Três mil milhões tarde demais

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 28/07/2020)

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O governo pediu uma intervenção da Procuradoria Geral da República para suspender a venda de ativos do Novo Banco até ser concluída a auditoria às suas contas (prometida para maio, depois adiada, e cuja nova protelação terá sido rejeitada). Essa auditoria é limitada a operações de 2000 até 2018 e não se sabe com que rigor tratará os créditos que este mesmo governo assegurava há semanas que estavam adequadamente vigiados, auditados e certificados ao longo dos anos, nada havendo a duvidar. De facto, ainda há poucas semanas o governo jurava que estava certo da correção das contas. Lembra-se da nota do primeiro-ministro para segurar por mais uns dias o ministro Mário Centeno? Aí se assegurava que “esta reunião ficaram ainda esclarecidas várias questões sobre a concretização do empréstimo do Estado ao Fundo de Resolução”. E, continuava o comunicado dizendo que o BCE, os auditores, o Banco de Portugal e tutti quanti asseveram a idoneidade das práticas da Lone Star no Novo Banco. Pois o problema é que as contas não estão esclarecidas e agora o governo, em desespero de causa, apela à justiça para bloquear provisoriamente os procedimentos do banco que geram aqueles pagamentos pelo Fundo de Resolução.

Há boas razões para passar tudo a pente fino, como por exemplo a revelação da venda de um pacote imobiliário, por 30% do seu valor, a um fundo a que esteve ligado o atual presidente do banco, pela jornalista Cristina Ferreira; ou de um colossal negócio de venda de imóveis em pechincha, com financiamento pelo próprio banco e prejuízos registados que são depois comunicados ao Fundo de Resolução para serem pagos pelo Estado, como provado pela reportagem de hoje do jornalista Paulo Pena, também no Público (e lá aparece o fantasma da Escom, um dos instrumentos que foi usado no passado pelo BES para todo o tipo de operações, dos submarinos a Angola). No total, já houve cerca de três mil milhões de euros de financiamentos públicos a este tipo de operações, que são outras tantas razões imediatas para se verificarem estas contas.

Ainda bem que o governo, dando o dito por não dito, pede agora uma intervenção musculada para travar o que tem sido o mecanismo de captação de financiamento público ao longo dos últimos anos: a transferência de valores para terceiros, registando prejuízos sempre surpreendentes e indetetados pela certificação das contas do ano anterior, de modo a exigir o pagamento público até se esgotar a maquia dos 3900 milhões prometidos no contrato e que, no dizer no ministro quando se assinaram os termos, nunca seria usada. Para qualquer observador atento, não há nisto nenhuma surpresa.

Digo há anos, e não descobri nada, que o método para extrair o dinheiro público é fazer vendas a prejuízo e depois exigir ao Fundo de Resolução o pagamento da conta. Assim, ganham os compradores, sempre bem seleccionados, e perde o Estado. O Novo Banco, com a Lone Star, é uma gigantesca lavandaria acarinhada por um contrato leonino e pelo silêncio das autoridades.

O mecanismo sempre foi óbvio. Vender imóveis na segunda década deste século com grande prejuízo, quando os seus preços disparam para o céu, só pode ser justificado de duas formas: ou a sua avaliação foi uma fraude (e isso tem responsáveis) ou a sua venda é feita por um valor fraudulento (e tem responsáveis). É aliás também por isso que muitas destas operações envolvem investidores anónimos, escondidos em sociedades offshore, o que devia ser um sinal de alerta para os auditores (quando não são eles as mesmas entidades que promovem a criação destas empresas de fachada).

Em todo o caso, esta tardia inflexão do governo tem duas leituras políticas, que não são ligeiras. A primeira é que isto é uma censura à administração do Fundo de Resolução e ao Banco de Portugal, que obviamente devia ter tomado a mesma atitude e desde os primeiros dias. Muito mal ficam os responsáveis por esse Fundo público, que deram como certas as vendas anteriores e a confiscação de dinheiros públicos que correspondeu a esses mágicos prejuízos. Mas há ainda uma segunda implicação: trata-se de uma censura ao anterior ministro das finanças, que não só parece ter fechado os olhos à espantosa desvalorização de ativos imobiliários, como fez guerra política para garantir os pagamentos, usando mesmo o subterfúgio de não informar o primeiro-ministro da realização do mais recente pagamento.

O final da história também é penoso e o governo está nela comprometido: é só na 25ª hora, e quando se está a esgotar o cofre que foi posto ao dispor da Lone Star, que o governo pede a suspensão momentânea das operações. Não é de adivinhar que tenha muito sucesso com esta iniciativa, até porque somente uma alegação substancial acerca de más práticas, de favorecimento de interesses velados ou de outras malfeitorias poderia inverter o rumo para o desastre que está escrito em letras garrafais no contrato da Lone Star. E nada indica que o governo tenha vontade de promover esse julgamento do regime bancário, que seria imperativo se houvesse um competente combate ao favorecimento e aos crimes de colarinho branco. E, ainda assim, resta um cenário ainda pior, que este pedido de intervenção da Procuradoria seja unicamente uma operação mediática para esquecer com a final da Taça.


A boa solução de Hamurabi – Acerca da crise sistémica disparada pela actual pandemia

(Michael Hudson, in Resistir, 27/07/2020)

Bem, penso que foi correcto organizar esta conferência a fim de destacar que a crise pandémica de hoje acelera e intensifica as contradições internas que se têm acumulado. A culpa de muitas destas contradições está simplesmente a ser atribuída ao vírus. Mas há um problema subjacente que o vírus está a revelar e a transformar numa crise. O problema subjacente é o das dívidas que se acumularam durante as últimas décadas.

Estamos numa situação semelhante à de uma guerra. Há vencedores e há perdedores numa guerra. Neste caso o vencedor é o agressor – o sector financeiro. Suas exigências de pagamento estabeleceram o cenário para a ruptura económica de hoje. Tem sido este o processo ao longo da história. A finança sempre foi o grande factor desestabilizador. Exactamente agora, há negócios – lojas de retalho, restaurantes, hotéis, linhas aéreas e outros – que estão a ser encerrados ou estão a operar só com pequena capacidade muito abaixo dos níveis de equilíbrio (break-even). Estes negócios não são capazes de pagar suas rendas estipuladas ou o serviço de dívida hipotecário. Seus proprietários não são capazes de pagar seus bancos.

Trabalhadores têm sido dispensados (laid off) e são incapazes de pagar seus senhorios ou credores. Assim, eles estão a cair mais profundamente em dívidas. Estados inteiros e cidades, como New York State e New York City, estão a ser espremidos. Além de terem de pagar o seguro de desemprego local, eles têm de manter infraestrutura básica e serviços sociais. Mas as suas receitas fiscais estão a afundar em consequência da redução de impostos sobre vendas e sobre rendimentos. Assim, a pandemia está a criar uma crise orçamental como parte da crise geral da dívida e do imobiliário.

A pergunta é: como é que saímos disto? O que está a acontecer é o que contratos legais chamam um caso de força maior (Act of God). O que fazer quando a actividade económica é interrompida e o fluxo de pagamentos que as pessoas têm todos os meses – seu serviço de dívida, suas rendas ou sua hipoteca, ou seus cartões de crédito e outros despesas básicas permanentes? O que fazer quando elas não podem ser pagas? Penso que esta crise está a por o problema a nu. Trata-se de um problema que se verificou na civilização ocidental durante os últimos 2000 ano. Mas o que é impressionante é como antigas civilizações manusearam este problema muito mais habilmente. Elas assim o fizeram de um modo completamente diferente da maneira como outras civilizações manusearam as coisas.

Já escrevi muito acerca da arqueologia da Era do Bronze no antigo Médio Oriente. Foi onde teve origem a estipulação do “Acto de Deus”. Ela apareceu na Leis de Hamurabi, cerca de 1750 AC. O problema que os babilónios tinham de enfrentar era o que fazer quando há uma inundação, uma seca, guerra ou pandemia. Quais deveriam ser as regras quando, subitamente e do nada, os agricultores e o conjunto dos cidadãos sobre a terra são tornados incapazes de plantar e colher, a partir do que tinham de pagar as dívidas que haviam incidido durante o anos e que estão vencidas. Eles também deviam impostos, a arrendatários ou outra rendas que não podiam ser pagas.

Hamurabi foi bastante específico acerca de como manusear esta situação. O Parágrafo 48 das suas Leis dizia que haveria uma dívida e uma amnistia fiscal quando o deus do tempo, Adad, criasse uma inundação ou impedisse de outra forma o pagamento de dívidas e outras obrigações. Se o deus da tempestade inundasse as terras, as dívidas e as rendas não tinham de ser pagas. Um recomeço sobre novas bases era feito em condições de equilíbrio na estação de colheitas seguinte.

O problema básico era semelhante ao de hoje. Como é que uma sociedade restaura a continuidade e salva-se a si própria da ruptura criando uma perda permanente e a distorção dos relacionamentos de riqueza e de rendimento existentes? O que Hamurabi e todos os outros governantes babilónios, sumérios e os demais do Médio Oriente fizeram entre cerca de 2500 AC e o primeiro século AC foi proclamar amnistias em tais circunstâncias. Se não o tivessem feito, os agricultores não teriam sido capazes de pagar aos seus credores e teriam caído na servidão (bondage). Ficariam a dever seu trabalho e suas colheitas aos seus credores.

Isto teria causado um grave problema fiscal para os governantes. Se as vítimas de uma falha de colheita ou de outra interrupção económica tivessem de pagar aos seus credores com o seu trabalho e excedentes de colheita, o imposto sobre este trabalho e esta colheita não ficariam disponíveis para pagar ao palácio os seus direitos normais de impostos e deveres de trabalho da corvéia para construir infraestruturas ou mesmo servir no exército. O equilíbrio social e a continuidade teriam sido destruídos – a partir de dentro. Assim, quando Hamurabi e todos os governantes da sua dinastia proclamaram uma folha limpa (clean slate) cancelando as dívidas e as rendas em atraso que se haviam acumulado sem pagamento, ao proclamar um retorno à situação normal impedia-se a emergência de uma oligarquia credora à procura do seu próprio interesse, diferente daquele do palácio.

Tudo isto mudou nos tempos romanos. A antiguidade clássica protegeu as elites financeiras e rentistas. Cícero e os outros líderes romanos disseram que todas as dívidas tinham de ser pagas, mesmo (ou na verdade, precisamente porque!) isto levava à escravização dos romanos e gregos mais pobres. A oligarquia credora de Roma utilizou toda crise como uma oportunidade para arrebatar a terra dos pequenos proprietários, para forçar a população à servidão e para obter controle da sua terra.

Estamos a ver a mesma dinâmica básica ocorrer por todo o mundo ocidental pós romano. Credores estão agora a planear comprar o imobiliário em dificuldades a senhorios incumpridores quando as suas rendas não são pagas. Vai ser uma enorme venda em bancarrota. Grandes fundos de capital privado já anunciaram a sua intenção de começar a comprar as lojas de retalho que foram à falência, juntamente com os seus bens imobiliários.

Dizem a indivíduos que são incapazes de pagar suas dívidas, trabalhadores que foram dispensados, para contrair empréstimos junto aos seus fundos de pensão ou às suas contas da segurança social. Isto significa que eles não estarão a receber o rendimento da pensão que precisam para viver. Da mesma forma, os estados e as cidades que Jeffrey Sachs mencionou também estão a enfrentar uma crise de dívida para com os seus detentores de obrigações. Mitch McConnell, o chefe republicano do Senado, disse que estados democratas como Nova York, Nova Jersey e Califórnia deveria cobrir seu défice pela tomada dos fundos de pensão que estabeleceram para funcionários públicos. A intenção do sector financeiro é utilizar esta crise para liquidar os fundos de pensão e transferir as poupanças dos que vivem de salários para pagar os detentores de títulos e outros credores. As promessas de pensões que governos estaduais e locais fizeram em troca da não reivindicação de salários mais altos estão para ser liquidadas.

As dívidas que foram acumuladas estão a ser utilizadas como uma táctica de guerra financeira. É mais eficiente do que uma guerra militar. A dívida tem sido utilizada para remover os activos das pessoas da classe média, de proprietários de casas, de empregados de fundos de pensão, para sugar as suas poupanças e propriedades para o topo da pirâmide económica. A crise da pandemia criou um campo de batalha. Suas regras têm sido escritas pelo sector financeiros e seus lobistas como uma oportunidade para a maior captura de propriedade e financeira desde a Grande Depressão.

O resultado será que grande parte das economias americanas e europeias estão em vias de se parecer como a economia da Grécia cinco anos atrás, quando o país foi incapaz de pagar suas dívidas em euros. Pode-se encarar a Grécia como o futuro dos Estados Unidos, catalisado pela pandemia do coronavírus.

OS GRANDES VENCEDORES

Obrigado, muito obrigado, Michael. É a sua vez, mas permita-me interromper porque há uma pergunta extra dirigida a si e aos outros: quem são os grandes vencedores, em termos económicos, após os desenvolvimentos correntes?

Falarei acerca das perguntas em ordem inversa, principiando pela ideia de que possa haver uma inflação para ajudar a liquidar as dívidas.

É exactamente o oposto: O que estamos a enfrentar agora é uma era de deflação da dívida. É a pior deflação de dívida desde a Grande Depressão. Já descrevi como vai haver grandes incumprimentos no imobiliário, especialmente para o imobiliário comercial, para lojas e todos os outros negócios que estão a ficar sem rendimento enquanto as suas rendas têm-se acumulado. Se vamos ter uma cessão de operações durante pelo menos mais três meses, sem rendimento para lojas, entretenimento, salas de cinema e museus, pagar três meses de rendas atrasadas não é viável. Não há qualquer modo de lojas, ou muitos assalariados, possam ganhar o suficiente para pagar a renda a partir do trabalho normal e do negócio. Assim, vão ficar sem negócio.

Vai haver uma onda de falências, a que se seguirá a venda de bens imobiliários a preços de liquidação. O desemprego vai levar a níveis salariais mais baixos e haverá também cortes na despesa pública com serviços sociais, transportes e outros programas normais. Privatizações a preços vis ocorrerão, tal como as de Margaret Thatcher na Inglaterra. Isto vai agora ser imposto à Europa. É possível que a Zona Euro se desfaça se não mudar as suas regras para permitir que a Itália e a Espanha sobrevivam. Mas actualmente as regras da Zona Euro são que todo o dinheiro, todo o crédito que é necessário para o crescimento europeu, deve ser emprestado a juros junto aos bancos.

Os bancos podem criar este dinheiro nos seus teclados electronicamente. O governo poderia fazer o mesmo, mas abdica deste privilégio em favor do sector bancário privatizado. Como explica a Teoria Monetária Moderna, um banco central pode simplesmente imprimir o dinheiro que é necessário para alimentar o crescimento económico. Mas o sector financeiro conquistou os corações e mentes dos banqueiros centrais, desde a Europa até aos Estados Unidos.

O problema é que estes bancos não emprestam dinheiro para criar meios de produção ou meios de vida. Eles não emprestam dinheiro para construir fábricas. Os bancos emprestam dinheiro contra activos já existentes, principalmente imobiliário, casas, edifícios e também empresas – e para atacantes corporativos (raiders) comprarem outras empresas a crédito. Assim, o efeito destes empréstimos bancários tem sido inchar o preço do imobiliário, porque uma casa ou edifício vale seja o que for que um banco empreste contra ele.

O sector financeiro torna-se cada vez menos produtivo e mais predatório. Isto tem impedido governos europeus de terem um banco central que direccione gastos deficitários para a economia real. Só os bancos e o sector financeiro, a elite do Um Porcento, são apoiados, como nos Estados Unidos. Dez milhões de milhões (trillion) de dólares colocados na economia, principalmente nos mercados de acções e financeiros, no mercado de títulos e no mercado imobiliário, mas não na produção

A Zona Euro não faz isso. Isto significa que os governos da Europa não são realmente democráticos. A Europa é governada pelo Banco Central Europeu. Trabalha para os seus clientes, os bancos comerciais. E os banqueiros comerciais dizem: “Queremos fazer a economia do crédito passar fome para que nós, os banqueiros comerciais, possamos criar moeda para emprestar aos nossos clientes e cobrar juros e taxas financeiras. A nossa própria especulação financeira [é] que todo o crescimento, o excedente que a Europa produz, deveria ser entregue ao sector financeiro”. Foi para isso que os europeus votaram. Com efeito, votaram por salários mais baixos, cortes nos serviços públicos e pensões mais reduzidas. Estes padrões de vida são ameaçados pela forma como a dimensão financeira da crise do coronavírus está a ser gerida.

Assiste-se agora a uma disparidade entre a Itália e os países mediterrânicos e os do Norte da Europa. Os países precisam de crédito para se recuperarem. Mas a Zona Euro recusa-se a fornecer o crédito necessário para superar a suspensão da actividade económica do coronavírus e as suas consequentes dívidas, rendas e outras obrigações não pagas [NR] . A Zona Euro está a tratar a Itália, Grécia, Portugal e Espanha tal como o Presidente Trump aqui na América está a tratar os estados do Partido Democrata como Nova York, Nova Jersey e Califórnia. O efeito é a criação de uma crise deflacionária. Isso impossibilita o pagamento das dívidas e rendas acumuladas.

Podemos ver uma tomada de poder a criar algo muito semelhante ao feudalismo. Nos Estados Unidos isto é sugerido pelos empréstimos a estudantes, ou pelos empréstimos a assalariados garantidos pela promessa do devedor de pagar 10%, 20%, 25% de tudo o que ganhar durante o resto da sua vida. Isto é como um imposto, mas é realmente uma forma de servidão (peonage) da dívida. É um pagamento muito semelhante ao que os servos medievais tinham de entregar aos seus senhores sobre o seu excedente económico. Bem, agora os assalariados, pequenos negócios e mesmo grandes negócios na América e na Europa vão ter de entregar ainda mais dos seus ganhos ao sector financeiro a fim de poderem sobreviver.

Isto pode parecer uma forma louca de organizar a sociedade, mas é como a civilização ocidental tem sido estruturada – na base da protecção dos direitos dos credores, não na solvência dos devedores e no equilíbrio social e continuidade geral. Ao contrário das sociedades não ocidentais, ao contrário mesmo da China de hoje, o crédito na Europa e na América é privatizado. A oferta de crédito, tal como dinheiro, deveria ser uma utilidade pública. Tal como a saúde pública deveria ser um serviço de utilidade pública. Tal como as estradas e a comunicação deveriam ser um serviço de utilidade pública. A Europa deixou que fosse privatizada de uma forma agressiva e predatória.

Na medida em que governos subordinam a vontade dos eleitores a tudo o que os bancos centrais lhes digam, isto não é uma democracia. Jeffrey mencionou anteriormente o que pensava Aristóteles. Aristóteles explicou uma espécie de eterno triângulo político. Ele dizia que muitas constituições pareciam ser democráticas, mas elas realmente são oligárquicas. Isto porque as democracias tendem a evoluir para uma oligarquia. A oligarquia transforma-se em hereditária, numa classe dominante aristocrática. Finalmente, graças aos céus, alguns dos aristocratas ricos combatem entre si próprios e tentam – como fez Cleistenes em Atenas em 406 AC – levar as massas para o seu campo e tornam-se democráticos a fim de mobilizar apoio entre a cidadania contra os outros aristocratas. Então há uma revolução democrática, mas a democracia mais uma vez volta a desenvolver-se numa oligarquia. Esse é o eterno triângulo político descrito por Aristóteles.

E é isso que se tem na Europa. Já não é mais uma democracia; é uma oligarquia que se transforma no mesmo tipo de aristocracia hereditária que ocorreu na antiguidade clássica. Muitos de vós esperavam que a Europa tivesse derrubado a aristocracia após a Primeira Guerra Mundial, quando na verdade se livrou dos reis e da realeza. Mas abriram o caminho para um novo tipo de oligarquia, transformando-se numa aristocracia hereditária, a das finanças.

Essa é a tarefa que tem diante de si para resolver. A única coisa que posso dizer é que, talvez, esta crise tenha de facto catalisado esta contradição interna básica e irá criar uma resposta que lide com a pandemia através do cancelamento de dívidas e da desprivatização do sector bancário.
29/Junho/2020

[NR] A Comissão Europeia propôs um fundo plurianual (2021-2027) de €750 mil milhões para a recuperação dos países da UE, cujos recursos serão obtidos através de empréstimos conjuntos a longo prazo obtidos no mercado financeiro. Verifica-se assim a continuação da subordinação da UE ao capital financeiro.


O fim do dinheiro físico?

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 09/07/2020)

Não é uma perspetiva tão presente como a generalização do teletrabalho, mas tal como esta última é mais uma mudança social relevante que poderá vir a ser acelerada pela atual pandemia e pela mudança de hábitos que tem vindo a provocar. Refiro-me ao eventual desaparecimento do dinheiro em espécie, ou seja, das notas em papel e das moedas metálicas. Até que ponto é uma verdadeira tendência e até que ponto é que a pandemia está a acentuá-la? E devemos alegrar-nos ou preocupar-nos com isso?

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Naturalmente, o eventual fim do dinheiro físico é algo completamente distinto do fim do dinheiro em geral, se entendermos este último, da forma habitual, como meios líquidos de pagamento. Nas sociedades industrializadas contemporâneas, a maior parte do dinheiro não existe sob a forma de notas e moedas físicas mas sob a forma de depósitos bancários, mobilizáveis para a realização de pagamentos através de cartões de débito, cheques ou transferências. Na zona euro, por exemplo, existiam em maio de 2020 cerca de 1,3 biliões de euros em circulação sob a forma de notas e moedas (quase 4000 euros por habitante), mas o agregado monetário M1, que além das notas e moedas em espécie considera os depósitos à ordem, era várias vezes maior: qualquer coisa como 9,6 biliões de euros.

O que estamos aqui a falar é por isso da possível tendência para o desaparecimento dos pagamentos em espécie e da sua substituição por pagamentos em cheque ou, mais provavelmente, integralmente digitais. É fácil de perceber a relação com a atual pandemia: apesar de, pelo menos para já, não existir evidência de que o vírus se transmita através do dinheiro, foram muitas as pessoas que nos últimos meses preferiram evitar o mais possível o contacto com as notas e moedas, esses objetos físicos que mais trocam de mãos entre anónimos. A realização de pagamentos em cartão tem sido obrigatória nalguns locais específicos e ativamente recomendada e facilitada por muitos governos: por exemplo, eliminando as comissões sobre os pagamentos em terminais de pagamento automático ou aumentando os limites máximos para pagamentos contactless, como sucedeu em Portugal.

Em boa verdade, pelo menos para já não há sinais de que o dinheiro físico esteja em vias de desaparecimento. No primeiro trimestre de 2020 (até março, portanto), o volume de levantamentos em terminais Multibanco em Portugal reduziu-se face ao trimestre homólogo de 2019, de 6877 milhões para 6586 milhões de euros (-4%). Mas ao nível da zona euro como um todo e considerando os valores até maio de 2020, a quantidade de notas e moedas em circulação registou até uma aceleração face à tendência de longo prazo (que é já de si crescente), não uma diminuição.

Apesar disto, os entusiastas de uma futura sociedade cash-less antevêem nas mudanças de práticas dos últimos meses, pelo menos por parte de alguns, o anúncio de um futuro relativamente próximo em que as moedas e notas farão parte do passado e todos os pagamentos serão feitos simplesmente através de um cartão, um telemóvel ou uma pulseira, ativando a transferência eletrónica de fundos de forma puramente escritural e digital. Sem necessidade de deter papéis ou metais que passam de mão em mão, são pouco higiénicos, pesam no bolso e na carteira e são mais facilmente perdidos e roubados.

Porém, as eventuais consequências sociais a que devemos estar atentos vão para além desta mera conveniência imediata e quotidiana para a maioria. Os críticos do fim do dinheiro físico assinalam para começar, que o eventual fim da sua aceitação generalizada tenderá a prejudicar alguns grupos já de si mais vulneráveis, como as pessoas mais idosas, com menos desenvoltura tecnológica ou que não estão integradas no sistema financeiro. É verdade que poucas serão as pessoas na nossa sociedade que não têm algum tipo de conta bancária, mas num mundo sem dinheiro em espécie essa possibilidade torna-se verdadeiramente impossível.

Em 2016, os 1300 milhões de habitantes da India passaram por uma experiência social com semelhanças a este tipo de cenário, quando o governo de Narendra Modi decidiu retirar de circulação as notas de 1000 e 2000 rupias (cerca de 12 e 24 euros) com o objetivo anunciado de combater a economia informal, a evasão fiscal e o financiamento de grupos insurgentes considerados terroristas. Com escassas horas de antecedência, o governo anunciou que mais de quatro quintos do dinheiro em espécie em circulação deixaria de ter curso legal e poderia apenas ser depositado nos bancos ou convertido em novas notas. A operação foi gigantesca e extremamente controversa. Segundo os mais críticos, o impacto sobre a evasão fiscal terá sido limitado, mas o impacto económico e social, especialmente entre as populações rurais e mais pobres, foi substancial. Pelo menos da forma como foi implementada, a medida gerou grande perturbação social, provocando corridas caóticas aos bancos que resultaram em dezenas de mortes, para além de ter provocado uma escassez de meios de pagamento, especialmente nas zonas rurais, que afetou de forma adversa o emprego e os rendimentos dos mais pobres.

Regressando à discussão geral, o eventual fim do dinheiro em espécie representa sobretudo o fim da possibilidade de realização de pagamentos anónimos, e isto pode ter consequências tanto positivas como negativas. A possibilidade, pelo menos teórica, de escrutínio fiscal e judicial de todos os pagamentos e transferências de fundos significa, em princípio, a possibilidade de eliminar, ou pelo menos reprimir substancialmente, a economia informal e grande parte da atividade criminosa. Mas significa também dotar o Estado de uma capacidade de vigilância muito reforçada, com tudo o que isso implica: numa sociedade autoritária, por exemplo, a capacidade de repressão de minorias ou grupos dissidentes, como quer que estes sejam definidos, ver-se-á substancialmente reforçada.

A sociedade cash-less tem por isso algumas semelhanças com a sociedade de vigilância total, da qual constitui uma das componentes: tal como uma câmara de vigilância em cada esquina permitiria evitar muitos crimes e resolver muitos outros mas constrange significativamente a liberdade de todos e potencia o risco de autoritarismo distópico, também o fim do dinheiro em espécie e dos pagamentos anónimos introduz tantos ou mais problemas quanto aqueles que resolve.

É por isso que esta possibilidade é receada e criticada por muitos tanto à esquerda como à direita, principalmente entre quem perfilha posições políticas mais libertárias. É um alerta importante e plenamente válido, que justifica que esta possibilidade, por mais que não esteja imediatamente em questão, deva ser encarada com mais cautela do que entusiasmo.