Se não têm nada para dizer…

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 12/09/2015)

Miguel Sousa Tavares

                                  Miguel Sousa Tavares

Conta-se que a coligação que se identifica pela extraordinária sigla PàF contratou uns gurus brasileiros especialistas em campanhas eleitorais. E que os cujos, olhando para o panorama político local, meditando nos quatro anos de terror governativo que ficaram para trás mas também na manifesta incapacidade do líder da oposição em conseguir suscitar entusiasmo nem que fosse a um moribundo a quem prometesse a vida eterna, conceberam então a brilhante estratégia política de transformar os coligados em mortos-vivos. Fingir-se de mortos, foi então o melhor que os marqueteiros brasileiros imaginaram para a campanha eleitoral do Governo. Quando muito, nas poucas ocasiões em que os dois chefes do centro-direita abririam a boca, se forçados a tal, seria para se lamentarem da pesada herança e agitarem os fantasmas de Sócrates e do Syriza. E estavam as coisas assim postas em razoável sossego, e ainda com o doce embalo das sondagens, quando se chegou aos debates eleitorais — também eles reduzidos ao estrito mínimo incontornável. E foi aí que subitamente tudo mudou. Começou logo na terça-feira, quando o mestre destas coisas, Paulo Portas, teve de dançar sem parar, como aqueles pugilistas que passam o combate a esquivar-se a ele, para não sucumbir às luvas de Catarina Martins, não conseguindo melhor do que balbuciar generalidades sobre a Grécia e agitar mostrengos no fundo do mar, prontos a levantarem-se e levarem-nos ao naufrágio se acaso nos desviássemos da rota demarcada — a qual só pode ser, Bruxelas dixit e o PàF subscreve, mais quatro anos do mesmo. Mas foi na quarta-feira que toda a estratégia da PàF sucumbiu com estrondo, quando um António Costa, embebido em poção mágica, desfez sem tréguas um espantado Passos Coelho — a quem tinham prometido que nada daquilo podia suceder. Bem feito, queriam fazer-se reeleger por mais quatro anos sem falar de política nem de governo, sem programa e sem ideia alguma de futuro, falando apenas do passado dos outros e dos perigos que eles representam! Mas agora vão ter política até ao fim. Vão ter de meter as mãos na massa. Abençoados debates!

Como é sabido, os chamados “politólogos” decretaram há muito que os debates eleitorais não servem para nada, que nunca tratam do que interessa e, consequentemente, quase nunca há um vencedor e nunca determinam o sentido de voto de um só eleitor. A fazer fé na sua ciência, talvez então o importante sejam os cartazes, os tempos de antena, os comícios enchidos com camionetas de fiéis político-transportados, as festas do Pontal ou do Avante!, ou as ironicamente chamadas Universidades de Verão, onde os jovens candidatos a adjuntos de um secretário de Estado aprendem os rudimentos do terrorismo partidário. Sempre discordei de tão douta quanto esclarecida opinião. E, depois de ver o debate Passos vs. Costa, respirei de alívio ao constatar que afinal de contas nem tudo é dispensável para nos tentar esclarecer quando nos chamam a votos. Foi um bom debate, à roda de algumas questões importantes (não todas, obviamente), e que só de descontrolou no final, quando os jornalistas resolveram introduzir, a despropósito, um bombardeamento de “perguntas de resposta rápida”, sem interesse nem utilidade visível.

Se António Costa ganhou claramente o debate foi, acima de tudo, porque tinha alguma coisa a dizer

Se António Costa ganhou claramente o debate foi, acima de tudo, porque tinha alguma coisa a dizer, enquanto que Passos Coelho permaneceu agarrado à estratégia “don’t mention, don’t talk”. Costa tinha um programa para propor enquanto que Passos só tinha o programa do adversário para confrontar. Costa quis falar do que se passou nos últimos quatro anos, enquanto Passos só queria falar do passado longínquo até 2011 e cobrir de um diáfano manto de esquecimento os quatro anos do seu Governo. Costa queria passar a mensagem de que é possível uma alternativa à “austeridade virtuosa”, enquanto Passos nem a história do papão conseguiu ter bem ensaiada. O PM encaixou vários golpes certeiros, quando, por exemplo, o líder da oposição lhe lembrou o aumento da dívida, o recuo do PIB ou os emigrados, e foi ao tapete, sem resposta alguma, quando Costa sacou o exemplo do inacreditável programa VEM, com o objectivo de convencer a voltar, a troco de 20.000 euros, vinte dos 350.000 emigrados da troika. Pelo contrário, defendeu-se bem quando desmascarou o “plafonamento vertical” da proposta do PS na Segurança Social e explicou como a situação actual não é sustentável para o futuro, ou quando pôs a nu a história da maior progressividade dos escalões do IRS, proposta pelo PS, e que outra coisa não é do que subir ainda mais o IRS para os 10% que respondem por 84% da colecta. Aí e nos dossiês da Saúde e da Segurança Social, para mim ficou claro que o programa eleitoral do PS contempla um aumento de despesa pública e consequente aumento de impostos para os pagadores habituais. É um tema que inevitavelmente vai merecer a reflexão do tal milhão de eleitores flutuantes, no centro do xadrez político e social.

Fazendo um esforço para responder, em termos simplistas, à pergunta “o que poderemos esperar de cada um dos dois lados?”, eu diria que a coligação não apresentou até agora qualquer ideia ou plano que nos leve a acreditar que a vida concreta da maioria dos portugueses poderá melhorar com a continuação deles no Governo — e não apenas por razões de conjuntura económica, mas também ideológicas; e o PS apresentou suficientes pistas para nos levar a temer que, falhando as expectativas optimistas que fundamentam o seu programa económico, poderemos acordar outra vez com uma factura descontrolada para pagar. Não se trata da estafada e inócua argumentação das políticas de esquerda ou de direita, tão cara ao BE e ao PCP. Trata-se, por um lado, de nos fazer crer que a economia pode retomar o crescimento sem ser esmagada pela austeridade ou pelo serviço da dívida e, por outro lado, convencer-nos que o crescimento não voltará a assentar no aumento da despesa pública, acrescentando défice ao défice e dívida à dívida. Entre a verdadeira desforra social que a direita europeia promoveu nos últimos anos a pretexto da crise das dívidas soberanas e em nome da “competitividade”, e a persistência de trincheiras ideológicas inabaláveis perante os factos da vida de que a esquerda teme libertar-se, entre o “Não Há Alternativa” e o Syriza, sobra, para os políticos de boa-fé, mais espaço por explorar, além do céu e do inferno. Ou serei eu que estou iludido.

De entre os dois candidatos a chefiar o próximo Governo, António Costa foi, na quarta-feira passada, o único que mostrou querer convencer pelos méritos da sua estratégia e não pelos deméritos da estratégia alheia. Teve falhas e lacunas, claro, não afastou, longe disso, todas as desconfianças nem esclareceu todas as dúvidas da sua estratégia, mas, pelo menos, mostrou respeito pelos eleitores, pois tinha qualquer coisa para lhes dizer e para lhes propor. E entre isso e o nada vai um abismo.

(Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia)

2 pensamentos sobre “Se não têm nada para dizer…

  1. Creio que o debate Catarina Martins – Passos Coelho foi mais devastador para este último expondo-lhe as fragilidades evidentes de mais do mesmo e do não programa que o debate deste com Costa. Passos viu-se mais atrapalhado e impreparado que Portas em debate similar.

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