Se ainda apoias Israel em 2025, algo está mal contigo como pessoa

(Caitlin Johnstone, 18/07/2025, Trad. Estátua de Sal)


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Às vezes, acho impressionante a agressividade com que os apoiantes de Israel trabalham para reprimir as críticas a Israel. Então, lembro que essas pessoas também apoiam o assassinato em massa de crianças; tentar tirar.me o direito de me exprimir é um de seus objetivos menos perversos. Tal não deveria chocar-me.

Vi alguém a falar online sobre como é insano que grupos musicais que se manifestam contra as atrocidades de Israel estejam começando a formar alianças entre si, na tentativa de neutralizar a campanha para os silenciar e destruir as suas carreiras, dizendo que não deveria ser necessário formar uma aliança para se opor a um genocídio em andamento. E é verdade, não deveria ser necessário. Mas também não devemos surpreender-nos com o facto de pessoas que acham que bombardear hospitais é aceitável, tentarem cancelar músicos por criticarem Israel.

Um erro que os ocidentais continuam a cometer é pensar nos apoiantes de Israel como pessoas normais, com padrões morais normais, só porque os conhecemos e interagimos com eles nas nossas comunidades. Eles parecem-se conosco, falam como nós, vestem-se como nós e agem como nós, então presumimos que eles também devem pensar e sentir muito como nós.

Mas não. Se tu ainda apoias Israel no ano de 2025, há algo seriamente errado contigo como pessoa. Tu não tens um senso normal e saudável de empatia e moralidade.

Estamos em 2025. Soldados israelitas estão dizendo à imprensa israelense que estão recebendo ordens para massacrar civis famintos que tentam obter comida em centros de assistência. Inúmeros médicos têm dito ao mundo que atiradores israelitas estão rotineiramente a disparar deliberadamente na cabeça e no peito de crianças em toda a Faixa de Gaza. A Amnistia Internacional a Human Rights Watch e todos os principais especialistas em genocídio autoridades de direitos humanos estão dizendo que um genocídio está a ser perpetrado em Gaza. O New York Times acabou de publicar um artigo de opinião de um estudioso sionista do genocídio que finalmente admite que se trata de um genocídio.

Não há como negar o que isso significa. Se tu ainda apoias Israel em 2025, não é porque não acredites que Israel esteja a cometer atrocidades horríveis. É porque tu acreditas que essas atrocidades horríveis são boas e queres vê-las cometidas mais vezes.

A maioria dos apoiantes de Israel negará que isso seja verdade, porque mentem. Mentem constantemente. Eles não têm problemas morais em mentir. Eles não têm problemas morais com queimar crianças vivas , então é claro que não têm problema em mentir.

É aí que as pessoas se enganam. Presume-se que os apoiantes de Israel não podem estar a mentir sobre as suas preocupações com o “antissemitismo” para promover os interesses informativos de Israel, porque ninguém poderia ser tão maligno. Mas os apoiantes de Israel acham aceitável matar bebés à fome intencionalmente, bloqueando a entrada de leite em pó em Gaza. É claro que eles são mesmo malignos.

As pessoas presumem que os apoiantes de Israel não encenariam deliberadamente falsos incidentes antissemitas ou inflacionariam artificialmente os números do antissemitismo  nos seus próprios países para que os seus governos implementassem medidas autoritárias para reprimir as críticas a Israel em nome do combate ao antissemitismo, porque presumem que ninguém poderia ser tão depravado. Mas essas pessoas acham aceitável que as Forças de Defesa de Israel (IDF) assassinem sistematicamente jornalistas palestinianos para os impedir de dizer a verdade. É claro que eles são mesmo depravados.

Claro que tentariam silenciar a nossa voz. Claro que tentariam mandar os nossos filhos para a guerra com o Irão. Claro que se esforçariam por manipular o nosso governo. Claro que poluiriam o ecossistema de informação com montanhas de mentiras. Eles apoiam um genocídio transmitido ao vivo. São pessoas más.

Apoiar Israel e suas ações não é uma opinião política como a sua posição sobre impostos sobre a propriedade ou a legalização da maconha. Não se trata apenas de algumas pessoas terem um ponto de vista que precisamos respeitar e tratar como igual ao nosso sobre o assunto. Elas estão a trabalhar para tornar possível a condução de uma campanha de extermínio de horror insondável. Isso é tão político quanto uma violação coletiva, e igualmente digno de respeito.

Não há realmente nada que se possa ignorar em relação aos apoiantes de Israel neste momento. Eles vão mentir. Eles vão manipular. Eles vão fingir acreditar em coisas em que não acreditam. Eles vão fingir sentir coisas que não sentem. E farão tudo isso para facilitar algumas das piores atrocidades que se possa imaginar.

É isso que os apoiantes de Israel são. Eles mostram quem são todos os dias.

Fonte aqui.

A necessidade de pensar o impensável

(Boaventura Sousa Santos, in Meer.com, 09/06/2025)

Judeus ortodoxos em frente à Downing Street protestando em solidariedade com a Palestina

Já publicámos aqui muito bons textos, mas permitam-me que sublinhe a qualidade e a atualidade deste trabalho. Se mais pensadores existissem com a capacidade de reflectir aqui evidenciada, e admitindo poderem ser as suas ideias divulgados com profusão, e o mundo seria um lugar mais amistoso e habitável. Parabéns ao Boaventura Sousa Santos de quem tive o prazer de ter sido aluno, na já longínqua década de 70 do século passado.

Estátua de Sal, 12/06/2025)


Torna-se impensável pensar que enquanto o Nazismo foi a grande incarnação do mal no século XX, o Sionismo é a grande incarnação do mal no século XXI. Torna-se impensável que as grandes vítimas se tenham transformado, no tempo exacto de um século, nos grandes agressores.


Este título não é uma proposta contraditória. É um apelo a que des-pensemos muito do que nos habituámos a pensar para poder enfrentar o maior desafio de sempre: o perigo de deixar de pensar. Novalis estava certo quando escreveu Die Philosophie ist eigentlich Heimweh, ein Trieb überall zu Hause zu sein (Na verdade, a filosofia é saudade, uma pulsão para se estar em casa em qualquer parte).

Por filosofia entendo todo o pensamento estruturado pela busca da verdade sem recurso a tecnologias que, em vez de se manter nos limites de instrumentos para ajudar o pensamento a pensar, pelo contrário, procuram substituir-se ao pensamento. Se deixarmos de pensar, equivale a sermos expulsos de casa e a vaguear sem abrigo nem sentido num mundo caótico e distópico de monstros engravatados que nos governarão em palácios de luxo e converterão em lixo tudo o que se interpuser no trânsito das suas viaturas híper-blindadas contra a busca da verdade.

O perigo iminente é que deixemos de ser seres pensantes (res cogitans de Descartes) para passarmos a ser seres pensados (res cogitata). Ser pensado é ter deixado de pensar, quer por não ser necessário pensar para viver tranquilamente nesta sociedade, quer por ser tão perigoso pensar que equivale ao risco iminente de ser morto ou, em alternativa, de se suicidar. Eis os perigos mais imediatos.

O perigo de pensar que os certificados da mediocridade não são válidos

Se os sistemas de educação e as universidades continuarem na senda da ignorância programada para os estudantes esquecerem tudo o que não interessa aos donos dos algoritmos e do poder, serão, em breve, lares para idosos de tenra idade onde aprendem o que já sabem há muito graças à magnanimidade das redes sociais, e onde o conforto e o isolamento do mundo real são fundamentais para os preparar para uma morte serena, isto é, para viverem nas bolhas onde toda a gente vive morta sem saber.

E viverão certamente com o mesmo conforto que aprenderam e, por isso, tudo o que fizerem ou ordenarem tem a marca da objectividade. Estou certo de que, quando tal acontece, os deuses e as deusas devem levar mãos à cabeça, tapar os olhos para não ver e os ouvidos para não ouvir. Mas como tal desastre não os afecta, continuarão imperturbados nos seus afazeres divinos. O problema para a humanidade e para a natureza é que, quando os medíocres conseguem provar o que são, a sua objectividade é, afinal, abjectividade. É próprio da mediocridade não poder confrontar-se consigo mesmo, precisamente por ser medíocre.

O perigo de pensar que as liberdades autorizadas são uma fracção das liberdades possíveis

Esta sociedade permite-nos ser intransigentes com a mediocridade desde que sigamos no caminho traçado pelos medíocres; sermos intransigentes contra a corrupção, desde que aceitemos ser governados por corruptos; sermos radicais, desde que cegos para sermos facilmente atropelados pelo trânsito dos tanques civis e militares; sermos ousados, desde que inexactos ou descuidados num detalhe para sermos duramente criticados e cancelados pelos guardadores da normalidade; sermos lúcidos na denúncia da hipocrisia, desde que convivamos amigavelmente com os hipócritas; sermos jovens desde que drogados para nos esgotarmos em criatividades e rebeldias inócuas e autodestrutivas; sermos velhos, desde que murmurando uma sabedoria que ninguém tem paciência para ouvir ou entender. Esta sociedade é um monstro de Goya porque a razão dorme um sono profundo.

O perigo de pensar que o que se vê é, de facto, horroroso

O horror vivido pela maior parte da humanidade, diariamente, sempre diferente e sempre igual, desmente tudo o que pensámos sobre o progresso da humanidade. O horror, quando pensado a fundo, corre o risco de ser horror vivido por solidariedade com quem o sofre. Isso obrigaria a ir para a luta concreta no socorro, no estancamento da morte inocente, na destituição dos governantes cúmplices com a morte inocente. Mas como isso dá trabalho e obriga a riscos tão graves quanto desnecessários, o melhor é não pensar, não saber, fingir não saber, admitir que talvez seja um mal-entendido.

O genocídio do povo palestiniano, transmitido em directo todos os dias, é a primeira guerra conduzida conscientemente contra mulheres e crianças, os dois inimigos principais de uma limpeza étnica perfeita. Tem toda a lógica. Lógica e o apoio activo dos nossos governantes democratas.

Tal como Himmler, arquitecto do holocausto, entrava em casa à noite pela porta traseira para não acordar o seu canário de estimação, os arquitectos do genocídio de hoje fazem uma pausa no morticínio para fazer as suas orações e ajudar os filhos nos trabalhos de casa. Isto degrada a tal ponto o que resta de humanidade na nossa raiva impotente que o horror de pensar tem de se reduzir a pensar o horror sem correr o risco de o viver por solidariedade.

Torna-se impensável pensar que enquanto o Nazismo foi a grande incarnação do mal no século XX, o Sionismo é a grande incarnação do mal no século XXI. Torna-se impensável que as grandes vítimas se tenham transformado, no tempo exacto de um século, nos grandes agressores. Torna-se impensável pensar que, tal como não teve êxito a solução final contra eles por parte dos Nazis, também eles não terão êxito na solução final que pretendem infligir ao povo palestiniano. E como tudo isto é impensável, é melhor mudar de canal e voltar às redes sociais ou comentar o trágico-cómico entretenimento das zangas entre dois gorilas, Donald Trump e Elon Musk (sem ofensa aos gorilas).

O perigo de pensar que a comida mental está na mesa e que quem não comer morre de fome

A Inteligência artificial (IA) nada cria nem transforma. Apenas acumula e sintetiza segundo critérios opacos apenas acessíveis aos donos dos programas dos algoritmos, isto é, aos donos do mundo. A inteligência artificial refere-se a máquinas que executam tarefas cognitivas como pensar, perceber, aprender, resolver problemas e tomar decisões. Não é a primeira vez que se atribui inteligência a máquinas. Na década de 1950 era comum designar os computadores emergentes como “cérebros electrónicos”. Actualmente, a maioria das aplicações populares de IA – o reconhecimento de voz e imagem, o processamento de linguagem natural, a publicidade direccionada, a manutenção preditiva de máquinas, carros sem condutor e drones – envolve a capacidade das máquinas para aprenderem com os dados sem serem explicitamente programadas.

Trata-se de uma mudança de paradigma na tecnologia informática. O que vai realmente fazer a diferença na corrida às aplicações de IA é a disponibilidade de dados; o elemento crítico é a abundância de dados. Mais dados conduzem a melhores produtos, o que, por sua vez, atrai mais utilizadores, que geram mais dados para melhorar ainda mais o produto. A escala de dados necessária para desenvolver aplicações avançadas de IA é a base do impacto da centralização e monopolização da IA. As grandes empresas americanas de tecnologia lideram o mundo em aplicações de IA, mas a China é um gigante em ascensão. Isto conduz a um duopólio da inovação da IA: EUA e China.

A IA é o caso paradigmático de uma tecnologia que visa ultrapassar os limites do instrumento que ajuda a pensar para se transformar no pensador que dispensa e substitui o pensador humano. A vertigem da sua ilimitada expansão está a entrar em todos os domínios da actividade humana, da medicina ao direito, da comunicação à guerra, da educação aos mercados financeiros. O que significa ser humano na época da IA?

No fundo, a IA funciona como um dispositivo estatístico, mas, devido ao número infinito de dados que gere e aos algoritmos que regem o seu funcionamento, a IA projecta a ideia de criar conhecimento a partir do nada, de inventar. Ou seja, a IA dá a impressão de funcionar como um ser humano, ainda que de forma infinitamente mais eficiente. Daí as designações utilizadas para a caracterizar – inteligência artificial, aprendizagem profunda – características até agora reservadas aos seres humanos ou, no máximo, aos seres vivos. Estas designações são utilizadas de forma metafórica, mas mostram até que ponto a IA parece estar a atingir níveis de compreensão e de transformação ainda reservados aos seres humanos.

O efeito de realidade é impressionante, porque enquanto cópia parece criativa, enquanto extractiva parece inventiva, enquanto reprodutiva parece produtiva, enquanto baseada em correlações parece oferecer novas relações. À luz da credibilidade desta “aparência”, as questões sobre o que conta como ser humano ou se a IA significa uma mudança civilizacional têm sido levantadas por pessoas em lados opostos do espectro político e ideológico.

Não gosto de citar criminosos de guerra, mas neste caso faço uma excepção para citar Henry Kissinger. Escrevia ele em 2018:

O Iluminismo procurou submeter as verdades tradicionais a uma razão humana liberta e analítica. O objetivo da Internet é ratificar o conhecimento através da acumulação e manipulação de dados em constante expansão. A cognição humana perde o seu carácter pessoal. Os indivíduos transformam-se em dados, e os dados tornam-se reinantes.

No início do texto Kissinger interrogava-se:

(…) “Qual seria o impacto na história das máquinas de auto-aprendizagem – máquinas que adquiriram conhecimento através de processos particulares a elas próprias, e aplicariam esse conhecimento a fins para os quais pode não haver nenhuma categoria de compreensão humana? Estas máquinas aprenderiam a comunicar umas com as outras? Como seriam feitas as escolhas entre as opções emergentes? Seria possível que a história da humanidade seguisse o caminho dos Incas, confrontados com uma cultura espanhola incompreensível e até inspiradora para eles? Estaríamos nós no limiar de uma nova fase da história humana?

Com Chomsky a meu lado, considero que:

a mente humana é um sistema surpreendentemente eficiente e até elegante que funciona com pequenas quantidades de informação; não procura inferir correlações brutas entre pontos de dados, mas sim criar explicações… Por muito úteis que os programas de IA possam ser nalguns domínios restritos (podem ser úteis na programação de computadores, por exemplo, ou na sugestão de rimas para versos ligeiros), sabemos pela ciência da linguística e pela filosofia do conhecimento que diferem profundamente da forma como os humanos raciocinam e utilizam a linguagem. Estas diferenças impõem limitações significativas ao que estes programas podem fazer, codificando-os com defeitos inerradicáveis…

De facto, estes programas estão presos numa fase pré-humana ou não-humana da evolução cognitiva. A sua falha mais profunda é a ausência da capacidade mais crítica de qualquer inteligência: dizer não só o que é o caso, o que foi o caso e o que será o caso – isto é descrição e previsão – mas também o que não é o caso e o que poderia e não poderia ser o caso. Estes são os ingredientes da explicação, a marca da verdadeira inteligência… O pensamento humano baseia-se em explicações possíveis e na correcção de erros, um processo que limita gradualmente as possibilidades que podem ser racionalmente consideradas.

Na sua obra-prima, O Mundo como Vontade e Representação, Schopenhauer ([1819] 2020) faz uma distinção entre talento e génio. Enquanto a pessoa talentosa alcança o que os outros não conseguem alcançar, o génio alcança o que os outros não conseguem imaginar. O génio tem uma capacidade superior de contemplação que o leva a transcender a pequenez do ego e a entrar no mundo infinito das ideias. O génio é a faculdade de permanecer no estado de perceção pura, de se perder na perceção, o poder de deixar os seus próprios interesses, desejos e objectivos inteiramente fora de vista, renunciando assim inteiramente à sua própria personalidade durante algum tempo, de modo a permanecer um puro sujeito conhecedor, com uma visão clara do mundo.

À luz disto, podemos especular com segurança que, se Schopenhauer vivesse hoje, defenderia que a IA, por muito estimulantes que sejam as suas realizações, nunca poderá atingir os patamares da possibilidade humana. No máximo, poderá atingir o nível do talento. A genialidade é inacessível à IA. O génio é o limite superior da IA. O limite inferior é a actividade humana não registada ou, melhor ainda, a actividade humana que é registada e armazenada de formas que desafiam o extractivismo de dados.

Este jogo homem-máquina deixa escapar um ponto crucial: o facto de os seres humanos não existirem em abstracto, mas sim em contextos históricos, sociais e culturais específicos. Os exercícios sobre características universais construídas abstractamente convertem características locais centradas no Ocidente, capitalistas, colonialistas e patriarcais em características universais derivadas do conhecimento “visto a partir do zero”. Os preconceitos ontológicos e políticos são assim transformados em artefactos neutros em termos de IA.

O perigo de pensarmos que o que cai fora do algoritmo não existe é a nova forma do que tenho designado por sociologia das ausências. O perigo de pensar que o algoritmo é a única comida mental ao nosso dispor é o mesmo que pensar que o hamburger da MacDonald’s é a única comida ao nosso dispor.

O perigo de pensar que o pós-humano pressupõe que já fomos plenamente humanos

Desde o início do milénio tem havido um debate sobre o pós-humano. A morte do ser humano vinha de longe: de Nietzsche, de Heidegger, de Foucault, de Barthes, de Deleuze. Mais recentemente, a ideia do pós-humano centrou-se nos seres humanos sujeitos a xenotransplantes (transplantes de células, tecidos ou órgãos de outras espécies animais) ou vivendo com objectos tecnológicos inseridos no seu corpo. A ideia do pós-humanismo implica a crítica do antropocentrismo, a negação de qualquer privilégio ao ser humano no conjunto dos seres viventes do planeta.

Não vou neste texto discutir os méritos desta concepção. O que me interessa questionar é ideia de humano que subjaz à de pós-humano. É uma ideia substantivista e abstracta que pressupõe a existência prévia de uma natureza humana mais ou menos fixa. De resto, a questão de saber se há ou não uma natureza humana não é a questão que me preocupa. É antes a ideia de que os seres humanos foram sempre tratados como seres privilegiados e abstractamente iguais.

O perigo de pensar que, na verdade, isso nunca aconteceu na era moderna é um dos mais aterradores para a boa consciência liberal que formou a nossa consciência desde o século XVII. Ao longo dos anos, tenho mostrado que, com o colonialismo histórico, se traçou uma linha abissal, tão radical quanto radicalmente invisível, entre os seres tratados como seres plenamente humanos (a zona metropolitana) e seres tratados como seres sub-humanos (a zona colonial).

Essa linha abissal dura até hoje e a sub-humanidade que ela desenha abrange mais populações no mundo que durante o período do colonialismo histórico. Que o digam os imigrantes deportados com algemas e enviados para campos de concentração em El Salvador e em outros lugares de que um dia teremos notícia. Ou os camponeses da República Democrática do Congo martirizados pela maldição do lítio e dos minerais raros. O espectro da sub-humanidade paira sobre cada um de nós.

De um momento para o outro, como previa Brecht, pode caber a qualquer de nós ser atirado para a zona colonial onde as declarações universais dos direitos humanos e as garantias constitucionais não são mais que mentiras piedosas. Pensar que isto é um retrocesso é pensar que houve progresso. Claro que houve progressos, mas não houve Progresso com P maiúsculo.

Todos estes perigos obrigam a uma tarefa de des-pensar e de desaprender antes que seja possível dar sentido ao que não tem sentido.

Fonte aqui

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Descobriram uma limpeza étnica? Tem 80 anos…

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 07/02/2025)


A transformação de Gaza, ou pelo menos a sua costa, em empreendimentos habitacionais e turísticos fechados já foi testada e esteve em vigor durante quase um quarto de século. 


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O boçal pato-bravo de negócios globais em comissão de serviço na Presidência dos Estados Unidos da América, Donald Trump, ignorando ostensivamente os filtros do cinismo político dominante e assumindo a ganância inerente ao seu empreendedorismo, deitou os olhos gulosos à costa mediterrânica da Faixa de Gaza e deduziu que ali se poderia construir uma nova, paradisíaca e altamente lucrativa «Riviera».

Sem o saber, ou talvez tentando desde já marcar posição, o construtor civil-presidente entrou nos terrenos entretanto reclamados pelos colonos sionistas, já que estes há muito tempo reivindicam o regresso à Faixa de Gaza para explorarem o paraíso segundo os seus próprios interesses.

A transformação de Gaza, ou pelo menos a sua costa, em empreendimentos habitacionais e turísticos fechados já foi testada e esteve em vigor durante quase um quarto de século. Os 19 colonatos sionistas existentes na Faixa de Gaza entre 1982 e 2006 eram condomínios privados e de luxo, protegidos pela tropa de Israel;  ocupavam 120 quilómetros quadrados, um terço do território, com sete mil habitantes e uma densidade próxima de 60 habitantes por quilómetro quadrado. Cerca de milhão e meio de palestinianos viviam então em dois terços do enclave, sem acesso ao mar e com uma densidade brutal de sete mil habitantes por quilómetro quadrado, a mais elevada do mundo, a grande distância. A título de exemplo, a densidade da Índia é de 500 habitantes por quilómetro quadrado, a da China é de 145 e a de Portugal é de 115.

Em 2006, o criminoso de guerra Ariel Sharon, então primeiro-ministro, mandou evacuar os colonatos de Gaza, não por qualquer acesso anti-colonização, mas porque pretendia iniciar as ofensivas terroristas regulares contra o território, continuadas por Netanyahu,  e não queria ter limites na envergadura das operações militares por nele habitarem sionistas.

Em termos gerais, poderia haver um impedimento concreto a resolver para que o plano de Trump se concretizasse. No enclave viviam até há pouco, antes de Benjamin Netanyahu lançar esta nova etapa do genocídio da população original da Palestina, mais de dois milhões de pessoas. Agora há menos, mas muitas das recentemente expulsas estão a regressar, mesmo que seja para as ruínas deixadas pelos nazi-sionistas; porém, uma vez que a violação de cessar-fogo é um dos desportos em que Israel está no topo, não tarda que, mais uma vez, sejam obrigadas a seguir o caminho inverso, pelo menos as que restarem vivas.

Para Trump, afinal, não existe qualquer problema. Despacham-se os habitantes do território para países árabes, que vão ter de os acolher e integrar, talvez ignorando que este processo, a versão mais recente de «solução final», está em curso há quase oitenta anos e sem que haja integração. Ele próprio, na pessoa do genro, inventou durante a primeira administração os chamados «acordos de Abraão», que assentavam na transferência dos palestinianos de Gaza e da Cisjordânia para a península egípcia do Sinai e para uma moderníssima e imensa cidade criada de raiz, Neom, já em construção na província de Tabuk, na Arábia Saudita, ligada à citada Península do Sinai passando pelo Golfo de Aqaba e o sul da Jordânia. Para não fugir ao espírito de um dos objectivos do empreendimento e para que a construção de Neom seja concretizada em áreas despovoadas, já se processou, a mando do governo saudita, uma limpeza étnica do território, vitimando principalmente a tribo Howeitat.

Os palestinianos expulsos para Neom e o Sinai iriam servir principalmente os turistas milionários que poderiam usufruir em exclusivo das delícias do Mar Vermelho até ao Mediterrâneo. A nova «Palestina» resultaria então de uma transferência da população de Gaza e da Cisjordânia para um território desde o Sinai até à megalómana Neom.

Não digam que Trump, na sua heterodoxia político-empresarial, chamemos-lhe assim, não é um visionário. De Gaza a Sharm-el-Sheik e Neom, do Mediterrâneo ao Mar Vermelho, está na sua mente o maior e mais paradisíaco complexo turístico do planeta, acessível a meia dúzia de mafiosos que cada vez mais controlam o mundo. Não será esta uma gloriosa antecipação do espírito do globalismo, esse brilhante futuro para o qual o Ocidente tanto trabalha, mesmo que isso custe a vida e a expulsão dos locais de nascimento e residência a milhões e milhões de seres humanos?

O rei vai nu

Aqui d’El Rei, grita-se com a mesma convicção com que as chamadas democracias liberais dizem defender a «solução de dois Estados» na Palestina. Mas o rei vai nu. Todo o aranzel em torno de mais esta extravagância (para levar a sério) de Trump não passa de um fruto natural da imensa estratégia de enganos e mentiras cultivada pela política dominante para cometer as maiores atrocidades.

De alguns governos até à ONU interpretaram-se as palavras de Trump, com uma razão que não lhes pode ser negada, como a intenção de praticar uma limpeza étnica.

Sejamos sérios. Há muito que a limpeza étnica está em curso na Palestina. A «marcha da morte» de Lydda em 1948, o massacre da população das aldeias de Deir Yassin, ou o de Ramle, no mesmo ano – como exemplo das centenas de localidades palestinianas «despovoadas» na mesma altura – são episódios equivalentes ao da mortandade em curso em Gaza ou à expulsão em massa concretizada há dias em Jenin, no Norte da Cisjordânia. É o mesmo sistema, é o mesmo processo: limpeza étnica.

No fundo, estas ocorrências criminosas são uma inevitabilidade da existência da doutrina nazi, supremacista e racista do sionismo. «Uma terra sem povo para um povo sem terra» foi o primeiro princípio fundador do sionismo, há mais de 130 anos. Isto é, a Palestina estaria desabitada e à espera do povo judeu, a quem fora prometida por Deus há três mil anos, através da pena de Moisés.

A Palestina, porém, estava e está povoada por um povo multifacetado e milenar no seio do qual existia uma comunidade perfeitamente integrada de judeus palestinianos que, segundo as teses do sionismo, também faziam parte, simultaneamente, do «povo sem terra». É em mistificações como esta que se baseia a existência do Estado de Israel, que não se considera deste mundo, está acima de todos os outros e não se rege por leis terrenas mas sim pelos dogmas do Antigo Testamento, com o seu inegável cunho de crueldade. Nada disso é impeditivo de que o Estado sionista seja venerado por praticamente todos os outros do planeta, como se tivessem má consciência pelo Holocausto praticado por Hitler, horror que o sionismo sequestrou e invoca abusivamente e no qual nem só judeus foram chacinados, como reza a História que não é conhecida em Israel e nos seus principais aliados.

Uma nota imprescindível e que nunca é demais repetir. O sionismo não representa «os judeus», sejam religiosos, sejam étnicos. Os dois conjuntos, sionistas e judeus, estão longe de se sobrepor sendo que, por exemplo, não são poucos os cristãos – como os energúmenos Biden e Trump – que se proclamam sionistas.

O sionismo não tem procuração para invocar o Holocausto nem para se considerar representante de todos os judeus, muitos dos quais – quem nos diz que não é a maioria? – não se identificam com a limpeza étnica e os episódios de genocídio cometidos em seu nome e considerados indispensáveis para que se cumpra a meta do sionismo: a criação do Grande Israel, do Nilo ao Eufrates, pelo menos. Essa foi a terra prometida pelo deus dos sionistas, essa é a terra que o sionismo quer anexar, sejam quais forem os meios que tenha de utilizar. O judaísmo não se rege por esses objectivos e ambições. O sionismo é uma corrupção do judaísmo, é uma doutrina colonial, desumana e supremacista que considera os outros povos como «estrangeiros» e sem os mesmos direitos. Nada disso tem a ver com os judeus, o judaísmo e a sua imensa cultura milenar, de que sobram os grandes exemplos técnicos, científicos, económicos e artísticos – da literatura à música, da pintura, escultura e arquitectura ao cinema.

A realidade demonstrou, naturalmente, que a Palestina era habitada. Para ali se instalarem «os judeus» era necessário, portanto, expulsar os palestinianos. Uma acção que deveria fazer-se, escreveram os teóricos sionistas, para criar um Estado «com um regime de tipo europeu». A tal «única democracia do Médio Oriente», cujos resultados estão à vista.

Mas se a Palestina estava habitada, encontrou-se maneira de dar a volta à realidade e encaixá-la, à força, na doutrina sionista.

Por isso é natural ouvir os ministros israelitas de hoje e de ontem, militantes da extrema-direita, fanáticos religiosos ou colonos sem quaisquer raízes na Palestina – alguns nem são judeus, na verdadeira acepção da palavra –  afirmar que os palestinianos «não são humanos»; ou são «bárbaros», ou «animais», ou «selvagens», ou «sub-humanos»; ou «os palestinianos e os outros “goyim” (estrangeiros e não-judeus) têm a alma mais próxima da alma dos animais do que da alma de um judeu», leia-se, neste caso, de um sionista. Em suma, seres inferiores que devem ser escorraçados para que se cumpra «a vontade de Deus» e, finalmente, aquela terra prometida seja santificada.

Donald Trump enunciou, afinal, com palavras cruas, brutas e inconvenientes para as más consciências, principalmente as ocidentais, um conceito que é inerente ao sionismo, que não ao judaísmo.

Escândalo com o resort de Trump em Gaza? Afinal é mais um episódio de uma limpeza étnica a que o mundo assiste, às vezes palavroso, mas sempre impávido e sereno, há quase 80 anos. Uns governos e coisas do tipo da União Europeia insistem, como um mantra, na «solução de dois Estados» sem mexer um dedo para isso; outros manifestam solidariedade com a Palestina e os palestinianos e ou não têm influência ou acham que assim cumprem o seu dever; a ONU arrisca algumas palavras mais acrimoniosas mas tem a faca e o queijo na mão para fazer cumprir leis que aprovou e não respeita; para aplicar resoluções que ignora e armazena umas atrás das outras, transformadas em arqueologia diplomática e do direito internacional. Tem as suas «forças de paz», que prefere utilizar como tropas coloniais; representa todos os países do planeta mas tem medo de Israel, além de ser incapaz de denunciar o conceito nocivo e tóxico de sionismo. Teve coragem e autoridade suficientes para impor sanções contra o regime de apartheid na África do Sul, mas não consegue ou não quer fazer o mesmo contra o apartheid em Israel

Escândalo com a franqueza de Trump? Talvez motive alguns dirigentes influentes a chocar-se com a ligeireza com que o presidente norte-americano aborda o destino pretendido para os palestinianos e a pensar a sério naqueles seres humanos que lutam para sobreviver no inferno de Gaza em degradantes campos de refugiados e cidades e aldeias arrasadas; e que não podem sequer, por causa do «direito à existência» do Estado sionista, pisar a areia das praias, pescar artesanalmente ou banhar-se nas tépidas águas mediterrânicas.

Há pelo menos alguma agitação nos meios políticos e mediáticos, sem dúvida, também porque Trump, pelo seu fascismo indisfarçado, é o bombo da festa das castas políticas hipócritas e bem falantes, apesar de a sua doutrina económica e política, na prática, ser a mesma que guia os nossos dirigentes neoliberais. E se Biden tivesse pronunciado as mesmas palavras que Trump? Seria um presidente criativo ao propor uma solução eficaz para o problema de Gaza? Ou apenas mais um cristão sionista cúmplice de genocídio e limpeza étnica? Fica a dúvida.

Mais vale tarde do que nunca, dir-se-á a propósito do alarido. Neste caso é difícil que o aforismo seja verdadeiro. Trump e o seu confidente Benjamin Netanyahu – que, sejamos sinceros, ganhou uma nova vida porque os seus chacras não alinhavam muito bem com os de Biden – prosseguirão a saga iniciada no primeiro mandato do mega pato-bravo e potenciarão sinergias genocidas contra o povo palestiniano; o mundo em redor, principalmente a Ocidente, regressará à passividade do costume, incapaz ou sem querer ir além das palavras. Os palestinianos continuarão sozinhos e desprotegidos, mesmo com a sua inesgotável capacidade de luta e resistência, tendo apenas ao seu lado a solidariedade planetária de cidadãos e organizações cívicas capazes de lhes dar algum alento e cuja eficácia dos esforços em desenvolvimento é cada vez mais notável.

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Esclarecimento preventivo

Este texto não é antissemita, apenas desobedece ao decreto sionista que pretende fazer equivaler, mais uma vez abusivamente, o conceito de antissemitismo ao exercício saudável e democrático da crítica à doutrina sionista e aos comportamentos do Estado de Israel. O sionismo é, na teoria e na prática, o conceito mais antissemita aplicado à face do planeta pois define como antissemitas os outros povos semitas, designadamente os palestinianos e até comunidades judaicas da Palestina contrárias à existência do Estado de Israel. Quanto aos governos ocidentais que aceitam a definição sionista de antissemitismo, pretendendo até criminalizar os desobedientes e impô-la no quadro da opinião única, não passam, eles próprios, de antissemitas.

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