Como Washington e Ancara mudaram o regime de Damasco

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 17/12/2024, Trad. Estátua)

Abu Mohammed al-Joulani, antigo número 2 do Daesh, agora o novo mestre de Damasco, dá uma conferência de imprensa na grande mesquita dos Omeyyades.

Em 11 dias, a República Árabe da Síria, que desde 2011 resistiu corajosamente aos ataques dos jihadistas apoiados pela maior coligação da história, foi derrubada. O que é que aconteceu?


Com uma surpreendente desenvoltura, a imprensa internacional garante-nos que não estamos a assistir a uma mudança de regime militar na Síria, mas a uma revolução que derruba a República Árabe Síria. A presença do exército turco e das forças especiais americanas é-nos ocultada. Alimentam-nos com propaganda, repetidamente desmentida, sobre os crimes atribuídos a “Bashar”. Os assassinos canibais estão a ser transformados em revolucionários respeitáveis. Mais uma vez, a imprensa internacional mente-nos conscientemente.

Em 11 dias, a República Árabe da Síria, que desde 2011 resistiu corajosamente aos ataques dos jihadistas apoiados pela maior coligação da história, foi derrubada. O que é que aconteceu?

Em primeiro lugar, desde 15 de outubro de 2017, os Estados Unidos organizaram um cerco à Síria, proibindo-lhe todas as trocas comerciais e a participação das Nações Unidas na sua reconstrução [1]. Em 2020, esta estratégia foi alargada ao Líbano com a Lei César [2]. Nós, os membros da União Europeia, participámos todos neste crime. A maioria dos sírios estava subnutrida. A libra tinha entrado em colapso: o que valia 1 libra antes da guerra, em 2011, valia 50.000 quando Damasco caiu (a libra foi revalorizada três dias depois graças a uma injeção de dinheiro do Catar). Como as mesmas causas têm sempre os mesmos efeitos, a Síria foi derrotada como o Iraque antes dela, quando a secretária de Estado Madeleine Albright se felicitou por ter provocado a morte de meio milhão de crianças iraquianas por doença e subnutrição.

Por outro lado, se foram os jihadistas do Hayat Tahrir al-Sham (HTS) que tomaram Damasco, não foram eles que venceram militarmente. Em 27 de novembro, o HTS, armado pelo Catar e apoiado pelo exército turco disfarçado de “Exército Nacional Sírio” (SNA), tomou o controlo da autoestrada M4, que servia de linha de cessar-fogo. Além disso, o HTS e a Turquia dispunham de drones de alto desempenho manobrados por conselheiros ucranianos. Por fim, o HTS levou consigo a colónia uigure do Partido Islâmico do Turquestão (TIP) que estava entrincheirada em al-Zanbaki há 8 anos [3]. Os teatros de operações israelita, russo e chinês fundiram-se assim.

Estas forças atacaram então Alepo, até então defendida pelos Guardas da Revolução iranianos. Os guardas revolucionários iranianos retiraram-se sem dizer uma palavra, deixando uma pequena guarnição do Exército Árabe Sírio a defender a cidade. Perante a desproporção de forças, o governo sírio ordenou às suas tropas que se retirassem para Hama, o que aconteceu a 29 de novembro, após uma breve batalha.

Em 30 de novembro, o presidente sírio Bashar al-Assad deslocou-se à Rússia. Não para assistir ao exame que o seu filho Hafez estava a fazer na universidade de Moscovo onde estudava, mas para pedir ajuda. As forças russas na Síria só podiam bombardear os contingentes jihadistas, porque só são transportados por via aérea. Por isso, tentaram bloquear a rota ao HTS e à Turquia. Não podiam intervir no terreno contra eles. Alepo estava de facto perdida. Aliás, o presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, seguindo a tradição do seu país [4], jamais reconheceu a perda dos territórios otomanos da Grécia (Salónica), da ilha de Chipre, da Síria (Alepo) e do Iraque (Mossul).

Com as células jihadistas adormecidas reactivadas pela Turquia, o Exército Árabe Sírio, já exausto, teve de lutar em todas as frentes ao mesmo tempo. Foi o que tentou fazer, em vão, o general Maher el-Assad (irmão do presidente).

Ali Larijani, enviado especial do aiatolá Ali Khamenei, deslocou-se a Damasco para explicar a retirada dos Guardas da Revolução de Alepo e para definir as condições da ajuda militar da República Islâmica do Irão, culturalmente espantosas para um Estado laico.

Numa conversa telefónica com o seu homólogo iraniano, Masoud Pezeshkian, o presidente Bashar al-Assad afirmou que a “escalada terrorista” tinha como objetivo

tentar dividir a região, desmoronar os seus Estados e redesenhar o mapa regional de acordo com os interesses e objectivos da América e do Ocidente.

No entanto, o comunicado de imprensa oficial não transmite o clima da conversa. O presidente sírio quis saber quem tinha dado a ordem aos Guardas da Revolução para abandonarem Alepo. Não obteve resposta. Depois, avisou o presidente Pezeskhian das consequências para o Irão se a Síria caísse. Nada aconteceu. Teerão continua a exigir que lhe sejam entregues as chaves da Síria para a defender.

A 2 de dezembro, o general Jasper Jeffers III, comandante-em-chefe das Forças Especiais dos Estados Unidos (UsSoCom), chega a Beirute. Oficialmente, vinha controlar a aplicação do cessar-fogo oral israelo-libanês. Dadas as suas funções, é evidente que esta será apenas uma parte da sua missão. Ele irá supervisionar a tomada de Damasco pela Turquia atrás do HTS.

Perante uma força desproporcionada, o governo sírio ordenou às suas tropas que se retirassem para Hama, o que aconteceu a 29 de dezembro. A 5 de dezembro, os Estados Unidos renovaram no Conselho de Segurança das Nações Unidas as suas acusações de que o presidente Bashar al-Assad estaria a utilizar armas químicas para reprimir o seu próprio povo. Ignoram as numerosas objecções, testemunhos e investigações que demonstraram que estas acusações não passam de propaganda de guerra. As armas químicas são o primeiro argumento da gigantesca máquina de persuasão anglo-saxónica. Foram as armas químicas que permitiram a Jeffrey Feltman, o número 2 das Nações Unidas, proibir a reconstrução da Síria. Foram eles que convenceram a opinião pública ocidental de que “Bashar é o carrasco de Damasco” e o responsabilizaram por todas as mortes na guerra contra o seu país.

Ao mesmo tempo, o Pentágono dizia ao HTS e ao exército turco que podiam prosseguir o seu avanço, tomar Damasco e derrubar a República Árabe Síria.

Em 6 e 7 de dezembro, realizou-se no Catar o Fórum de Doha. Participaram muitas personalidades do Médio Oriente, bem como o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov. À margem do Fórum, foi dada à Rússia, em representação do presidente al-Assad, a garantia de que os soldados do Exército Árabe Sírio não seriam perseguidos e que as bases militares da Federação Russa não seriam atacadas. Também foi dada uma garantia ao Irão de que os santuários xiitas não seriam destruídos, mas parece que Teerão já estava convencido disso.

De acordo com Hakan Fidan, ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Benjamim Netanyahu e Joe Biden consideraram que a operação deveria terminar ali. Foi o Pentágono que decidiu, com o Reino Unido, continuar até ao derrube da República Árabe Síria [5].

Em Nova Iorque, o Conselho de Segurança adoptou por unanimidade a resolução 2761 [6]. Ela autoriza que as sanções contra os jihadistas não sejam respeitadas durante as “operações humanitárias”.

As Nações Unidas, que nunca autorizaram a ajuda às populações esmagadas sob o jugo do Daesh, autorizaram subitamente o comércio com o HTS.

Esta reviravolta do Conselho de Segurança está de acordo com as instruções do conselheiro da ONU Noah Bonsey, como ele já havia sugerido em fevereiro de 2021, quando trabalhava para George Soros [7].

Abu Mohammed al-Jolani, o líder do HTS, dá uma entrevista a Jomana Karadsheh para a CNN. Ela sublinhou o facto de o sítio Rewards for Justice do Departamento de Estado continuar a oferecer 10 milhões de dólares por qualquer informação que leve à detenção do líder jihadista [8].

No dia 7 de dezembro, o HTS e a Turquia tomaram a prisão de Saïdnaya. A prisão de Saïdnaya foi um dos principais alvos da propaganda de guerra, que a apelidou de “matadouro humano”. Afirma-se que milhares de pessoas foram aí torturadas e executadas e que os seus cadáveres foram incinerados num crematório. Durante três dias, os Capacetes Brancos, uma ONG que tanto salvou vidas como participou em massacres, vasculharam a prisão e os seus arredores à procura de passagens subterrâneas secretas, câmaras de tortura e um crematório. Infelizmente, não encontraram provas dos crimes que tinham denunciado. No final, a jornalista Clarissa Ward encenou para a CNN a libertação de um prisioneiro que não via a luz do dia há três meses, mas que estava limpo, bem vestido e com as unhas aparadas [9].

As acusações de tortura e de execuções sumárias são tanto mais difíceis de suportar quanto Bashar al-Assad emitiu instruções em 2011 proibindo todas as formas de tortura, criou um Ministério da Reconciliação Nacional encarregado de reintegrar os sírios que se juntaram aos jihadistas e aplicou amnistias gerais cerca de quarenta vezes.

A 8 de dezembro, o presidente Bashar al-Assad ordenou aos seus homens que depusessem as armas. Damasco caiu sem um único golpe. Os jihadistas desfraldaram imediatamente cartazes impressos com antecedência e afixaram o símbolo do novo regime nos seus uniformes. O antigo combatente da Al-Qaeda, depois número 2 do Daesh, Abu Mohammed al-Jolani, cujo verdadeiro nome é Ahmad el-Shara, tomou o poder. Rodeado de conselheiros de comunicação britânicos, faz um discurso na Grande Mesquita Umayyad, inspirado no discurso do califa do Daesh, Abu Bakr al-Baghdadi, na Grande Mesquita Al-Nuri, em Mossul, em 2019.

O HTS trata atualmente os cristãos como mustamin (classificação islâmica para estrangeiros não muçulmanos que residem de forma limitada em território muçulmano), poupando-os ao pacto dhimmi (uma série de direitos e deveres reservados aos não muçulmanos) e ao pagamento do imposto jizya.

Em setembro de 2022, pela primeira vez numa década, realizou-se uma cerimónia em honra de Santa Ana na igreja arménia de al-Yacoubiyah, na zona rural de Jisr al-Shugur, a oeste de Idlib.

Três mil soldados do Exército Árabe Sírio exilam-se no Iraque. São desarmados e alojados em tendas no posto fronteiriço de Al-Qaim, sendo depois transferidos para uma base militar em Rutba. Bagdade anunciou que estava a tentar obter garantias de que poderiam regressar a casa [10].

As Forças de Defesa de Israel (FDI) lançaram uma operação para destruir os equipamentos e as fortificações do Exército Árabe Sírio. Em quatro dias, 480 bombardeamentos afundaram a frota e incendiaram os arsenais e os armazéns. Ao mesmo tempo, equipas terrestres assassinaram os principais cientistas do país.

Depois de mostrar aos jornalistas as fortificações sírias vazias ao longo da costa, Benny Kata, um comandante militar local, disse aos seus convidados: “É evidente que vamos ficar aqui durante algum tempo. Estamos preparados para isso.”

As FDI já estão a invadir a Síria um pouco mais longe, para além da linha de cessar-fogo nos Montes Golã, que ocupam. Anunciam a criação de uma nova zona tampão em território sírio, para proteger a atual zona tampão, em suma, para a anexar. Anexaram também o Monte Hermon para poderem vigiar toda a região.

A 9 de dezembro, o general Michael Kurilla, comandante-em-chefe das forças americanas no Médio Oriente Alargado (CentCom), deslocou-se a Amã para se encontrar com o general Yousef Al-H’naity, presidente do Estado-Maior jordano. Reafirmou o empenhamento dos Estados Unidos em apoiar a Jordânia caso surjam ameaças provenientes da Síria durante o atual período de transição.

No dia 10 de dezembro, o general Michael Kurilla visitou as suas tropas e as das Forças Democráticas Sírias (mercenários curdos) em várias bases na Síria. Concebeu um plano para garantir que o Daesh não saísse da zona que lhe foi atribuída pelo Pentágono e não interferisse na mudança de regime em Damasco. Os bombardeamentos intensos impediram imediatamente a aproximação do Daesh.

O HTS nomeou Mohammed al-Bashir, antigo “governador” jihadista de Idlib, como primeiro-ministro do novo regime. É membro da Irmandade Muçulmana, patrocinada pelo MI6 britânico. A França, que tinha negociado a nomeação de Riad Hijab (antigo secretário do Conselho de Ministros em 2012) com o seu enviado especial, Jean-Yves Le Drian, apercebeu-se de que tinha sido enganada.

Nessa mesma noite, já não estava em causa a possibilidade de Jean-Yves Le Drian se tornar primeiro-ministro de França. Em vez disso, o Eliseu convidou o procurador antiterrorista de Paris a aparecer no noticiário da France 2. Este pôs fim à aclamação do novo poder em Damasco e lamentou o facto de o HTS ter estado envolvido no assassinato do professor francês Samuel Patty (2020) e no massacre de Nice (86 mortos, em 2016). A imprensa francesa mudou de tom e começou a questionar o novo poder que a imprensa internacional continuava a apresentar como respeitável.

A 11 de dezembro, as principais facções palestinianas presentes na Síria (Frente de Libertação da Palestina, Frente Democrática para a Libertação da Palestina, Movimento Jihad Islâmica, Frente de Luta Popular Palestiniana e Comando Geral) reuniram-se em Yarmouk (Damasco) na presença de delegados do HTS (Departamento de Operações Militares). A Fatah e o Hamas não participaram na reunião. Foi-lhes pedido que fizessem a paz com o seu aliado israelita. Foi decidido que nenhuma fação teria um estatuto privilegiado e que todas seriam tratadas em pé de igualdade. Cada grupo comprometeu-se a depor as armas.

O general Michael Kurilla deslocou-se sucessivamente ao Líbano e a Israel durante três dias. Em Beirute, encontrou-se com o general Joseph Aoun, comandante das forças armadas libanesas, e sobretudo com o seu colega, o general americano Jasper Jeffers III. Em Telavive, encontrou-se com todos os chefes de Estado-Maior israelitas e com o ministro da Defesa, Israel Katz. Afirmou:

A minha visita a Israel, bem como à Jordânia, à Síria, ao Iraque e ao Líbano nos últimos seis dias, sublinhou a importância de ver os desafios e as oportunidades actuais através dos olhos dos nossos parceiros, dos nossos comandantes no terreno e dos nossos militares. Precisamos de manter parcerias fortes para enfrentar as ameaças actuais e futuras à região.

A 12 de dezembro, Ibrahim Kalin, diretor da Organização Nacional de Informações Turca (Millî İstihbarat Teşkilatı – MIT), é o primeiro alto funcionário estrangeiro a visitar o novo poder em Damasco. No mesmo dia, os mercenários curdos, que administram o nordeste da Síria para o exército de ocupação norte-americano, içam a nova bandeira verde, branca e preta de três estrelas do país, a do mandato francês. Kalin será seguido, a 15 de dezembro, por uma delegação do Catar.

Para validar as acusações de tortura contra o antigo regime, Clarissa Ward, definitivamente em forma, encena para a CNN cadáveres encontrados na morgue de um hospital de Damasco, tal como a mesma CNN tinha encenado os de uma morgue em Timisoara durante o derrube do regime de Ceausescu em 1989 [11].

Entretanto, de acordo com as Nações Unidas, mais de um milhão de sírios estão a tentar fugir do seu país. Não acreditam que os jihadistas do HTS se tenham tornado subitamente civilizados.

Fonte aqui.


Notas

[1] « Paramètres et principes de l’assistance des Nations Unies en Syrie », par Jeffrey D. Feltman, Réseau Voltaire, 15 octobre 2017.

[2] « Selon Hassan Nasrallah, les États-Unis veulent provoquer la famine au Liban », Réseau Voltaire, 17 juin 2020.

[3] « Les 18 000 Ouïghours d’Al-Qaïda en Syrie », Réseau Voltaire, 19 août 2018.« La CIA et les jihadistes ouïghours », Réseau Voltaire, 16 décembre 2019. « Uyghur fighters in Syria vow to come for China next », Sophia Yan, The Telegraph, Decembrer 13, 2024.

[4] « Serment national turc », Réseau Voltaire, 28 janvier 1920.

[5] « Fidan : Nous avons négocié avec la Russie et l’Iran pour qu’en Syrie, ça se passe sans effusion de sang », Anadolu Agency, 13 décembre 2024. « “Israël ne voulait pas qu’Assad tombe”, affirme le chef de la diplomatie turque », I24 News, 16 décembre 2024.

[6] « Résolution portant exemption des sanctions contre les jihadistes », Réseau Voltaire, 6 décembre 2024.

[7] « In Syria’s Idlib, Washington’s Chance to Reimagine Counter-terrorism », New Crisis Group, Noah Bonsey & Dareen Khalifa, February 2021.

[8] « Muhammad al-Jawlani », Rewards for Justice, site consulté le 14 décembre 2024.

[9] « ‘Are you serious ?’ : He spent months in a Syrian prison. CNN’s camera caught the moment he’s freed, Clarissa Ward, CNN, December 11, 2024.

[10] « خاص »
محمد عماد, 11 ديسمبر

[11] « Battered corpses show the horrors of life and death under Syria’s Assad », CNN December 12, 2024.

António Costa escarnece de nós

(José Catarino Soares, 13/12/2024) 

«A ditadura de Assad causou imenso sofrimento. Com o seu fim, surge uma nova oportunidade de liberdade e paz para todo o povo sírio» (António Costa, presidente do Conselho Europeu, X, 8-12-2024).


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António Costa tem a desfaçatez de escarnecer de nós, tomando-nos por tolos e ignorantes.

Vejamos, então, qual é «a nova oportunidade de liberdade e paz para todo o povo sírio» a que se refere António Costa.

1. Mohammed al-Julani, aliás, Ahmed Hussein al-Shara

É a que chega pela mão de um homem que se apresentava, outrora, como Abu Mohammed al-Julani (o indivíduo que aparece na imagem da foto acima), e que se apresenta agora como Ahmed Hussein al-Shara (o seu verdadeiro nome),

A foto é de um cartaz do Departamento de Estado dos EUA, divulgado pela sua embaixada na Síria, oferecendo 10 milhões de dólares pela captura de al-Julani. Mas isso está a mudar com grande rapidez (Ver mais abaixo a notícia da BBC). Al-Julani nasceu em Riade, na Arábia Saudita, em 1982. É um veterano da Alcaida [Al Qaeda], fundador e dirigente da Frente al-Nusra e do movimento, também jihadista, Hayat Tahrir al-Sham (HTS), e, desde há uns dias, o novo manda-chuva em Damasco. 

Há uns anos, al-Julani era considerado por António Costa, pelo Conselho Europeu, pela Comissão Europeia, ONU, Casa Branca, pelo Pentágono, pela CIA, etc., um perigosíssimo “terrorista”. Há uns meses, porém, já era considerado um respeitável “rebelde”, da nova estirpe oximórica dos “radicais moderados/pragmáticos”. Hoje, surge em todos os noticiários como um impoluto “freedom fighter” [combatente pela liberdade]!

O major-general Agostinho Costa caracterizou lapidarmente estas cabriolas da opinião e da política dos próceres do “Ocidente alargado”:

«Julani? Pegamos num terrorista que andou a cortar cabeças, aparamos-lhe a barba e vestimo-lo à Zelensky» [clicar aqui : “Jolani? Pegamos num terrorista que andou a cortar cabeças, aparamos-lhe a barba e  vestimo-lo à Zelensky” – CNN Portugal].

Mohammed al-Julani, em 8 de Dezembro de 2024, sem turbante, com o cabelo cortado, a barba aparada e vestido à Zelensky, pronto para instituir um Estado teocrático islamista, com base na Sharia [“lei islâmica”] para garantir, como profetizou António Costa, «uma nova oportunidade de liberdade e paz para todo o povo sírio».

2.  A destruição e partição da Síria

Quanto à «nova oportunidade para a paz e a liberdade para todo o povo sírio» que António Costa nos afiança que vai ser instituída sob a esclarecida tutela e orientação de al-Julani, «a população da região de Idlib, permanentemente ocupada pela al-Qaida desde o início da intervenção estrangeira, pode muito bem explicar, por experiência própria, o terror que é ser governado por al-Julani» [1]. Uma coisa é certa: não é seguramente na Síria que ela se vai concretizar, mas num dos 3 ou mais bocados que resultaram da destruição e partição da Síria pelo esforço conjugado de Israel, Turquia e EUA e dos seus procuradores locais, com a ajuda prestimosa da UE.

Sobre este mapa, que indica as zonas da Síria que estão actualmente sob o controlo militar e económico de Israel, Turquia e EUA, o major-general Raul Luís Cunha fez o oportuno comentário seguinte:

«Interrogo onde está a moralidade e a coerência do Ocidente? Então não há condenação e sanções a Israel e à Turquia por invadirem e ocuparem território da Síria — um país seu vizinho? Sem falar dos EUA, que há muito já ali se encontravam a saquear o seu petróleo…! HIPÓCRITAS» (Facebook, 10-12-2024).  

3.  Netanyahu, Erdogan e Biden tiram as castanhas do lume com a mão do gato

Tal como António Costa, presidente do Conselho Europeu, o presidente cessante dos EUA, Joe Biden, e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, falaram com entusiasmo sobre a “nova oportunidade” na Síria. Ambos alegaram, com toda a razão, terem tido uma quota-parte (juntamente com Recep Erdogan, presidente da Turquia) muito importante no triunfo da ofensiva jihadista e curda que derrubou Bashar al-Assad.

Netanyahu assumiu os louros pela sua guerra genocida em Gaza e pela sua guerra de destruição no Líbano, por enfraquecer os aliados da Síria, o Hezbollah e o Irão.

Biden foi ainda mais descarado, ao explicar como o terrorismo de Estado americano destruiu a Síria e abriu o caminho para que os seus aliados curdos e jihadistas de tendência sunita tomassem o poder. Disse ele:

 «A nossa abordagem mudou o equilíbrio de poder no Médio Oriente através de uma combinação de apoio aos nossos parceiros, sanções, diplomacia e força militar direccionada» (Finian Cunningham “Síria, após 13 anos de terrorismo de estado dos EUA, o que podemos esperar?” in Observatorio crisis.com, e Estátua de Sal, 10/12/2024).

4. Receitas orwellianas para o Médio Oriente

«Obama cometeu um erro, que se revelou trágico, quando o regime de Assad utilizou armas químicas contra o seu povo, em 2013, ultrapassando uma “linha vermelha” que o próprio Presidente americano tinha traçado. Este resolveu não intervir e aceitou a mediação de Moscovo para destruir as armas químicas, o que verdadeiramente nunca aconteceu. Hoje, a aviação israelita, com o apoio americano, faz aquilo que o Ocidente não quer fazer: bombardeia os sítios onde aquelas armas podem estar armazenadas, antes que caiam em mãos pouco fiáveis» (Teresa de Sousa, “Saudemos a queda de uma ditadura sanguinária”, Público, 10 de Dezembro de 2024).

A utilização de armas químicas, nomeadamente de gás Sarin, pelo regime de Assad, é uma mentira grosseira que o veterano jornalista americano Seymour M. Hersh (prémio Pullitzer de reportagem internacional, entre muitos outros prémios jornalísticos) foi o primeiro a desmontar em 2013 (“Whose Sarin?”. London Review of Books, Vol. 35, n.º 24, 19 December 2013). Mais recentemente, as conclusões de Hersh foram corroboradas e desenvolvidas pelo estudo pormenorizado de todas as provas disponíveis em fontes abertas (Michael Kobs, Chris Kabusk, Adam Larson et alii. “Ghouta Sarin Attack. Review of Open-Source Evidence”. 2021. Academia.edu).

Foram os “insurgentes” jihadistas, que Teresa de Sousa saúda entusiasticamente, que obtiveram esse gás letal junto do governo da Turquia e que o usaram contra o povo sírio, matando mais de 1000 civis inocentes em Ghouta. Teresa de Sousa lamenta que Obama tenha recuado, à última hora, na sua intenção de bombardear a Síria em alegada retaliação contra esse crime de guerra que Bashar el-Assad nunca cometeu [2]. Mas rejubila por Israel ter agora, 11 anos volvidos, corrigido o “erro” de Obama, bombardeando os depósitos imaginários de gás Sarin na Síria e aproveitando, de caminho, para abocanhar mais território da Síria para juntar ao do sonhado “Grande Israel” (do rio Nilo ao Rio Eufrates).

A desfaçatez do governante António Costa e o cinismo da jornalista Teresa de Sousa estão bem uma para o outro. O apego de ambos ao lema “dois pesos, duas medidas” não tem falhas. Assim, por exemplo, o “sofrimento” que o regime de Bashar al-Assad infligiu aos seus inimigos jihadistas de tendência sunita é moralmente condenável e faz dele um “ditador sanguinário”. Em contraste, as centenas de atentados suicidas que, por exemplo, a Frente al-Nusra (o braço sírio da Alcaida, fundado por al-Julani) levou a cabo contra cristãos e outras seitas muçulmanas não sunitas no interior da Síria e o ataque com gás Sarin levado a cabo, em 2013, pela facção jihadista Liwa al-Islam, são convenientemente passados em silêncio.

Mais, o genocídio que Benjamin Netanyahu e o seu governo tem perpetrado contra os palestinianos de Gaza (assim como os despejos, expulsões, prisões arbitrárias, bombardeamentos, atentados terroristas e assassinatos selectivos que tem infligido aos palestinianos da Cisjordânia, aos libaneses e aos sírios) é moralmente louvável, sumamente virtuoso, e faz dele um paladino da paz e da liberdade.

Teresa de Sousa vai ao ponto de afirmar, com uma desfaçatez que pede meças à de António Costa:

«Os rebeldes [sic], incluindo Abu Mohammad al-Jolani, a sua figura mais emblemática [sic], já disseram que estão disponíveis para coordenar com a comunidade internacional [sic] a monitorização das munições convencionais e químicas e a não-utilização de armamento que esteja banido pela lei internacional».

Que comovente! Mas como conseguir que facínoras sanguinários ao estilo de Abu Mohammed al-Julani passem a comportar-se como pacíficas ovelhinhas? “É muito simples”, explica Amatzia Baram: com a ameaça de um drone militar a pairar em cima da sua cabeça a 3 km ou mais de altitude e malas cheias de notas de 100 dólares entregues em mão própria de tempos a tempos.

«Perante tudo isto, Israel e o Ocidente devem tirar partido do pragmatismo de Julani. O dinheiro dos Emirados e da Arábia Saudita é necessário para a reconstrução da Síria. Além disso, é de esperar que a nossa força militar [entenda-se, de Israel, n.e.] e a dos Estados Unidos recordem a Julani o que o Ocidente fez a Abu Bakr al-Baghdadi, o chefe do ISIS, ao general Qassem Soleimani, comandante do Corpo Iraniano de Jerusálem, e a Osama bin Laden, o chefe da Al-Qaeda. Al-Julani também precisa que lhe lembrem o que Israel fez a Hassan Nasrallah [secretário-geral do Hezbollah] e a Yahya Sinwar [presidente do Hamas]. Entalado entre os sauditas, como o polícia bom, e Israel, como o polícia mau, espera-se que al-Julani se porte bem» (Amatzia Baram [3], “Backgrounder: Abu Muhammad al-Julani. What’s Ahead in the Middle East with the Fall of the Assad Regime”) [n.e. = nota editorial]

Mas talvez não seja assim tão simples, porque uma coisa é o “pragmatismo” de al-Julani, outra o fanatismo bélico dos seus seguidores do HTS. Num vídeo filmado em 8 de Dezembro de 2024, podemos vê-los a ameaçarem invadir Israel e a Arábia Saudita, quando entenderem que estão preparados para tanto [Ver aqui: https://www.youtube.com/watch?v=X7X_8B7lw7w]. E se assim acontecer, lá se vai a tão ambicionada «coordenação com a comunidade internacional» …

5. Um duro golpe na luta de libertação dos Palestinianos

A destruição do Estado laico da Síria e a partição do seu território em três protectorados mutuamente hostis (um turco, um israelita e outro americano), representa um duríssimo golpe na luta de libertação dos Palestinianos, nos moldes em que tem sido conduzida. Com ele, a solução fantasiosa dos “dois Estados” (Israel + um Estado residual da Palestina na Cisjordânia e na faixa de Gaza) caducou definitivamente.

A única solução que resta para a sobrevivência e emancipação do povo árabe- palestiniano e para a regeneração e emancipação dos sabras [os judeus nascidos na Palestina] consiste em defender a constituição na Palestina, do rio Jordão até ao mar Mediterrâneo, de uma República democrática, laica, palestiniana:

― (i) democrática, porque garantiria a igualdade de direitos, de deveres e de representação de todos os seus cidadãos (árabes/palestinianos, sabras, beduínos, drusos, circassianos);

― (ii) laica, porque garantiria a liberdade de culto a todos os seus cidadãos com crenças religiosas (muçulmanos, judeus, cristãos, etc.) e estaria isenta de discriminações de base religiosa, étnica ou outra;

― (iii) palestiniana, porque garantiria o direito de retorno dos refugiados palestinianos, poria um fim definitivo ao apartheid, à purga étnica e ao genocídio que o Estado de Israel tem organizado e mantido contra o povo palestiniano há mais de 60 anos e restauraria a sociedade palestiniana multicultural, tal como era antes de Israel: «um belo mosaico de vida» [4].

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Notas e referências

[1] José Goulão, “Catorze certezas da vitória terrorista em Damasco”, Resistir, 8 de Dezembro 2024.  

[2] «Parece possível que, a dada altura, [Obama] tenha sido directamente confrontado com informações contraditórias: provas suficientemente fortes [de que o autor do ataque com gás Sarin fora um grupo jihadista (a Liwa al-Islam, aliada da Frente al-Nusra de al-Julani), e não Bashar al-Assad, n.e.] para o persuadir a cancelar o seu plano de ataque e a aceitar as críticas que certamente viriam dos republicanos» (Seymour Hersch, op.cit.)  

[3] Amatzia Baram é professor emérito no Departamento de História do Médio Oriente e Director do Centro de Estudos sobre o Iraque, da Universidade de Haifa, Israel. O seu artigo foi publicado no jornal Ma’ ariv, em Hebraico, em 8 de Dezembro de 2024 e, em Inglês, no boletim “Weapons and Strategy”, na plataforma Substack, em 11 de Dezembro de 2024.

[4] Sobre este assunto, consultar One Democratic State Initiative [https://odsi.co/en/]

A Síria e os “nossos ativos ocidentais”

(Pino Cabras, Deputado italiano in Observatoriocrisis, 12/12/2024, Trad. da Estátua)

Os líderes ocidentais comentam com alegria o fim da República Árabe Síria, substituída por uma coligação jihadista liderada por Abu Muhammad al-Jawlani, que tem uma longa história de militância terrorista no ISIS e na Al Qaeda.


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É muito interessante ler o desfile de declarações de muitos líderes ocidentais sobre o fim da República Árabe Síria, hoje conquistada e substituída por uma coligação jihadista liderada por Abu Muhammad al-Jawlani, que tem uma longa história de militância no ISIS e na Al Qaeda, e que como primeira medida libertou todos os terroristas do ISIS das prisões sírias.

As declarações dos figurões ocidentais também são interessantes pela uniformidade de estilo e argumentos, todos eles seguindo o mesmo padrão:

  1. Júbilo pelo derrube de Assad, rotulado como “ditador”.
  2. Referência genérica e muito monótona aos riscos associados aos novos líderes devido ao seu passado, quase nunca mencionado explicitamente.
  3. Confiança na boa oportunidade para alcançar bons acordos com os novos líderes.
  4. Alegria beligerante pela derrota estratégica de Putin. (pesquise na Internet declarações de Biden , Scholz , Von Der Leyen , Macron , Metsola , Starmer , Kallas ).
  5. Estes são os mesmos líderes ocidentais que, em certos momentos, fizeram todos os possíveis para nos assustar com o perigo do fundamentalismo terrorista e, hoje, celebram o primeiro triunfo verdadeiramente importante do jihadismo, que se torna um Estado na Síria, e fazem-no em proclamação, como zelosos repetidores das instruções de um esquema predefinido.

Você está surpreendido? Para quem acompanha estes acontecimentos há muitos anos não há surpresas. Em 19 de janeiro de 2016, o jornal The Times of Israel publicou declarações do então ministro da Defesa de Telavive, Moshe Ya’alon , que explicou que o Irão representava uma ameaça maior do que o Estado Islâmico, e que no caso de o regime sírio cair, Israel iria preferir que a Síria ficasse sob o controlo do ISIS em vez do governo iraniano. 

A declaração de Ya’alon soou como uma declaração de guerra ao Irão, uma guerra total em que cada movimento, aberto ou encoberto, era previamente justificado por Telavive. Ya’alon explicou sem floreados o que já sabíamos, mas que milhões de cidadãos ocidentais não sabem porque os jornais não os informam: os hospitais israelitas, no auge da agressão jihadista contra a Síria há dez anos, trataram milicianos jihadistas sírios feridos, e depois enviaram-nos de volta para lutar para enfraquecer ainda mais o Estado sírio.

A intervenção russa na guerra síria conseguiu alterar o equilíbrio, e aqueles que optaram por uma situação diferente queixaram-se com raiva: até as grandes e velhas raposas do imperialismo americano, Zbignew Brzezinski (1928-2017) e John McCain (1936-2018), levantaram as suas vozes alarmadas.

Na verdade, John McCain acusou Moscovo de “destruir os nossos ativos”, isto é, os militantes de grupos terroristas, considerados recursos orgânicos no que diz respeito às estratégias geopolíticas do Império. McCain, em particular, reuniu-se com vários líderes jihadistas em 27 de maio de 2013, depois de cruzar a fronteira entre a Turquia e a Síria, para discutir o envio de armas pesadas e outro tipo de apoio.

É instrutivo reler hoje uma declaração divulgada pelo Wikileaks, datada de dezembro de 2006 e assinada por William Roebuck, então encarregado de negócios da embaixada americana em Damasco, que dizia:

“Pensamos que as fraquezas de Bashar al-Assad residem na forma como ele reage aos problemas iminentes, sejam eles reais ou percebidos, como o conflito entre as reformas económicas, a corrupção, a questão curda e a ameaça ao regime, que representa uma presença crescente de extremistas islâmicos.  A nossa opinião resume a avaliação das vulnerabilidades do regime de Assad e sugere que poderíamos aumentar a probabilidade de potenciais eventos desestabilizadores”. 

Traduzido de forma menos suave: “devemos atiçar o fogo de tudo o que pode queimar Assad, incluindo aqueles assassinos nojentos, que são úteis aos EUA”.

Pouco importa se até há poucos anos o Ocidente declarou a Al Qaeda e os seus líderes, Al Zarqawi e Osama Bin Laden, terroristas e a expressão do mal absoluto. Hoje está claro que o fizeram para pôr em prática as suas técnicas de manipulação, o medo das massas e assim justificar novas guerras e leis de segurança draconianas. 

Quem – tal como eu – apresentou numerosos documentos para demonstrar a estreita relação que sempre existiu entre as organizações terroristas islâmicas e os serviços de inteligência ocidentais e especialmente com as operações sujas dos serviços israelitas, foi acusado de ter “uma mentalidade conspiratória”. Mas hoje as ações dos terroristas jihadistas são um grande motivo de alegria nas redes sociais para toda a elite dos governos ocidentais.

A pimeira lição que emerge dos factos: o que é comummente definido como “terrorismo” é, na maior parte dos casos, uma ferramenta de manipulação de massas, apoiada por entidades estatais e orquestrada com o consentimento dos poucos proprietários de quase todos os meios de comunicação social tradicionais.

Estes meios de comunicação social têm a tarefa de alimentar a histeria e os medos coletivos quando ordenados, destacando algumas vítimas inocentes e ignorando outras. Com esse controlo rígido da narrativa, a operação oposta também é alcançada: transformar os assassinos em rebeldes e em novos estadistas da noite para o dia.

Segunda lição e não menos importante: há uma uniformidade de papagaio nos chefes de governo e nos eurocratas que agora apoiam “o ponto de viragem sírio”, demonstrando que também eles, tal como os quadros da Al Qaeda, não são verdadeiros “líderes”. São simplesmente simples “ativos” de um sofisticado sistema de dominação, são “recursos” inteiramente nas mãos de quem realmente dirige o Império. E, portanto, podem rapidamente alinhar-se com os outros “ativos” das guerras eternas.

Fonte aqui.