadas, espera-se) mais do que o bem-estar das populações, uma verdadeira Casa Branca ou, à escala, uma casinha branquinha. É só intrigalhada.

“Vai ser uma hecatombe num distrito bastião histórico socialista.” Devido “à rédea solta que o secretário-geral do partido tem dado a Ana Catarina Mendes”. Dizem os ditos. A rédea solta… Isto lembra-me qualquer coisa.

O ‘Fado Marialva’. Cá estamos.

“Eu cá para mim/ não há ai não maior prazer que o selim e a mulher…/ Rédeas na mão, sorrir amar, trotar esquecer, e digam lá se isto é descer!”

Caro António Costa, um conselho. Escuta o Vicente da Câmara. “Porque quem anda no trote em cima de um bom alter/ leva no bote a mais difícil mulher…”

Mande a rapaziada da estrutura rosa local trotar e esquecer. Eles já se tinham pegado uns com os outros por causa do jantar do 25 de Abril. Não gostam de ficar de calças na mão.

Não, não há milagres

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 20/05/2017)

AUTOR

                              Miguel Sousa Tavares

Ouvir Maria Luís Albuquerque a querer dar lições de economia ou finanças públicas a este Governo (ou a qualquer outro); ouvi-la prever catástrofes, em tom catedrático, e depois, quando as anunciadas catástrofes se revelam afinal sucessos, reclamar para si os louros dos mesmos; ouvi-la criticar as políticas de contenção de despesa pública que anunciou fazer e não fez e preconizar agora o contrário daquilo que defendeu quando no Governo, tudo isso me tira do sério.

Ouvir a desfaçatez com que o governante cujas decisões mais caras nos saíram desde o 25 de Abril pretende dar sermões morais sobre o dinheiro mal gasto dos contribuintes é puro desplante. Ver quem (juntamente com Carlos Costa e Passos Coelho) espetou mil milhões no Banif, para no fim essa banqueta insular ir à falência e custar mais três mil; quem andou anos a fio a assistir impavidamente ao acumular de prejuízos na Caixa Geral de Depósitos; quem se decidiu a experimentar a receita (até hoje, única) de espetar cinco mil milhões na Resolução do BES e na criação do Novo Banco (que rapidamente tratou de os fazer desaparecer), vir agora chorar pelos contribuintes que serão prejudicados pela prorrogação do prazo de pagamento dos quatro mil milhões que o Estado lá meteu pelo Fundo de Resolução (e cuja exigência de pagamento agora levaria à falência o que resta de banca), é verdadeiramente gozar com a nossa cara. Ver a senhora cuja teimosia em enfrentar o Santander na questão dos swaps nos custou mais umas centenas de milhões de euros atrever-se a falar em más decisões contratuais por parte do actual Governo, reflecte bem o seu sentido de responsabilidade política. Ver a senhora que, juntamente com Vítor Gaspar e Passos Coelho, conduziu políticas que forçaram a falência de milhares de empresas viáveis, que mandou para o desemprego 400 mil pessoas e metade disso para a emigração, ter a suprema lata de vir reclamar, por pretensas reformas que não fez, a paternidade da queda da taxa de desemprego abaixo da marca dos 10% e a criação de 120 mil postos de trabalho desde que tivemos a felicidade de nos vermos livres do Governo de que a senhora fazia parte, é apostar na amnésia colectiva. Se tivesse um pingo de pudor político, já se teria há muito calado de vez ou teria emigrado daqui — lá para onde os seus revelados talentos de economista sejam reconhecidos, como fez o seu antecessor. E se o PSD ainda conseguisse manter alguma lucidez de espírito no meio do desnorte em que navega, há muito que a teria reduzido ao silêncio, em lugar de a manter como porta-voz do partido para as questões económicas. Quantos portugueses imagina o PSD que votariam agora num governo chefiado por Passos Coelho, com Maria Luís Albuquerque a ministra das Finanças, Rui Machete a ministro dos Estrangeiros, Miguel Relvas a ministro da Presidência, e por aí fora?

Compreendo que não seja fácil a posição do PSD. Para começar, em circunstâncias bem difíceis, conseguiu ganhar as eleições mas viu-se desapossado do poder que já festejava por uma jogada de mestre de António Costa e uma insólita conspiração de contrários. Mas foi também assim, recorde-se, alinhando numa ainda mais antinatural conspiração de contrários, que PSD e CDS chegaram ao poder, derrubando o Governo do PS. Depois, todas as previsões de desastre anunciadas pelo PSD, o Diabo encomendado por Passos Coelho, o insucesso “matematicamente” garantido por Maria Luís Albuquerque no cumprimento dos 2,5% de défice previstos pelo actual Governo e a anunciada inevitabilidade de um orçamento rectificativo, algures a meio de 2016, tudo saiu, não apenas furado, mas ridicularizado. O défice foi de 2%, o mais baixo da democracia (com o saldo primário mais alto da zona euro); ao contrário do que aconteceu com todos os orçamentos do Governo PSD-CDS, não houve necessidade de qualquer orçamento rectificativo por desacerto entre as previsões e a execução; e, quanto ao Diabo, estamos assim, actualmente: a maior taxa de criação de emprego da zona euro e o a terceira maior taxa de crescimento do PIB na Europa. Enfim, e mais traumático do que tudo, deve ser perceber que isto aconteceu devido a uma combinação entre as medidas virtuosas que o anterior Governo anunciou e não fez (a contenção da despesa pública, que substituiu pelo “enorme aumento de impostos”) e a adopção de outras medidas que eles haviam jurado estarem erradas, como a aposta no relançamento do consumo privado, através da devolução parcial de alguns dos rendimentos mais baixos, que o anterior Governo cortara. Ou seja: de fio a pavio, os factos e os números (que valem bem mais do que os estados de alma ou as promessas eleitorais) provaram que a política económica do anterior Governo estava errada e foi um desastre para o país e para a vida concreta de milhões de portugueses. Não o reconhecer, não aprender com os factos e manter o mesmo discurso, pretendendo ainda que os portugueses lhes reconheçam os méritos das melhoria da conjuntura devido a ter-se feito exactamente o oposto do que preconizavam, ou é desespero ou é má fé.

É certo que a conjuntura internacional, em parte, tem ajudado este Governo. Mas também ajudou antes: o petróleo estava igualmente barato, o BCE já comprava dívida portuguesa, as taxas de juro estavam igualmente baixas para os privados e o Estado estava protegido da sua subida pelas condições do resgate da troika e dispondo ainda dos 78 mil milhões que esta nos havia emprestado (e que poderiam e deveriam ter sido usados para sanear a tempo a banca). Não, o que falhou foram as políticas e a teimosia, feita altivez, em insistir nelas e “ir ainda além da troika”, logo que se começou a verificar o efeito devastador que elas tinham sobre toda a economia. Como então aqui escrevi, quem tinha falido era o Estado e, para acorrer à falência do Estado, liquidou-se a economia, sem ao menos reformar o Estado — garantindo aquilo que Paulo Portas havia solenemente prometido: que no final do mandato teriam criado condições para que Portugal nunca mais tivesse de pedir para ser resgatado. Esse perigo mantém-se, porque, infelizmente, também não é este Governo, dependente de dois partidos que só pensam em aumentar a despesa pública, que irá reformar a administração pública e as mentalidades. Em estado de necessidade, quase em rigor mortis, como estávamos em 2011, Passos Coelho e Paulo Portas tinham as condições e o dever de o fazer — o país, grande parte dele, tê-lo-ia compreendido e aceitado. Mas não o fizeram e raras vezes se pode reescrever a história. Hoje, quando o próprio FMI e a Comissão Europeia reconhecem os erros cometidos em Portugal e na Grécia, a posição de trincheira do PSD não tem nada de estóico, apenas teimosia irracional e orgulho suicidário.

É verdade que Passos e Portas governaram em condições de extremas dificuldades — herdadas e que a sua estratégia ainda agravou mais. Mas também isso não serve de desculpa, pois eles quiseram governar, sabendo ao que iam. No momento em que os dois partidos da direita se juntaram aos dois de extrema-esquerda para chumbarem o PEC4 de José Sócrates (que fora aprovado em Bruxelas e Berlim), eles sabiam três coisas: que a única alternativa que restava era um pedido de resgate à troika; que José Sócrates se demitiria; e que era muito provável que, nessas condições, PSD e CDS ganhassem as eleições e assumissem o governo. Não foram, pois, ao engano nem por sacrifício patriótico: foram por vontade de poder. O que é legítimo, mas não pode depois ser usado como desculpa para as dificuldades da governação.

(Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia)

O populismo em forma de oráculo

(António Guerreiro, in Público, 19/05/2017)

Autor

António Guerreiro

Há o populismo político, um conceito que hoje nos é servido como uma papa homogeneizada; e há o populismo cultural, de que pouco se fala e é quase imperceptível porque já faz parte do ambiente e até é produzido e estimulado pelos mesmos que, mal viram um pouco a cabeça (uns para a esquerda, outros para a direita), deparam com o monstro do populismo político.

Às vezes a figura do populismo não passa despercebida porque atinge proporções escandalosas. É o caso das imposturas “filosóficas” de um charlatão chamado Michel Onfray, do qual foi publicada uma longa entrevista no último Ípsilon, acompanhada por um artigo, da autoria do entrevistador (Jan Le Bris De Kern), intitulado Jesus Cristo nunca existiu. É um título suculento, que resume a grande revelação do livro de Onfray, publicado há alguns meses em França, com o títuloDécadence. De Jésus à Ben Laden, vie et mort de l’Occident. Ao pé disto, O Declínio do Ocidente, de Spengler, era coisa sóbria.

Em que consiste o populismo cultural — ou, mais precisamente, o populismo em filosofia — do qual Onfray é um exemplo superlativo? Consiste numa banalização e degradação do pensamento, numa forma de discurso animada por propensões demagógicas que visam atrair o maior número de pessoas. É um apelo ao mais banal senso comum, mesmo quando parece querer destituí-lo. De filosófico, o discurso de Onfray não tem nada: pertence a um género oracular, também usado nas várias modalidades de charlatanismo. Não se trata aqui da popularização da filosofia na época da democracia de massa. Não confundamos popularização com o seu duplo obsceno, o populismo, que é onde se situa o famosíssimo e muito prolífico “filósofo” francês. A primeira regra do populista consiste em prometer a verdade a baixo preço, em encontrar uma verdade ignorada por todos: seja ela que Jesus não existiu ou que Freud e a psicanálise são uma grande impostura. Denunciar as grandes “mentiras” da história da filosofia é o modesto programa do autor deDécadence. Cada livro seu é um panfleto: o populismo cultural é panfletário. O seu método, diz ele, consiste em ler toda a obra de um autor e tudo o que se escreveu sobre ele. Uma descarada mentira, já que uma vida inteira não dá para ler tudo o que se escreveu sobre Freud. E mesmo que desse, pouco tempo restaria para entrar nos longos e complexos meandros histórico-biográficos da figura de Jesus, ainda por cima com a ambição de percorrer dois mil anos para chegar a Bin Laden e atingir as alturas de onde observa o Ocidente a declinar. E, como todo o populista, este também é anti-sistema. Não fala a mesma linguagem técnica dos filósofos profissionais para evitar o jargão técnico. Jamais o apanhamos a falar do esquematismo transcendental de Kant. O seu discurso “filosófico” é para ser compreendido pelos não iniciados, pelos afásicos e surdos para as coisas da filosofia, mas despertos para a tagarelice mediática. O segredo está precisamente aqui: o “filósofo” que encontra para cada livro uma trouvaille, daquelas que são feitas para partilhar no Facebook e para alimentar a cultura jornalística do clique, anuncia-a sempre com grande alvoroço em todos os media. Ele, o que vive na província, que criou a sua própria “universidade popular”, que não quer aproximar-se dos círculos filosóficos parisienses e seus derivados, passa a vida a dar entrevistas, a promover os seus livros na rádio e na televisão parisienses. Evocando-o como exemplo grandioso do populismo cultural, não podemos esquecer que não está sozinho e precisa da solidariedade e da complementaridade dos dispositivos mediáticos.