Anda demasiado nervosismo pelo ar

(Francisco Louçã, in Público, 22/09/2017)

 

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Há um nervosismo no ar que só pode surpreender. O PSD, mesmo se não for medido pela bitola do Dr. Rangel às quintas-feiras, vai-se enfunando: ora é a lei da imigração, ora os fundos comunitários, ora uma frase do primeiro-ministro, ora o rating, tudo o incomoda, ou seja, não há nada que possamos descortinar nesse apocalipse. O CDS não esconde que Cristas precisa de Lisboa para a sua candidatura seguinte. E, em todos os partidos, as sondagens, frágeis como elas se têm revelado à medida dos anos, provocam epidemias de susto.

Tanto barulho para nada. Excepto no PSD, não há em nenhum partido razão para se não sorrir. Tudo leva a crer que poucos dos autarcas desavindos triunfarão: há o caso de Isaltino Morais, uma recuperação desde a prisão, mas Valentim Loureiro e Narciso Miranda parecem vencidos. Tudo leva a crer que o PS arrebata a maioria das câmaras, mantendo o seu poder anterior com poucas perdas e ganhos. Tudo leva a crer que, onde tem a presidência, o PCP se mantenha e, onde é minoritário, continue numa fasquia relevante. Confirmará assim a sua força orgânica e o secretário-geral discursará aos militantes sobre o trabalho do seu partido. Tudo leva a crer que o Bloco cresça eleitoralmente e eleja vereadores em cidades importantes. Tudo tranquilo. Então, porquê o nervosismo em tantos destes partidos?

A primeira razão do nervosismo é o PSD. Se tudo estava desenhado para Passos Coelho continuar depois de outubro, mesmo derrotado, agora as águas agitam-se. O PSD pode ficar abaixo dos 15% em Lisboa e Porto, se as primeiras sondagens se confirmarem. Isso seria uma tragédia para a sua direcção.

Mas o facto é que ninguém quer que Passos se vá embora: o Presidente quer mantê-lo, Rui Rio quer tempo, que a campanha interna não tem sido feliz, o Primeiro-ministro reza para que seja Passos a conduzir o PSD nas próximas eleições, o CDS também, o aparelho aguenta-o. Só que o comboio pode descarrilar em Lisboa e Porto e, aliás, os generais do PSD fizeram tudo para que isso acontecesse.

A segunda razão é o tal André Ventura em Loures. A sua campanha, em si, é uma tristeza, o PSD foge dele, os jornalistas só encontram banalidades e fingimento, a derrota é anunciada e será um ar que se lhe deu. Mas o aspecto mais importante do personagem não é propriamente os ciganos, a pena de morte, a castração e tudo o que mobiliza da conversa de sarjeta. É que o homem nasceu num programa de televisão sobre futebol. Foi o que criou a persona pública, que lhe fez sentir que não importa o que diga desde que seja chocante, que o que é preciso é abanar-se muito e interromper toda a gente. Ou seja, o exemplo pode vir a ser radicalizado: há canais de televisão prontos para inventar os seus candidatos e promover delinquentes, afinal o Brasil fica aqui tão perto.

A terceira é a manha. No caso da casa de Fernando Medina, que comprou mais caro do que um ex-ministro do CDS seu vizinho, no mesmo ano, nada a assinalar se não o interesse de Assunção Cristas que, na CMTV, pré-anunciou o que viria a ser publicado pelos jornais um par de dias depois. Sinal de nervosismo.

A quarta forma de nervosismo é a que não se esperaria que se manifestasse: Jerónimo de Sousa usa o seu repertório da raposa e das uvas para atacar Catarina, porque ela criticou os autarcas que apoiaram a troika. É portanto uma divergência inexistente, um pretexto. Mas revela uma preocupação pouco compreensível: é fácil levantar a base de um partido contra os apontados inimigos, mas era escusado ver um homem experiente como Jerónimo a ter que ouvir a resposta de Catarina rejeitando o sectarismo.

Há portanto muitas formas de nervosismo, mais do que as que se poderia esperar ou do que as que este país à beira-mar plantado merece. Mas, o que quer, cara leitora ou leitor, são eleições.

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Queda de um mito

(Baptista Bastos, in Correio da Manhã, 13/01/2016)

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Baptista Bastos

A dimensão política e cultural do professor ficou a nu: afinal, não vale tanto quanto se pensa e se diz.


Marcelo Rebelo de Sousa tem confiado, excessivamente, em si próprio. Não fosse ele um excessivo gesticulante e um ilusionista no tratamento das palavras, enfim: um atabalhoado nas ideias.

Aliás, destas, pouco se lhe conhece, a não ser as do habitual receituário. Converge-se-lhe a simpatia inapagável e essa espécie de campeão da convivência que o faz querido dos que gostam do género, em especial as senhoras de meia-idade. Toda essa estudada empatia foi estilhaçada nos debates com Sampaio da Nóvoa, que o reduziu a um desajeitado defensor de coisa alguma; e com Maria de Belém, que disse do oponente coisas terríveis. A delicadeza da senhora, o sorriso cortês e levemente zombeteiro, transformaram o que parecia um diálogo gentil numa penosa cena de enxovalho.

Maria de Belém não perdeu uma para reduzir Marcelo a subnitrato, colocando-o como triste defensor de nada a defender. A dimensão política e cultural do professor ficou a nu: o homem, afinal, não vale tanto quanto se pensa e se diz. Afirmar-se que ele é o anti-Cavaco, só por paródia. Ele é um produto do ‘sistema’, e não há borracha que apague as cartas denunciatórias a Salazar, e as esquivas a questões bem graves da democracia.

Sampaio da Nóvoa, cuja compleição intelectual, cívica e humana supera, de longe, o que por aí há, desmontou a fragilidade do antagonista, com a paciente perseverança de um mestre, ante um traquinas incipiente. Nada de pessoal. Simplesmente a grandeza de quem sabe não ter necessidade de fazer disso soberba. A diferença entre o prof. Sampaio da Nóvoa e o dr. Cavaco, por exemplo, é galáctica. E a que decorre entre ele e o Marcelo, abissal.

Ao contrário do que, cá e lá, tem debitado um preopinante de maus fígados e frase manhosa, quando não infame, os debates têm suscitado interesse, pelo menos como reveladores dos caracteres dos intervenientes.

Entre a irrelevância e a palhaçada

(António José Teixeira, in Expresso Diário, 14/01/2016)

António José Teixeira

1. A campanha presidencial arrasta-se sem novidade. Demasiadas vezes não vai além do fait divers quotidiano. Uma ida de Marcelo Rebelo de Sousa à farmácia, com um batalhão de jornalistas atrás, para comprar toalhetes de álcool, é um dos pontos altos desta paródia. É assim em muitas campanhas. É assim para televisão mostrar. É assim porque se querem esconder arestas. É assim porque se quer matar a política. A campanha tornou-se uma espécie de Big Brother em que dez vaidosos (uns mais do que outros) cumprem diariamente um enredo que suscite um sorriso, mesmo que amarelo.

A campanha tornou-se uma espécie de Big Brother em que dez vaidosos (uns mais do que outros) cumprem diariamente um enredo que suscite um sorriso, mesmo que amarelo

Goste-se, ou não, uns mais pobres do que outros, os debates e entrevistas (nunca foram tantos e tantas) constituíram a única montra aceitável para os 10 candidatos dizerem ao que vêm. De resto, esta campanha ficará para a história como uma das mais confrangedoras e apalhaçadas de sempre. Marcelo deu um grande contributo para que assim seja. Apostou numa corrida de popularidade e em cativar o eleitorado de esquerda. Tornou-se, imaginem, o maior aliado do Governo de António Costa. Distribui simpatia “à esquerda da direita”, metida no bolso que julga estar a sua direita. Não se sabe, e essa é a grande incógnita, se a direita quererá ficar no bolso de Marcelo, se não se sente desprezada, ela que se viu apeada pelos que agora Marcelo tenta seduzir. Com tanto cheque em branco ao Governo, com tanta palhaçada diária, muitos poderão ficar em casa. Se Marcelo não quis saber deles porque é que eles quererão apoiar Marcelo?

A possibilidade de uma segunda volta depende da tolerância da direita e do empenho do eleitorado de esquerda. Apesar das sondagens, talvez a notícia prematura da vitória de Marcelo à primeira volta tenha sido exagerada. Marcelo precisa de fazer mais por isso. Se ficar pela poncha e pelas artes marciais enquanto se afirma árbitro com enfado porá em causa a corrida de popularidade.

Os debates com Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém correram-lhe mal. Foi sobranceiro e irritadiço. Deu alento a um e a outro, sobretudo a Nóvoa, que ainda o pode surpreender. Consigam os candidatos do PCP e do BE fixar eleitorado e Marcelo ainda pode ter uma grande surpresa.

Já agora, quando é que as administrações dos hospitais e dos centros de saúde acabam com as visitas eleitorais? Há muitos anos, vemos doentes expostos à propaganda e às câmaras de televisão. Não faz nenhum sentido. É um desrespeito absoluto pelos que se encontram diminuídos nas suas capacidades. Os doentes não deveriam ser cenário eleitoral.

2. “A Queda de Wall Street” é um filme de Adam Mckay, que regressa à crise financeira de 2008. Depois de “Inside Job”, voltamos à história de uma derrocada gigantesca a que quase todos fecharam os olhos. Estupidez, ganância e fraude minaram o capitalismo financeiro, como nunca tinha acontecido. Nem por isso se curou. Mesmo depois de terem sido os contribuintes chamados a pagar a fatura. Por cá, não faltam exemplos de desvario e impunidade. Um filme que ajuda a abrir os olhos.