Fed up

(Joseph E. Stiglitz, In Expresso, 12/09/2015, Prémio Nobel da Economia, professor na Universidade de Columbia em Nova Iorque)

Joseph Stiglitz

Stiglitz

A decisão da Reserva Federal neste momento não é difícil. Não é tempo de subir as taxas de juro porque a recuperação ainda não chegou à economia real e o desemprego permanece elevado

NOVA IORQUE — No final de cada mês de agosto, os banqueiros centrais e financeiros de todo o mundo reúnem-se em Jackson Hole, Wyoming, para o simpósio económico da Reserva Federal dos EUA. Este ano, os participantes foram saudados por um grande grupo de pessoas, na maioria jovens, incluindo muitos afro e hispano-americanos.

O grupo não estava lá tanto para protestar, mas sim para informar. Queriam que os responsáveis reunidos soubessem que as suas decisões afetam as pessoas comuns e não apenas os financeiros que estão preocupados com o que a inflação faz ao valor das suas obrigações ou o que os aumentos das taxas de juro podem fazer às suas carteiras de ações. E as suas T-shirts verdes exibiam a mensagem de que, para estes americanos, não houve nenhuma recuperação.

Mesmo agora, sete anos depois de a crise financeira global ter provocado a Grande Recessão, o desemprego oficial entre os afro-americanos é de mais de 9%. De acordo com uma definição mais ampla (e mais apropriada), que inclui trabalhadores a tempo parcial, que procuram empregos a tempo inteiro, e trabalhadores marginalmente ativos, a taxa de desemprego para os Estados Unidos como um todo é de 10,3%. Mas, para os afro-americanos — especialmente os jovens — a taxa é muito maior. Por exemplo, para os afro-americanos com idades entre os 17 e os 20 anos, que completaram o ensino secundário mas não se inscreveram na faculdade, a taxa de desemprego é superior a 50%. O défice de postos de trabalho — a diferença entre o emprego que há hoje e o que deveria haver é de cerca de três milhões.

Com tantas pessoas desempregadas, a pressão sobre os salários também está a aparecer nas estatísticas oficiais. Até à data, os salários reais dos trabalhadores (excluindo funções de chefia) caíram quase 0,5%. Esta é parte de uma tendência a longo prazo que explica o porquê de o rendimento médio das famílias ser mais baixo hoje, do que era há 25 anos.

A estagnação dos salários também ajuda a explicar o porquê de as declarações dos representantes da Fed, de que a economia voltou praticamente ao normal, serem recebidas com escárnio. Talvez isso seja verdade nos bairros onde vivem esses representantes. Mas, com a maior parte do aumento dos rendimentos, desde que a ‘recuperação’ dos EUA começou, a ir para 1% dos assalariados mais bem pagos, isso acaba por não ser verdade para a maioria das comunidades. Os jovens em Jackson Hole, que representam um movimento nacional chamado, naturalmente, “Fed Up” [Fartos], poderiam confirmar isso.

Há fortes indícios de que as economias têm melhor desempenho com um mercado de trabalho equilibrado e, tal como o Fundo Monetário Internacional tem mostrado, com menor desigualdade (e a primeira condição, tipicamente, conduz à segunda). É claro que os financeiros e executivos de empresas que pagam mil dólares para participarem na reunião de Jackson Hole veem as coisas de forma diferente: salários baixos significam lucros elevados, e taxas de juro baixas significam ações com cotações altas.

A Fed tem um duplo mandato — promover o pleno emprego e a estabilidade dos preços. Tem tido bastante sucesso na segunda, em parte porque tem tido muito pouco sucesso na primeira. Então, porque é que os governantes irão considerar um aumento das taxas de juro na reunião da Fed, em setembro?

O argumento habitual para aumentar as taxas de juro é travar o sobreaquecimento da economia, quando as pressões inflacionistas se tornam demasiado fortes. Esse não é, obviamente, o caso, agora. Na verdade, dada a estagnação dos salários e a valorização do dólar, a inflação está bem abaixo da própria meta da Fed de 2%, já para não mencionar a taxa de 4%, a qual muitos economistas (incluindo o ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Olivier Blanchard) debateram.

O argumento para a subida dos juros não está no bem-estar dos trabalhadores, mas sim no dos financeiros

Os falcões da inflação argumentam que o dragão da inflação deve ser morto antes que “alguém veja o branco dos seus olhos”: se não agirmos agora, ele irá consumir-nos pelo fogo dentro de um ano ou dois. Mas, nas circunstâncias atuais, uma inflação mais elevada seria bom para a economia. No fundo, não há nenhum risco de a economia sobreaquecer tão rapidamente sem que a Fed possa intervir a tempo de evitar a inflação excessiva. Seja qual for a taxa de desemprego abaixo da qual as pressões inflacionistas se tornam significativas — uma questão-chave para os decisores — sabemos que é bastante mais baixa do que a taxa atual.

Se a Fed se focar excessivamente na inflação, agrava a desigualdade, que por sua vez piora o desempenho económico. Os salários recuam durante as recessões; se a Fed subir as taxas de juro cada vez que houver um sinal de crescimento dos salários, a participação dos trabalhadores será reajustada para baixo — nunca se irá recuperar o que foi perdido durante a recessão.

O argumento para a subida das taxas de juro não está no bem-estar dos trabalhadores, mas sim no dos financeiros. A preocupação é que num ambiente com taxas de juro baixas, a irracional “procura de rendimento [search for yield]” dos investidores leve a distorções no sector financeiro. Numa economia que funciona bem, espera-se que o baixo custo de capital seja a base de um crescimento saudável. Nos EUA, está a ser pedido aos trabalhadores que sacrifiquem os seus estilos de vida e bem-estar para proteger os financeiros abastados das consequências da sua própria imprudência.

A Fed deve simultaneamente estimular a economia e acalmar os mercados financeiros. Uma boa regulação significa mais do que apenas impedir que o sector bancário prejudique o resto da economia (embora a Fed não tenha feito um trabalho muito bom antes da crise). Significa, também, a adoção e a aplicação de regras que restrinjam a canalização de fundos para especulação e incentivem o sector financeiro a desempenhar o papel construtivo que deveria ter na economia, fornecendo capital para estabelecer novas empresas e permitindo que as empresas bem-sucedidas se expandam.

Sinto, muitas vezes, uma boa dose de compreensão pelos representantes da Fed, porque têm de tomar decisões difíceis num ambiente de considerável incerteza. Mas a decisão agora não é difícil. Pelo contrário, é uma tarefa tão fácil como tais decisões podem ser: agora não é o momento de apertar o crédito e desacelerar a economia.

(Prémio Nobel da Economia, professor na Universidade de Columbia em Nova Iorque.© Project Syndicate 1995–2014)

O debate

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 12/09/2015)

Clara Ferreira Alves

                             Clara Ferreira Alves

Quando mais mediatizamos a democracia mais ela se esvazia de gente competente que não tem talento mediático. O tempo dos grandes comícios acabou com o tempo das grandes revoluções.

Quando esta prosa for publicada, o debate entre António Costa e Pedro Passos Coelho acabou. Como destes debates se espera que sejam combates de boxe, haverá um vencedor e um vencido. Já terei comentado a atuação. Mudará o combate o meu voto? Claro que não. Porque se trata disso, atuação, uma sabatina em que o mais treinado ou o mais expedito em palavras, o mais media trained, pode dar cabo do outro. O que isso me diz sobre o mérito da governação é nada. Quando mais mediatizamos a democracia mais ela se esvazia de gente competente que não tem talento mediático. O tempo dos grandes comícios acabou com o tempo das grandes revoluções. Os discursos e as atitudes são uma cuidadosa encenação de atores com um argumento escrito por profissionais. Nada é espontâneo ou natural. As vozes são afinadas pelo timbre da tecnologia. As frases são moduladas para o soundbite e o hashtag. A gravata é escolhida pelos assessores. A entrada em cena é filmada como se dois gladiadores entrassem no Coliseu rodeados do séquito de funcionários e conselheiros. Até os jornalistas são espetáculo. O espetáculo é anunciado semanas antes para que a multidão tenha o seu circo. E os media a sua audiência. Por trás ficaram a personalidade e a verdade. Toda a gente tem uma verdade, mesmo quando somos obrigados a viver num mundo de artifício. A verdade é o contrário das aparências. Por isso escrevo isto antes do debate.

Quando Pedro Passos Coelho apareceu em cena pareceu-me, nesse reino de aparência feito, um político decente, com intenções de direita, uma ideologia de direita, e um passado mais ou menos correto e limpo de trapalhadas. Composta pela minha ignorância, a aparência era positiva. Tinha recusado subvenções quando saiu do Parlamento, tinha trabalhado numa empresa que negociava com o Estado mas que não parecia particularmente desviada do propósito de ganhar dinheiro, tinha uma vida modesta. Não se importava de viver num andar em Massamá e não cultivava a corte cavaquista. Li o livro dele, que recebi no e-mail, e atestei meia dúzia de boas intenções. Se me perguntassem na altura o que pensava de Passos Coelho diria bem apessoado e genuíno. Ao entrevistá-lo como candidato não mudei de opinião. Não concordava com muitas propostas e a inexperiência causava-me desconforto, mas a renovação de um PSD acossado pelas querelas egocêntricas dos barões teria de se submeter à inexperiência. Não reparei muito na corte. Diz-me com quem andas dir-te-ei quem és. Não reparei em Relvas, que passado pouco tempo se armava em Napoleão e abusava do micromanaging para organizar programas de propaganda ou manipular os serviços secretos. Não reparei na legião de apparatchiks, grandes e instintivos produtores de doutrina e dotados de uma ignorância histórica e carestia intelectual que não existiam há dez ou vinte anos nas elites dos partidos. E não reparei que se pode parecer genuíno sendo um excelente mentiroso. O livro que escreveu desmentiu-o ele por atos e omissões. Muito do que disse que faria não fez. E muito do que fez não nos disse que fez ou que faria. O Pedro Passos Coelho que hoje tenho na minha frente, à frente do país, no frente a frente, pouco tem a ver com o homem que eu julgava que era. Sócrates pode ser o mais corrupto e criminoso ou o mais injustiçado e perseguido político português de todos os tempos mas tem uma dificuldade bem maior em ocultar a sua natureza narcisista e belicosa. Nenhum dos cursos da ação política dependeu do debate entre Sócrates e Passos. Nem as eleições. As eleições foram ganhas graças a uma obscura e bem montada campanha mediática com uso intensivo da internet e das correntes sociais (e com pormenores escabrosos) destinada a opor a venalidade gastadora do PS à austeridade virtuosa do PSD. Uma narrativa ‘europeia’.

Esta ‘narrativa’ permanece apesar de conhecermos os vícios da virtude salvífica. E continua a condicionar todo o debate político em Portugal. O PS não teve o mérito de a contrariar ou destruir. Não sei muito sobre António Costa. Sei que é pessoa decente. Sei que tem uma carreira executiva que garante experiência. Sei que não é dotado para a oratória e é dotado para negociações. Sei que não é mentiroso embora não seja transparente. Sei que sabe que não sabe tudo. Sei que podia ter ficado na Câmara (onde não concordei com coisas que fez) com uma vida mais fácil do que a de secretário do partido ou primeiro-ministro. Sei que tem uma equipa de técnicos e um programa de Governo. Sei que terá a tarefa de reformar um partido desunido e esclerótico, o dele. Sei que não é virtuoso. Sei que pode ser desajeitado. Sei que é pragmático. E que fará o melhor que puder se ganhar. Não espero que nos salve e salve a pátria. Sei que não gostei destes quatro anos e sei que não vou em aparências.

Se não têm nada para dizer…

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 12/09/2015)

Miguel Sousa Tavares

                                  Miguel Sousa Tavares

Conta-se que a coligação que se identifica pela extraordinária sigla PàF contratou uns gurus brasileiros especialistas em campanhas eleitorais. E que os cujos, olhando para o panorama político local, meditando nos quatro anos de terror governativo que ficaram para trás mas também na manifesta incapacidade do líder da oposição em conseguir suscitar entusiasmo nem que fosse a um moribundo a quem prometesse a vida eterna, conceberam então a brilhante estratégia política de transformar os coligados em mortos-vivos. Fingir-se de mortos, foi então o melhor que os marqueteiros brasileiros imaginaram para a campanha eleitoral do Governo. Quando muito, nas poucas ocasiões em que os dois chefes do centro-direita abririam a boca, se forçados a tal, seria para se lamentarem da pesada herança e agitarem os fantasmas de Sócrates e do Syriza. E estavam as coisas assim postas em razoável sossego, e ainda com o doce embalo das sondagens, quando se chegou aos debates eleitorais — também eles reduzidos ao estrito mínimo incontornável. E foi aí que subitamente tudo mudou. Começou logo na terça-feira, quando o mestre destas coisas, Paulo Portas, teve de dançar sem parar, como aqueles pugilistas que passam o combate a esquivar-se a ele, para não sucumbir às luvas de Catarina Martins, não conseguindo melhor do que balbuciar generalidades sobre a Grécia e agitar mostrengos no fundo do mar, prontos a levantarem-se e levarem-nos ao naufrágio se acaso nos desviássemos da rota demarcada — a qual só pode ser, Bruxelas dixit e o PàF subscreve, mais quatro anos do mesmo. Mas foi na quarta-feira que toda a estratégia da PàF sucumbiu com estrondo, quando um António Costa, embebido em poção mágica, desfez sem tréguas um espantado Passos Coelho — a quem tinham prometido que nada daquilo podia suceder. Bem feito, queriam fazer-se reeleger por mais quatro anos sem falar de política nem de governo, sem programa e sem ideia alguma de futuro, falando apenas do passado dos outros e dos perigos que eles representam! Mas agora vão ter política até ao fim. Vão ter de meter as mãos na massa. Abençoados debates!

Como é sabido, os chamados “politólogos” decretaram há muito que os debates eleitorais não servem para nada, que nunca tratam do que interessa e, consequentemente, quase nunca há um vencedor e nunca determinam o sentido de voto de um só eleitor. A fazer fé na sua ciência, talvez então o importante sejam os cartazes, os tempos de antena, os comícios enchidos com camionetas de fiéis político-transportados, as festas do Pontal ou do Avante!, ou as ironicamente chamadas Universidades de Verão, onde os jovens candidatos a adjuntos de um secretário de Estado aprendem os rudimentos do terrorismo partidário. Sempre discordei de tão douta quanto esclarecida opinião. E, depois de ver o debate Passos vs. Costa, respirei de alívio ao constatar que afinal de contas nem tudo é dispensável para nos tentar esclarecer quando nos chamam a votos. Foi um bom debate, à roda de algumas questões importantes (não todas, obviamente), e que só de descontrolou no final, quando os jornalistas resolveram introduzir, a despropósito, um bombardeamento de “perguntas de resposta rápida”, sem interesse nem utilidade visível.

Se António Costa ganhou claramente o debate foi, acima de tudo, porque tinha alguma coisa a dizer

Se António Costa ganhou claramente o debate foi, acima de tudo, porque tinha alguma coisa a dizer, enquanto que Passos Coelho permaneceu agarrado à estratégia “don’t mention, don’t talk”. Costa tinha um programa para propor enquanto que Passos só tinha o programa do adversário para confrontar. Costa quis falar do que se passou nos últimos quatro anos, enquanto Passos só queria falar do passado longínquo até 2011 e cobrir de um diáfano manto de esquecimento os quatro anos do seu Governo. Costa queria passar a mensagem de que é possível uma alternativa à “austeridade virtuosa”, enquanto Passos nem a história do papão conseguiu ter bem ensaiada. O PM encaixou vários golpes certeiros, quando, por exemplo, o líder da oposição lhe lembrou o aumento da dívida, o recuo do PIB ou os emigrados, e foi ao tapete, sem resposta alguma, quando Costa sacou o exemplo do inacreditável programa VEM, com o objectivo de convencer a voltar, a troco de 20.000 euros, vinte dos 350.000 emigrados da troika. Pelo contrário, defendeu-se bem quando desmascarou o “plafonamento vertical” da proposta do PS na Segurança Social e explicou como a situação actual não é sustentável para o futuro, ou quando pôs a nu a história da maior progressividade dos escalões do IRS, proposta pelo PS, e que outra coisa não é do que subir ainda mais o IRS para os 10% que respondem por 84% da colecta. Aí e nos dossiês da Saúde e da Segurança Social, para mim ficou claro que o programa eleitoral do PS contempla um aumento de despesa pública e consequente aumento de impostos para os pagadores habituais. É um tema que inevitavelmente vai merecer a reflexão do tal milhão de eleitores flutuantes, no centro do xadrez político e social.

Fazendo um esforço para responder, em termos simplistas, à pergunta “o que poderemos esperar de cada um dos dois lados?”, eu diria que a coligação não apresentou até agora qualquer ideia ou plano que nos leve a acreditar que a vida concreta da maioria dos portugueses poderá melhorar com a continuação deles no Governo — e não apenas por razões de conjuntura económica, mas também ideológicas; e o PS apresentou suficientes pistas para nos levar a temer que, falhando as expectativas optimistas que fundamentam o seu programa económico, poderemos acordar outra vez com uma factura descontrolada para pagar. Não se trata da estafada e inócua argumentação das políticas de esquerda ou de direita, tão cara ao BE e ao PCP. Trata-se, por um lado, de nos fazer crer que a economia pode retomar o crescimento sem ser esmagada pela austeridade ou pelo serviço da dívida e, por outro lado, convencer-nos que o crescimento não voltará a assentar no aumento da despesa pública, acrescentando défice ao défice e dívida à dívida. Entre a verdadeira desforra social que a direita europeia promoveu nos últimos anos a pretexto da crise das dívidas soberanas e em nome da “competitividade”, e a persistência de trincheiras ideológicas inabaláveis perante os factos da vida de que a esquerda teme libertar-se, entre o “Não Há Alternativa” e o Syriza, sobra, para os políticos de boa-fé, mais espaço por explorar, além do céu e do inferno. Ou serei eu que estou iludido.

De entre os dois candidatos a chefiar o próximo Governo, António Costa foi, na quarta-feira passada, o único que mostrou querer convencer pelos méritos da sua estratégia e não pelos deméritos da estratégia alheia. Teve falhas e lacunas, claro, não afastou, longe disso, todas as desconfianças nem esclareceu todas as dúvidas da sua estratégia, mas, pelo menos, mostrou respeito pelos eleitores, pois tinha qualquer coisa para lhes dizer e para lhes propor. E entre isso e o nada vai um abismo.

(Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia)