O ‘Partido da Guerra’ faz os seus planos

(Por Patrick Lawrence, in Blog Osbarbarosnet.blogspot.com, 21/09/2024)

Na imagem: O General CQ Brown, Jr., Presidente do Estado-Maior Conjunto, participa numa cerimónia de deposição de coroas de flores do 11 de Setembro ao lado do Presidente Joe Biden, da Vice-Presidente Kamala Harris e do Secretário da Defesa Lloyd J. Austin III, no Pentágono, em Washington , DC, 11 de setembro de 2024. (Foto do DOD do especialista chefe em comunicação de massa James Mullen).


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A Casa Branca de Biden e a máquina do Partido Democrata, que tentam levar Kamala Harris do segundo lugar do regime para o primeiro lugar, tornam-se mais interessantes a cada semana. A campanha de Harris, finalmente, dois meses depois de as elites e os financiadores do partido terem aprovado a sua candidatura, ultrapassando qualquer aparência de processo democrático, publicou uma plataforma a que chama “Um Novo Caminho a Seguir”, e abordarei isto na devida altura. Estou menos interessado agora em palavras publicadas num website do que em dois desenvolvimentos recentes que deveríamos considerar em conjunto, mesmo que ainda ninguém tenha pensado em fazê-lo. 

Lentamente e com muita segurança, torna-se claro, através destas reviravoltas semanais, como um novo regime Democrata, caso Harris vença em 5 de Novembro, se propõe gerir os negócios do Imperium. E por mais que muitos eleitores tolos possam ter a ilusão do contrário, se Harris tomar a Casa Branca, o seu negócio não será nem mais nem menos do que gerir o império – as guerras, as provocações, as sanções ilegais e outras punições colectivas, os clientes terroristas em Israel, os neonazis em Kiev. 

Na passada quarta-feira, 4 de Setembro, Liz Cheney surpreendeu Washington e, suponho, a maioria de nós, quando anunciou que apoiaria a candidatura de Harris à presidência. A ex-congressista do Wyoming, uma instigadora de golpes de guerra que se mantém entre os falcões da política externa de direita, não foi a primeira republicana a saltar para o altar nesta época política, e também não foi a última: dois dias depois, o pai de Liz fez o mesmo. Dick Cheney, claro, dispensa apresentações. 

Instantaneamente, a campanha de Harris declarou a sua satisfação por ter o apoio destes corajosos patriotas, como a organização lhes chamou nas suas declarações oficiais. 

Uma semana depois de toda esta política de alto calibre, o Presidente Biden reuniu-se no Salão Oval com Keir Starmer, o novo primeiro-ministro britânico, para considerar a proposta da Ucrânia de disparar mísseis fornecidos pelo Ocidente contra alvos bem dentro do território russo . Os britânicos estão prontos a agradar ao regime de Kiev, tal como os franceses, mas todos – Londres, Paris, Kiev – precisam da permissão de Biden para ampliar a guerra desta forma. 

Neste momento, Biden e o Secretário de Estado Blinken estão na sua fase “Bem, talvez”, e deveríamos estar à beira dos nossos lugares a pensar se eles concordarão com estes planos. Mas já não vimos este filme antes e não sabemos como acaba? Não foi: “Talvez enviemos sistemas de foguetes HIMARS”, “Talvez tanques M-1”, “Talvez mísseis Patriot”, “Talvez F-16”? Ainda antes do encontro Biden-Starmer, na semana passada, Blinken e David Lammy, o secretário dos Negócios Estrangeiros britânico, durante uma visita a Kiev para conversações com Volodymyr Zelensky, já davam fortes indícios de que Biden iria mais uma vez concordar com os planos do presidente ucraniano e do PM britânico que foi coreografado para lhe apresentar.

A estipulação em que Biden e Blinken pretendem agora insistir é que não concordarão em deixar Kiev utilizar armas fornecidas pelos EUA – que parecem ser diferentes das armas fabricadas pelos EUA – contra alvos no interior da Rússia. Esta não é mais do que uma daquelas divisões em que a Casa Branca de Biden negoceia quando quer parecer atenciosa e cautelosa, mas não é nenhuma das duas coisas. Alguém me dirá que diferença fará para a Rússia se Moscovo for atingido por um míssil enviado pela Grã-Bretanha, França ou Estados Unidos? 

Estas pessoas estão a reunir-se para planear a escalada imprudente das potências ocidentais numa guerra por procuração que não têm forma de vencer e sabem que não têm forma de vencer. O desespero é o mesmo que o desespero: esta é a minha leitura simples destas deliberações. Entre o planeamento da guerra e as mudanças nas lealdades políticas, o que testemunhámos nas últimas semanas? Esta é a nossa questão. 

Quando os Cheney, pai e filha, se alistaram nas fileiras da campanha de Harris, Jen O’Malley Dillon, a presidente da campanha, elogiou o primeiro pela sua coragem e a segunda pelo seu patriotismo. Noutras partes da “colmeia” de Harris, como presumo que lhe chamamos, os comentadores liberais quase não se entusiasmaram com a migração política de Liz e Dick Cheney, ignorando o facto de parecer ser mero oportunismo.  

James Carden publicou um artigo conciso sobre este assunto, “Cheneymania Seizes the Democrats”, na edição de 12 de Setembro do The American Conservative. “Os aplausos selvagens que se seguiram ao anúncio de Liz… são indicativos de onde os liberais colocam agora as suas prioridades”, escreveu o antigo comentador de Washington, “e contribuem em grande medida para explicar por que não são fiáveis ​​em questões de segurança nacional”.  

Há muita política na exuberante saudação dos Democratas aos Cheney, claro. O pessoal de Harris quer tirar o máximo partido das divisões entre os republicanos e, no caso de Liz Cheney, explorar a animosidade que surgiu entre ela e Donald Trump. Mas temos de olhar mais de perto para compreender plenamente este bailado político. Certa vez, Liz Cheney teve uma quezília pública com Rand Paul sobre quem era “Trumpier”. Dick Cheney é culpado de mais crimes de guerra, crimes contra a humanidade e lucros de guerra do que Donald Trump poderia sonhar nos seus sonhos mais doces.

Nenhuma menção a isso quando pensamos nestas duas deserções políticas? Não li nem ouvi falar ninguém dentro da colmeia Harris. 

Stephen Cohen costumava brincar, só que não estava a brincar, que existe um partido em Washington e que se chama justamente Partido da Guerra. Acabamos de nos lembrar da presciência do falecido e eminente russo. Não há qualquer intenção entre as pessoas de dizer a Kamala Harris o que professar para questionar as numerosas agressões e ilegalidades desta nação, ou mesmo para reconsiderar as políticas externas desastrosamente mal calculadas do regime de Biden, que são indistinguíveis da agenda neoconservadora.  

Leia A New Way Forward, um documento de 13 páginas. A página e meia dedicada à segurança nacional e aos assuntos externos equivale a um discurso dedicado à russofobia, à sinofobia, à NATOfilia e à “força de combate mais letal do mundo”, o que parece ser a ideia de Harris de um corpo diplomático. É assim que pensa o Partido da Guerra de Steve Cohen e como parece. Como declaração de intenções, a plataforma Harris-Walz acomoda-se inteiramente à muito provável decisão da Casa Branca de Biden de escalar o conflito na Ucrânia ao ponto de arriscar a Terceira Guerra Mundial que Biden finge não querer. 

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A análise mais clara e mais séria do pensamento Biden-Blinken – é esta a minha palavra – sobre autorizar Kiev a atacar alvos no interior da Rússia com mísseis fornecidos pelo Ocidente veio de Vladimir Putin. O presidente russo falou na passada quinta-feira, um dia antes das conversações de Starmer com Biden, em resposta à pergunta de um repórter. Vale a pena ler a sua declaração na íntegra, dada a evidente gravidade que atribui às deliberações do Ocidente:

“O que estamos a assistir é a uma tentativa de substituir noções. Porque não se trata de saber se o regime de Kiev está ou não autorizado a atacar alvos em território russo. Já está a realizar ataques com veículos aéreos não tripulados e outros meios. Mas usar armas de precisão de longo alcance fabricadas no Ocidente é uma história completamente diferente.

A verdade é que – já mencionei isto, e qualquer especialista, tanto no nosso país como no Ocidente, irá confirmá-lo – o exército ucraniano não é capaz de utilizar sistemas de ponta, de alta precisão e de longo alcance fornecidos pela Oeste. Eles não podem fazer isso. Estas armas são impossíveis de utilizar sem dados de inteligência de satélites, que a Ucrânia não possui. Isto só pode ser feito utilizando satélites da União Europeia, ou satélites dos EUA – em geral, satélites da NATO. Este é o primeiro ponto.

O segundo ponto – talvez o mais importante, e mesmo o ponto chave – é que apenas o pessoal militar da NATO pode atribuir missões de voo a estes sistemas de mísseis. Os militares ucranianos não podem fazer isso. Portanto, não se trata de permitir ou não que o regime ucraniano ataque a Rússia com estas armas. Trata-se de decidir se os países da NATO se envolvem directamente no conflito militar ou não.

Se esta decisão for tomada, significará nada menos do que um envolvimento directo – significará que os países da NATO, os Estados Unidos e os países europeus são partes na guerra na Ucrânia. Isto significará o seu envolvimento directo no conflito e mudará claramente a própria essência, a própria natureza do conflito, de forma dramática.

Isto significará que os países da NATO – os Estados Unidos e os países europeus – estão em guerra com a Rússia. E se for esse o caso, então, tendo em conta a mudança da essência do conflito, tomaremos decisões adequadas em resposta às ameaças que nos serão colocadas.”

Há claramente pessoas de bom juízo dentro das camarilhas políticas de Washington que podem ler esta declaração pelo que ela é e compreender o risco que o regime de Biden corre à medida que se aproxima de uma decisão oficial sobre a questão dos mísseis. Mas estas cabeças mais sábias não aparecem em ascensão. A visão prevalecente parece residir em pessoas como William Burns, o director da CIA, que pensa que Putin está a fazer bluff e, de forma bastante absurda, estão dispostos a descobrir se estão certos, chamando esse bluff. 

Eis parte de uma carta que 17 ex-embaixadores e generais enviaram ao governo de Biden na semana passada, citada no The New York Times . Ao ler estas frases, pense porque é que os signatários desta carta a escreveram e como estão tão confiantes no seu julgamento como professam:  

“O alívio das restrições às armas ocidentais não provocará uma escalada em Moscovo. Sabemos disto porque a Ucrânia já está a atacar territórios que a Rússia considera seu – incluindo a Crimeia e Kursk – com estas armas e a resposta de Moscovo mantém-se inalterada.

Pense agora se aqueles que escreveram e assinaram esta carta e, por extensão, aqueles que dirigem a política para a Ucrânia, são sãos ou loucos.

Entre as alegadas preocupações do regime Biden ao ponderar autorizar a Ucrânia a alargar a guerra está a diferença que os ataques ao interior russo fariam. A Casa Branca e o Pentágono querem ver um plano, como foi noticiado. É uma boa pergunta inquirir sobre a razão deste tipo de escalada, mas não tenho a certeza se uma resposta importa muito para aqueles que estão sentados à mesa na sala do gabinete da Casa Branca.

Como já argumentei várias vezes, o regime de Biden classificou, insensatamente, esta guerra como uma guerra entre a democracia e a autocracia. Consequentemente, pode dar-se ao luxo de arriscar todo o tipo de escaladas precipitadas, mas não pode dar-se ao luxo de perder.  

Entrando em palco à direita, possivelmente no momento certo, Volodymyr Zelensky diz agora que quer mostrar a Biden, e mais tarde a Harris e Trump, o seu “plano para a vitória sobre a Rússia”. O Washington Post noticiou na passada sexta-feira que isto consistirá em muito poucas partes. “Todos os pontos dependem da decisão de Biden”, disse o presidente ucraniano num fórum recente em Kiev.

Como observou o Post, Zelensky tem até agora vergonha de revelar estes pontos, mas há relatos, muito aquém dos confirmados, de que existem três deles. A primeira é a autorização de mísseis, a segunda é uma garantia de que a NATO irá implantar sistemas de defesa aérea para proteger o oeste da Ucrânia, e a terceira – vejam só – é uma garantia de que a NATO enviará tropas terrestres para áreas de retaguarda do conflito. 

Estas propostas, se confirmadas quando Zelensky fizer a sua próxima viagem a Washington, alinhar-se-ão todas numa direcção: o tema corrente do regime de Kiev continua a arrastar o Ocidente ainda mais para a guerra, tal como o regime de Netanyahu em Israel estar sempre a tentar fazer o mesmo na Ásia Ocidental. Zelensky, o primeiro-ministro israelita, Biden: O problema do mundo neste momento, ou um deles, é que nenhuma destas pessoas pode dar-se ao luxo de perder as guerras que a sua arrogância as levou a iniciar. 

É provável que os Anglos e os Americanos façam um anúncio oficial sobre a utilização de mísseis de longo alcance contra a Rússia depois da Assembleia Geral da ONU concluir os seus trabalhos em 28 de Setembro. Starmer indicou isso recentemente. Na melhor das hipóteses, descobriremos que Putin abalou tanto Washington e Londres que estes recuarão neste último plano de escalada. É possível. Mas os EUA e as outras potências da NATO não recuaram muito até à data, é bom que nos lembremos. 

MK Bhadrakumar, o antigo diplomata indiano que publica o consistente boletim informativo Indian Punchline, publicou um artigo na segunda-feira, 16 de setembro , argumentando que as potências anglo-americanas estão a transformar a guerra por procuração na Ucrânia numa roleta russa. Eis parte do raciocínio de Bhadrakumar. Storm Shadows são os mísseis que Starmer permitiria a Kiev disparar contra a Rússia se o regime de Biden aprovasse o plano:

Moscovo antecipa que a estratégia EUA-Reino Unido poderá consistir em testar as águas, primeiro (abertamente) utilizando o míssil de cruzeiro britânico de longo alcance Storm Shadow, lançado pelo ar, que já foi fornecido à Ucrânia. Na sexta-feira, a Rússia expulsou seis diplomatas britânicos destacados para a embaixada de Moscovo, num aviso claro de que os laços entre o Reino Unido e a Rússia serão afetados. A Rússia já alertou o Reino Unido para graves consequências caso o Storm Shadow fosse utilizado para atingir território russo. 

O que torna a situação em desenvolvimento extremamente perigosa é que o jogo do gato e do rato até agora sobre o envolvimento secreto da NATO na guerra da Ucrânia está a dar lugar a um jogo de roleta russa que segue as leis da Teoria das Probabilidades.”

Bhadrakumar tem exactamente razão, na minha opinião, mas com uma pequena falha no seu argumento. Pode dizer-se que os americanos e os britânicos estão a jogar, por muito pouco sérios que sejam, mas os russos não. 

Fonte aqui.


Não é a Terceira Guerra Mundial: esta é uma Guerra de Terror

(Por Pepe Escobar, in Strategic Culture, 18/09/2024, Trad. Estátua de Sal)

Cartoom from International Art

A Rússia está a travar uma guerra existencial pela sobrevivência da Pátria – o que tem feito repetidamente ao longo dos séculos.


Isto não é festa
Isto não é discoteca
Isto não é brincadeira
Não há tempo para dançar
Ou amores
Eu não tenho tempo para isso agora
.

Talking Heads, A vida em tempos de guerra


Primeiro tivemos ação: o Presidente Putin – calmo, sereno, controlado – alerta que qualquer ataque à Rússia com mísseis de longo alcance da NATO será um ato de guerra. Então tivemos reação: os ratos da NATO a correrem e a regressarem à sarjeta – à pressa. Por enquanto.

Tudo isso foi uma consequência direta do desastre de Kursk. Uma aposta desesperada. Mas o estado das coisas na guerra por procuração na Ucrânia era desesperado para a NATO. Até que ficou claro, como cristal, que tudo é basicamente irrecuperável. Então restam duas opções.

A rendição incondicional da Ucrânia, nos termos da Rússia, que equivale à completa humilhação da NATO. Ou uma escalada para uma guerra total  (itálico meu) com a Rússia.

As classes dominantes dos EUA – mas não do Reino Unido – parecem ter registado a essência da mensagem de Putin: se a NATO está em guerra com a Rússia, “então, tendo em mente a mudança na essência do conflito,  tomaremos as decisões apropriadas  em resposta às ameaças que serão colocadas sobre nós”.

O vice-ministro das Relações Exteriores, Sergey Ryabkov, foi ainda mais preciso e ameaçador: “A decisão foi tomada, foi dada carta-branca e todas as indulgências foram dadas [a Kiev], então nós [Rússia] estamos prontos para tudo. E reagiremos de uma forma que não será bonita.”

A NATO está de facto em guerra com a Rússia

Para todos os efeitos práticos, a NATO já está em guerra com a Rússia: voos de reconhecimento sem escalas, ataques de alta precisão em campos de aviação na Crimeia, forçando a Frota do Mar Negro a mudar-se de Sebastopol, esses são apenas alguns exemplos. Com “permissão” para atacar até 500 km de profundidade na Rússia, e uma lista de vários alvos já submetidos por Kiev para “aprovação”, Putin declarou claramente o óbvio.

A Rússia está a travar uma guerra existencial pela sobrevivência da Pátria – o que tem feito repetidamente ao longo dos séculos. A URSS sofreu 27 milhões de baixas mas emergiu da Segunda Guerra Mundial mais forte do que nunca. Essa demonstração de força de vontade, por si só, assusta até à morte.o Ocidente coletivo.

O Ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov – cuja paciência taoista parece estar a esgotar-se – acrescentou um pouco de cor ao Grande Quadro, trazendo à cena a literatura inglesa:

“ George Orwell tinha uma rica imaginação e previsão histórica. Mas, mesmo ele, não conseguia imaginar como seria um estado totalitário. Ele descreveu alguns de seus contornos, mas falhou em penetrar nas profundezas do totalitarismo que agora vemos, dentro da estrutura da ‘ordem baseada em regras’. Não tenho nada a acrescentar. Não tenho nada a acrescentar. Os actuais dirigentes de Washington, que suprimem qualquer dissidência, ultrapassaram-no. É o totalitarismo na sua forma mais pura”.

Lavrov concluiu que “eles estão historicamente condenados”. No entanto, eles não têm realmente coragem de provocar a 3ª Guerra Mundial. Covardes de marca registada só podem recorrer a uma Guerra de Terror.

Aqui estão alguns exemplos. O SVR – A Inteligência russa – descobriu um plano de Kiev para encenar um ataque de míssil russo a um hospital ou jardim-de-infância em território controlado por Kiev. Os objetivos incluíam elevar o moral – em colapso – das AFU; justificar a remoção completa de quaisquer restrições a ataques de mísseis de longo alcance dentro da Federação Russa; e atrair o apoio do Sul Global – que entende amplamente o que a Rússia está a fazer na Ucrânia. Paralelamente, se essa descomunal falsa bandeira funcionar, o Hegemon vai utilizá-la para “aumentar a pressão” (Como? Gritando a plenos pulmões?) sobre o Irão e a Coreia do Norte, cujos mísseis provavelmente seriam os supostos perpetradores da carnificina.

Por muito que isto pareça rebuscado ao nível do Estupidistão Máximo, considerando a Demência Profunda que vai de Washington e Londres a Kiev, continua a ser possível, uma vez que a NATOstão detém, de facto, a iniciativa estratégica nesta guerra. A Rússia, por seu lado, permanece passiva. É a NATO que escolhe o método, o local e o momento para os seus ataques-chave decisivos.

Outro exemplo clássico da Guerra do Terror é o facto de o grupo jihadista e subproduto da Al-Qaeda, Hayat Tahrir al-Sham, na Síria, ter recebido 75 drones de Kiev, em troca da promessa de enviar um grupo de combatentes experientes do espaço pós-soviético para o Donbass. Nada de novo na frente do terror: O espião ucraniano Kirill Budanov – adorado no Ocidente como uma espécie de James Bond ucraniano – está sempre em contacto estreito com os jihadistas em Idlib, como noticiou o jornal sírio Al-Watan.

Preparando o remix da Operação Barbarossa

Paralelamente, tivemos o Secretário de Estado Adjunto dos EUA, Kurt Campbell – o russofóbico/sinófobo que inventou o “pivot para a China” durante a primeira administração Obama – a informar os burocratas seniores da UE e da NATO sobre a cooperação militar do novo eixo do mal, como é designado pelo Império: Rússia-China-Irão.

Campbell concentrou-se sobretudo no facto de Moscovo ajudar Pequim com conhecimentos avançados sobre submarinos, mísseis e sistemas furtivos, em troca de fornecimentos chineses.

É óbvio que a gente por trás do zombie, que não consegue nem descobrir uma maneira de lamber um sorvete, não tem conhecimento da colaboração militar interligada das parcerias estratégicas Rússia-China-Irão. Cegos como mil morcegos, tal gente interpreta a partilha pela Rússia do seu conhecimento militar com a China – até então fortemente guardado -, como “um sinal de crescente imprudência”. A verdadeira história preocupante por trás dessa mistura de ignorância e pânico é que não tem origem no zombie que não consegue nem lamber um sorvete. É o “bando Biden” que está, de facto, a trabalhar arduamente para pré-definir a trajetória da guerra por procuração na Ucrânia para além de janeiro de 2025 – independentemente de quem ganhe as eleições para a Casa Branca.

A Guerra do Terror deverá ser o paradigma geral – enquanto prosseguem os preparativos para a verdadeira guerra contra a Rússia, com o horizonte fixado para 2030, de acordo com as deliberações internas da própria NATO. É nessa altura que eles acreditam que estarão no auge da sua capacidade para avançar com uma versão remisturada da Operação Barbarossa de 1941.

Esses palhaços são congenitamente incapazes de entender que Putin não faz bluff. Se não houver opção, a Rússia recorrerá (itálico meu)  ao nuclear. Ainda que, atualmente, Putin e o Conselho de Segurança – não obstante a retórica incendiária de Medvedev – estejam empenhados na difícil tarefa de encaixar, golpe após golpe, para evitar o Armagedão.

Isso exige uma paciência taoista ilimitada — partilhada por Putin, Lavrov, e Patrushev — aliada ao facto de que Putin joga o GO japonês muito melhor do que xadrez, e é um tático formidável. Putin lê o manual demente do NATOstão como se fosse um livro de histórias infantis (de facto é). No momento fatídico em que se perspetivar o ganho máximo e em toda a linha para a Rússia, Putin ordenará, por exemplo, a necessária decapitação da serpente de Kiev.

O debate incessante e acalorado sobre o uso de armas nucleares pela Rússia depende essencialmente de o Kremlin considerar um ataque de mísseis da NATO como uma ameaça existencial.

Os neoconservadores e os zio-cons, bem como os vassalos da NATO, podem desejar uma guerra nuclear – teoricamente – porque, de facto, isso geraria um despovoamento maciço. Nunca devemos esquecer que o bando do Fórum Económico Mundial/Davos quer e prega uma redução da população humana a nível mundial na ordem dos 85%. O único caminho para isso é, obviamente, uma guerra nuclear. Mas a realidade é muito mais prosaica. Os cobardes neoconservadores e zio-cons – imitando o exemplo dos genocidas talmúdicos de Telavive – querem, na melhor das hipóteses, usar a ameaça de uma guerra nuclear para intimidar especialmente a parceria estratégica Rússia-China.

Em contrapartida, Putin, Xi e alguns líderes selecionados da Maioria Global, como o malaio Anwar, continuam a dar provas de inteligência, integridade, paciência, previsão e humanidade. Para o Ocidente coletivo e as suas elites políticas e bancárias terrivelmente medíocres, o que interessa é sempre o dinheiro e os lucros. Bem, isso também pode estar prestes a mudar drasticamente a 22 de outubro, em Kazan, na cimeira dos BRICS – quando deverão ser anunciados passos importantes para a construção de um mundo pós-unilateral.

O assunto do momento em Moscovo

Em Moscovo, há uma discussão generalizada sobre a forma de pôr fim à guerra por procuração na Ucrânia. A paciência taoista de Putin é fortemente criticada – não necessariamente por observadores informados com o conhecimento interno mais completo da geopolítica. Os críticos não compreendem que Washington nunca aceitará as principais exigências russas. Paralelamente, quando se trata da desnazificação total da Ucrânia, Moscovo acaba já por não se contentar com a existência de um mero regime “amigável” em Kiev.

Parece haver um consenso de que o Ocidente coletivo não reconhecerá de forma alguma a soberania da Rússia sobre a Crimeia, bem como tudo o que foi conquistado nos campos de batalha de Novorossiya. No final, a principal evidência é que todos os detalhes do plano de negociação da Rússia serão decididos por Putin. E eles  mudam a toda a hora. O que ele propôs – de forma bastante generosa – na véspera daquela patética cimeira de paz na Suíça, em junho, já não está em cima da mesa depois de Kursk.

Tudo vai depender, mais uma vez, do que acontecer no campo de batalha. Se – ou melhor, quando – a frente ucraniana se desmoronar, a piada hoje recorrente em Moscovo ganhará atualidade: “Pedro [o Grande] e Catarina [a Grande] estão à espera”. Bem, já não estarão à espera, porque estes foram os Grandes que incorporaram na Rússia, de facto, o que é o leste e o sul da Ucrânia.

E isso selará a humilhação cósmica da NATO. Daí a perpetuação do Plano B: nada de 3ª Guerra Mundial, mas uma implacável Guerra de Terror.

Fonte aqui.


Biden e NATO efectivamente declaram guerra à Rússia

(Por Stephen Bryen, in Blog República Digital, 18/09/2024)

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A verdade é que Washington quer retomar as propostas de Zelensky de ataques profundos em território russo, porque a Ucrânia está perdendo a guerra e pode ser derrotada antes mesmo das eleições presidenciais de Novembro.

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