Golpe de Estado em direto: de Istambul a Nice, passando por Berlim

Estátua de Sal, 16-07-2016, 01h 30m.

turquia

Alguma vez haveria de acontecer: a tecnologia está aí, os conflitos abundam, há armas a rodos, há homens que ainda vão pensando e transformando o descontentamento em atos, e no final, com recurso à criptografia e aos números primos sempre se vai conseguindo organizar algo que escape ao olho do Grande Irmão.  E digo isto, porque, fazer um golpe militar, bem sucedido ou não, nos dias de hoje, com a rede de vigilância que há sobre todas as comunicações, institucionais e privadas, sem que as agências de informação o tivessem antecipado, não é para amadores, ou mesmo para medianos peritos. A não ser que o golpe esteja a ser apoiado, na sombra pelo menos, por uma grande agência de informação e não quero dar palpites, podendo ser até um chamado golpe de “falsa bandeira”.

Deixo os palpites para os comentadores da SIC e afins, para o Dr. Rogeiro, para o Dr. Monjardino para o Dr. Garoupa e outros que tais, e para os pivots que fazem um esforço hercúleo para “encher linguiça”, debitando verdades do senso-comum, e aguardando instruções para saberem qual dos lados devem apoiar ao nível da metalinguagem discursiva.

Que bloquearam as televisões, os jornais, as rádios, e (hélas) as redes sociais. É clássico nos golpes militares. Mas claro que os turcos – cuja fileira militar é moderna e esclarecida – não tem tecnologia para bloquear as comunicações por satélite, logo há jornalistas a comunicar via internet, via Skype e outro tipo de aplicações semelhantes. É bom? É mau? Não sabemos. Tudo isto é inédito.

Mas se for para afastar o fundamentalismo religioso-político de Ergodan eu até acho bem e subscrevo. O tipo é um fascistoide que pretende fazer regredir a ocidentalização e a abertura da Turquia aos valores democráticos para uma nova idade das cavernas.

Um tipo que disse: “As mesquitas são os nossos quartéis, as cúpulas os nossos capacetes, os minaretes as nossas baionetas, e os crentes os nossos soldados”, não me pode merecer nenhuma confiança nem tranquilidade.

O mesmo não acha, do cavalheiro, a D. Merkel e os próceres da Europa que lhe entregaram o dossier dos refugiados e ainda lhe encheram os cofres de alvíssaras de ouro.

Quem faz alianças destas com escoques deste matiz, só pode ser hipócrita quando depois vem verter lágrimas de conveniência quando ocorrem atentados terroristas como o de ontem em Nice.

Entre outras causas, os atentados continuarão a ocorrer enquanto os líderes políticos da Europa sofrerem da doença que eu denomino por “relativismo moral”, e que consiste em desculpar os escroques, em termos práticos e axiológicos, sempre que eles lhes são úteis.

Dito em linguagem que toda a gente entende e que foi atribuída a um Secretário de Estado americano, Cordell Hull, que se referia ao sanguinário ditador mexicano, Rafael Trujillo: “Ele pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho da puta”.

Pois é, Ergodan também é um filho da puta, mas é o filho da puta da Sra. Merkel e do Sr. Schauble e como tal tudo lhe tem sido perdoado, até o apoio que tem dado ao dito Estado Islâmico. O tal arremedo de Estado que todos dizem atacar e que ameaçam quando este – supostamente -, ataca na Europa com atos da maior barbárie. Mas como podem verberar tais ataques se apoiam e beijam a mão a um dos maiores suportes, pelo menos financeiros através da compra de petróleo, dos supostos inspiradores de tais ataques, que é Ergodan?

Pois é. Tem sido esta a política do Ocidente, chefiada pelos interesses dos EUA, das suas multinacionais e dos grandes players do capitalismo financeiro global. Business over the principles. Até porque, os valores e a ética não são quantificáveis em folhas de Excel nem em cotações da Bolsa.

Pois bem. A tecnologia veio para ficar e a tecnologia não tem alma, moral ou princípios. Pode ser usada para melhorar a vida de milhões de seres humanos ou para os destruir, e a sua disponibilidade e facilidade de acesso permite, nos dias de hoje, que os maiores horrores sejam cometidos com parcos meios. É isso que está a acontecer. E contra isso, não há defesa possível.

Até porque, “fabricar” gente que se dispõe a morrer pela certa em nome de abstrações, ideias, promessas de ressurreição entre virgens ou seja lá o que for, também é um feito da tecnologia. Não da tecnologia das bombas ou dos mísseis mas da tecnologia do condicionamento mental e da despersonalização. Programação de humanos em vez de programação de robots ou de computadores. E como os robots são caros, temo que os humanos continuem a fazer estragos, sendo sacrificados no altar dos interesses dos seus mandantes.

Voltando à Turquia, a conclusão a esta hora, é que um golpe que não consiga bloquear todas as comunicações do país tem alta probabilidade de ser rechaçado pelo establishment. É que tal bloqueio só está ao dispor de grandes atores globais, EUA, Rússia e em menor grau, talvez Israel e poucos mais. Até porque, a informação e a contrainformação em direto infestou-nos os écrans, e normalmente, os grandes meios de comunicação estão sempre a favor dos poderes instituídos.

Enquanto tudo isto ocorre, a D. Merkel e o Sr. Schauble assobiam para o ar e estão é preocupados com as duas décimas do deficit de 2015 em Portugal. Com gente desta a conduzir a Europa e o mundo, o destino da humanidade é preocupante.

É por isso que termino com a frase de John Donne que serve de mote inicial ao livro de Hemingway, Por quem os sinos dobram: “A morte de cada homem diminui-me, porque sou parte da humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

Minha alegre casinha

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 15/07/2016)

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João Quadros

 

Somos outros desde que vencemos o Euro. Estamos mais confiantes.

O presidente do Eurogrupo diz que “as sanções a Portugal vão depender da resposta que o Governo vai dar à ameaça que será hoje concretizada” e a pergunta que me ocorre é: será que dá para mandar a carta do mister Fernando Santos ao Ecofin? É melhor não, que aquilo é um grupo de protestantes que, estranhamente, quer Portugal no purgatório.

 Vencemos a França em casa, com um árbitro caseiro, e sem CR7. Nunca desistimos. Há pessoas que viram o Éder receber a bola e aproveitaram para ir à cozinha. Moral da história: temos de acreditar até não acreditar no que conseguimos. Não há Ecofin batoteiro que nos meta medo. Estamos insuflados. Se “França é França”, imaginem o que não somos nós. Os franceses ofereceram a estátua da liberdade aos EUA, podiam oferecer-nos a camioneta com as cores de França campeã da Europa para pôr no Terreiro do Paço. Precisamos de auto-estima, e essa camioneta faz-nos bem.

 Não há sanções para campeões, está em letra pequenina no Tratado de Lisboa e arredores. “Vão no mau caminho”, dizem eles. Sim, e também jogamos mal, mas ganhámos o campeonato da Europa. Imagina se jogássemos bem. Nem aparecia ninguém para o Mundial. O que custava a ganhar era o primeiro. Depois, nos próximos, logo damos “show”.

 A única coisa que me preocupa, nos dias de hoje, é onde é que anda a taça? Hum? Ficou com quem esta noite? Não aguento isto. Estou umas horas sem ver a taça e só me lembro que o BES estava seguro e que os pais da Maddie foram só jantar.

 Nesta altura, o sensato leitor deve estar a pensar que esta é mais uma crónica histérica sobre Portugal e a vitória no Euro 2016. Tem toda a razão. Tem sido um excesso, eu sei, mas imagine se tivéssemos perdido. Seria igual, mas nos tons de cinzento pastoso a que estamos habituados.

 Imaginar um mundo onde perdemos a final contra os franceses, em Paris, aos 109 minutos de jogo com um golo do Mangala, é como imaginar que os nazis ganharam a II Guerra Mundial e agora os alemães mandam na Europa.

 Como seria se tivéssemos perdido? Tirando Rui Santos, o país teria caído numa profunda depressão. Mais do mesmo. Era como se não houvesse alternativa. “Acabamos sempre por perder.” Teria consequências para o país. Mal apitassem para o final do jogo, António Costa enviava um plano B para Bruxelas. Marcelo medalhava mais gente do fado. O ministro Centeno ia à reunião do Ecofin com um cachecol da Maria Luís e a oposição punha em causa o curso de engenheiro de Fernando Santos. Havia reportagens na televisão sobre um adepto francês que gozou com uma criança portuguesa (que estava a chorar a seguir à nossa derrota na final) e a música da Selecção era mesmo a do Abrunhosa. Ninguém quer viver nesse mundo.


 top 5

Éderzitos

1. Durão Barroso vai ser “chairman” do Goldman Sachs – Durão vai apanhar pokémons para o Goldman Sachs.

2. Inspecção-Geral da Educação vai investigar turmas-fantasma detectadas nos colégios privados – Há duas turmas-fantasma na universidade de Verão do PSD

3. “Rules are rules”, disse o ministro francês das Finanças sobre as sanções a Portugal – Ufa, isto quer dizer que desistiram de repetir a final.

 4. Ecofin: valor e levantamento das sanções depende dos “novos passos” dados em Lisboa e Madrid para pôr países “back on track” – Sanções porque não estamos a fazer o que fez com que falhássemos o défice. Pensar que o Reino Unido fugiu disto. Grandes malucos.

5. “Passos não vê conflito de interesses na ida de Durão Barroso para o Goldman Sachs” – Tem toda a razão, os interesses sempre foram os mesmos.

Marcelo e o efeito boomerang do populismo

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 13/07/2016)

Autor

                      Daniel Oliveira

O mal-estar com a democracia é da natureza da própria democracia. Porque a democracia é o único sistema que garante as condições necessárias para a sua própria fiscalização e crítica. Claro que este mal-estar tende a acentuar-se em momentos de crise económica e social e quando as pessoas sentem que os eleitos decidem hoje muito pouco. A posição de muitos cidadãos em relação aos seus eleitos é, hoje e em geral, marcada pela má vontade e pela má-fé. Como não têm tempo ou instrumentos para avaliar a verdadeira corrupção, o verdadeiro desperdício de recursos e os verdadeiros problemas políticos do país, entretêm-se com pequenos factos. Sabendo isso, os tabloides, que não gostam de tratar de problemas sérios que incomodem poderes a sério, oferecem aos cidadãos pequenos “escândalos” que vendam jornais e mantenham as pessoas entretidas.

Um dos temas habituais são os custos das viagens dos detentores de cargos políticos. Em todo o lado, presidentes e primeiros-ministros têm formas próprias de deslocação rápida. Carros e aviões (ou helicópteros) que permitem fazer mais depressa viagens entre pontos que não têm ligações comerciais. Qualquer pessoa informada que não tenha um preconceito com o exercício do poder político acha absolutamente normal que a um chefe de Estado sejam dadas algumas condições de trabalho que o aproximam, mesmo que pouco, de um administrador de uma empresa de alguma dimensão. Esperando-se a sobriedade que o poder democrático exige, é aceitável que um Presidente da República use, nas viagens oficiais que faz, um avião da Força Aérea. Desta vez foi a viagem de Falcon a Lyon, quando Marcelo Rebelo de Sousa vinha de Trás-os-Montes, que deu direito a mais uma notícia do “Correio da Manhã”.

Na verdade, o Presidente está a colher o que semeou. Foi o próprio que fez uma campanha em que, para além de ter decidido não usar cartazes (o que é uma escolha legítima e no seu caso compreensível), decidiu atacar os outros candidatos por não o acompanharem. Com anos de exposição em horário nobre de um canal generalista e com a comunicação social a fazer a campanha por ele, Marcelo não precisava dos cartazes para nada. Ao fazer populismo com isto, criticando os outros candidatos por se darem a conhecer através de meios próprios, Marcelo explicou uma coisa: que para ser eleito para um cargo tem de se ser escolhido primeiro pela comunicação social. Mas, mais grave do que isto, alimentou o discurso populista sobre os custos da democracia. Agora, já Presidente, é vítima desse mesmo discurso.

O “Correio da Manhã” não faz jornalismo e a generalidade dos visados não reage a não ser que seja alvo de notícias realmente atentatórias da sua dignidade. Mas Marcelo reagiu. Reage sempre e a tudo. E neste caso reagiu da pior forma. Informou que tinha pago a viagem do seu bolso. Explicou que é “mais papista do que o Papa” e que já aconteceu pagar do seu bolso almoços de trabalho em Belém. Se a moda pega, os detentores de cargos políticos passarão a pagar para trabalhar. Depois de ter explicado aos seus adversários que não deve haver propaganda na campanha e que devem ser os jornalistas a escolherem os candidatos, Marcelo explica que para ocupar um cargo político tem de se ter dinheiro na conta para pagar as despesas.

O frenesim mediático de Marcelo Rebelo de Sousa leva-o, com alguma frequência, a ceder a um populismo que nem me parece que lhe seja natural. Como quer que a sua popularidade se baseie mais nos afetos (considerações sobre a sua personalidade) do que em opções políticas, está condenado a este tipo de gestos simbólicos que rapidamente se tornarão insustentáveis e se virarão contra ele.

Mas o mais grave é que este tipo de cedência ao populismo ajuda a construir uma perigosa ilusão: a de que a democracia não tem custos para os contribuintes. Tem. Será, apesar de tudo, sempre mais barata do que a ditadura.

Mas há uma diferença entre a seriedade de quem exige rigor no uso de recursos públicos e a mesquinhez de quem usa cada despesa na representação do Estado para diminuir a democracia. Um Presidente que seja cúmplice desta demagogia está, ele próprio, a enfraquecer a democracia, retirando-lhes as condições materiais para ser exercida.