Os novos descontentes com a globalização

(Joseph Stiglitz, in Expresso, 14/08/2016)

Autor

Joseph Stiglitz

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NOVA IORQUE — Há quinze anos, escrevi um livrinho chamado “Os Descontentes com a Globalização”, que descrevia a oposição crescente do mundo em desenvolvimento às reformas globalizantes. Isto parecia um mistério: tinha sido dito às pessoas dos países em desenvolvimento de que a globalização melhoraria o bem-estar global. Então porque é que tantas pessoas se tinham tornado hostis à mesma?

Agora, aos opositores da globalização nos mercados emergentes e nos países em desenvolvimento associaram-se dezenas de milhões, provenientes dos países avançados. As sondagens de opinião, nomeadamente um cuidadoso estudo da autoria de Stanley Greenberg e dos seus associados para o Roosevelt Institute, demonstram que o comércio está entre as maiores fontes de descontentamento para uma grande parte dos americanos. Na Europa, são visíveis opiniões similares.

Como pode algo, que os nossos líderes políticos — e que muitos economistas — disseram que iria melhorar a situação de toda a gente, ser tão odiado?

Uma resposta eventualmente recolhida junto dos economistas neoliberais que defenderam estas políticas é que a situação das pessoas melhorou. O problema é que as pessoas não sabem disso. O seu descontentamento é um assunto para ser tratado por psiquiatras e não por economistas.

Mas os dados sobre o rendimento sugerem que são os neoliberais quem beneficiaria com a terapia. Grandes segmentos da população nos países avançados não têm estado numa boa situação: nos EUA, aos 90% mais pobres foi imposta uma estagnação de rendimentos durante um terço de século. O rendimento mediano para os trabalhadores masculinos a tempo inteiro é na realidade inferior, em termos reais (ajustados pela inflação), do que era há 42 anos. Para os mais pobres, os salários reais são comparáveis ao seu nível de há 60 anos.

Os efeitos dos problemas e da deslocação económica, que muitos Americanos estão a sentir, aparecem até nas estatísticas da saúde. Por exemplo, os economistas Anne Case e Angus Deaton, que foi laureado com o Nobel deste ano, demonstraram que a esperança de vida em determinados segmentos de americanos brancos está a decrescer.

As coisas estão um pouco melhores na Europa; mas só um pouco melhores.

O novo livro de Branko Milanovic, “Desigualdade Global: Uma Nova Abordagem para a Idade da Globalização”, fornece algumas perspetivas indispensáveis, olhando para os grandes vencedores e perdedores em termos de rendimento, durante as duas décadas entre 1988 e 2008. Entre os grandes vencedores, está o 1% global, os plutocratas mundiais, mas também a classe média das novas economias emergentes. Entre os grandes perdedores (aqueles que pouco ou nada ganharam) estão os mais pobres e as classes médias e trabalhadoras dos países avançados. A globalização não é o único motivo, mas é um dos motivos.

Segundo o pressuposto dos mercados perfeitos (que subjaz à maior parte das análises económicas neoliberais), o comércio livre igualiza os salários dos trabalhadores não qualificados de todo o mundo. O comércio de bens torna-se um substituto para o movimento de pessoas. A importação de bens provenientes da China (bens que requerem um grande número de trabalhadores não qualificados para serem produzidos) reduz a procura por trabalhadores não qualificados na Europa e nos EUA.

Esta força é tão potente que, se não existissem custos de transportes, e se os EUA e a Europa não tivessem qualquer outra fonte de vantagem competitiva, como a tecnologia, isto acabaria por ser como se os trabalhadores chineses continuassem a migrar para os EUA e para a Europa até que as diferenças salariais fossem inteiramente eliminadas. Não é de estranhar que os neoliberais nunca tivessem publicitado esta consequência da liberalização do comércio, já que afirmaram (poderíamos dizer que mentiram) que a todos beneficiaria.

A globalização é parte do que está a acontecer; a inovação tecnológica é outra parte. Mas devia ter-nos beneficiado

O falhanço da globalização, quanto ao cumprimento das promessas dos políticos tradicionais, certamente que minou a confiança no “sistema”. E as generosas ofertas de resgates dos governos aos bancos que provocaram a crise financeira de 2008, enquanto os cidadãos normais tiveram em grande parte que se desenvencilhar sozinhos, reforçou a opinião de que este falhanço não teria sido apenas uma mera questão de equívocos económicos.

Nos EUA, os republicanos no Congresso até se opuseram a que fosse dada assistência a quem fora diretamente prejudicado pela globalização. Em termos mais gerais, os neoliberais, aparentemente preocupados com os efeitos adversos dos incentivos, opuseram-se a medidas de assistência que poderiam ter protegido quem perdeu.

Mas não é possível ter tudo ao mesmo tempo: para que a globalização beneficie a maioria dos membros da sociedade, devem ser implementadas fortes medidas de proteção social. Os escandinavos entenderam isto há muito tempo; isto fazia parte do contrato social que mantinha uma sociedade aberta — aberta à globalização e às mudanças tecnológicas. Os neoliberais noutras paragens não o entenderam, e agora, em eleições pelos EUA e pela Europa, estão a ter o que merecem.

Claro que a globalização é apenas uma parte do que está a acontecer; a inovação tecnológica é outra parte. Mas toda esta abertura e disrupção devia ter-nos tornado mais ricos, e os países avançados podiam ter adotado políticas para garantir que os ganhos eram amplamente partilhados.

Em vez disso, insistiram em políticas que reestruturaram os mercados de formas que aumentaram a desigualdade e que prejudicaram o desempenho económico global; o crescimento acabou por abrandar, à medida que as regras do jogo foram reescritas para defender os interesses dos bancos e das empresas (dos ricos e poderosos) à custa de todos os outros. O poder negocial dos trabalhadores foi enfraquecido; nos EUA, pelo menos, as leis da concorrência não acompanharam a evolução; e as leis existentes foram aplicadas de forma inadequada. A “financialização” continuou num ritmo rápido e a gestão empresarial piorou.

Agora, como saliento no meu livro mais recente, “Reescrever as Regras da Economia Americana”, as regras do jogo têm de ser alteradas outra vez, e desta vez devem incluir medidas para domar a globalização. Os dois novos grandes acordos em que o Presidente Barack Obama tem insistido, a Parceria Trans-Pacífica entre os EUA e 11 países da Orla do Pacífico, e a Parceria Trans-Atlântica para o Comércio e Investimento entre a UE e os EUA, são passos na direção errada.

A principal mensagem de “Os Descontentes com a Globalização” era que o problema não residia na globalização, mas na forma como o processo estava a ser gerido. Infelizmente, a gestão não mudou. Quinze anos depois, os novos descontentes vieram recordar a mensagem às economias avançadas.


(Prémio Nobel da Economia, professor universitário na Universidade de Columbia.© Project Syndicate 1995–2014)

Sempre que brilha o sol, naquela casa

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 12/08/2016)

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João Quadros

Foi a meio das férias, que foram curtas, que dei pela polémica do IMI. Estava a apanhar sol na piscina de um hotel quando, graças ao Twitter, tomei conhecimento de que Assunção Cristas teria dito: “O sol já paga imposto!”

Como, por vezes, me esqueço de que o PP já não está no poder, fui logo untar-me com ecrã total com receio de que tivesse sido criado um imposto para o bronze. Aposto que a troika não desdenharia a ideia.

Lendo a notícia, à sombra, percebi que o CDS-PP classificava as alterações ao IMI como um “ataque directo à classe média” – fiquei ainda mais confuso, estava convencido de que a classe média tinha acabado depois dos anos de governo PàF.

Na verdade, o que Cristas destacava nas alterações do IMI era uma lei que tinha sido criada pelo seu governo. Custa-me ver o deputado Nuno Magalhães chocado, a dizer “o sol vai ser taxado”, como se estivesse preocupado que as casas maçónicas sofressem um aumento simbólico do IMI.

Como não tenho casa própria, olho para o tema com a distância de quem se está nas tintas. É um bocado como: vem lá um IVA dos iates ou vai aumentar o desconto para a Segurança Social para quem lê Pedro Chagas Freitas. Estando de férias, apenas consigo pensar que os caracóis têm uma casa e que põem os pauzinhos ao sol e receio que, em vez de IVA, passem a cobrar IMI no caracol e que o pires vá para os 800 euros. Não consigo ir além disto. O sol não me deixa pensar.

Considero o IMI o imposto com o nome mais fofo de todos. Soa sempre a pequenino. Nunca percebi porque é que as igrejas, etc., se safam de pagar este imposto. Se o IMI aumenta consoante a luz, estamos a falar da Casa de Deus…

O que me parece, dentro do meu desconhecimento do tema, é que uma boa vista é uma noção demasiado ambígua. A casa da minha avó tem vista para o rio, mas ela tem cataratas. Uma casa no alto do Parque Eduardo VII com vista do Tejo, mas que ainda apanha parte da “pila” do Cutileiro, deve pagar ou receber IMI? Complicado.

Pelo que percebi, o IMI vai ser mais baixo para casas com pouco sol e ainda vai haver descontos se a casa tiver vista para um cemitério. Ou seja, em termos de aquisição de imóveis, isto está bom para os góticos. Portugal pode ser o paraíso da reforma dos vampiros, que ainda por cima costuma ser longa.

Como lisboeta, não sei se vai haver grandes alterações. Realmente, há algumas casas em Lisboa com boa vista de rio e sol, mas o que seria verdadeiramente preocupante, porque iria atingir a maioria dos habitantes da cidade, e soaria a saque, era se o Governo resolvesse aumentar o IMI das casas com vista para uma Padaria Portuguesa.


TOP Protector solar 5
1. Rússia excluída dos Jogos Paraolímpicos – Eram todos atletas olímpicos com próteses falsas.

2. Horta Osório apanhado em escândalo amoroso com Wendy Piatt, antiga conselheira de Tony Blair – Não havia ele de ter um esgotamento. Dormir com conselheira de Blair deve rebentar qualquer um.

3. 386 fogos activos em todo o país – Volta a Portugal e incêndios de Agosto são as oportunidades que tenho para ir ficando a conhecer
o país.

4. Paulo Portas: “Depois da política, volto ao meu espaço natural: o sector privado, onde nasci e cresci e tive iniciativa.” – Especialmente quando estava no público. Somos o Carlos Santos Silva do Portas.

5. “Nadador americano atinge o recorde de 25 medalhas nos JO” – Phelps 25 medalhas em 12 anos, Marcelo 48 medalhas em 3 meses.

Embaraços na chamada União Europeia

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócos, 12/08/2016)

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Baptista Bastos

Estabelece-se esmerada confusão entre o propósito e o realmente tido como tal. O recente imbróglio, estabelecido na “União” Europeia, durante meses, a fim de apavorar Portugal e Espanha, resultou numa coisa pífia, afinal conducente a um resultado nulo. Mas preocupou populações durante meses. O próprio presidente da UE alimentou esse equívoco, especialmente provocado pela Alemanha. O mal-estar desenvolveu-se durante meses. E criou embaraços insistentes em países como Portugal. Entendeu-se que esta Alemanha deseja, antes de tudo, criar um nivelamento com duas nações a dirigir e o resto a ser dirigido.

Nada disto é vital, nada disto é normal e escapa ao equilíbrio estabelecido pelos ideais fundadores da União Europeia, que desejavam um equilíbrio de forças impeditivo de qualquer hegemonia. A ideia, generosa, é antiga, e nunca deu resultado, acicatando, pelo contrário, as históricas tendências dominantes germânicas.

Quem manda e quem dirige a Europa actual? O duo Alemanha-França é falacioso. A importância dos alemães advém do seu poder económico, da sua necessidade de desenvolvimento territorial que explica e justifica o seu poder. França obedece a uma estratégia antiga, que determinou a sua minimização. A história da invasão alemã é suficientemente elucidativa. E os livros e os filmes dessa miséria moral são elucidativos das componentes vitais de um tempo e de uma época desastrosos.

A União Europeia é tudo menos aquilo que a expressão pretende enunciar. Constituiu para nós, portugueses, uma ignomínia. As comissões dirigidas por Sócrates ou Passos Coelho, cuja subserviência em relação a Angela Merkel assumiram, tiveram sempre as características de total sujeição. E as coisas não vão melhorar. Alguns países não escondem a incomodidade em submeterem-se às injunções alemãs, ameaçando abandonar a União. Esta, devido a circunstâncias especiais, tem sido dirigida pela gestão de Direita, com os resultados conhecidos e uma crescente incomodidade da parte de alguns recalcitrantes.

Isto, para assinalar que as coisas não correm no melhor dos mundos. As grandes questões são constantemente ocultadas ou dissimuladas, e a recente saída do Reino Unido assinalou os abalos que a União atravessa. As coisas estão seriamente ameaçadas, e não se trata, apenas, da supremacia alemã, mas sim das próprias debilidades da construção do projecto. As coisas estão à vista, e nem os discursos apaziguadores dos dirigentes europeus conseguem neutralizar o mal-estar que se vive na Europa.