Elites e o exército de soldadinhos de chumbo

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 17/02/2025, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O “espanto” e a “surpresa” que os dirigentes europeus dizem ter sofrido com o discurso de J. D. Vance, vice presidente dos EUA, na conferência de Munique deve ser entendido, isso sim, como causa de espanto e surpresa por parte dos cidadãos europeus. Esse espanto e essa surpresa das elites europeias revela a sua incompetência para entenderem vários aspetos essenciais mas básicos nas relações entre a Europa e os Estados Unidos.

Em Munique estiveram em confronto dois conceitos de sociedade e dois conceitos de elites, de classe dominante (ruling classes), que foram expostas numa obra clássica de 1945; “The American Business Elite: A ColIective Portrait”, Journal of Econorruc History de Wright MiIIs. Os burocratas europeus não leram e agora agitam-se como moscas dentro de um prato de azeite.

O que Wright Mills explicou, ainda mal a Segunda Guerra havia terminado, é que a elite americana é constituída por um grupo cujo elemento definidor se encontra no domínio do poder económico, o que a distingue das elites europeias que surgem associadas à produção de ideias e à administração pública. Na Europa a entrada na elite é feita maioritariamente através formação técnica, e pelo acesso às grandes escolas, depende em boa parte do background social dos candidatos que são maioritariamente destinados a administrarem o Estado. Pelo contrário, as elites dos Estados Unidos, são recrutadas no mundo dos negócios e dos produtores de violência (militares e agentes de serviços secretos — makers of violence). É esta elite económica e de ação violenta que controla o processo de tomada de decisão política para obter ganhos económicos. Para esta elite as guerras são negócios, um deve e haver.

Em Munique estiveram em confronto estes dois tipos de elites. A elite de Trump, semelhante à elite de Bush Jr que conduziu a invasão do Iraque e do Afeganistão, a elite de Clinton que conduziu o ataque à Sérvia e o desmantelamento da Jugoslávia. Os atores da trupe de Trump não são diferentes do vice Dick Cheney e de Rumsfeld no que diz respeito ao desprezo pelos europeus e pelos princípios! Os europeus presentes desconheciam estas personagens? Desconheciam Vitoria Nuland, funcionária da CIA (da elite dos makers of violence) que serviu nas administrações de Trump e de Biden e pilotou o processo que levou a Ucrânia à política de ameaça à Rússia?

J D Vance referiu que o inimigo da Europa é a cristalização em que a Europa vive, a sua resistência à mudança, o emaranhado de poderes que se esgotam em quezílias de vaidades. A União Europeia, em contra ponto à Rússia e à China, vive hoje como se o mundo fosse o da Guerra Fria, as suas elites são burocratas que administram programas a que falta um desígnio, um objetivo estratégico, além de satisfazer clientelas ao sabor das circunstâncias.

J D Vance foi a Munique o dizer o óbvio: a Europa não justifica um inimigo externo! (O desprezo é a mais dolorosa ofensa.) Veio dizer que os Estados Unidos concluíram que a Europa é um peso morto e as elites americanas no poder, as do MAGA, partilham essa visão com as novas elites russa e chinesa, pragmáticas, rudes e focadas nos resultados.

Um oligarca americano está muito mais próximo intelectualmente dos novos oligarcas russos ou até dos chineses (que são mais sofisticados) do que de um “enaca” ou de um politécnico francês, ou um de um graduado por Oxford ou Cambridge.

Sendo esta a visão que as elites americanas e russas partilham da Europa e dos seus dirigentes, porque carga de água a Rússia iria invadi-la e tomar conta dela, vir por aí abaixo, no imortal resumo de Ana Gomes, especialista em slogans dos gloriosos tempos de ouro do MRPP; para ocupar um continente de velhos e de burocratas, um asilo?

E assim chegamos ao absurdo delirante de, sem saberem o que fazer para se manterem no poder, os cérebros dos líderes europeus, os tais burocratas políticos, terem acendido a ideia luminosa de constituir um exército europeu! Isto num continente que não fabrica uma turbina para aviões de combate: a Rolls Royce a General Electic e a  Pratt&Whitney são americanas.

Uma passagem de olhos pela história da Europa revela que o último ataque à Europa ocorreu no cerco dos turcos (Império otomano) a Viena em 1693! Uma leitura superficial sobre os conflitos do século XX permite concluir que os exércitos europeus são exércitos historicamente derrotados. Na Primeira e na Segunda Guerra, os exércitos francês, alemão, polaco e italiano foram derrotados desde os Alpes a Estalinegrado, o exército inglês na Segunda Guerra, retirou-se da Europa continental com a dramática operação de Dunquerque. Foram os Estados Unidos e a União Soviética que impuseram a descolonização à Europa através das dinâmicas do Movimento Descolonizador. No século XX quem decidiu a sorte das armas na Europa foram os Estados Unidos, a ocidente, e a União Soviética, a leste, que dividiram o continente entre si em Ialta e Potsdam, como o vão fazer atualmente, parece que na Arábia Saudita, uma zona decisiva, essa sim, para negociar a divisão do poder do futuro entre dois dos atores que verdadeiramente contam.

Enquanto pelas arábias dois dos grandes poderes de facto decidem lancetar o furúnculo da Ucrânia para passarem ao sério conflito do Médio Oriente, em Paris um pequeno grupo de funcionários reúne-se para discutir um “exército europeu”!

Um “exército europeu” é uma figura que não passa de uma representação em miniatura da Grand Armée em miniaturas de soldadinhos de chumbo, um diorama! Os líderes europeus estão hoje em Paris, com Macron, de rabo para o ar a construir um diorama, ou um Lego. No final, se entre eles existir algum com senso e sentido de humor, esse gritará: Vamos mas é comer umas ostras!

O esplendor da oligarquia

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 15/02/2025, Revisão da Estátua)

J.D. Vance

(Li vários textos sobre o discurso de J.D. Vance em Munique e sobre as suas consequências para a Europa e as reações dos líderes europeus. Andava ainda a decidir qual o texto a publicar aqui quando me apareceu esta pérola sobre o tema do Carlos Matos Gomes.

É superlativamente o melhor que li e por isso aqui fica. Uma lição de geopolítica e história digna de reflexão que devia ser enfiada pela cabeça abaixo dos políticos da Europa. E os “comentadeiros” das televisões, que perante esta sabatina parecem um bando de ignorantes já crescidos, devem ingressar na 4ª classe de adultos para reciclarem as meninges 🙂 . Parabéns ao CMG.

Estátua de Sal, 16-02-2025)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O discurso do vice presidente dos Estados Unidos, J..D Vance, na Conferência de Segurança realizada em Munique, na semana de 10 a 15 de Fevereiro é uma extraordinária lição de política. Independentemente do que cada um possa pensar de J.D. Vance, ou de Trump, ou dos EUA, ou da Rússia, o discurso do vice-presidente dos EUA apresenta os fundamentos da prática política dos Estados Unidos desde a sua fundação: o poder assenta na força dos fortes e é essa força que permite apresentar os poderosos como virtuosos. Maquiavel afirmou o mesmo. Os europeus praticaram estes princípios até à Segunda Guerra Mundial, que colocou um fim no colonialismo e na falácia da missão civilizadora do Ocidente.

J. D. Vance foi a Munique afirmar o princípio da força como fundamento do poder, o princípio da unidade do poder e negar as bem-intencionadas teses da divisão tripartida dos poderes, executivo, legislativo e judicial de Montesquieu. O vice presidente dos EUA foi a Munique expor a realidade em que assenta o poder nos Estados Unidos: a lei dos xerifes do Oeste: a lei sou eu e o meu revólver. Os poderes tradicionais e os não tradicionais devem estar submetidos ao detentor do poder executivo. J. D. Vance explicou que o êxito dos Estados Unidos e a vitória de Trump resultam do facto de o poder ser exercido por uma conjugação de tirania e oligarquia, na classificação de modos de governo estabelecido por Platão em República.

Perante uma assembleia de funcionários políticos europeus (raros políticos eleitos), o vice-presidente dos EUA afirmou que o governo de Trump respeita a hierarquia de Platão, de que a oligarquia é preferível à democracia, que durante milénios foi eficaz para os poderosos exercerem o seu poder e gozarem os seus privilégios, que a oligarquia constitui o único sistema de governo, e que aquilo que atualmente (desde o final da Segunda Guerra Mundial) é designado por “democracias” são versões de oligarquias adaptadas aos meios para as legitimar.

A versão de poder de Trump apresentada por J.D Vance em Munique pode ser traduzida com uma adaptação da conhecida frase de Eça de Queiroz: “a nudez crua da verdade do poder da oligarquia sem o manto diáfano da fantasia das instituições reguladoras“.

J. D. Vance afirmou na cara dos atónitos funcionários políticos europeus reunidos em Munique que o perigo para a Europa se encontra no seu interior, na falsidade em que os políticos assentam os seus princípios, na distância entre as afirmações e a prática dos políticos europeus, na fraqueza do poder político quer na União Europeia quer nos seus Estados nacionais, e daí, a perceção da fraqueza dos seus dirigentes e a busca de novas formas de participação dos povos no seu governo, que os funcionários (sempre muito moderados) se apressam a classificar de extremistas e radicais.

Quanto à política global, J.D. Vance deixou claro que quem define as relações de poder no mundo atual são as oligarquias dos Estados Unidos, da Rússia e da China porque são estas que dominam os circuitos do dinheiro, das matérias-primas, das tecnologias e da força armada, são elas que decidem a guerra e a paz, quem paga as contas e quem recolhe os lucros.

Do ponto de vista do amor-próprio é compreensível que as várias correntes do pensamento político europeu tenham silenciado que a decadência, ou a irrelevância da Europa, no atual cenário mundial tem como causa a incapacidade de esta ter gerado, ou mantido, ou reconstituído as suas oligarquias após a derrota da Segunda Guerra Mundial.

Não é popular defender a oligarquia e os oligarcas (daí que a comunicação de massas ocidental reserve o termo para os adversários — oligarca é sempre russo, enquanto os oligarcas norte-americanos são bilionários), mas a verdade é que, até à Primeira Grande Guerra, a Europa foi governada por oligarquias aristocráticas, monarquias mais ou menos autoritárias e que no período entre guerras a Europa conseguiu manter os seus governos oligárquicos, extraídos, ou gerados pelas industrias das novas tecnologias, em particular pela motorização, automóveis e aviões, pela química, pela energia (petróleo), transportes e eletrónica, tendo no topo a oligarquia financeira. Mas, um dos resultados da Segunda Guerra, foi a extinção dos oligarcas europeus.

As oligarquias europeias foram aniquiladas e a reconstrução europeia foi efetuada a partir dos Estados Unidos, com o plano Marshall, que colocou o poder da Europa nas mãos de burocratas de confiança. São os descendentes desses burocratas ao serviço dos EUA que se encontram hoje na direção política dos estados europeus, personagens que recebem um salário para administrar os Estados nacionais e a União Europeia, empresas que funcionam por rotina.

São esses descendentes que ainda vivem na guerra fria que ficaram atordoados com o discurso de J D Vance, Entretanto, quer a União Soviética, quer a China constituíam novas representações políticas e novas classes de empreendedores através dos partidos comunistas e introduziram a noção de competitividade, responsabilidade, prémio, castigo, incentivo que promoveram o aparecimento de oligarcas de grande sucesso.

A aparentemente irreversível irrelevância da Europa resulta em primeiro lugar da incapacidade de reconstituir as suas oligarquias no pós Segunda Guerra, de recriar oligarquias empreendedoras, autónomas, audaciosas. E esta incapacidade inclui também e em boa parte o mundo do trabalho — sindicatos e corporações — que em vez de disputarem o poder reclamam a proteção do Estado burocrático.

Independentemente do que cada um possa pensar de J D Vance, o que ele deixou claro na conferência de Munique foi que os Estados Unidos têm um sistema político que permite que o poder seja exercido por um macho dominante e que a Europa tem um sistema político com uma hierarquia que não se distingue da que existe num aviário.

Olhamos para as fotografias do chanceler Sholz (a quem J.D Vance negou um encontro de circunstância com a rude justificação que ele será chanceler por pouco tempo), de Macron, de Von der Leyen, de Kallas, de Mark Rutte, o atual cabo da guarda da NATO e o que vemos é um grupo de estarolas que não inspira confiança sequer para atravessar uma rua, mesmo durante o dia e com os semáforos a funcionar.

Alguém acredita que este painel de burocratas seja capaz de enfrentar os oligarcas norte americanos, russos ou chineses, que algum deles vá morrer onde for preciso combater os oligarcas russos e defender o “democrata” Zelenski, exceto o almirante Gouveia e Melo, o general Isidro e o burocrata Mark Rutte?

Por muito que nos desagrade, enquanto europeus, ouvir afirmações e interpretações duras atiradas como pedras, após a derrota da Segunda Guerra Mundial, a Europa optou por ser um navio de cruzeiros em vez de um navio de batalha. A pergunta a fazer aos inabaláveis e vocais defensores de apoio à Ucrânia até à derrota final e custe o custar é como transformar um hotel flutuante num couraçado, como substituir piscinas e jacuzzis por rampas de mísseis, empregados de camarote por artilheiros.

O choque das conclusões do encontro de Munique não resulta da explicação dos fundamentos do poder nos EUA feita por JD Vance e transmitida em estilo de sargento dos marines aos recrutas, mas da insanidade dos líderes europeus em responder que vão gastar 5% dos seus orçamentos a comprar equipamento militar aos EUA para se defenderem da Rússia, que passou a ser considerada por aqueles como um dos vértices do novo poder mundial! No momento em que os Estados Unidos reconhecem a Rússia e a China como competidores e vértices do triângulo do poder mundial, e não como inimigos com quem seja estrategicamente vantajoso desencadear um confronto armado, os burocratas europeus propõem comprar armas e tecnologias aos Estados Unidos para se defenderem de uma superpotência que considera a Europa um saco de gatos que se anularão em guerras entre si. É a análise que a Rússia faz da Europa, daí a irracionalidade, para não lhe dar o qualificativo adequado de estupidez dos analistas cujo pensamento foi magistralmente resumido pela doutora Ana Gomes: temos de nos defender dos russos porque se não o fizermos eles “vêm por aí abaixo”!

O papel de croupier para António Costa foi muito bem escolhido 🙂

O discurso de António Costa a repetir o apoio “inabalável” da Europa à Ucrânia é um texto na linha dos argumentos de Ana Gomes, dos tempos da guerra fria, fora de tempo, é um triste exemplo de um padre que entra numa missa pós concílio Vaticano II a proferir um sermão em latim e a fazer esconjuros, perante a estupefação dos fiéis. Bastava-lhe representar o papel do croupier e anunciar: les jeux sont faits!

A escolha nas eleições (EUA) é entre o poder corporativo e o poder oligárquico

(Chris Hedges, in Blog O Bardo, 14/07/2024)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

A escolha nas eleições é entre o poder corporativo e oligárquico. O poder corporativo precisa de estabilidade e um governo tecnocrático. O poder oligárquico prospera no caos e, como diz Steve Bannon, na “desconstrução do estado administrativo”. Nenhum deles é democrático. Cada um deles comprou a classe política, a academia e a imprensa. Ambos são formas de exploração que empobrecem e desempoderam o público. Ambos canalizam dinheiro para as mãos da classe bilionária. Ambos desmantelam regulamentações, destroem sindicatos, destroem serviços governamentais em nome da austeridade, privatizam todos os aspectos da sociedade americana, de serviços públicos a escolas, perpetuam guerras permanentes, incluindo o genocídio em Gaza, e neutralizam uma mídia que deveria, se não fosse controlada por corporações e pelos ricos, investigar sua pilhagem e corrupção. Ambas as formas de capitalismo estripam o país, mas o fazem com ferramentas diferentes e têm objetivos diferentes.

Kamala Harris, ungida pelos doadores mais ricos do Partido Democrata sem receber um único voto primário, é o rosto do poder corporativo. Donald Trump é o mascote bufão dos oligarcas. Esta é a divisão dentro da classe dominante. É uma guerra civil dentro do capitalismo travada no palco político. O público é pouco mais do que um suporte em uma eleição onde nenhum partido promoverá os interesses ou protegerá os direitos dos cidadãos.

George Monbiot e Peter Hutchison em seu livro “Invisible Doctrine: The Secret History of Neoliberalism,” se referem ao poder corporativo como “capitalismo domesticado”. Capitalistas domesticados precisam de políticas governamentais consistentes e acordos comerciais fixos porque fizeram investimentos que levam tempo, às vezes anos, para amadurecer. Indústrias de manufatura e agricultura são exemplos de “capitalismo domesticado”.

Você pode ver minha entrevista com Monbiot  aqui.

Monbiot e Hutchison se referem ao poder oligárquico como “capitalismo de senhores da guerra”. O capitalismo de senhores da guerra busca a erradicação total de todos os impedimentos à acumulação de lucros, incluindo regulamentações, leis e impostos. Ele ganha dinheiro cobrando aluguel, erguendo pedágios para todos os serviços de que precisamos para sobreviver e cobrando taxas exorbitantes.

Os campeões políticos do capitalismo de senhores da guerra são os demagogos da extrema direita, incluindo Trump, Boris Johnson, Giorgia Meloni, Narendra Modi, Victor Orban e Marine Le Pen. Eles semeiam dissensão ao vender absurdos, como a  grande teoria da substituição, e desmantelar estruturas que fornecem estabilidade, como a União Europeia. Isso cria incerteza, medo e insegurança. Aqueles que orquestram essa insegurança prometem, se entregarmos ainda mais direitos e liberdades civis, que eles nos salvarão de inimigos fantasmas, como imigrantes, muçulmanos e outros grupos demonizados.

Os epicentros do capitalismo de senhores da guerra são empresas de capital privado. Empresas de capital privado como Apollo, Blackstone, Carlyle Group e Kohlberg Kravis Roberts, compram e saqueiam negócios. Elas acumulam dívidas. Elas se recusam a reinvestir. Elas cortam funcionários. Elas deliberadamente levam as empresas à falência. O objetivo não é sustentar negócios, mas colhê-los para ativos, para obter lucro a curto prazo. Aqueles que dirigem essas empresas, como  Leon Black,  Henry Kravis,  Stephen Schwarzman  e  David Rubenstein, acumularam fortunas pessoais na casa dos bilhões de dólares.

A coorte de apoiadores de Trump no Vale do Silício, liderada por Elon Musk, estava, como o The New York Times  escreve, “acabada com os democratas, reguladores, estabilidade, tudo isso. Eles estavam optando, em vez disso, pelo caos livre e gerador de fortuna que conheciam do mundo das startups”. Eles planejavam “plantar dispositivos nos cérebros das pessoas, substituir moedas nacionais por tokens digitais não regulamentados, [e] substituir generais por sistemas de inteligência artificial”. 

O bilionário Peter Thiel, fundador do PayPal e apoiador de Trump,  travou guerra  contra os “impostos confiscatórios”. Ele financia um comitê de ação política anti-impostos e propõe a construção de nações flutuantes que não imporiam impostos de renda obrigatórios. 

A bilionária israelense-americana Miriam Adelson, viúva do magnata dos cassinos Sheldon Adelson, com um patrimônio líquido estimado em US$ 35 bilhões, deu  a  Trump US$ 100 milhões para sua campanha. Embora Adelson, que nasceu e foi criada em Israel, seja uma sionista fervorosa, ela também faz parte do clube de oligarcas que buscam cortar impostos para os ricos, impostos que já foram cortados pelo Congresso ou  diminuídos  por meio de uma série de brechas legais. 

O economista Adam Smith alertou que, a menos que a renda dos rentistas fosse fortemente taxada e reinvestida em um sistema financeiro, ele se autodestruiria.

Os destroços que as empresas de private equity e os oligarcas orquestram são descontados dos trabalhadores que são forçados a uma economia de bicos e que viram salários e benefícios estáveis ​​erradicados. São descontados dos fundos de pensão que são esgotados por causa de taxas usurárias ou são abolidos. São descontados da nossa saúde e segurança. Residentes de casas de repouso, por exemplo, de propriedade de empresas de private equity,  sofrem  10% mais mortes — sem mencionar taxas mais altas — por causa da escassez de pessoal e da redução da conformidade com os padrões de atendimento.  

As empresas de private equity são uma espécie invasora. Elas também são onipresentes. Elas adquiriram instituições educacionais, empresas de serviços públicos e redes de varejo, enquanto sangram os contribuintes em centenas de bilhões em subsídios que são possíveis por promotores, políticos e reguladores comprados e pagos. O que é particularmente irritante é que muitas das indústrias apreendidas por empresas de private equity — água, saneamento, redes elétricas, hospitais — foram pagas com fundos públicos. Elas canibalizam a nação, deixando para trás indústrias fechadas e falidas. 

Gretchen Morgenson e Joshua Rosner documentam como o capital privado funciona no livro “These are the Plunderers: How Private Equity Runs-and Wrecks-America”.

“Rotineiramente elogiados na imprensa financeira por seus negócios e elogiados por suas doações ‘caridosas’, esses capitalistas desenfreados montaram campanhas de lobby caras para garantir enriquecimento contínuo por meio de leis fiscais favoráveis”, eles escrevem. 

“Doações pesadas lhes renderam posições de poder em conselhos de museus e think tanks. Eles publicaram livros sobre liderança exaltando ‘a importância da humildade e da humanidade’ no topo, enquanto evisceravam aqueles na base. Suas empresas fazem arranjos para que eles evitem pagar impostos sobre os bilhões em ganhos que suas participações acionárias geram. E, claro, eles raramente mencionam que as empresas que possuem estão entre as maiores beneficiárias de investimentos governamentais em rodovias, ferrovias e educação primária, colhendo enormes vantagens de subsídios e políticas fiscais que lhes permitem pagar taxas substancialmente mais baixas sobre seus ganhos”, eles explicam 

“Esses homens são os barões ladrões da era moderna da América. Mas, diferentemente de muitos de seus predecessores no século XIX, que acumularam riquezas estonteantes extraindo os recursos naturais de uma nação jovem, os barões de hoje minam sua riqueza dos pobres e da classe média por meio de complexas transações financeiras.” 

Você pode ver minha entrevista com Morgenson  aqui.

Os capitalistas domesticados são representados por políticos como Joe Biden, Kamala Harris, Barack Obama, Keir Starmer e Emmanuel Macron. Mas o “capitalismo domesticado” não é menos destrutivo. Ele impulsionou o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), a maior traição à classe trabalhadora americana desde o  Ato Taft-Hartley de 1947, que impôs restrições paralisantes à organização sindical. Ele revogou o Banking Act de 1933 (Glass-Steagall), que separava os bancos comerciais dos bancos de investimento. A derrubada do firewall entre os bancos comerciais e de investimento levou ao colapso financeiro global em 2007 e 2008, incluindo o  colapso  de quase 500 bancos. Ele impulsionou a eliminação da Doutrina da Justiça pela Comissão Federal de Comunicações sob Ronald Reagan, bem como o Ato de Telecomunicações sob a presidência de Bill Clinton, permitindo que um punhado de  corporações  consolidasse o controle dos meios de comunicação. Ele  destruiu  o antigo sistema de bem-estar social,  70 por cento  dos beneficiários do qual eram crianças. Ela dobrou nossa população carcerária e militarizou a polícia. No processo de mudança da manufatura para países como México, Bangladesh e China, onde os trabalhadores trabalham em fábricas clandestinas, 30 milhões de americanos foram submetidos a demissões em massa,  de acordo com  números compilados pelo Labor Institute. Enquanto isso, ela acumulou déficits enormes — o déficit orçamentário federal  subiu  para US$ 1,8 trilhão em 2024, com a dívida nacional total se aproximando de US$ 36 trilhões — e negligenciou nossa infraestrutura básica, incluindo redes elétricas, estradas, pontes e transporte público, enquanto gastava mais em nossas forças armadas do que todas as outras grandes potências da Terra juntas.

Essas duas formas de capitalismo são espécies de capitalismo totalitário, ou o que o filósofo político  Sheldon Wolin  chama de “totalitarismo invertido”. Em cada forma de capitalismo, os direitos democráticos são abolidos. O público está sob vigilância constante. Os sindicatos são desmantelados ou desarmados. A mídia serve aos poderosos e as vozes dissidentes são silenciadas ou criminalizadas. Tudo é mercantilizado, do mundo natural aos nossos relacionamentos. Os movimentos populares e de base são proibidos. O ecocídio continua. A política é  burlesca.

A servidão por dívida e a estagnação salarial garantem o controle político e a consolidação adicional da riqueza. Bancos e financiadores corporativos escravizam não apenas indivíduos com servidão por dívida, mas também cidades, municípios, estados e o governo federal. O aumento das taxas de juros, juntamente com o declínio das receitas públicas, especialmente por meio de impostos, é uma maneira de extrair os últimos pedaços de capital dos cidadãos, bem como do governo. Uma vez que indivíduos, estados ou agências federais não podem pagar suas contas — e para muitos americanos isso geralmente significa contas médicas — os ativos são vendidos para corporações ou apreendidos. Terras, propriedades e infraestrutura públicas, juntamente com planos de pensão, são privatizados. Indivíduos são expulsos de suas casas e entram em dificuldades financeiras e pessoais.

“O chefe do Goldman Sachs veio e disse que os trabalhadores do Goldman Sachs são os mais produtivos do mundo”, me disse o economista  Michael Hudson  , autor de  Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Destroy the Global Economy. “É por isso que eles são pagos como são. O conceito de produtividade na América é a renda dividida pelo trabalho. Então, se você é o Goldman Sachs e paga a si mesmo US$ 20 milhões por ano em salário e bônus, considera-se que você adicionou US$ 20 milhões ao PIB, e isso é enormemente produtivo. Então, estamos falando de tautologia. Estamos falando de raciocínio circular aqui.”

“Então a questão é se o Goldman Sachs, Wall Street e as empresas farmacêuticas predatórias realmente adicionam ‘produto’ ou se estão apenas explorando outras pessoas”, ele continuou. “É por isso que usei a palavra parasitismo no título do meu livro. As pessoas pensam em um parasita como simplesmente tirando dinheiro, tirando sangue de um hospedeiro ou tirando dinheiro da economia. Mas na natureza é muito mais complicado. O parasita não pode simplesmente entrar e pegar algo. Primeiro, ele precisa anestesiar o hospedeiro. Ele tem uma enzima para que o hospedeiro não perceba que o parasita está lá. E então os parasitas têm outra enzima que assume o cérebro do hospedeiro. Ela faz o hospedeiro imaginar que o parasita é parte de seu próprio corpo, na verdade parte de si mesmo e, portanto, deve ser protegido. Isso é basicamente o que Wall Street fez. Ele se descreve como parte da economia. Não como um envoltório em torno dela, não como externo a ela, mas na verdade a parte que está ajudando o corpo a crescer, e que na verdade é responsável pela maior parte do crescimento. Mas na verdade é o parasita que está tomando conta do crescimento.”

“O resultado é uma inversão da economia clássica”, disse Hudson. “Ela vira Adam Smith de cabeça para baixo. Ela diz que o que os economistas clássicos disseram ser improdutivo – parasitismo – na verdade é a economia real. E que os parasitas são o trabalho e a indústria que atrapalham o que o parasita quer – que é se reproduzir, não ajudar o hospedeiro, isto é, o trabalho e o capital.”

A Weimarização da classe trabalhadora americana é intencional. Trata-se de criar um mundo de senhores e servos, de elites oligárquicas e corporativas empoderadas e um público desempoderado. E não é apenas nossa riqueza que nos é tirada. É nossa liberdade. O chamado mercado autorregulado, como escreve o economista  Karl Polanyi  em “The Great Transformation”, sempre termina com o capitalismo mafioso e um sistema político mafioso. Um sistema de autorregulação, alerta Polanyi, leva à “demolição da sociedade”.

Se você votar em Harris ou Trump — não tenho intenção de votar em nenhum candidato que sustente o  genocídio  em Gaza — você está votando em uma forma de capitalismo voraz em detrimento de outra. Todas as outras questões, de direitos de armas a aborto, são tangenciais e usadas para distrair o público da guerra civil dentro do capitalismo. O pequeno círculo de poder que essas duas formas de capitalismo incorporam exclui o público. Esses são clubes de elite, clubes onde membros ricos habitam cada lado da divisão, ou às vezes vão e voltam, mas são impenetráveis ​​para pessoas de fora. 

A ironia é que a ganância desenfreada dos corporativistas, os capitalistas domesticados, criou um pequeno número de bilionários que se tornaram seus inimigos, os capitalistas senhores da guerra. Se a pilhagem não for interrompida, se não restaurarmos por meio de movimentos populares o controle sobre a economia e o sistema político, então o capitalismo senhor da guerra triunfará. Os capitalistas senhores da guerra consolidarão o neofeudalismo, enquanto o público está distraído e dividido pelas palhaçadas de palhaços assassinos como Trump. 

Não vejo nada no horizonte que possa evitar esse destino.

Trump, por enquanto, é a figura de proa do capitalismo de senhores da guerra. Mas ele não o criou, não o controla e pode ser facilmente substituído. Harris, cujos  devaneios sem sentido  podem fazer Biden parecer focado e coerente, é o terno vazio e vago que os tecnocratas adoram.

Escolha seu veneno. Destruição pelo poder corporativo ou destruição pela oligarquia. O resultado final é o mesmo. É isso que os dois partidos governantes oferecem em novembro. Nada mais. 

Fonte aqui.