Tecnofascismo, tecnoterrorismo e guerra global

(Boaventura Sousa Santos, in Meer.com, 24/09/2024)

Exercícios do exército americano. Os EUA gastam um trilião de dólares em armamento, mas certamente não é suficiente porque os empresários da guerra inventam desvantagens dos EUA.

Explorando os paralelos históricos, o papel do capitalismo e a ascensão do tecnofascismo na paisagem geopolítica atual.


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O mundo caminha inexoravelmente para a guerra. Qualquer sondagem imaginária à população mundial mostraria que ninguém quer a guerra. Mas a guerra vai eclodir provavelmente antes do final da década. A maioria dos países do mundo dizem ter regimes democráticos, mas nenhum partido com algum significado eleitoral, da esquerda à direita, considera a guerra um perigo iminente e assume a luta pela paz como a sua principal bandeira. A paz não dá votos. A guerra dá mortos e os mortos não votam. Nenhum partido se imagina a fazer propaganda eleitoral nos cemitérios ou nas valas comuns. Tão pouco imagina que sem vivos não há partidos. Tudo isto parece absurdo, mas o absurdo acontece quando a razão dorme, como Francisco de Goya nos avisou há 225 anos no seu quadro el sueño de la razón produce monstruos. Não precisamos de recuar tanto.

As lições (ou ilusões) da História

Recuemos a 1900. A Inglaterra era então o país mais poderoso do mundo. Mas como todo o apogeu significa o princípio do declínio, começava a temer-se a concorrência pacífica dos EUA. O crescimento económico dos EUA era vertiginoso, aí tinham lugar as mais recentes invenções da revolução industrial e, entre as muitas vantagens em relação à Europa, uma era particularmente preciosa: os EUA gastavam muito pouco dinheiro em armas. Segundo relatos da época, um país de 75 milhões de habitantes tinha um exército de 25.000 homens e um orçamento de defesa ridículo para um país daquele tamanho. Ao contrário, os países europeus mais desenvolvidos (Inglaterra, Alemanha e França) estavam numa competição cada vez mais feroz entre si sobre a partilha colonial e a superioridade industrial (a Alemanha cada vez mais em evidência) e entravam na corrida aos armamentos.

Para além de que entre 1899 e 1902 a Inglaterra travava uma guerra colonial sórdida contra os Boers na África do Sul. Estava em causa o controle da produção do ouro e o sonho imperial de Cecil Rhodes: do caminho de ferro entre a Cidade do Cabo e o Cairo ao controle total do mundo de modo que “as guerras se tornassem impossíveis para bem da humanidade”. O domínio capitalista imperial exigia a guerra e a corrida aos armamentos, alegadamente para tornar a guerra impossível no futuro. Há alguma semelhança com os discursos bélicos actuais dos EUA e da União Europeia para vencer a Rússia e a China? Há, mas há diferenças.

Na primeira década do século XX eram visíveis dois movimentos: um na opinião pública e outro nos negócios. A opinião pública era dominada pela apologia da paz contra os perigos de uma guerra que seria fatalmente muito mortífera. O século XX devia ser o século da paz, sem a qual não seria possível a prosperidade que se anunciava.

Em 1899, realizava-se a primeira Conferência Internacional da Paz em Haia e, no ano seguinte, o Congresso da Paz Mundial. Daí em diante foram múltiplos os congressos e as reuniões internacionais sobre a paz. Deplorava-se que a cooperação internacional se estivesse a aprofundar em todos os domínios (correios, caminhos de ferro, etc.) exceto na política. Entre 1893 e 1912 publicaram-se 25 livros contra a corrida aos armamentos. Publicava-se com grande difusão Who is Who in the Peace Movement. Afirmava-se que as recentes invenções em material bélico (pólvora sem fumaça, espingardas de disparo rápido, substâncias explosivas como a lidite, a melinite e nitroglicerina etc.) tornavam a guerra, não só muito mortífera, mas impossível de ganhar por qualquer das partes em conflito. Terminaria sempre num impasse e depois de muita morte e devastação.

Um jornalista do English Echo demitiu-se do jornal para não ter de defender a guerra contra os Boers e 200 intelectuais ingleses de alto perfil organizaram um jantar para o homenagear. Entre 1900 e 1910, realizaram-se mais de mil congressos de pacifistas: operários, anarquistas, socialistas, livre-pensadores, esperantistas, mulheres. Dizia-se que o crescimento da democracia na Europa e nos EUA era incompatível com a guerra e que o grande número de acordos de arbitragem era a melhor demonstração disso. O sociólogo russo Jakov Novikov demonstrava que o bem-estar das massas populares nunca tinha melhorado com as guerras, antes pelo contrário. Escrevia-se sobre “a ilusão da guerra” e as publicações vendiam muitos milhares de exemplares.

Havia uma corrente de opinião para quem a verdadeira ilusão seria a “ilusão da paz”, se a luta não fosse reorientada contra o capitalismo. Se tal não acontecesse, a guerra seria inevitável. Era esta a posição dos socialistas, dos anarquistas e do movimento operário, que socialistas e anarquistas procuravam controlar. A guerra era o grande obstáculo à revolução social. A greve geral e a recusa do serviço militar eram duas das formas de luta mais referidas.

Mas o mundo da opinião pública era uma coisa e o mundo dos negócios era outra. No mundo dos negócios, desde 1899 avançava em grande ritmo, mas discretamente, a corrida aos armamentos. No Congresso Internacional Operário de 1907, realizado em Estugarda, Karl Liebknecht revelava o extraordinário crescimento das despesas em armamento, o que significava que os países se estavam, de facto, a preparar para a guerra.

Os lucros das grandes empresas de armamento eram reflexo disso: Krupp na Alemanha, Vickers-Armstrong na Inglaterra, Schneider-Creusot na França, Cockerill na Belgica, Skoda na Boémia e Putilov na Rússia. Tornava-se claro que a acumulação de armas conduziria à guerra. Aliás, as grandes empresas começavam a utilizar uma nova arma de propaganda: pagar a jornalistas e aos proprietários dos jornais para publicar notícias falsas sobre o armamento crescente dos prováveis adversários na futura guerra a fim de justificar o maior gasto em armas. Soa familiar aos ouvidos de hoje? Sim, mas há diferenças e para pior, muito pior.

Os socialistas tinham razão: a luta é contra o capitalismo

O apogeu do capitalismo global liderado pelos EUA ocorreu em 1991 com o fim do Bloco Soviético. Tal como cem anos antes, o apogeu da potência mais poderosa significou o princípio do seu declínio. E tal como antes, a indústria mais lucrativa em períodos de declínio é a que produz bens cujo uso consiste em destruir e ser destruído. Tais bens têm de ser incessantemente substituídos por outros enquanto a guerra durar.

Quanto mais tempo a guerra durar maiores serão os lucros. A guerra eterna é, por isso, a mais lucrativa. Agora as grandes empresas de armamento já não são europeias, são norte-americanas, e os EUA, ao contrário do que sucedia há cem anos, são de longe o país que mais gasta em armamentos e, portanto, mais necessidade tem de os usar (isto é, de usar destruindo e substituindo). Os EUA gastam um trilião de dólares em armamento, mas certamente não é suficiente porque os empresários da guerra inventam desvantagens dos EUA em relação aos seus inimigos que têm de ser prontamente superadas.

A luta pela paz é hoje mais que nunca uma luta contra o capitalismo. Por que mais que nunca? Se, na esteira de Immanuel Wallerstein, tomarmos o mundo como unidade de análise, podemos afirmar que entre 1917 e 1991 o mundo viveu um período de intensa guerra civil transnacional. Foi uma guerra civil porque ocorreu no interior de um só sistema — o sistema mundial moderno. Embora globalmente dominante, o capitalismo teve de enfrentar um outro sistema económico fortemente concorrente, o socialismo de Estado, cuja influência extravasava muito para além da União Soviética. Essa guerra civil foi lutada por múltiplos meios, nomeadamente, por contra- insurgência, ajuda ao desenvolvimento dos países dependentes e proxy wars (guerra da Coreia, guerra do Vietname, etc).

A Segunda Guerra Mundial foi um período de acalmia nesta guerra civil, uma vez que os EUA e a URSS foram aliados contra o Nazismo alemão. Com o fim da União Soviética e com as transformações que, entretanto, tinham ocorrido na China e que integrariam a economia chinesa na economia capitalista mundial, ainda que com algumas especificidades (manutenção do controle nacional do capital financeiro), a guerra civil transnacional entre capitalismo e socialismo terminou. Houve um interregno, que durou pouco mais de dez anos, em que a Rússia era um país capitalista de desenvolvimento intermédio como qualquer outro e a China era um parceiro económico, também de desenvolvimento intermédio, mas com um valor estratégico para as empresas multinacionais norte-americanas apostadas na conquista monopolista do mundo.

A partir da crise financeira global de 2008, iniciou-se uma nova guerra civil transnacional, desta vez entre o capitalismo das multinacionais norte-americanas e o capitalismo de Estado da China. Para neutralizar a China era necessário bloquear o seu acesso à Europa por duas razões: a Europa era, ao lado dos EUA, o outro grande consumidor afluente do mundo; através da cooperação com a China, a Europa podia ter alguma pretensão de escapar ao declínio cada vez mais evidente dos EUA na economia mundial e tornar-se um factor adicional de concorrência e de debilidade dos EUA. Para bloquear o acesso da China à Europa e submeter esta última aos EUA era necessário separar política e economicamente a Europa da Rússia (cujo território está maioritariamente na Europa).

A Rússia, com milhares de quilómetros de fronteira com a China, não só é a via de acesso da China à Europa, como é o território estratégico da Eurásia. Ora, vem de longe a ideia de que quem controlar a Eurásia controla o mundo. Assim se entrou numa nova guerra civil transnacional cujas primeiras proxy wars são a guerra Rússia-Ucrânia e a guerra Israel-Palestina.

Esta guerra civil é totalmente diferente da anterior. Na anterior, a luta era entre dois sistemas económicos (capitalismo versus socialismo), enquanto agora é entre duas versões do mesmo sistema económico (capitalismo de multinacionais versus capitalismo de Estado). Nada garante que esta guerra seja menos violenta do que a anterior. Pelo contrário, como vimos, no início do século XX, a disputa ocorria entre países com um longo passado em comum localizados num pequeno canto da Eurásia. Hoje, é uma luta por um domínio global que aliás se estende para além do planeta terra. O capitalismo monopolista nascia em 1900 quando o capital financeiro dos EUA começava a alargar-se aos caminhos de ferro e daí a muitos outros sectores e, potencialmente, a todos os países do mundo.

Para o capitalismo monopolista, a ideia de um mundo multipolar é tão ameaçadora quanto a ideia da concorrência com outros sistemas económicos, e a mesma pulsão destruidora está presente em ambos os casos. Acresce que o potencial e o grau de destruição são agora imensamente maiores que antes. Não me refiro à existência de armas nucleares, uma inovação tecnológica de destruição da vida que torna ridícula a preocupação dos comentadores do início do século passado com as invenções bélicas do seu tempo. Refiro-me à natureza do capitalismo e da (des)governação globais dos nossos dias, e à emergência de duas das suas consequências.

Estamos a entrar numa época em que formas de poder potencialmente destrutivo sem limites são suficientemente fortes para neutralizar, contornar ou eliminar qualquer processo democrático que lhes procure pôr limites.

O tecno-fascismo global: Elon Musk

No início do século XX vimos que a luta pela paz e pela resolução pacífica dos conflitos concebia os Estados soberanos como as unidades de análise e os actores políticos privilegiados. Sabemos que a soberania era um bem abstracto que só os países mais desenvolvidos podiam gozar efectivamente, para além de que grande parte do mundo estava sujeito ao colonialismo ou à influência tutelar da Europa.

Hoje, porém, o desenvolvimento tecnológico, a globalização neoliberal e a concentração de riqueza fazem com que o poder de controlar a vida humana e não humana tenha deixado de estar sujeito ao escrutínio democrático.

No início do século XX a ilusão da paz assentava no aumento e fortalecimento dos governos democráticos. Afinal, a democracia assentava na substituição dos inimigos a vencer pela guerra por adversários políticos a vencer pelo voto. Daí a capacidade mobilizadora da luta pelo sufrágio. Para muitos, a democracia teria a capacidade não só de promover a resolução pacífica dos conflitos, mas também de regular o capitalismo de modo a neutralizar os seus “excessos”.

Hoje, a maioria dos governos nacionais considera-se democrático, mas a democracia, se alguma vez nalgum país foi capaz de regular o capitalismo, hoje é estritamente regulada por ele, e só é tolerada na medida em que for funcional para expansão infinita da acumulação capitalista. Sem dúvida que os Estados nacionais mais poderosos continuam a exercer o poder formal, mas o poder real que controla as suas decisões está concentrado num pequeníssimo número de plutocratas, alguns com o rosto flagrantemente visível, outros, a maioria, sem rosto.

O poder real é potenciado a uma dimensão difícil de imaginar devido a uma fusão tóxica da capacidade tecnológica para controlar a vida humana de vastíssimas populações até ao mínimo detalhe e independentemente da sua nacionalidade, com a capacidade financeira para comprar, cooptar, chantagear ou obliterar qualquer obstáculo aos seus propósitos de dominação.

Trata-se de um poder fascista de tipo novo, um tecno-fascismo global, que não conhece limites nacionais. Elon Musk é a metáfora desse novo tipo de poder. Ao contrário do que sucedeu com Adolfo Hitler ou Benito Mussolini, a personalidade concreta de Musk, embora repugnante, tem pouca importância, uma vez que o que interessa é a estrutura de poder que ele hoje comanda e que amanhã pode ser comandada por outro indivíduo. A força deste novo tecno-fascismo global está bem expressa na dramatização mundial da luta de um Estado nacional relativamente poderoso contra um simples indivíduo estrangeiro apenas porque este é um tecno-fascista global.

Quando, em 31 de Agosto deste ano, a rede X foi suspensa no Brasil por decisão do Supremo Tribunal Federal pelo facto de o seu proprietário se ter recusado a eliminar contas da rede que chegavam a milhões de pessoas e cujo conteúdo difundia notícias falsas, violava gravemente os mais elementares valores democráticos e incitava ao ódio, à violência e mesmo ao assassinato, isso foi notícia em todo o mundo. Seria imaginável há dez anos que um individuo solitário e, além disso, estrangeiro, pudesse afrontar um Estado soberano?

O tecno-terrorismo global: do Cavalo de Troia aos pagers assassinos

No dia 18 de Setembro passado, milhares de pagers e de walkie- talkies explodiram no Líbano, mantando dezenas de pessoas (incluindo crianças) e ferindo milhares. Estes transmissores tinham sido comprados pelo Hezbollah aparentemente por serem dispositivos seguros que permitem as comunicações sem localizar os utilizadores. Este acto terrorista tem sido atribuído aos serviços secretos de Israel e na sua origem esteve a implantação de uma substância explosiva junto da bateria, codificada de modo a explodir por comando remoto.

Os pagers assassinos não são uma mera nova edição do Cavalo de Troia, o enorme cavalo oco de madeira construído pelos gregos para entrar em Troia durante a Guerra de Troia. O cavalo foi construído por Epeius, um mestre carpinteiro e pugilista. Os gregos, fingindo abandonar a guerra, navegaram para a ilha vizinha de Tenedos, deixando para trás o falso desertor Sinon, que persuadiu os troianos de que o cavalo era uma oferenda a Atena (deusa da guerra) que tornaria Troia inexpugnável. Apesar dos avisos de Laocoonte e Cassandra, o cavalo foi levado para dentro das portas da cidade. Nessa noite, guerreiros gregos saíram do cavalo e abriram as portas para deixar entrar o exército grego. A história é contada em pormenor no Livro II da Eneida.

A semelhança entre o Cavalo de Troia e os pagers assassinos reside apenas no facto de o termo “Cavalo de Troia” ter passado a designar a subversão introduzida a partir do exterior. A visibilidade e a transparência do artifício, corporizado num objecto que não era de uso corrente, impediram que ele fosse realisticamente reproduzido (se é que alguma vez o foi) com eficácia no futuro. Ao contrário, os pagers assassinos significam uma mudança qualitativa na tecnologia da guerra e do controle das populações.

A mesma tecnologia e a mesma cumplicidade assassina que instalou insidiosamente material explosivo nestes dispositivos pode amanhã instalar em qualquer outro dispositivo de uso eletrónico (telemóvel ou computador) qualquer substância que, em vez de matar, danifique a saúde, crie pânico ou altere o comportamento do seu utilizador, sem qualquer possibilidade de controle por parte deste. Com o desenvolvimento e a propagação da inteligência artificial, qualquer dispositivo de uso corrente pode ser utilizado para este fim, seja ele um carro ou um micro-ondas.

As convenções internacionais contra o terrorismo, que o genocídio de Gaza reduziu a letra morta, deixam sequer de fazer sentido no futuro quando qualquer cidadão não combatente em nenhuma guerra está condenado a viver numa sociedade em que o acto mais trivial de consumo pode trazer consigo, além da garantia e do prazo de validade, a sua certidão de óbito, o atestado de insanidade mental ou a compulsão para cometer um crime.

A divisão internacional do trabalho da guerra e a maldição de Cassandra

Em ambiente de tecno-fascismo e de tecno-terrorismo globais, o capitalismo euro-norteamericano prepara-se activamente para passar da guerra fria à guerra quente. Perante o olhar vazio ou revoltadamente impotente dos cidadãos, uma estranha divisão internacional do trabalho de matar está a ser preparada: a Europa vai ocupar-se de vencer a Rússia enquanto os EUA vão ocupar-se de vencer a China. Praticamente ao mesmo tempo, o primeiro comissário de defesa da União Europeia, Andrius Kubilius, ex-primeiro ministro da Lituânia, afirma que a Europa tem de estar preparada para a guerra com a Rússia daqui a 6–8 anos, e uma alta patente da Marinha norte-americana declara que os EUA devem estar preparados para a guerra com a China em 2027.

Não valerá muito a pena prever que a guerra terá lugar, mas que o seu resultado será muito diferente daquele que é imaginado por estes empresários da guerra intoxicados pelos think tanks financiados pelos produtores de armas. A maldição de Cassandra paira sobre os poucos que se atrevem a ver o que é evidente.


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Ataques fascistas no Reino Unido são fruto de décadas de propaganda anti-imigrantes

(In Diálogos do Sul, 05/08/2024)


Agressores repetiam “detenham os barcos”, um dos lemas do governo Sunak, que tentou se manter no poder prometendo aprofundar políticas anti-imigrantes no Reino Unido.


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Na segunda-feira passada, 29 de julho, um adolescente de 17 anos irrompeu em uma espécie de baile em Southport, Inglaterra, Reino Unido, assassinou três meninas, apunhalou outros oito menores – cinco dos quais sofreram lesões graves – e feriu dois adultos que tentavam detê-lo. Depois que o jovem foi preso, espalhou-se em redes sociais o boato de que era um imigrante recém-chegado ao Reino Unido em uma embarcação como as que milhares de pessoas usam para cruzar o Canal da Mancha em busca de asilo.

Ainda que o embuste fosse desmentido pelas autoridades e inclusive a identidade do agressor fosse revelada, apesar de ser menor de idade, milhares de simpatizantes da ultradireita tomaram isso como pretexto para sair às ruas, realizando violentos distúrbios em que atacaram policiais, vandalizaram lojas e incendiaram veículos. As consignas destas hordas giram em torno da xenofobia, do racismo e da islamofobia, e já houve pelo menos uma tentativa de assaltar uma mesquita.

Rishi Sunak e as promessas anti-imigrantes para o Reino Unido

Ninguém pode se surpreender com a irrupção fascista: trata-se do resultado previsível, e talvez inevitável, de décadas de intoxicação ideológica e midiática contra a imigração irregular.

É muito revelador, por exemplo, que um dos gritos mais repetidos pelos grupos racistas seja Stop the boats!  (Detenham os botes [ou barcos]!), um dos lemas do governo conservador que terminou este ano, assim como bandeira central na falida campanha do ex-primeiro-ministro Rishi Sunak para manter-se no poder.

Em várias ocasiões, Sunak prometeu a seu eleitorado fazer tudo o que fosse necessário para deter as embarcações, e apenas em janeiro deste ano o Departamento do Interior publicou o comunicado Ações do Governo Britânico para deter as embarcações em 2023, no qual se jacta de operações tão ruins como recrutar as multinacionais Uber Eats, Deliveroo e Just Eat para deter indocumentados que ganhavam a vida fazendo entregas em domicílio.

O mesmo Sunak, assim como seu antecessor Boris Johnson, transferiram buscadores de refúgio para prisões flutuantes em barcos adaptados como centros de detenção, uma política que pretenderam generalizar, mas se viram obrigados a recuar porque ocorreu o que lhes tinham advertido defensores de direitos humanos: o confinamento e o ambiente insalubre causaram uma rápida propagação de enfermidades infecciosas. Ambos foram também os impulsionadores do infame plano para enviar os imigrantes irregulares para Ruanda, sem importar sua origem nem o fato de que esta nação africana carece de qualquer capacidade para alojá-los, em clara violação aos tratados internacionais em matéria de asilo e refúgio.

Os ex-mandatários e os legisladores do Partido Conservador não podem ignorar esta irrupção fascista, por mais que tentem apresentar-se como moderados alheios ao extremismo que tomou as ruas. Foram eles que se alinharam aos setores abertamente xenófobos para aprovar a saída da União Europeia (Brexit), uma de cujas principais motivações residia no tão falacioso quanto racista argumento de que as leis comunitárias eram as causadoras da chegada de imigrantes. Que a explosão se produza quando o conservadorismo já foi desalojado de Downing Street é uma amostra de como o ódio semeado pelas direitas continua danificando o tecido social muito depois que estas deixam formalmente o poder, e impõe à administração trabalhista o desafio de recompor a tolerância e a pluralidade sem as quais não pode existir uma democracia.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.

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Candidato derrotado na Venezuela foi operacional da CIA na Operação Condor em El Salvador

(In Horadopovo.com.br, 01/08/2024)


(O texto que segue é bem interessante. Apesar de se basear em fontes públicas, nenhum dos “comentadeiros” das televisões sabe – ou se sabe nunca refere – estes detalhes sórdidos do currículo do homem, um grande “democrata”, dizem eles… Será que, para tal gente, democrata e assassino são sinónimos? Com este currículo não admira que os EUA digam que ele é que ganhou as eleições…

Estátua de Sal, 03/08/2024)


Candidato da extrema-direita, González Urrutia, agora exibido como ‘democrata’ por certa mídia, foi nos anos 1980, operacional em El Salvador da Operação Condor, sob comando da CIA, de tortura e assassinatos em favor da intervenção norte-americana, denuncia a ex-deputada Nidia Díaz.


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“Não se pode esquecer do papel nefasto que Edmundo González Urrutia (candidato atual à presidência da Venezuela pela extrema direita) em El Salvador quando ele era o segundo na embaixada da Venezuela, juntamente com o embaixador Leopoldo Castillo, conhecido como El Mata Curas (O Mata Padres)”, afirmou a advogada e líder salvadorenha Nidia Díaz, em artigo reproduzido por vários sites no continente (Ver, por exemplo, aqui).

Conforme a ex-deputada da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) e integrante do Parlamento Centro-americano, “o rosto oculto de Edmundo González” precisa ser iluminado, para que se saiba quem é.

“Isto aconteceu entre 1979-1985, como parte do Plano Condor (ver detalhes aqui ) em El Salvador do projeto contrainsurgente que o republicano Ronald Reagan impulsionou contra o povo de El Salvador para impedir que as forças revolucionárias avançassem, já que o fator que prolongou a guerra civil foi a intervenção americana”.

“A missão do embaixador Castillo e Edmundo González foi ser um agente da morte. Nos documentos desclassificados da CIA em fevereiro de 2009, Castillo foi mencionado como corresponsável dos serviços de inteligência que coordenaram, financiaram e deram a ordem para a execução da Operação Centauro”, denunciou.

Nidia Díaz esclareceu que “a operação consistia em uma série de ações violentas do exército de El Salvador e dos ‘esquadrões da morte’ para eliminar fisicamente as comunidades religiosas reunidas em torno da busca coerente da teologia da Libertação de uma solução pacífica e negociada da guerra”.

“Nos anos em que a embaixada estava encarregada de Castillo e González, o exército e os esquadrões deixaram um saldo de 13.194 civis mortos, incluindo Dom Oscar Romero, quatro freiras Maryknoll, e os padres Rafael Palacios, Alirio Macias, Francisco Cosme, Jesus Cáceres e Manuel Reyes. E apesar de já não exercer a função diplomática, ainda estava desempenhando como conselheiro de estruturas de inteligência (pentagonito) quando os seis jesuítas e as duas trabalhadoras foram assassinados em 16 de novembro de 1989”, acrescentou.

“Os crimes apoiados pela gestão de Leopoldo Castillo e seus colaboradores como Edmundo González são considerados ‘crimes contra a humanidade’ e, por isso, são imprescritíveis. Chegará um dia em que terão de prestar contas à justiça espanhola e salvadorenha pela sua participação no extermínio de religiosos e religiosas e comunidades pacíficas que estiveram ao lado da paz durante o conflito bélico que assolou El Salvador. As terríveis sequelas dos seus atos ainda sobrevivem”, destacou Díaz.

A oportuna denúncia de Diáz confronta a versão cor de rosa da mídia pró-EUA, de que a chapa de González seria o suprassumo da democracia, apesar de reunir a nata dos vários partidos de extrema-direita cevados desde Washington para retomar o controle da maior reserva de petróleo do planeta, a da Venezuela, deles arrancado pelo governo de Hugo Chávez. Um esforço que começou em 2002 e nunca parou desde então, tendo se agravado nas guarimbas de 2014 e 2017, quando se recusaram a reconhecer o resultado das eleições, e chegado até à nomeação, sob Trump, do “presidente autoindicado [pela Casa Branca]”, Juan Guaidó.

BIOMBO DE CORINA MACHADO

O veterano González foi reciclado para ser o El Cid da cavalgada de María Corina Machado ao poder na Venezuela, assim que sua inelegibilidade foi confirmada em 2023 pelo Conselho Nacional Eleitoral. Apresentada por âncoras de telejornais como a ‘grande líder oposicionista venezuelana’, Machado foi um dos 300 signatários da carta do golpe de Carmona de 2002, aquele que fechou o parlamento e prendeu Chávez, até ser varrido pelo povo nas ruas.

Ela participou, desde então, destacadamente, de todas as tentativas de golpe. Mais recentemente, ela defendeu, durante a “presidência Guaidó”, uma invasão militar “cirúrgica” – norte-americana, claro – para derrubar Maduro. Também apoiou as sanções draconianas decretadas pelos EUA, incluindo o bloqueio à exportação do petróleo venezuelano, que levaram o país à maior crise em décadas, bem como o confisco das reservas de ouro venezuelanas pelo Reino Unido, e a expropriação de duas subsidiárias da PDVSA no exterior, a CITGO, rede de postos de gasolina, nos EUA, e a Monômeros, na Colômbia, enquanto a quadrilha de Guaidó se locupletava.

A bem dizer, é ela uma versão venezuelana de portentos como Javier Milei, Jair Bolsonaro e José Antonio Kast, com um “programa” ultraneoliberal de corte de direitos e gastos sociais, juros altos, favorecimento dos especuladores e desnacionalização do patrimônio público.

AS BOLAS FORA DE MADURO

É certo que Maduro, muito aquém dos voos altivos de Chávez, facilitou o serviço para os Guaidó, Leopoldo López, Corina Machado e Edmundo González da vida e, sob pressão do império, entregou o arco mineiro – a riquíssima província mineral venezuelana – ao capital estrangeiro, entre outras tantas bolas fora.

Maduro também teve imensas dificuldades diante dos ataques contra a moeda venezuelana, promovidos por esquemas mafiosos desde Miami, e que empurraram a uma brutal desvalorização, seguida por hiperinflação sob as sanções, que penalizou sobremodo a população mais pobre e desalentou a classe média.

Sob a chamada “pressão máxima” de Trump, com 900 sanções e proibição de exportação de petróleo, até a produção de petróleo despencou, as prateleiras de supermercado ficaram vazias e milhões de venezuelanos emigraram, tentando uma escapatória. Trump dizia abertamente que era favorável a roubar o petróleo venezuelano, que fica logo ali na outra margem do Caribe.

Sem manutenção e sem poder importar sobressalentes, o sistema elétrico venezuelano entrou em pane, com numerosos apagões. Também ocorreram escândalos de corrupção, deserções de ex-integrantes do governo e alguns setores progressistas se afastaram de Maduro.

Apesar de todos os avanços na sociedade venezuelana nos anos bons da alta do preço do petróleo, o não enfrentamento a tempo da questão histórica de superar a dependência quase absoluta na renda do petróleo – o que se expressou em não jogar vigorosamente pela industrialização nos anos melhores do superciclo das commodities -, acabou fazendo a Venezuela enfrentar essa confrontação com o imperialismo nas condições mais penosas.

A ajuda da Rússia, da China e do Irã foram imprescindíveis para que se abrisse um caminho de superação. Também mais recentemente Washington abrandou algumas sanções.

TRÊS VEZES PIOR QUE A GRANDE DEPRESSÃO

Recente matéria do Washington Post sobre a “guerra econômica desencadeada pelos últimos quatro presidentes norte-americanos” (Clinton, W.Bush, Obama e Biden), assinada por Jeff Stein e Federica Cocco, dimensiona o peso dessa brutal investida: “as sanções à Venezuela contribuíram para uma contração econômica cerca de três vezes maior do que a causada pela Grande Depressão nos Estados Unidos.”

Nesses anos de bloqueio, sem dólares para importar 90% dos alimentos como antes, a Venezuela agiu para atingir a autossuficiência de 97% na produção de alimentos. Agora as prateleiras novamente estão repletas, segundo os observadores que viajaram para lá para monitorar as eleições. A indústria petroleira começa a se recuperar, mas a economia em larga medidasegue dolarizada. No último trimestre, o PIB cresceu 5%.

CIDADANIA SE MOBILIZOU MACIÇA E PACIFICAMENTE NO DIA 28

O Centro Carter, que na época da criação do sistema eleitoral venezuelano sob Chávez o considerou o melhor do mundo, agora diz que não pode endossar o resultado das eleições por falta de atas e condenou a “falta de transparência do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) na divulgação dos resultados”. O Centro Carter esteve em Caracas nas eleições a convite do governo venezuelano.

Apesar dessa declaração, o instituto admitiu que “a cidadania venezuelana se mobilizou maciça e pacificamente no dia 28 de julho para expressar as suas preferências. O dia da votação decorreu de forma cívica, apesar das restrições de acesso aos recintos eleitorais por parte dos observadores nacionais e, sobretudo, das testemunhas dos partidos, dos mecanismos de possível pressão sobre o eleitorado (pontos de controle dos partidos do governo perto dos recintos eleitorais para verificar a presença dos eleitores) e dos incidentes de tensão ou violência relatada em algumas localidades”.

“No número limitado de distritos eleitorais visitados, as equipes de observadores do Centro Carter verificaram a vontade dos cidadãos venezuelanos de participar num processo eleitoral democrático e demonstrar o seu compromisso cívico como membros da mesa, testemunhas do partido e observadores”.

O que não impediu o Centro de concluir que a eleição na Venezuela não se adapta aos parâmetros e padrões internacionais de integridade eleitoral e “não pode ser considerada democrática”.

No entanto, comunicado da OAB norte-americana, a National Lawyers Guild (NLG), disse que sua delegação de cinco observadores eleitorais “visitou vários locais de votação em Caracas e La Guaira e compartilhou notas e informações com os 910 observadores eleitorais presentes de 95 países”.

A presidente do NLG, Suzanne Adely, disse que as eleições de domingo “não foram apenas justas e transparentes, mas também representaram um exemplo de participação cívica popular”.

“Seu resultado bem-sucedido é um triunfo para o povo venezuelano”, acrescentou Adely, “especialmente considerando o nível de interferência dos EUA e a tentativa de sabotagem do processo democrático, particularmente por meio de sanções e medidas econômicas coercitivas destinadas a produzir ‘mudança de regime’ na Venezuela”.

LÓPEZ OBRADOR E WIKILEAKS

Por sua vez López Obrador, presidente mexicano em fim de mandato, questionou “com base a OEA sustenta que o outro candidato [González] venceu?” Ele criticou a ingerência estrangeira nos assuntos internos venezuelanos.  “Existe um governo mundial ou uma confederação de governos mundiais que decide o que é bom, o que é mau, quem é democrata e quem não é democrata?” 

Também o WikiLeaks entrou no debate sobre a suposta “fraude” nas eleições na Venezuela, afirmando que “as alegações da oposição venezuelana de extrema-direita e da mídia dos EUA de que houve fraude nas  eleições de 28 de julho têm com base uma pesquisa de boca de urna feita pela empresa ligada ao governo dos EUA Edison Research, que trabalha com organismos de propaganda dos EUA ligados à CIA e que esteve ativa na Ucrânia, Geórgia e Iraque”.

SITE DA TELESUL É HACKEADO

Além da linha privada do CNE ter sido hackeada tentando gerar um pretexto para desqualificar a eleição, conforme o manual de fraudes que a OEA usou contra a Bolívia, também a TeleSul foi hackeada, no esforço de silenciar um contraponto à mídia venal, alinhada ao candidato oposicionista.

A presidente da TeleSul, Patrícia Villegas, denunciou que na noite de segunda-feira a página do canal offline foi atacada e “inseriram informações falsas”. De acordo com Villegas, “esta situação insere-se na mesma linha de acontecimentos ocorridos contra as instituições estatais venezuelanas durante este dia”, quando “os falsos democratas mostram a cara”.

“Temos sido a janela da verdade e porta-voz da dignidade deste heroico povo. Estaremos à altura do desafio que enfrentamos e defenderemos este espaço latino-americano e caribenho que luta todos os dias pela sua soberania e integração comunicacional. TeleSul é um patrimônio do povo e como tal iremos protegê-lo”, concluiu.

(Nota: Quem tiver TV via MEO pode ver a TeleSul no canal 239. Se via NOS no canal 223).

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