A jornalização em curso

(António Guerreiro, in Público, 24/06/2016 e 08/07/2016)

NB. Este texto merece toda a atenção. Ele desmonta aquilo que é o “mal estar” que muitos dos leitores sentem relativamente à comunicação social em Portugal. Ficam a nu os expediente e táticas de formatação da opinião pública que são usados de forma ínvia e nada transparente. (Estátua de Sal)


 

Parte I

Autor

António Guerreiro

A  enorme polémica e contestação em que este jornal se viu envolvido por causa das reportagens que publicou sobre as manifestações a favor da escola pública e das escolas privadas com contratos de associação merece um olhar crítico e mais distanciado, para além da guerra em curso. Esta guerra tem um pressuposto implícito de ambos os lados do campo de batalha, do lado dos leitores e do lado dos jornalistas: a crença de que os media detêm a força de uma instância toda-poderosa. Esta crença produz certamente efeitos bem reais, como se pode ver facilmente no comportamento dos políticos. Mas, como está mais que estudado, há actualmente um enorme desfasamento entre as representações e o peso real dos media. Não se deve, no entanto, desvalorizar de uma maneira simples o “quarto poder” porque o seu segredo é esta condição paradoxal que já foi formulada como regra: o poder dos media é tanto maior quanto mais se pensa que ele é fraco, e é tanto mais restrito quanto mais vasto se considera. Karl Kraus, o grande escritor e satirista vienense que empreendeu de 1899 a 1936 uma cruzada contra a fraseologia e a corrupção da linguagem jornalística, contra a “jornalização” do pensamento e da vida, ao ponto de chamar à imprensa “a grande prostituta de Viena”, falhou a sua missão, mas pode ainda hoje ser lido com muito proveito. Dos seus aforismos satíricos (que seguiam o método, muito eficaz, segundo o qual a realidade só pode ser compreendida a partir dos seus extremos) há a resposta eloquente e venenosa a quem o criticava, dizendo que ele não devia generalizar a partir dos erros e vícios de alguns. Não, respondia ele, o que não se deve fazer é desculpar e absolver a imprensa em geral a partir da honestidade e coragem de alguns. Seja como for, a actualidade de Karl Kraus pode ser apreendida em vários aspectos: em primeiro lugar, na questão da “fraseologia” e da “corrupção da linguagem” (aquilo a que se chama  “deontologia” jornalística tem de começar por uma concepção ética da responsabilidade do jornalista perante a linguagem); em segundo lugar, na pretensão dos media em serem uma grande fábrica que produz a opinião pública; em terceiro lugar, na verificação de uma regra que não mudou nem um milímetro e ganhou até, em tempos de crise, uma enorme rigidez: os media transformam-se para se adaptarem a novos tempos e a novos contextos, mas jamais se reformam por um impulso crítico e, muito menos, autocrítico; em quarto lugar, na tendência endogâmica, tautológica, que faz com que os media se refiram uns aos outros – ainda que implicitamente e por mimetismo – num ciclo sem fim (trata-se daquilo a que alguém já chamou “comunicação tautística”). A crítica aos media só pode ser feita de fora, como já se percebeu há muito tempo. Mas essa crítica não pode limitar-se a denunciar a falta de objectividade, as mentiras e os “truques da imprensa”. A temática da manipulação foi sempre muito importante e necessária, na crítica dos media, porque sempre se entendeu que eles mascaram as suas verdadeiras intenções. Mas a mentira, que Karl Kraus denunciou com mais veemência do que ninguém, está longe de ser hoje o aspecto mais grave, até porque a sua “decifração” se tornou muito mais fácil: o mais grave está no facto de os media se limitarem a produzir objectos já consumidos, a mostrar acontecimentos já vistos, a submeter-nos a factos já interpretados, a anunciar situações já classificadas e a fabricar documentos já arquivados. Sem jamais se interrogarem o que é feito da linguagem e do poder crítico das palavras nas sociedades contemporâneas mediatizadas.

Parte II

Sem grande rigor terminológico, chamemos jornalismo editorial a um género de discurso e a uma forma de configuração do espaço público mediático que se caracterizam pelo triunfo de um modo de entretenimento, quase exclusivamente assegurado pela classe político-mediática dos intelectuais politólogos e dos políticos anfíbios. É uma classe que compreende tanto os politólogos que ocupam as cátedras instituídas pelos media, como alguns politólogos de vocação e ciência que, uma vez cooptados, já não se distinguem dos seus pares elevados às cátedras profanas por competência na escrita subalterna, no crochet televisivo, no chatting radiofónico, ou nos três ao mesmo tempo. A estes servidores da inflação editorialista de carácter político que ocupou o lugar vazio dos géneros jornalísticos tradicionais – derrotados pelas novas condições da paisagem cultural, económica e tecnológica – damos o nome de editocratas, retomando uma designação que foi consagrada em França por um livro colectivo de 2009 que se chamava precisamente Les éditocrates. Os editocratas caracterizam-se pela omnipresença e omnisciência. São por isso inevitáveis e prescritores de opinião. Tão certo como o sol se levantar todas as manhãs é eles ocuparem as várias “plataformas”. São uma elite que encarna com entusiasmo aquilo a que alguns, equivocados, chamam “opinião pública”, e outros, com excesso de ambição e alguma ingenuidade, chamam “dinamismo da sociedade civil”. Esta classe procura uma autolegitimação para as suas cátedras reconstruindo a função-autor. Na linguagem publicitária de um canal de televisão, eles são a “opinião com assinatura”. É de assinalar que a função-autor, que a literatura moderna tentou fazer desaparecer, foi reconstituída neste jornalismo editorial. De tal modo que – observou uma vez Gilles Deleuze a propósito dos “nouveux philosophes” – os próprios escritores que querem ainda ser autores precisam de passar também por jornalistas, tornando-se jornalistas de si mesmos. A construção e relação de autoria podem então ser feitas através de um estilo – o estilo enquanto cristalização do  direito consuetudinário da mediocridade, da inocuidade, da idiotia, ou até do burlesco. O jornalismo editorial, curto e conformista, é maioritariamente auto-referencial, o que significa que o seu eco-sistema é o espaço autónomo que ele próprio vai criando. É um sistema de vozes em conversa permanente umas com as outras. É assim que se cria aquilo a que podemos chamar “medialecto”, um idioma que asfixia a linguagem e o pensamento. E a política deste medialecto é sempre uma política Potemkine. Veja-se, por exemplo, como foi introduzida e repetida a palavra “geringonça”: dotada, à nascença, de um traço cómico-satírico, o seu uso mantém-se nas várias fileiras dos editocratas porque falam sempre uns com os outros e na mesma linguagem. Assim caracterizados, não parece haver nenhuma diferença entre os editocratas de Esquerda e os de Direita. Na verdade, eles pretendem distinguir-se no conteúdo. Mas, colocando a questão dessa maneira, não fazendo nada para superar a oposição entre forma e conteúdo, estamos a funcionar da maneira errónea que é a deles e que eles gostariam de impor, na medida em que esquecemos que todos alimentam o mesmo aparelho de produção – o da editocracia – sem o transformar, sem operar o mínimo desvio em relação aos seus ditames. Isto é uma linguagem um pouco marxista? Pois é. Mas ela ainda serve para percebermos a lógica do jornalismo editorial, as suas argúcias que virtualizam todo os acontecimentos e esvaziam a linguagem de todos os possíveis.

Hipocrisia e vingança: é isto a Europa ?

(Nicolau Santos, in Expresso, 09/07/2016)

nicolau

O ‘Brexit’ é um míssil contra o porta-aviões europeu, cujo rating já baixou em dois níveis e que pode ter consequências mais devastadoras do que a crise financeira de 2008. O Deutsche Bank é uma bomba ao retardador na estabilidade do sistema financeiro mundial, segundo o FMI, e os seus efeitos podem ser superiores à falência do Lehman Brothers. Mas, para a Comissão Europeia, o facto de Portugal e Espanha não terem cumprido as metas orçamentais de 2015 (no caso português por apenas 0,2 pontos) é que ocupa toda a sua energia e a agenda mediática.

Como é óbvio, há um profundo mal-estar na Comissão Europeia por causa destas eventuais sanções. Em primeiro lugar, porque nunca foram aplicadas antes, quando havia razões para o fazer (e Alemanha e França foram as primeiras a furar o Pacto); em segundo, porque há um manifesto tratamento discriminatório entre Portugal e Espanha, por um lado, e França, por outro; em terceiro, porque não há qualquer procedimento contra a Alemanha, pelos sucessivos excedentes comerciais que tem vindo a acumular, apesar de lhe ter sido aberto um processo pela Comissão Barroso; e, em quarto, porque nestas matérias tem sido sempre considerado que o importante é a trajetória do défice e da dívida e não os valores apurados em cada momento (se não fosse assim, grande parte dos Estados-membros estaria a ser sancionada porque tem um rácio dívida pública/PIB acima dos 60%).

Todo este processo já está a funcionar como uma forte sanção a Portugal — na reputação e imagem externa do país — como a subida dos juros da dívida pública mostra

Esta semana, os comissários Valdis Dombrovskis e Pierre Moscovici tentaram dourar a pílula: que a Comissão Europeia reconhece os esforços e os sacrifícios que Portugal e Espanha fizeram para reduzir o défice nos últimos anos; que constata, contudo, que não cumpriram aquilo com que se tinham comprometido para o défice em 2015; que, no entanto, a Comissão não decidiu nada sobre sanções — o que fez foi passar a sua constatação ao Ecofin; se o Ecofin a confirmar, a Comissão enviará a sua proposta de sanções para o Conselho Europeu, mas será este a decidir — e pode reduzi-las, aplicar uma sanção simbólica ou não aplicar nenhuma.

O problema é que todo este processo já está a funcionar como uma forte sanção a Portugal — na reputação e imagem externa do país, no aumento do risco, na fuga de investidores —, como a subida das taxas de juro da dívida pública demonstram. O seu objetivo não é sancionar as contas de 2015, mas sim as orientações económicas de 2016. É isso que a linha dura neoliberal que domina em Berlim e no Eurogrupo pretende: causar dificuldades ao Governo português, obrigá-lo a ajoelhar, submetê-lo aos seus ditames — ou, em última instância, contribuir para o seu derrube. Os países não têm amigos, têm interesses. Na Europa, há muito que deixou de haver amigos. Há hipocrisia e vingança. E interesses pouco claros.


O cluster da indústria aeronáutica

O investimento em Évora e Alverca da empresa de aeronáutica brasileira Embraer (€400 milhões em onze anos) mostra agora os seus primeiros resultados com a apresentação do KC-390, um avião de transporte militar. O projeto tem tudo o que Portugal necessita: investimento estrangeiro estruturante, que potencia a afirmação de um cluster português na indústria aeronáutica, baseada nas indústrias de moldes; colaboração entre um laboratório do Estado, o CEIIA (Centro de Excelência e Inovação da Indústria Automóvel), as OGMA — Indústria Aeronáutica de Portugal, que fabrica a fuselagem central do novo avião e outras 14 empresas nacionais; a criação de 350 empregos altamente qualificados; e a utilização intensiva da engenharia portuguesa, que contribuiu com mais de 450 mil horas de trabalho de trabalho. É deste tipo de projetos, que deem origem à criação e desenvolvimento de novas fileiras industriais e à valorização dos nossos recursos humanos que precisamos. E se não eles não surgem da Europa, ainda bem que vêm do Brasil.


Por uma sociedade decente

Eduardo Paz Ferreira tem o enorme mérito de ser o grande dinamizador do debate sobre a crise de 2008 e das suas devastadoras consequências para a vida de milhões de pessoas. Mas o presidente do IDEFE e professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa tem, ele próprio, escrito sobre esses anos de chumbo. O seu mais recente livro, “Por uma Sociedade Decente”, termina com “uma proposta modesta”, meia dúzia de ideias contra a corrente. É necessário repensar o funcionamento e recuperar os valores da União Europeia; repor a centralidade do Estado como criador de equilíbrios e na luta contra as desigualdades, pela proteção social, pela modificação da fiscalidade e pelo fim dos offshores; combater os efeitos negativos da inovação tecnológica e das alterações climáticas; e que todos aceitemos trabalhar menos, por menos dinheiro, para que mais pessoas possam trabalhar. “Parece utópico. Parece ingénuo. Mas o modelo oposto só trará terror e desolação”, conclui Eduardo Paz Ferreira. É de leitura obrigatória.


Muitas vezes me tenho perguntado

o que faz com que os filmes tenham sempre

inspirado os poetas.

Responder é ser poeta e eu não sou

mais do que um observador admirado e perplexo

tantas vezes desatento aos presságios dos olhares

e indiferente aos subtis apelos dos rostos quotidianos

mas atento às sombras móveis do écran

onde as paixões simuladas dos actores

as lágrimas fingidas

os sorrisos emprestados

e a coragem dos heróis de hora e meia

me comovem como se assistisse ao espectáculo da vida

a roubar à morte o seu império.

É que ninguém nunca mais apagará

do frágil celulóide da memória

o olhar míope de James Dean para Julie Harris

o andar infalível de Henry Fonda em “O.K. Corral”

a sombra do chapéu sobre o rosto dividido de Ingrid Bergman

quando Bogart a manda embarcar no avião em Casablanca

o fio de saliva de Marilyn

pobre corista debruçada sobre um balcão do Texas

à espera de ser salva por um príncipe

vestido de vaqueiro.

O que todos sabemos nessa altura

incluindo os poetas transformados

por um instante em mortais espectadores do milagre

é que esses seres cuja vida parece depender

dum ténue foco de luz que atravessa

a poeira da sala

têm uma presença de deuses do Olimpo

mais vivos do que nós.

Nós que voltamos a enfrentar a chuva e o vento

à saída do cinema

e a suportar o peso insuportável

de estarmos vivos outra vez

para além da ilusão.

Nós que não podemos pousar eternamente

numa cadeira de cinema

o pesado fardo que é a total consciência

de termos um corpo vulnerável

e uma volúvel coragem.

Nós que não podemos esquecer a morte para sempre

como fizemos nessas horas breves

em que outros seres magníficos e perfeitos

nos confortaram na convicção inabalável
e sem pre
ço

de que repetirão os mesmos gestos
sublimes

o mesmo olhar míope

o mesmo andar cativante

e dirão sempre aquela frase que deles esperamos

de cada vez que os voltarmos
a encontrar.

É esse talvez o mistério
dos filmes

que tanto comovem
os mortais poetas

que como nós
abandonam a vig
ília por momentos

nas salas de cinema:

ao contrário da vida cruel e imperfeita

e da traição imperiosa dos amantes

esses seres do ecrã — deuses que são

nunca nos poderão desiludir


(António-Pedro Vasconcelos, ‘Da imortalidade’, poema inédito, 23/10/1985)

A questão portuguesa na União Europeia

(Pacheco Pereira, in Público, 09/07/2016)

Autor

                 Pacheco Pereira

Na União começa a haver a divergência que interessa a Portugal, a contestação ainda embrionária, mas densa de significado político, da aplicação rigorosa do Tratado Orçamental.


Tudo é mau esta semana, para não variar, embora a pátria esteja entregue às delícias do futebol para se distrair. Mas há uma coisa nova, que tanto pode dar para o torto, como criar uma pequeno espaço de oportunidade para aliviar as grilhetas do Tratado Orçamental. Volto de novo atrás: eu escrevi que não sei, à data em que escrevo, como é que esta matéria vai evoluir, mas que existe, existe. Existe hoje na Europa uma “questão portuguesa”, como no passado houve uma questão grega e há no presente uma questão britânica, inglesa, escocesa e norte-irlandesa, logo, a prazo, uma questão espanhola.

Como se vê as companhias para a “questão portuguesa” não são brilhantes, pelo que não sei até que ponto haver “questão” é bom ou mau. Os partidários do “bom aluno” na versão actual Passos-PSD, acham que é péssimo haver essa “questão” e que o ideal seria, como agora se diz, Portugal estar fora do “radar” da actual “Europa”, com o seu eco nas agências de rating e nos mercados. Compreende-se esta posição que mistura a submissão com a concordância política. As políticas que a “Europa” quer impor são o programa que o PSD não pode enunciar em público: continuação da austeridade por mais duas décadas pelo menos, e manter como alvo dessa austeridade os salários, as pensões, as reformas e os custos sociais do estado. O PSD quando fala da “oportunidade perdida” e do “desbaratar” que o PS estaria a fazer dessa “oportunidade” fala da continuidade da política de austeridade, mas não o pode fazer explicitamente como já não o fez nas últimas eleições. Disfarçou-o, mas a política é esta. A grande ajuda do PSD é que seja a “Europa” a impô-la, criando uma crise de legitimidade política no PS (“estão a ver como eles fazem o mesmo”), acentuando a tese da inevitabilidade e esperando que a imposição dessas políticas divida a coligação virtual que permite a Costa governar.

Se não houvesse a “questão portuguesa” a margem de manobra do governo Costa seria já nula, embora permaneça muito escassa, e, como ela existe, acentua a esperança do governo de passar pelos pingos da chuva por parte do governo e a esperança contraditória de que os amigos do PSD no PPE e nos mais agressivos “ajustadores” do Eurogrupo, a começar por Schäuble, se voltem contra Portugal com o mesmo vigor punitivo que tiveram com a Grécia. A essência da “questão portuguesa” é que já não o podem fazer com o à-vontade com que o faziam antes, visto que há hoje na Europa uma clara divisão entre países no entendimento da aplicação do Tratado Orçamental, em particular nas suas consequências sancionatórias.

Não oferece dúvida para ninguém que para Schäuble, Djisselbloem, Dombrovski, a actual solução governativa e a política a que chamam de “reversões” são inaceitáveis e a abater. Não é que Portugal seja muito importante, mas o exemplo é mau. A questão das “reversões” daquilo a que chamam “reformas estruturais”, – insisto, nenhuma das medidas tomadas pelo governo anterior com excepção da legislação laboral foi estrutural, – é para eles vital, porque a sua concepção do controlo do défice e da política que entendem ser necessária passa por ter como alvo o estado social e os rendimentos do trabalho ou das pensões. Se pensam que é 0,1 ou 0,2% do défice que os irritam, desenganem-se. Já fecharam os olhos muitas vezes a violações bem mais graves ao Tratado. O que eles não querem é que o alvo da austeridade mude. O que protege a França não é só “ser a França”, como disse reveladoramente Juncker, mas ver Valls tão empenhado na nova Lei do Trabalho. Esta é a música que gostam de ouvir.

Convém não minimizar o poder destes homens, com origem na Alemanha, que hoje manda na União e que entende que todas as “reformas” necessárias, como se vê nos textos de Schäuble, vão no sentido de tirar os poderes já residuais dos parlamentos nacionais, e ultrapassar a Comissão, que acham demasiado sensível às pressões políticas, para as entregar a um grupo de tecnocratas, certamente escolhido pela Alemanha. Como propõe Schäuble, que sabe muito bem o que quer, essa nova instituição teria poderes para reprovar orçamentos dos estados nacionais e propostas deste tipo são vistas como a resposta “integratória” pós-“Brexit”. Por isso, estes homens olham com preocupação para a situação portuguesa, embora não tenho dúvidas que estão confiantes de que, no momento necessário, a podem esmagar sem contemplações. E podem.

O outro lado da “questão portuguesa”, o lado que deu alguma folga a Portugal, embora não se saiba se é para durar, foi visível no modo como a questão das sanções por incumprimento foram apresentadas. Percebe-se muito bem pelas palavras de Moscovici que tipo de discussões existiram e como essas discussões, de clara natureza política, impediram algumas manobras em curso. Pelo menos para já.

A mais importante era apresentar as sanções sobre o incumprimento de 2014-5 como sendo uma avaliação da política do governo Costa em 2016. O governo que não cumpriu o défice, o de Passos Coelho, era poupado politicamente pela difusão de culpas e responsabilidades com o governo Costa. Aliás foi o que “fontes” europeias, que nunca estiveram tão faladoras, assim como reiteradas afirmações de Passos, Maria Luís e Cristas, na semana passada, estiveram a dizer, acompanhados pela corte de comentadores e jornalistas que se formou nos últimos quatro anos a favor do “ajustamento”. A tese era de que a haver sanções, que neste caso eram claramente desejadas, elas seriam resultado da “desconfiança” que existiria sobre o governo Costa e os resultados da sua política, logo o país iria ser punido não pelo défice deixado por Passos Coelho, em ano eleitoral e negando todas as juras de que tudo estava controlado, mas pelas “reversões” de Costa que colocariam Portugal às portas de um novo resgate.

Se não existisse uma “questão portuguesa” teria havido na Comissão ambiguidades bastantes para permitir essa interpretação. A irritação de Passos Coelho é que as declarações da Comissão não só não assentaram nessa tese, como explicitamente a negaram. Moscovici fez questão de repetir várias vezes, e esta repetição não é inocente, de que estava a falar de 2015 e não de 2016. Ou seja, Moscovici estava a par, como os seus colegas na Comissão, do significado político interno das sanções, das polémicas que o PSD suscitou na semana anterior para se desresponsabilizar, e fez questão de se demarcar de Passos, Cristas e Maria Luís. Não sei se o fez por iniciativa pessoal, mas a insistência em 2015 significa que a questão foi debatida na Comissão e que esta está dividida. Ora, como Renzi, Hollande, Tusk e Schultz fizeram declarações explícitas e públicas contra a aplicação de sanções a Portugal, estamos perante algo que não tem precedente nos últimos quatro anos de coligação PSD-CDS. Isso significa que na União começa a haver a divergência que interessa a Portugal, a contestação ainda embrionária, mas densa de significado político, da aplicação rigorosa do Tratado Orçamental e esse é um dos lados da “questão portuguesa”. Pode ficar pelo caminho, face ao poder alemão e dos seus aliados, mas que existe, existe.