Cegueira e ressentimento

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 13/07/2024)

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Uma breve declaração inicial de Biden, deu o mote à Cimeira da NATO. O Ocidente promete acelerar numa irrestrita corrida bélica, contra a Rússia e a China. As intervenções seguintes exaltaram, numa euforia febril, os biliões gastos e a gastar na “Defesa”.

Biden tropeçou nas palavras, quando quis sair do texto que lhe haviam dado. Há meses, ou anos, que uma indústria poderosa de “mentira organizada” (uso uma expressão de Hannah Arendt), ao serviço de quem manda nos EUA, ocultou do povo americano e do mundo que o presidente declinava rapidamente nas suas faculdades mentais, mantendo, contudo, intacta a primitiva pulsão de poder.

Nunca foi tão acertado, como no caso de Biden e dos seus colegas de Cimeira, recordar o sermão do padre António Viera, proferido na Lisboa de 1669, sobre a cegueira dos governantes: “Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos.” (Obra Completa, ed. J.E. Franco e P. Calafate, To. II, Vol. IV, 224).

A cegueira do Ocidente, incluindo uma UE mergulhada no hábito da servidão, reflete a ignorância atrevida dos seus líderes, incapazes de esclarecer se sobra esperança no futuro, depois de tanto sacrificar no altar da guerra? Podemos fechar os olhos, mas o colapso ambiental e o vírus da desigualdade não se esquecem de nós. Para quê tantas armas, se apenas o arsenal nuclear de Moscovo seria capaz de destruir todas os países presentes na Cimeira?

Há uma raiz mais irracional dessa cegueira. O profundo ressentimento contra a Rússia, por esta ter atravessado o Rubicão do “mundo com regras”, impostas unilateralmente. Tudo partiu da ideia fútil de que Moscovo fora derrotada na Guerra Fria, quando, como ensina Clausewitz, um país só é realmente derrotado quando as suas Forças Armadas são destruídas, através de uma “decisão pelas armas” (Waffenentscheidung). Nada disso aconteceu em 1991, nem acontecerá no futuro. Quem provocasse uma guerra direta com a Rússia encomendaria o dia do juízo final.

A revista médica Lancet revelou que o número real de mortos em Gaza, é de 186.000 (7,9% da população total). Sinto tristeza por os órgãos de soberania portugueses seguirem o guião da guerra infinita na Ucrânia, enquanto encolhem os ombros perante o genocídio, assistido por Washington, em Gaza.

O PR irá defender, perante o próximo Conselho de Estado, o nosso apoio à imolação do povo ucraniano para reaver fronteiras tornadas quiméricas. O que está em causa, contudo, não é só a Ucrânia, mas salvar a nação portuguesa de ser empurrada para o vórtice da aniquilação. Frente ao maior perigo existencial da nossa história, o PR, a AR e o Governo persistem na clausura de uma cegueira imperdoável.

”Um desejo coletivo de morte para o mundo”

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 06/07/2024)

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O título deste artigo foi retirado do mais importante discurso de John F. Kennedy (JFK), proferido em 10 de junho de 1963. Nele, o presidente dos EUA enunciou um conjunto de medidas conducentes ao desanuviamento das relações entre Washington e Moscovo, de modo a evitar a III Guerra Mundial. Em outubro de 1962, os dois Estados estiveram à beira de um confronto nuclear direto, numa situação limite que ficou conhecida como a Crise dos Mísseis de Cuba.

Durante duas semanas, o planeta baloiçou no precipício do holocausto nuclear. Não surpreende que JFK, depois de ter superado essa crise existencial, tenha procurado extrair lições do acontecido, visando prevenir a repetição de uma situação semelhante.

O primeiro passo nesse sentido foi a criação de uma linha de comunicação permanente entre a Casa Branca e o Kremlin – o lendário telefone vermelho -, de modo a evitar uma guerra por acidente ou erro de interpretação.

O segundo gesto consistiu na negociação de um tratado de proibição parcial de testes com armas nucleares, que seria assinado em 7 de outubro desse mesmo ano.

Mas JFK foi mais longe, afirmando: “Todos prezamos o futuro dos nossos filhos, todos somos mortais.”

JFK, tal como Nikita Krutschev, conheceram a devastação da guerra como soldados, viram camaradas tombar a seu lado. A mortalidade da condição humana não era para eles uma expressão meramente literária.

A seguir, JFK identificou o princípio de convivência entre superpotências nucleares que evitou a destruição mútua total durante a Guerra Fria: “Acima de tudo, enquanto defendem os seus próprios interesses vitais, as potências nucleares devem evitar os confrontos que levam o adversário a optar entre uma retirada humilhante ou uma guerra nuclear. Adotar esse tipo de atitude na era nuclear seria apenas uma prova da falência da nossa política – ou de um desejo coletivo de morte para o mundo.”

Estas palavras de 1963 acentuam, por contraste, a gravidade extrema deste tempo de 2024. A nulidade intelectual de Biden no debate com Trump, revelou que a cadeira presidencial dos EUA está de facto vazia. À beira de uma escalada nuclear nem sequer sabemos quem governa hoje os EUA.

O encarniçamento da NATO numa guerra que se tornou absurda, consiste precisamente em encostar a Rússia ao dilema que JFK considerava ser essencial evitar.

Há um punhado de gente, a maioria não-eleita, com provas dadas de incompetência em estratégia e história militar, que campeia em Washington e Bruxelas. Foi a esse restrito clube, que as nossas degradadas e disfuncionais democracias concederam poder de vida ou de morte sobre o nosso destino coletivo.

A terceira guerra mundial já começou – Parte II

(Por Daniel Vaz de Carvalho, in Resistir, 06/03/2023)

Quando no Kremlin foi decidida a “Operação Militar Especial” (OME), é possível que não antecipassem que essa intervenção iria colocar as duas superpotências nucleares numa situação que se transformaria num confronto existencial: para a Rússia como Estado uno e soberano, conforme Putin expressou no seu discurso de 21 de fevereiro de 2023, “Eles planeiam liquidar-nos de uma vez por todas. Por outras palavras, eles planeiam transformar um conflito local num confronto global. É assim que entendemos e responderemos de acordo, porque isso representa uma ameaça existencial ao nosso país”.


Ler artigo completo em: A terceira guerra mundial já começou (2)


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