Não há comboios? Queixem-se ao Ronaldo

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 14/06/2019)

Daniel Oliveira

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Como se esperava, as transportadoras da zona de Lisboa registaram um grande aumento do número de passageiros após a entrada em vigor dos novos passes. A procura na Fertagus (comboio da Ponte 25 de Abril) cresceu 19,2%, a Transtejo/Soflusa (ligações fluviais) 8,3%, o Metro 4,4%, a Carris 5,6%. O crescimento foi tal que Fertagus e Metropolitano de Lisboa decidiram retirar bancos para caberem mais pessoas. A Fertagus está a adaptar o seu horário e estuda a possibilidade técnica de acrescentar uma carruagem, mudança que deverá demorar dois anos. Os Transportes a Sul do Tejo (TST), Metro e Carris estão a aumentar a oferta. A Transtejo/Soflusa diz que “os atuais constrangimentos operacionais e de recursos humanos inviabilizam o reforço da oferta”.

Os últimos meses têm sido marcados por protestos de autarcas e passageiros contra as supressões de comboios e barcos. Há pessoas a dormir no cais por não conseguirem regressar a casa, na margem sul. Na linha de Sintra, foram suprimidos, desde o dia 8 de maio, 117 comboios. E as coisas ainda vão piorar mais, com supressão de dois comboios na hora de ponta na linha de Sintra e encerramento de bilheteiras na linha de Sintra e Azambuja. Assistimos a um momento de pré-colapso dos transportes suburbanos em Lisboa e imagino que a situação no Porto não será melhor. Se a situação era má antes de abril, com a redução drástica dos passes sociais a pressão aumento muito mais.

Escrevi, quando foi aprovada a redução e unificação do preço dos passes sociais, que isso iria aumentar a pressão popular sobre a qualidade dos transportes, com a chegada de novos utentes. Que os transportes públicos iriam ter mais procura e iriam ser vistos como um serviço público. Um direito. Isso é excelente e, perante a crise ambiental que vivemos, indispensável. Falta saber a quem se bate à porta para que as coisas se resolvam. A visibilidade dos protestos tem de ser maior. Até chegarmos ao ponto que quem mantém os investimentos parados seja obrigado a dar resposta.

Assistimos a uma injustiça política. O ministro das Finanças é o mais popular deste governo. Até lhe chamaram “Ronaldo das Finanças”. Tem a medalha das “contas certas”, do défice zero, do bom aluno europeu. Enquanto isso, o ministro da Saúde e o dos Transportes, primeiro Adalberto Campos Fernandes e Pedro Marques, agora Marta Temido e Pedro Nuno Santos, para além de Matos Fernandes (que tem os transportes urbanos), são responsabilizados pelo colapso dos serviços públicos.

Esta divisão de tarefas, em que um fica com as vantagens políticas da poupança e os outros com o prejuízo político da falta de investimento, não é apenas injusta. É perversa. Porque afasta a pressão política de quem tem a chave do cofre e, por isso, a solução do problema. A António Costa até dá jeito. Queima ministros e mantém-se, ele próprio, a leste de tudo. Sabendo que nenhum ministro virá a terreiro responsabilizar Centeno ou o próprio primeiro-ministro pela catastrófica situação de Transportes e Saúde.

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Só que as coisas estão a chegar a um ponto em que vão mudar. A excelente medida de reduzir os passes sociais, aumentando a procura, criará a uma pressão política a que felizmente Costa não poderá continuar a fugir. E quando a culpa deixar de cair sobre os ministros que se sucedem sem dinheiro para resolver os problemas, garanto-vos que Centeno receberá finalmente um telefonema. É preciso pressionar mais. Os autarcas, os passageiros, a comunicação social, a oposição e os partidos aliados, até o PS. Transformar a questão dos transportes e da saúde em assunto político diário. Cada caso. Obrigar o Ronaldo a largar a bola. Perguntar: de que serve baixarem os preços dos passes sociais se nos transportam como gado? A luta pela qualidade dos serviços públicos é a mais relevante destes meses. Se começar a fazer estragos políticos Costa vai finalmente perceber que tem escolhas a fazer. E se Costa perceber Centeno também percebe. É neles que tem de estar a pressão.


O que é que interessa saber quem é o pai da criança?

(Francisco Louçã, in Expresso, 02/04/2019)

Francisco Louçã


Acho tão natural a disputa de segunda-feira sobre a putativa paternidade da medida de redução dos passes sociais como que a esqueçamos logo no dia desta terça-feira. Sim, o Governo e o PS podem dizer que aplicaram a medida e até partilhar as cerimónias com autarcas de cores diversas, que aliás só compõem o ramalhete e reforçam a centralidade governamental nesta operação.

O facto é que a concretizaram, mesmo que tenham gerido o calendário de modo a adiar o processo até à primavera, e em parte até ao verão de 2019. Acusação de eleitoralismo? O primeiro-ministro não quer saber menos desse assunto, é-lhe indiferente, sabe que neste deve-e-haver ganha sempre. Vantagem para o PS. É campanha eleitoral? Claro que é, e depois, perguntará o primeiro-ministro, que atire a primeira pedra quem nunca fez campanha a partir do seu poder, agora sou eu quem está cá.

Vem então o PCP reclamar que há um projeto de resolução de há 22 anos que pedia o mesmo e que insistiu. Vem o Bloco dizer que o tinha proposto desde que existe há vinte anos e que colocou o assunto no acordo com o PS na Câmara de Lisboa. Tudo certo. E tudo isso tem a validade de um dia. O ponto é que saber qual dos pais da criança foi mais pai é razoavelmente indiferente para toda a gente que vai beneficiar do novo passe social e, portanto, os acessos de reivindicação proprietária de segunda-feira serão esquecidos na terça-feira.

Acho aliás tão expectável que o Governo e os parceiros da maioria parlamentar (Costa deve deliciar-se ao notar que este é um dos casos em que aquele partido que repete que não há acordos de incidência de maioria parlamentar a reivindica ferozmente) sublinhem o efeito redistributivo da medida, quanto que as direitas se mostrem incomodadas com isso. Caem na armadilha e com uma ingenuidade que mete dó. Sentir o silêncio contrastante de Cristas ou a multi-intervenção de Rio a fazer contas sobre Lisboa contra Bragança deve ser, para o Governo e as esquerdas, um conforto de alma. O PSD exige ao seu líder a energia de se afundar em acusações levianas e que vão contra o que toda a gente percebe da bondade da medida – eis a demonstração quimicamente pura de como a atmosfera das sedes do partido está intoxicada de insensatez. É um guião perfeito, que relembra como o PSD e o CDS se empenhavam em “empobrecer” Portugal, nas palavras do anterior primeiro-ministro Passos Coelho: eles não gostam do que as pessoas beneficiam. A história volta para trás e é isso, que as direitas deviam tentar fazer esquecer a todo o custo, que agora ajudam prestimosamente a relembrar. Se pusessem os olhos em Marques Mendes, o pai da teoria de que o-interior-é-que-está-a-pagar estes passes sociais e que se virou a tempo para elogios ditirâmbicos à medida que antes era tão desigualitária, perceberia como escorregaram na esparrela.

Lembrem-se: o mundo real bate à porta e vai ser no dia a dia que se vai medir o valor da medida. Haverá quem desconfie que faltou ambição e até cuidado na preparação desta mudança tão importante, tão tardia e que parece tão improvisada, com Centeno logo a alegrar a festa com o seu inevitável “não há mais dinheiro”

Mas que o Governo não se engane. Há sempre um choque de realidade. Ao contrário do que parecem pensar os planeadores centrais, os transportes públicos estão mesmo impreparados para um aumento significativo da procura, pelo menos em Lisboa, que conheço melhor. Ora, segunda-feira havia filas imensas nos guichês dos passes sociais, vai mesmo entrar mais gente nos transportes. Os autocarros que apanho para ir trabalhar estão apinhados e raramente cumprem horários. O Metro é uma desgraça, com tempos de espera inadmissíveis e sobrelotação homérica. Houve ligeiras alterações na Carris, é certo, mas no Metro nada, só tem piorado. Esta medida devia ter sido preparada ao longo de um ou dois anos com investimento em equipamento, contratação e formação de mais pessoal e o que foi feito nem chega a meio caminho. Vai haver muita gente a queixar-se e desconfio de que os ministros, lá nos gabinetes, nem se vão aperceber, contentes como estão com os grafismos das reduções de preços que os telejornais repetiram. Mas lembrem-se: o mundo real bate à porta e vai ser no dia a dia que se vai medir o valor da medida. Haverá quem desconfie que faltou ambição e até cuidado na preparação desta mudança tão importante, tão tardia e que parece tão improvisada, com Centeno logo a alegrar a festa com o seu inevitável “não há mais dinheiro”.

Dir-se-á, à boca pequena, que isto é tudo “português suave” e que estamos condenados a esta sina de nos irmos adaptando. Feroz engano, é demasiado arriscado deixar andar ou prometer e cumprir pouco de uma mudança deste calibre no quotidiano de tanta gente que se enfia nos autocarros e metros a abarrotar e que vai todos os dias para um trabalho pesado, para voltar ao fim do dia a casa, depois de tantas horas de labuta.

Uma coisa é certa: a vida quotidiana das grandes cidades entre transportes e habitação, entre cultura e trotinetes, entrou mesmo na agenda política. Não vai sair tão depressa e só se vai radicalizar. Ainda bem, a revolução urbana só está a começar e já veremos quem é capaz de a puxar para melhorar a vida de milhões de pessoas.


A direita e os passes sociais

(Por Estátua de Sal, 18/03/2019)

António Costa e os passes sociais


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Falando no final da cerimónia que juntou Governo e presidentes dos 18 municípios da Área Metropolitana de Lisboa (AML) para a assinatura dos contratos que criam um passe único no valor máximo de 40 euros para todos os concelhos da AML, o líder socialista prometeu para abril “a maior revolução nos transportes coletivos desde que os passes sociais foram criados, nos anos 70”. (Ver notícia aqui).

A direita anda em polvorosa e o comentador de serviço, Marques Mendes, disse ontem na sua prédica dominical tratar-se de uma bomba eleitoral.

Na verdade, abrangendo as áreas metropolitanas onde se concentra a maior parte do eleitorado – e sobretudo do eleitorado urbano onde a volatilidade de voto é mais significativa -, a medida, que vai originar um alívio importante no orçamento de muitas famílias, terá seguramente um impacto, talvez considerável, sobre a orientação de voto de muitos nas eleições que se avizinham.

É por isso que a direita está assustada e temerosa, acusando o Governo e o PS de eleitoralismo.

Ora, aquilo que a direita não faz é discutir a utilidade e a bondade da medida. Sobre isso, silêncio absoluto. Mas, é óbvio que a medida só pode ser boa para milhares de cidadãos, porque se não fosse boa a direita criticá-la-ia a pés juntos e não temeria que ela tivesse um efeito eleitoral benéfico para o Governo.

É claro que o timing do seu anúncio e entrada em funcionamento não são estranhos ao calendário eleitoral. Todos os governantes usam das mesmas tácticas. Mas, ao menos, que apresentem medidas verdadeiras e efectivas, não recorrendo a truques falaciosos como fez o governo de Passos Coelho em 2015 com a promessa da devolução da sobretaxa IRS, promessa que não passava de uma mistificação.

É nesse contexto que o Governo e o PS não devem ter qualquer pejo em ser eleitoralistas, desde que apresentem boas medidas. Os portugueses estão-se nas tintas para as lágrimas e as acusações do Marques Mendes. Querem é ver as suas condições de vida a melhorar e apoiam todas as acções que para tal contribuam.

Assim, que venham mais medidas desse jaez, eleitoralistas ou não, que os cidadãos agradecem. A única coisa que os eleitores podem lamentar é o facto de apenas haver eleições de quatro em quatro anos, só surgindo algumas benesses nas vésperas dos actos eleitorais. Mas isso faz parte da lógica dos ciclos políticos da democracia representativa. E, como diz o povo, mais vale tarde que nunca.