Copos e mulheres

(José Pacheco Pereira, in Público, 08/04/2017)

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Em si, as hoje celebérrimas declarações de Dijsselbloem têm escassa importância. O homem disse aquilo que muitos pensam em parte da Europa sobre a outra parte da Europa, e eu serei a última pessoa a fazer uma cruzada contra o holandês. Aliás, este tipo de generalizações geográficas entre as partes em que se trabalha e aquelas onde se preguiça são típicas de qualquer zona da Europa em que, num país existe uma região industrial e um rural, como acontece na Espanha, na Itália, na antiga Checoslováquia, e no nosso muito pouco alemão Portugal, onde, como se sabe, os alentejanos gostam de viver à sombra de um chaparro sem fazer nada, ou Lisboa a viver à custa do Porto.

Dijsselbloem é uma personagem de um período negro da história europeia recente em que governantes de vários países falam com demasiado à vontade sobre os outros países seus aliados o que, digamos, é pelo menos pouco diplomático. Schäuble, Cavaco Silva e Passos Coelho, por exemplo, falaram sobre a Grécia, em moldes inaceitáveis pelas regras tradicionais de reserva e prudência, e dirigentes polacos, e checos fizeram a mesma coisa sobre outros países da sua “união” europeia, incluindo Portugal.

Isto quanto à forma da boa educação internacional. Já o facto de Djisselbloem ter dito o que disse, no quadro da política de “ajustamento” que ele, como polícia de Schäuble no Eurogrupo, patrulhou, já tem um claro significado político. Do ponto de vista da gravidade das suas declarações, a história dos copos e das mulheres com que no Sul se esbanja o dinheiro à custa dos trabalhadores do Norte, é menos relevante do que as acções que o Eurogrupo sob sua direcção patrocinou via troika, com bastante aplauso interno. Aí a lição de moral, do trabalhador porfiado do Norte versus o dissipador no Sul, já tem um claro conteúdo político, que me faz terçar em armas contra o holandês, nos mesmos termos em que o fiz contra os seus émulos portugueses.

Mas por que raio foi Dijsselbloem falar de “copos e mulheres”, como a quinta-essência do viver por conta do Sul? Não penso que tenha dito o que disse, como alguns em Portugal escreveram, por ser um puritano da Europa protestante. Dijsselbloem é de uma família católica e estudou em escolas católicas, quer na Holanda, quer nesse bastião do catolicismo que é a Irlanda, e a sua carreira, após uma passagem pelo pacifismo esquerdista (imaginem!) é típica de um político profissional, desde as autarquias à assessoria ministerial e, por fim, o Parlamento e a participação no governo. Nesse caminho, imaginem os seus admiradores que por cá há, Dijsselbloem fez até nacionalizações, num partido que já foi muito à esquerda, até dos partidos socialistas mais à esquerda na Europa, mas que entretanto virou bastante à direita. Nessa viragem, ter escolhido um político de carreira como Djisselbloem para Ministro das Finanças, compreende-se muito bem.

Mas o senhor holandês devia conhecer melhor a Europa para perceber que “copos e mulheres” estão profundamente embebidos em todo o lado laico da cultura europeia que, felizmente para nós, é bastante forte em contraste com outras paragens, a começar pelos EUA. E senhor Dijsselbloem, quem vive muito para o Norte da Europa, onde faz frio, e onde durante grande parte do ano, já é noite ao meio da tarde, não escapa aos álcoois brancos, da aquavit ao vodca. Aliás, a melhor literatura moderna sobre “copos” que há na Europa não é sulista, nem vem de terras mediterrânicas, mas foi escrita na Rússia, onde se bebe até ao estado de estupor e onde estar bêbedo, como estava muitas vezes Ieltsin, não era socialmente mal visto. Ou foi escrita no Reino Unido, onde os políticos, intelectuais e escritores tem uma relação muito própria, às vezes snobmente criativa, com o copo de whisky à sua frente e as senhoras, a começar pelas várias rainhas, tem um especial amor por aquilo que, na minha terra, era servido nas confeitarias como “chá branco” e que, em Albion, era o bom e velho gin. A caminho do Sul, passando por França, temos o absinto, de vasta memória impressionista e das margens do Mosela até Bordéus, uma vasta antologia de venenos vinícolas, faz a alegria dos povos que bebem “copos”. Está pois o senhor Dijsselbloem muito equivocado. Comparado com as pesadas bebidas nórdicas, o vinho é bem mais pacífico e seria preciso muito dinheiro do Eurogrupo, em forma de vários resgates, para que os “copos” caracterizassem o Sul em vez do Norte.

Isto quanto ao vinho, porque quanto às mulheres, estamos conversados. Aí o ecumenismo europeu é total, e presumo que uma parte significativa dos homens gosta de mulheres desde a Lapónia a Malta, e gasta com elas muito dinheiro e muitos copos para terror do nosso holandês. O melhor exemplo desse desvario feminino vem de um alemão, Fausto, que não se limitou a gastar o dinheiro mas vendeu a alma pela bela Gretchen, coisa que no Sul não é muito habitual.

É por isso que, se eu fosse o nosso secretário de Estado que teve com ele uma altercação, tinha levado para a circunspecta reunião o seu iPad ou iPhone, e punha-o a tocar uma música, como se fosse o hino nacional dos países do Sul, embora ela tinha sido escrita bastante mais para o Centro-Norte da Europa. E diria, olha lá ó Presidente, sabes como se chama esta música? Repara em cada palavra, copos, mulheres e música. “Vinho, Mulheres e uma Canção” (Wein, Weib und Gesang) de Johann Strauss é uma muito conhecida e popular valsa cujo título deriva de um adágio muito comum em várias línguas e que diz mais ou menos isto “quem não gosta de vinho, de mulheres e de música permanece um imbecil a vida toda”.

Variantes deste adágio existem em várias línguas europeias, algumas sisudas e devidamente nórdicas, sueco, polaco, e até holandês, outras já a caminho do sul como Aimer, boire et chanter, que é aliás um título de um filme muito sério de Alan Resnais. O poema original, com este programa de vida, é muito popular em terras germânicas – verdade seja que da parte alemã e austríaca que passa por ser já meia italiana – e exprime aliás a pena pelo “pobre tolo” que não aprecia esvaziar já nem sequer um copo, mas um barril, ao lado de uma senhora de costumes, digamos, soltos.

Pobre senhor Dijsselbloem, insultado de “tolo” por um autor de valsas vienense!

59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 07/04/2017)

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59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra.
Os 59 mísseis disparados pelos EUA contra um objectivo na Síria representam o regresso à agenda de guerra da política externa estabelecida no final do século XX. Trump sofreu mais uma derrota. Na campanha eleitoral Trump prometeu desinvestir nas guerras do Médio Oriente (o termo técnico é baixar o nível de empenhamento), porque o petróleo estava barato, era abundante e ele preferia o carvão que dava emprego a americanos. Trump considerava a NATO obsoleta e a Rússia um parceiro em vez de um inimigo.
Esta agenda colidia com os interesses de Israel e da Arábia Saudita que há décadas (pelo menos desde Nixon e Kissinger) dominam a matilha política de Washington. Os tiranetes radicais da Arábia Saudita e de Israel necessitam da desestabilização da região para se manterem no poder. Um Médio Oriente estabilizado é o fim dos negócios e do poder da família Saud e dos radicais judeus. A agenda tradicional dos EUA, a agenda de Clinton, marido e mulher, de Bush pai e filho, de Obama foi a de criar e manter um turbilhão na zona.
Em 2007, o general Wesley Clark, antigo comandante supremo da NATO, numa entrevista muito difundida, desvendou o plano dos EUA e dos seus aliados locais e europeus de tomarem ou destruírem 7 países em 5 anos: Síria, Líbano, Líbia, Somália e Irão, que iriam fazer companhia ao caos do Iraque. Era este o programa de Hillary Clinton.
Em 3 de Fevereiro de 2017, logo após a posse de Trump, o general David Petraeus, antigo director da CIA, alertava o novo presidente para o perigo de alterar a “war agenda”. Numa conferência na Comissão Militar afirmou que a América não podia dar como garantida a atual situação (a situação herdada de Obama). Esclarecia que essa situação não era autosustentada e que fora criada pelos Estados Unidos. Se não for mantida colapsará, garantiu.
Os 59 mísseis lançados sobre uma base siria demonstra que os velhos poderes já estão bem instalados em Washington. A velha situação de desestabilização não colapsou. A família Saud e Benjamin Netanyahu podem celebrar de novo a vitória. Os lobistas do armamento, das companhias militares privadas podem acender charutos.


Não deixa de ser caricato que Trump tenha justificado a sua derrota com um impulso piedoso devido ao choque sofrido com as imagens das crianças atingidas pelas armas químicas. Armas cuja origem ninguém se interessou em investigar, a começar pelo próprio Trump. Já o mesmo tinha acontecido com as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, que levaram Bush filho à segunda invasão do Iraque.


A velha ordem regressou a Washington. E à Europa também, com uma diferença: a doutrina Blair de sujeição activa da Europa ganhou adeptos. Hollande e Merkel não estiveram à altura de Chirac e Schroeder. Esses também tinham que vender armas, mas a estes não lhes custa serem rafeiros…
Tudo como dantes. Quartel em Abrantes

Os labirintos da Justiça e os da memória

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 08/04/2017)

AUTOR

                                    Miguel Sousa Tavares

1 O desfecho da investigação criminal a Dias Loureiro e Oliveira Costa, por eventuais falcatruas cometidas no BPN, mostra o nosso Ministério Público (MP) em todo o seu esplendor: depois de oito anos de investigações, não conseguiram obter prova alguma das graves suspeitas lançadas logo de início com a habitual e prestimosa colaboração da imprensa tablóide, sempre ao serviço do MP e da violação do segredo de Justiça. Não se sabe que rigorosa investigação terá sido feita para se arrastar durante oito anos, mas sabe-se que o suspeito Dias Loureiro foi ouvido uma vez, ao princípio, e nunca mais sentiram necessidade de voltar a ouvi-lo. E, assim, não tendo provas para levar os suspeitos a tribunal, arquivaram o processo. Porém, o despacho em que o MP arquiva os autos é digno de figurar nas colectâneas de jurisprudência e nos manuais escolares como exemplo do que é a distorção da Justiça — se é que os princípios fundamentais do direito ainda vigoram, não tendo sido afastados pela necessidade de combater o terrorismo, o crime de colarinho branco em grande escala ou outras situações de excepção que se vêm tornando regra sob o nosso impávido olhar. Resumindo, o MP arquiva mas faz notar que se mantêm todas as suspeitas e todos os indícios de crime, só que não houve forma de as provar. Já tínhamos visto isto com o arquivamento de um processo contra Duarte Lima, há vinte anos, ou contra José Sócrates no caso Freeport (investigado com fragor durante seis anos, sem que o suspeito alguma vez tenha sido interrogado ou chamado a pronunciar-se).

A estratégia do MP, nestes casos ditos “mediáticos”, é sempre a mesma: parte de suspeitas (às vezes vindas não se percebe de onde e outras vezes mais parecendo desejos) e imediatamente espalha essas suspeitas aos quatro ventos em tudo o que é imprensa ávida de escândalos — a qual, por sua vez, logo as transforma em verdades inatacáveis; assim garantida a glória dos intrépidos investigadores e a condenação popular e prévia dos arguidos, o MP começa, paulatinamente e sem pressa alguma, à procura das provas para as suas suspeitas; demora nisso o tempo que quiser, obtendo sucessivas prorrogações do prazo investigatório, pois que a jurisprudência estabeleceu que não há prazo algum; quando já está farto de investigar em vão ou quando o escândalo da demora ameaça fazer esquecer o escândalo dos eventuais crimes, arquiva porque não conseguiu provas — faltam os meios, faltou-lhe mais tempo, o processo é extremamente complexo, não lhe respondem às cartas rogatórias ou, se respondem, é preciso traduzi-las porque, imaginem, vêm em língua estrangeira. Mas não arquiva sem mais nem menos: arquiva condenando aos quatro ventos, chamando a si o papel de juiz e justiceiro popular e dando logo a sentença, sem sequer ter de passar pelo julgamento. É claro que o suspeito não vai preso, mas para aqueles que leram algures (será na Constituição?) que todos têm direito ao bom nome, e para aqueles que o prezam, arquivar assim é o mesmo que ser entregue às feras e para sempre. E acabamos todos sem saber se A, B ou C são, de facto, uns bandidos ou se são inocentes. Se beneficiaram da incompetência do MP ou se, pelo contrário, foram vítimas do seu abuso e da sua falta de respeito pela presunção de inocência.

Mas isso interessa a alguém? Alguém ainda se preocupa com essas relíquias de museu como o segredo de Justiça, a presunção de inocência, o direito ao bom nome, o contraditório, o ónus da prova, a celeridade da justiça e outras baboseiras esquecidas na poeira dos livros?

2 Nunca tive a mais pequena consideração pela pessoa e pelo percurso de Armando Vara. Pelo contrário: um comentário meu a seu respeito levou-o a perseguir-me judicialmente e sempre em vão até ao Supremo Tribunal de Justiça, pois que Armando Vara, então no seu apogeu, achava-se no direito de ser imune às críticas. Dito isto, não posso senão mostrar a minha perplexidade pela dureza da pena de cinco anos de prisão efectiva, agora confirmada pela Relação do Porto, por três crimes de tráfico de influências, pagos com cestos de robalos ou com dinheiro vivo. Não que eu viva bem com o tráfico de influências, mas porque vejo aqui uma zona muito cinzenta, em que a fronteira entre o criminoso e o profissional muitas vezes me aparece determinada apenas pelas circunstâncias políticas do momento ou pelas circunstâncias pessoais do agente. Entre o traficante de influências e o “facilitador de negócios”, qual é a grande diferença? Quantos portugueses (e estrangeiros) ilustres não se dedicam hoje a essa actividade e a uma escala multinacional, fechando negócios de milhões ou biliões, utilizando a sua capacidade de influência junto dos seus “contactos” importantes? Mas, mesmo saindo para a nossa pequena escala, não somos nós historicamente o país da “cunha”, do “empenho”, da palavrinha”, do “almoço de trabalho”? Quem é capaz de distinguir com toda a clareza o que é crime daquilo que é apenas a regra habitual do jogo? O que distingue o tráfico de influências do lobbying (legal em vários países) ou mesmo da actividade conhecida das nossas agências de comunicação e imagem?

Na dúvida, eu seria prudente no julgamento e comedido na pena. Para não ficar a impressão de que a frustração por não conseguir resolver os grandes processos mediáticos leva às tão perigosas “sentenças exemplares” quando aparece peixe-miúdo no cesto e processos simples para resolver.

Assim vejo também a condenação de Manuel Godinho no mesmo processo ‘Face Oculta’, por crime de corrupção activa, a uma pena de quase dezasseis anos de prisão — uma pena que não é dada nem aos homicídios com premeditação, ao homem que vai matar a ex-mulher à frente dos filhos e outros que tais. Mais ainda, quando os corrompidos levaram um quarto da pena do corruptor: não será mais grave um funcionário do Estado deixar-se corromper do que alguém de fora corrompê-lo? Ou será que também aqui a Função Pública goza de um regime especial?

3 Segundo a tese do MP, Ricardo Salgado terá corrompido José Sócrates para que este beneficiasse a PT, e o mesmo Ricardo Salgado terá corrompido Zeinal Bava e Henrique Granadeiro para que a PT beneficiasse o GES. Alguém me explica o que tem uma suspeita que ver com a outra? Parece que nada. Então, porque foram Granadeiro e Bava arrolados também como arguidos no processo ‘Operação Marquês’, acrescentando mais uns milhares de páginas, dezenas de testemunhas e meses de julgamento ao julgamento de Sócrates? Será a tentação de anunciar o “processo do regime”, a maior investigação criminal jamais levada a cabo em Portugal, de exibir a coragem de um procurador que, de uma assentada, sentou no banco dos réus todos os presumíveis criminosos de colarinho branco do país? E depois queixam-se da complexidade dos processos…

4 Não deve haver um português esclarecido que não esteja chocado e em pânico com o desfecho da Resolução e da “venda” do BES. Mas há quem o possa questionar e quem não tenha a mais pequena legitimidade para o fazer: Carlos Costa, Passos Coelho, Maria Luís Albuquerque e Sérgio Monteiro. Que, como de costume, a culpa morra solteira, já era de esperar. Mas, ao menos, que morra em envergonhado silêncio e não em indecorosa chicana política. Há limites para a capacidade de gozar com a memória dos outros.

5 Quanto ao Montepio, basta olhar para a cara de Tomás Correia e escutar as suas garantias de que nada de anormal se passa. Ah, felizmente que o Banco de Portugal “está a acompanhar o assunto”… desde 2008!


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia