O meu avô Júlio César

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 08/01/2016)

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 Baptista  Bastos

Obama é um homem que chora. O Presidente dos Estados Unidos anunciava as medidas para endurecer o escrutínio, vigilância e controlo do comércio de armas. Não conteve as lágrimas ao falar nas crianças mortas numa escola primária em Newtown.

O meu avô tinha nome de imperador, Júlio César, e toda a vida foi descarregador de carvão. O que dele sei obtive-o através de conversas com velhos narradores da família, de retratos delidos e de esparsas cartas. Era um homem enorme, espadaúdo, bondoso, ajeitado às suas convicções, republicano, e frequentador de reuniões de classe, estava o sindicalismo a dar os primeiros passos indecisos. Teve seis filhos, três rapazes e outras tantas raparigas, e ficou viúvo muito novo, levada a minha avó, Angelina, pela tísica. O meu avô chegava a casa ao fim da tarde, quase noite, todo enfarruscado, e a minha avó ajudava-o a tomar banho, com água fria, numa selha de zinco, Inverno ou Verão que fosse.

Todos os seus filhos e filhas tinham nomes de imperatrizes e imperadores, Agripina, Iolanda Adriano, Francisco José, e assim. Talvez quisessem, os padrinhos, ludibriar a miséria e o infortúnio com os nomes refulgentes dos poderosos. Talvez. Um dos meus tios, Manuel, morreria, muitos anos depois, na Guerra Civil de Espanha, no lado republicano, é bem de ver, na última barricada de Madrid. Não se falava muito neste tio e neste episódio, mas, quando a ele se aludia, o tempo era mau para essas façanhas, fazia-se com um lastro de orgulho.

O meu avô aprendeu a ler passara muito a idade das primeiras letras. Dizem que lia tudo o que lhe chegava à mão. Não possuía biblioteca que se visse, mas deixou dois livros, “Germinal”, de Émile Zola, e “Mentiras Convencionais”, de Max Nordau, muito manuseados, com algumas partes sublinhadas.

Ser descarregador de carvão era um trabalho muito procurado pelas classes populares, naqueles anos longínquos e ingratos. O meu avô descarregava o carvão vindo em barcaças, do Alto Tejo até aos cais de Alcântara, de Pedrouços e das Naus. Colocavam uma prancha entre as amuradas das barcaças e os cais, as pranchas estremeciam com o andar dos descarregadores, eles equilibravam-se com bravura e denodo e, que se conheça, só houve dois acidentes em todos esses anos.

O meu avô morava para o Socorro, e dava-se muito com os estivadores de Alfama, em especial dois deles, com os quais gostava muito de conversar e de beber. Aos sábados, já se sabia: petiscos e vinho tinto e, às vezes, uns cantos ao fado nas tabernas antigas.

Na calçada dos Cavaleiros até ao Martim Moniz corria um elevador. Certa vez, o elevador descarrilou, cheio de gente, sobretudo de miúdos, que saíam da escola. Desarvorado, o elevador descia a calçada, entre os gritos de medo dos miúdos e das pessoas que assistiam à desgraça iminente. Foi então que o meu avô Júlio César, enorme e generoso, cheio daquela coragem que nasce não se sabe bem de onde, abriu os braços e colocou-se nos carris, gritando: “Há-de parar! Há-de parar!” E parou, travado pelo corpo daquele homem poderoso. O meu avô Júlio César foi parar ao hospital de São José, ossos partidos e corpo em nódoa negra, mas sobreviveu. Nenhum jornal publicou a notícia, por desinteressante. No mesmo dia, o foco de importância incidia numa grandiosa festa de casamento, no Estoril, festa que se prolongou pela missa, celebrada pelo cardeal Cerejeira, e por um lauto e elegante almoço, na quinta privada de um banqueiro que também se dedicada à filantropia.

O meu avô morreu também ele novo, com os pulmões cheios do pó do carvão. E triste por estar sozinho, viúvo da mulher que sempre fora sua. Não podia criar e tomar conta dos seis filhos, e a família e próximos adoptaram os miúdos. Um foi tipógrafo, outro foi marinheiro, e ainda o conheci, assim como duas tias. Do filho de uma, da tia Alzira, que casara com um homem de dinheiro, cheguei a beneficiar das suas roupas usadas, sobretudo de um sobretudo que me ficava apertado, e de que me ufanava: era o único entre os rapazes do bairro onde então morava.

Isto para dizer que gosto muito do meu avô Júlio César, embora sem o ter conhecido. Um descarregador de carvão, hercúleo, que fez parar a marcha mortífera do elevador da calçada dos Cavaleiros, de que ninguém fala, acaso por ser quem foi. Descarregador de carvão.

Se não têm nada para dizer…

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 12/09/2015)

Miguel Sousa Tavares

                                  Miguel Sousa Tavares

Conta-se que a coligação que se identifica pela extraordinária sigla PàF contratou uns gurus brasileiros especialistas em campanhas eleitorais. E que os cujos, olhando para o panorama político local, meditando nos quatro anos de terror governativo que ficaram para trás mas também na manifesta incapacidade do líder da oposição em conseguir suscitar entusiasmo nem que fosse a um moribundo a quem prometesse a vida eterna, conceberam então a brilhante estratégia política de transformar os coligados em mortos-vivos. Fingir-se de mortos, foi então o melhor que os marqueteiros brasileiros imaginaram para a campanha eleitoral do Governo. Quando muito, nas poucas ocasiões em que os dois chefes do centro-direita abririam a boca, se forçados a tal, seria para se lamentarem da pesada herança e agitarem os fantasmas de Sócrates e do Syriza. E estavam as coisas assim postas em razoável sossego, e ainda com o doce embalo das sondagens, quando se chegou aos debates eleitorais — também eles reduzidos ao estrito mínimo incontornável. E foi aí que subitamente tudo mudou. Começou logo na terça-feira, quando o mestre destas coisas, Paulo Portas, teve de dançar sem parar, como aqueles pugilistas que passam o combate a esquivar-se a ele, para não sucumbir às luvas de Catarina Martins, não conseguindo melhor do que balbuciar generalidades sobre a Grécia e agitar mostrengos no fundo do mar, prontos a levantarem-se e levarem-nos ao naufrágio se acaso nos desviássemos da rota demarcada — a qual só pode ser, Bruxelas dixit e o PàF subscreve, mais quatro anos do mesmo. Mas foi na quarta-feira que toda a estratégia da PàF sucumbiu com estrondo, quando um António Costa, embebido em poção mágica, desfez sem tréguas um espantado Passos Coelho — a quem tinham prometido que nada daquilo podia suceder. Bem feito, queriam fazer-se reeleger por mais quatro anos sem falar de política nem de governo, sem programa e sem ideia alguma de futuro, falando apenas do passado dos outros e dos perigos que eles representam! Mas agora vão ter política até ao fim. Vão ter de meter as mãos na massa. Abençoados debates!

Como é sabido, os chamados “politólogos” decretaram há muito que os debates eleitorais não servem para nada, que nunca tratam do que interessa e, consequentemente, quase nunca há um vencedor e nunca determinam o sentido de voto de um só eleitor. A fazer fé na sua ciência, talvez então o importante sejam os cartazes, os tempos de antena, os comícios enchidos com camionetas de fiéis político-transportados, as festas do Pontal ou do Avante!, ou as ironicamente chamadas Universidades de Verão, onde os jovens candidatos a adjuntos de um secretário de Estado aprendem os rudimentos do terrorismo partidário. Sempre discordei de tão douta quanto esclarecida opinião. E, depois de ver o debate Passos vs. Costa, respirei de alívio ao constatar que afinal de contas nem tudo é dispensável para nos tentar esclarecer quando nos chamam a votos. Foi um bom debate, à roda de algumas questões importantes (não todas, obviamente), e que só de descontrolou no final, quando os jornalistas resolveram introduzir, a despropósito, um bombardeamento de “perguntas de resposta rápida”, sem interesse nem utilidade visível.

Se António Costa ganhou claramente o debate foi, acima de tudo, porque tinha alguma coisa a dizer

Se António Costa ganhou claramente o debate foi, acima de tudo, porque tinha alguma coisa a dizer, enquanto que Passos Coelho permaneceu agarrado à estratégia “don’t mention, don’t talk”. Costa tinha um programa para propor enquanto que Passos só tinha o programa do adversário para confrontar. Costa quis falar do que se passou nos últimos quatro anos, enquanto Passos só queria falar do passado longínquo até 2011 e cobrir de um diáfano manto de esquecimento os quatro anos do seu Governo. Costa queria passar a mensagem de que é possível uma alternativa à “austeridade virtuosa”, enquanto Passos nem a história do papão conseguiu ter bem ensaiada. O PM encaixou vários golpes certeiros, quando, por exemplo, o líder da oposição lhe lembrou o aumento da dívida, o recuo do PIB ou os emigrados, e foi ao tapete, sem resposta alguma, quando Costa sacou o exemplo do inacreditável programa VEM, com o objectivo de convencer a voltar, a troco de 20.000 euros, vinte dos 350.000 emigrados da troika. Pelo contrário, defendeu-se bem quando desmascarou o “plafonamento vertical” da proposta do PS na Segurança Social e explicou como a situação actual não é sustentável para o futuro, ou quando pôs a nu a história da maior progressividade dos escalões do IRS, proposta pelo PS, e que outra coisa não é do que subir ainda mais o IRS para os 10% que respondem por 84% da colecta. Aí e nos dossiês da Saúde e da Segurança Social, para mim ficou claro que o programa eleitoral do PS contempla um aumento de despesa pública e consequente aumento de impostos para os pagadores habituais. É um tema que inevitavelmente vai merecer a reflexão do tal milhão de eleitores flutuantes, no centro do xadrez político e social.

Fazendo um esforço para responder, em termos simplistas, à pergunta “o que poderemos esperar de cada um dos dois lados?”, eu diria que a coligação não apresentou até agora qualquer ideia ou plano que nos leve a acreditar que a vida concreta da maioria dos portugueses poderá melhorar com a continuação deles no Governo — e não apenas por razões de conjuntura económica, mas também ideológicas; e o PS apresentou suficientes pistas para nos levar a temer que, falhando as expectativas optimistas que fundamentam o seu programa económico, poderemos acordar outra vez com uma factura descontrolada para pagar. Não se trata da estafada e inócua argumentação das políticas de esquerda ou de direita, tão cara ao BE e ao PCP. Trata-se, por um lado, de nos fazer crer que a economia pode retomar o crescimento sem ser esmagada pela austeridade ou pelo serviço da dívida e, por outro lado, convencer-nos que o crescimento não voltará a assentar no aumento da despesa pública, acrescentando défice ao défice e dívida à dívida. Entre a verdadeira desforra social que a direita europeia promoveu nos últimos anos a pretexto da crise das dívidas soberanas e em nome da “competitividade”, e a persistência de trincheiras ideológicas inabaláveis perante os factos da vida de que a esquerda teme libertar-se, entre o “Não Há Alternativa” e o Syriza, sobra, para os políticos de boa-fé, mais espaço por explorar, além do céu e do inferno. Ou serei eu que estou iludido.

De entre os dois candidatos a chefiar o próximo Governo, António Costa foi, na quarta-feira passada, o único que mostrou querer convencer pelos méritos da sua estratégia e não pelos deméritos da estratégia alheia. Teve falhas e lacunas, claro, não afastou, longe disso, todas as desconfianças nem esclareceu todas as dúvidas da sua estratégia, mas, pelo menos, mostrou respeito pelos eleitores, pois tinha qualquer coisa para lhes dizer e para lhes propor. E entre isso e o nada vai um abismo.

(Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia)

Eu radical me confesso

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 07/08/2015)

Pacheco Pereira

                Pacheco Pereira

Por entender que a liberdade é o mais precioso e frágil dos bens.

Por entender que a liberdade quando se tem em plenitude não se dá por ela, quando se começa a perder os homens e as mulheres que a amam percebem-no de imediato: “Onde liberdade não há, abuso dela não pode haver.”

A liberdade pertence a todos e exige a igualdade para se realizar: “O valor essencial da liberdade sem a igualdade torna-se aristocrático privilégio de uns quantos.”

A liberdade não é uma dádiva, nem uma concessão: “Eu considero que uma liberdade dependente de poder discricionário do Governo não é uma verdadeira liberdade; fica à mercê do poder.”

Entendo que a liberdade exige a possibilidade da propriedade: “Defendemos a propriedade privada, na medida em que impõe o respeito da pessoa.” Mas não chega: “Em nome da mesma pessoa combatemos os abusos da propriedade, a concentração da riqueza, o domínio do poder económico.”

Não há “crescimento” económico numa sociedade fora do contexto das liberdades: “Adoptando-se o modelo de desenvolvimento capitalista sem instituições democráticas, sem liberdade política, caminharemos para um despotismo violento que nem por ser dourado por melhores condições económicas deixará de ser menos insuportável.”

Entendo que a independência e a soberania nacional são valores que permitem o exercício da liberdade efectiva dos portugueses. Entendo que “Portugal precisa de apoio internacional generalizado e merece-o. Esse apoio, venha de onde vier, tem de respeitar a nossa independência e uma rigorosa não ingerência nos nossos assuntos.”

Entendo que o PSD não é um partido de direita, nem virado à direita, nem às claras, nem às escuras: “Nós, Partido Social Democrata, não temos qualquer afinidade com as forças de direita, nós não somos nem seremos nunca uma força de direita.”

Repita -se: “Nós não somos nem seremos nunca uma força de direita.” E mais: “Somos um partido de esquerda não marxista e continuaremos a sê-lo.”

E mais ainda: “Somos socialistas porque somos sociais-democratas, mas somos socialistas sem subordinação a dogmas marxistas, muito menos leninistas, sem subordinação a dogmas de apropriação colectiva dos meios de produção.”
O que significa que no plano programático e da acção “é indispensável conciliar o liberalismo político com o intervencionismo social e económico”.

O PSD não é em primeiro lugar, nem em último, um partido de empresas e empresários que olham para a Economia como se não existissem trabalhadores a não ser como um “custo”: “O PPD nunca foi um partido de patrões (…) Desde o início tivemos adesão de larga camada de trabalhadores que se têm multiplicado na sua acção de implantação do partido.”

Entendo que não há paz sem justiça social e não o contrário porque: “A paz engloba a justiça social.” Sem ela toda a “estabilidade” é fictícia.

Também entendo que nos dias de hoje “A igualdade de oportunidades, independentemente dos meios de fortuna e da posição social, é cada vez mais um mito, designadamente em sectores como a saúde, a habitação e o ensino, onde tudo se degrada a um ritmo alucinante.”

Entendo que o poder político se deve sobrepor ao poder económico e não o contrário: “O que há é que impor uma disciplina de actuação do poder económico e dos investimentos, para que ele seja feito com proveito de todos nós e não apenas para os detentores desse poder.”

Não reduzo a sociedade e a política aos critérios de “eficiência” tecnocrática: “O desenvolvimento do económico e a aplicação crescente da técnica a todos os ramos geram a obsessão da eficiência.”

Entendo que uma boa política social-democrática exige ao mesmo tempo um papel activo do Estado e o combate aos seus abusos. Reconheço a necessidade do investimento público: “O Estado deverá garantir suficiente capacidade humana, técnica e financeira para poder intervir como investidor, realizando projectos de grande dimensão em sectores estratégicos da actividade económica nacional.

Sou contra o abuso fiscal: “É indispensável que o poder de compra seja também defendido pela redução dos impostos.”

Entendo que é vital haver uma reforma do Estado que não seja degradar serviços públicos e despedir funcionários ou baixar-lhes salário. “Nós vivemos num País de inutilidade pública, inutilidade pública que custa caríssimo e que afinal, agora, querem que continue a proliferar, obrigando os particulares a suportar todo o peso da crise económica.”

Entendo por isso que “o que não posso, porque não tenho esse direito, é calar-me, seja sob que pretexto for”. Se isto é ser, nos dias de hoje, radical, sou radical.

Estou bem acompanhado no meu radicalismo visto que todas as frases entre aspas são de Francisco Sá Carneiro. Como ele, não tenho feitio para vítima, por muitas campanhas que se façam. Como ele “nunca me senti tão sozinho e nunca tive tanta certeza de estar tão certo”. Certo estava, sozinho é que não.