Quando a «nossa civilização» zurra

(Por José Goulão, in SCF, 16/12/2025)


Roubar bens a populações sob ocupação é um crime de guerra, de acordo com as convenções internacionais.


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Menahem Begin, distinto Premio Nobel da Paz e primeiro-ministro de Israel entre 1977 e 1983, depois de ter chefiado o grupo terrorista Irgun e iniciado a sua militância político-paramilitar em grupos sionistas integrados na marinha fascista de Mussolini, costumava dizer que “os palestinianos são animais que caminham sobre duas patas”.

O sionismo, como doutrina racista e supremacista de inspiração divina e reverenciada por quase todos os dirigentes mundiais, recorre com frequência a este padrão zoológico para vincar a superioridade do “povo eleito” sobre todos os outros povos à face da terra, aglutinados na amálgama dos “estrangeiros”, designados “goiym” em língua hebraica. “Os goiym”, dizia o ex-ministro israelita e fundador do partido governamental Shass, Ovadia Yussef, “nasceram para nos servir, para servir o povo de Israel, senão não teriam lugar no mundo”. Não temos de nos surpreender, portanto, quando Yoav Gallant, ministro da Defesa de governos de Netanyahu, afirma que “em Gaza estamos a lutar contra animais humanos e agindo em conformidade”; ou quando o ex-primeiro ministro israelita Naftali Bennett dizia a membros da delegação palestiniana participante nas “negociações de paz” que “ainda vocês trepavam às árvores e já nós tínhamos um Estado”.

Acontecimentos muito recentes, e cuja ocorrência foi devidamente confirmada, ainda que não tenham merecido a atenção da máquina globalista da comunicação social, ajudam-nos a compreender mais a fundo as particularidades zoológicas do sionismo. Uma delas diz-nos que, aos olhos do exército e do governo de Israel, existe uma diferença determinante entre os animais de duas patas e os de quatro patas, neste caso favorável aos quadrúpedes.

Exemplos exaltantes

Exemplos desta opção começam a abundar. Centenas de burros têm sido retirados da Faixa de Gaza pelas tropas de Israel, sobretudo nas áreas que continuam a ocupar depois de iniciada a farsa mais recente de “cessar-fogo”; alguns desses animais são transportados carinhosamente, e com um máximo de cuidados, para países da Europa – sobretudo Bélgica, França e Alemanha – depois de acolhidos em instalações construídas pelas Forças de Defesa de Israel – administradas por uma organização designada “Starting Over Sanctuary (SOS)”, situada em Moshav Harat, ao sul de Telavive.

As informações foram dadas pela estação israelita KAN e reproduzidas em outros meios israelitas e europeus, designadamente o Allgemeine Zeitung da Alemanha e o website Jewish News, em ambos os casos através de narrativas empolgantes e comoventes.

A organização israelita de acolhimento “SOS” informa que, numa primeira fase, depois de transferidos da Faixa de Gaza os burros são tratados de “traumas psicológicos”, uma vez que, segundo as tropas israelitas, foi necessário salvá-los de “doenças e negligência”.

Ainda segundo a “SOS”, desde os acontecimentos de 7 de Outubro de 2023 já foram acolhidos no “Santuário” cerca de 1200 jericos, tornando-se beneficiários desta iniciativa tão generosa como humanista e assim poupados aos bombardeamentos e às incursões selváticas das tropas sionistas.

De acordo com outras fontes, que não a “SOS” ou as Forças de Defesa de Israel, desde que o exército sionista iniciou a actual fase de guerra e genocídio contra a população do enclave, precisamente no mesmo dia 7 de Outubro de 2023, foram mortas cerca de 70 mil pessoas, um terço das quais crianças. Trata-se, porém, dos tais “animais de duas patas” – voltando a citar Menahem Begin – ou então “de um povo semi-selvagem com conceitos extremamente primitivos”, de acordo com a doutrina sionista tal como foi exposta pelo escritor israelita Moshe Smilansky. As estatísticas são omissas, porém, quanto ao número de burros vitimados durante o mesmo período.

Europa de portas abertas aos burros

Preocupada em permanência com os direitos humanos, e neste caso dos burros, a Europa, na sua versão União Europeia, assumiu parte da tarefa de resgatar, tratar e proporcionar excelente qualidade de vida aos animais extraídos de Gaza. Os mesmos meios de comunicação atrás citados revelam que, em Maio deste ano de 2025, 58 burros foram transportados do “Santuário” israelita para o aeroporto de Liège, na Bélgica, onde descansaram durante uma noite antes de seguirem viagem para os seus destinos em território belga e em França, na região de Chartres. À chegada a terra francesa a comitiva de jericos foi saudada como “um símbolo de compaixão e civilidade”, de acordo com pessoas que acorreram para presenciar a cerimónia.

A “Network for Animals”, organização britânica responsável pela logística do complexo processo de salvação e transporte, garantiu que os animais, vítimas de “guerra e abusos”, viajaram em condições que lhes permitiram uma “transição sem stress”. Nos dias em que decorreu a operação, o exército israelita chacinou cerca de dois mil palestinianos em Gaza.

O jornal alemão Allgemeine Zeitung noticiou que nos arredores da cidade de Oppenheim foram recebidos, em Outubro último, quatro burros de Gaza que passaram igualmente pelo “Santuário” israelita depois de poupados à guerra pelos próprios soldados invasores. Anna, Greta, Elsa e Rudi, três burricas e um burro, foram acolhidos em condições que lhes permitem recuperar do “trauma psicológico” e “do stress”; além de lhes garantirem beneficiar de instalações climatizadas para que não sofram os efeitos nocivos da transição de um clima quente para ambientes mais frios.

Poucas semanas antes de os burros serem recebidos em território alemão, o governo de Berlim recusara-se a receber para tratamento cerca de 20 crianças palestinianas que foram vítimas de ferimentos graves em Gaza, decorrentes da agressão israelita. Ao invés, além dos burros, o executivo da Alemanha acolhe automaticamente qualquer cidadão israelita que ali queira permanecer, e que recebe automaticamente o estatuto de “hóspede alemão”.

A cooperação entre Israel e Estados da União Europeia para salvação dos burros de Gaza, e também da Cisjordânia, é uma consequência da cultura humanista e de respeito pelos direitos humanos que se pratica em ambas as geografias.

Não esqueçamos que desde a sua origem, e tal como é recordado, a cada passo, pelo primeiro ministro israelita, Benjamin Netanyahu, o sionismo e o Estado de Israel representam “a nossa civilização” na região do Médio Oriente povoada por “bárbaros”.

O ex-chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, tornou-se notado por dizer algo equivalente ao lançar o alerta de que o “jardim” onde usufruímos da “nossa civilização” superior está cada vez mais cercado e ameaçado de destruição por bárbaros oriundos do resto do mundo. Israel tudo faz para ser um bastião de defesa desse “jardim”, designadamente enriquecendo-o com burros também eles sofrendo as consequências do terror que está na massa do sangue desses mesmos bárbaros.

Nenhuma das publicações citadas se incomodou com isso, mas os burros estão a ser roubados aos seus legítimos proprietários, que deles necessitam para tentar sobreviver.

Num território que funciona como um campo de concentração, onde continua a faltar tudo o que é essencial – água, energia eléctrica, alimentos, cuidados de saúde, habitação, escolas e o resto – devido à agressão arrasadora e contínua das tropas israelitas, o burro tornou-se um animal indispensável ao ser humano para sua própria sobrevivência. Não já para os trabalhos agrícolas e a vida rural, que deixaram de existir, mas por serem, em muitas ocasiões, o único transporte de pessoas e bens na busca meios de subsistência e para as longas e penosas marchas a que as populações são submetidas durante os permanentes e forçados êxodos internos. A tropa israelita chama a isto “guerra, abusos e negligência” contra burros inocentes, enquanto chacina pessoas por atacado. Além de uma prática cleptómana, porém, sequestrar os burros às populações de Gaza é uma actividade cínica e cruel que contribui com a sua parte para a enorme operação de genocídio.

Não consta ainda, mas tudo leva a crer, que Ventura & Montenegro estejam a tratar de montar instalações convenientemente equipadas para que Portugal possa cumprir a sua quota parte no acolhimento dos burros salvos do inferno de Gaza.

No fim de contas, os jericos são uma outra espécie de imigrantes, bem mais benévola e irrepreensível, aos quais se devem franquear as portas do país, ainda que haja alguns custos para o erário público. É certo que não podem nem têm a obrigação de trabalhar – devem usufruir de merecida reforma depois da “guerra, negligência e abusos” sofridos na sua terra – mas não transportam com eles os vícios e as malquerenças daqueles povos que não querem sair da barbárie e, ainda por cima, invejosos e mal formados como são, pretendem aniquilar a “nossa civilização”. Os burros imigrantes apenas dão coices e zurram, mas sempre que o fazem é porque têm razões para isso, além de ser um direito inalienável e uma manifestação de liberdade de opinião.

Existe, porém, um pormenor que não tem sido levado em conta nestes esforços humanitários. Roubar bens a populações sob ocupação é um crime de guerra, de acordo com as convenções internacionais. Mas quem iria lembrar-se dessas velharias quando se trata de salvar uns pobres burricos entre pilhas de cadáveres humanos? Só os bárbaros, por certo.

Fonte aqui

Se ainda apoias Israel em 2025, algo está mal contigo como pessoa

(Caitlin Johnstone, 18/07/2025, Trad. Estátua de Sal)


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Às vezes, acho impressionante a agressividade com que os apoiantes de Israel trabalham para reprimir as críticas a Israel. Então, lembro que essas pessoas também apoiam o assassinato em massa de crianças; tentar tirar.me o direito de me exprimir é um de seus objetivos menos perversos. Tal não deveria chocar-me.

Vi alguém a falar online sobre como é insano que grupos musicais que se manifestam contra as atrocidades de Israel estejam começando a formar alianças entre si, na tentativa de neutralizar a campanha para os silenciar e destruir as suas carreiras, dizendo que não deveria ser necessário formar uma aliança para se opor a um genocídio em andamento. E é verdade, não deveria ser necessário. Mas também não devemos surpreender-nos com o facto de pessoas que acham que bombardear hospitais é aceitável, tentarem cancelar músicos por criticarem Israel.

Um erro que os ocidentais continuam a cometer é pensar nos apoiantes de Israel como pessoas normais, com padrões morais normais, só porque os conhecemos e interagimos com eles nas nossas comunidades. Eles parecem-se conosco, falam como nós, vestem-se como nós e agem como nós, então presumimos que eles também devem pensar e sentir muito como nós.

Mas não. Se tu ainda apoias Israel no ano de 2025, há algo seriamente errado contigo como pessoa. Tu não tens um senso normal e saudável de empatia e moralidade.

Estamos em 2025. Soldados israelitas estão dizendo à imprensa israelense que estão recebendo ordens para massacrar civis famintos que tentam obter comida em centros de assistência. Inúmeros médicos têm dito ao mundo que atiradores israelitas estão rotineiramente a disparar deliberadamente na cabeça e no peito de crianças em toda a Faixa de Gaza. A Amnistia Internacional , a Human Rights Watch e todos os principais especialistas em genocídio e autoridades de direitos humanos estão dizendo que um genocídio está a ser perpetrado em Gaza. O New York Times acabou de publicar um artigo de opinião de um estudioso sionista do genocídio que finalmente admite que se trata de um genocídio.

Não há como negar o que isso significa. Se tu ainda apoias Israel em 2025, não é porque não acredites que Israel esteja a cometer atrocidades horríveis. É porque tu acreditas que essas atrocidades horríveis são boas e queres vê-las cometidas mais vezes.

A maioria dos apoiantes de Israel negará que isso seja verdade, porque mentem. Mentem constantemente. Eles não têm problemas morais em mentir. Eles não têm problemas morais com queimar crianças vivas , então é claro que não têm problema em mentir.

É aí que as pessoas se enganam. Presume-se que os apoiantes de Israel não podem estar a mentir sobre as suas preocupações com o “antissemitismo” para promover os interesses informativos de Israel, porque ninguém poderia ser tão maligno. Mas os apoiantes de Israel acham aceitável matar bebés à fome intencionalmente, bloqueando a entrada de leite em pó em Gaza. É claro que eles são mesmo malignos.

As pessoas presumem que os apoiantes de Israel não encenariam deliberadamente falsos incidentes antissemitas ou inflacionariam artificialmente os números do antissemitismo  nos seus próprios países para que os seus governos implementassem medidas autoritárias para reprimir as críticas a Israel em nome do combate ao antissemitismo, porque presumem que ninguém poderia ser tão depravado. Mas essas pessoas acham aceitável que as Forças de Defesa de Israel (IDF) assassinem sistematicamente jornalistas palestinianos para os impedir de dizer a verdade. É claro que eles são mesmo depravados.

Claro que tentariam silenciar a nossa voz. Claro que tentariam mandar os nossos filhos para a guerra com o Irão. Claro que se esforçariam por manipular o nosso governo. Claro que poluiriam o ecossistema de informação com montanhas de mentiras. Eles apoiam um genocídio transmitido ao vivo. São pessoas más.

Apoiar Israel e suas ações não é uma opinião política como a sua posição sobre impostos sobre a propriedade ou a legalização da maconha. Não se trata apenas de algumas pessoas terem um ponto de vista que precisamos respeitar e tratar como igual ao nosso sobre o assunto. Elas estão a trabalhar para tornar possível a condução de uma campanha de extermínio de horror insondável. Isso é tão político quanto uma violação coletiva, e igualmente digno de respeito.

Não há realmente nada que se possa ignorar em relação aos apoiantes de Israel neste momento. Eles vão mentir. Eles vão manipular. Eles vão fingir acreditar em coisas em que não acreditam. Eles vão fingir sentir coisas que não sentem. E farão tudo isso para facilitar algumas das piores atrocidades que se possa imaginar.

É isso que os apoiantes de Israel são. Eles mostram quem são todos os dias.

Fonte aqui.

A necessidade de pensar o impensável

(Boaventura Sousa Santos, in Meer.com, 09/06/2025)

Judeus ortodoxos em frente à Downing Street protestando em solidariedade com a Palestina

Já publicámos aqui muito bons textos, mas permitam-me que sublinhe a qualidade e a atualidade deste trabalho. Se mais pensadores existissem com a capacidade de reflectir aqui evidenciada, e admitindo poderem ser as suas ideias divulgados com profusão, e o mundo seria um lugar mais amistoso e habitável. Parabéns ao Boaventura Sousa Santos de quem tive o prazer de ter sido aluno, na já longínqua década de 70 do século passado.

Estátua de Sal, 12/06/2025)


Torna-se impensável pensar que enquanto o Nazismo foi a grande incarnação do mal no século XX, o Sionismo é a grande incarnação do mal no século XXI. Torna-se impensável que as grandes vítimas se tenham transformado, no tempo exacto de um século, nos grandes agressores.


Este título não é uma proposta contraditória. É um apelo a que des-pensemos muito do que nos habituámos a pensar para poder enfrentar o maior desafio de sempre: o perigo de deixar de pensar. Novalis estava certo quando escreveu Die Philosophie ist eigentlich Heimweh, ein Trieb überall zu Hause zu sein (Na verdade, a filosofia é saudade, uma pulsão para se estar em casa em qualquer parte).

Por filosofia entendo todo o pensamento estruturado pela busca da verdade sem recurso a tecnologias que, em vez de se manter nos limites de instrumentos para ajudar o pensamento a pensar, pelo contrário, procuram substituir-se ao pensamento. Se deixarmos de pensar, equivale a sermos expulsos de casa e a vaguear sem abrigo nem sentido num mundo caótico e distópico de monstros engravatados que nos governarão em palácios de luxo e converterão em lixo tudo o que se interpuser no trânsito das suas viaturas híper-blindadas contra a busca da verdade.

O perigo iminente é que deixemos de ser seres pensantes (res cogitans de Descartes) para passarmos a ser seres pensados (res cogitata). Ser pensado é ter deixado de pensar, quer por não ser necessário pensar para viver tranquilamente nesta sociedade, quer por ser tão perigoso pensar que equivale ao risco iminente de ser morto ou, em alternativa, de se suicidar. Eis os perigos mais imediatos.

O perigo de pensar que os certificados da mediocridade não são válidos

Se os sistemas de educação e as universidades continuarem na senda da ignorância programada para os estudantes esquecerem tudo o que não interessa aos donos dos algoritmos e do poder, serão, em breve, lares para idosos de tenra idade onde aprendem o que já sabem há muito graças à magnanimidade das redes sociais, e onde o conforto e o isolamento do mundo real são fundamentais para os preparar para uma morte serena, isto é, para viverem nas bolhas onde toda a gente vive morta sem saber.

E viverão certamente com o mesmo conforto que aprenderam e, por isso, tudo o que fizerem ou ordenarem tem a marca da objectividade. Estou certo de que, quando tal acontece, os deuses e as deusas devem levar mãos à cabeça, tapar os olhos para não ver e os ouvidos para não ouvir. Mas como tal desastre não os afecta, continuarão imperturbados nos seus afazeres divinos. O problema para a humanidade e para a natureza é que, quando os medíocres conseguem provar o que são, a sua objectividade é, afinal, abjectividade. É próprio da mediocridade não poder confrontar-se consigo mesmo, precisamente por ser medíocre.

O perigo de pensar que as liberdades autorizadas são uma fracção das liberdades possíveis

Esta sociedade permite-nos ser intransigentes com a mediocridade desde que sigamos no caminho traçado pelos medíocres; sermos intransigentes contra a corrupção, desde que aceitemos ser governados por corruptos; sermos radicais, desde que cegos para sermos facilmente atropelados pelo trânsito dos tanques civis e militares; sermos ousados, desde que inexactos ou descuidados num detalhe para sermos duramente criticados e cancelados pelos guardadores da normalidade; sermos lúcidos na denúncia da hipocrisia, desde que convivamos amigavelmente com os hipócritas; sermos jovens desde que drogados para nos esgotarmos em criatividades e rebeldias inócuas e autodestrutivas; sermos velhos, desde que murmurando uma sabedoria que ninguém tem paciência para ouvir ou entender. Esta sociedade é um monstro de Goya porque a razão dorme um sono profundo.

O perigo de pensar que o que se vê é, de facto, horroroso

O horror vivido pela maior parte da humanidade, diariamente, sempre diferente e sempre igual, desmente tudo o que pensámos sobre o progresso da humanidade. O horror, quando pensado a fundo, corre o risco de ser horror vivido por solidariedade com quem o sofre. Isso obrigaria a ir para a luta concreta no socorro, no estancamento da morte inocente, na destituição dos governantes cúmplices com a morte inocente. Mas como isso dá trabalho e obriga a riscos tão graves quanto desnecessários, o melhor é não pensar, não saber, fingir não saber, admitir que talvez seja um mal-entendido.

O genocídio do povo palestiniano, transmitido em directo todos os dias, é a primeira guerra conduzida conscientemente contra mulheres e crianças, os dois inimigos principais de uma limpeza étnica perfeita. Tem toda a lógica. Lógica e o apoio activo dos nossos governantes democratas.

Tal como Himmler, arquitecto do holocausto, entrava em casa à noite pela porta traseira para não acordar o seu canário de estimação, os arquitectos do genocídio de hoje fazem uma pausa no morticínio para fazer as suas orações e ajudar os filhos nos trabalhos de casa. Isto degrada a tal ponto o que resta de humanidade na nossa raiva impotente que o horror de pensar tem de se reduzir a pensar o horror sem correr o risco de o viver por solidariedade.

Torna-se impensável pensar que enquanto o Nazismo foi a grande incarnação do mal no século XX, o Sionismo é a grande incarnação do mal no século XXI. Torna-se impensável que as grandes vítimas se tenham transformado, no tempo exacto de um século, nos grandes agressores. Torna-se impensável pensar que, tal como não teve êxito a solução final contra eles por parte dos Nazis, também eles não terão êxito na solução final que pretendem infligir ao povo palestiniano. E como tudo isto é impensável, é melhor mudar de canal e voltar às redes sociais ou comentar o trágico-cómico entretenimento das zangas entre dois gorilas, Donald Trump e Elon Musk (sem ofensa aos gorilas).

O perigo de pensar que a comida mental está na mesa e que quem não comer morre de fome

A Inteligência artificial (IA) nada cria nem transforma. Apenas acumula e sintetiza segundo critérios opacos apenas acessíveis aos donos dos programas dos algoritmos, isto é, aos donos do mundo. A inteligência artificial refere-se a máquinas que executam tarefas cognitivas como pensar, perceber, aprender, resolver problemas e tomar decisões. Não é a primeira vez que se atribui inteligência a máquinas. Na década de 1950 era comum designar os computadores emergentes como “cérebros electrónicos”. Actualmente, a maioria das aplicações populares de IA – o reconhecimento de voz e imagem, o processamento de linguagem natural, a publicidade direccionada, a manutenção preditiva de máquinas, carros sem condutor e drones – envolve a capacidade das máquinas para aprenderem com os dados sem serem explicitamente programadas.

Trata-se de uma mudança de paradigma na tecnologia informática. O que vai realmente fazer a diferença na corrida às aplicações de IA é a disponibilidade de dados; o elemento crítico é a abundância de dados. Mais dados conduzem a melhores produtos, o que, por sua vez, atrai mais utilizadores, que geram mais dados para melhorar ainda mais o produto. A escala de dados necessária para desenvolver aplicações avançadas de IA é a base do impacto da centralização e monopolização da IA. As grandes empresas americanas de tecnologia lideram o mundo em aplicações de IA, mas a China é um gigante em ascensão. Isto conduz a um duopólio da inovação da IA: EUA e China.

A IA é o caso paradigmático de uma tecnologia que visa ultrapassar os limites do instrumento que ajuda a pensar para se transformar no pensador que dispensa e substitui o pensador humano. A vertigem da sua ilimitada expansão está a entrar em todos os domínios da actividade humana, da medicina ao direito, da comunicação à guerra, da educação aos mercados financeiros. O que significa ser humano na época da IA?

No fundo, a IA funciona como um dispositivo estatístico, mas, devido ao número infinito de dados que gere e aos algoritmos que regem o seu funcionamento, a IA projecta a ideia de criar conhecimento a partir do nada, de inventar. Ou seja, a IA dá a impressão de funcionar como um ser humano, ainda que de forma infinitamente mais eficiente. Daí as designações utilizadas para a caracterizar – inteligência artificial, aprendizagem profunda – características até agora reservadas aos seres humanos ou, no máximo, aos seres vivos. Estas designações são utilizadas de forma metafórica, mas mostram até que ponto a IA parece estar a atingir níveis de compreensão e de transformação ainda reservados aos seres humanos.

O efeito de realidade é impressionante, porque enquanto cópia parece criativa, enquanto extractiva parece inventiva, enquanto reprodutiva parece produtiva, enquanto baseada em correlações parece oferecer novas relações. À luz da credibilidade desta “aparência”, as questões sobre o que conta como ser humano ou se a IA significa uma mudança civilizacional têm sido levantadas por pessoas em lados opostos do espectro político e ideológico.

Não gosto de citar criminosos de guerra, mas neste caso faço uma excepção para citar Henry Kissinger. Escrevia ele em 2018:

O Iluminismo procurou submeter as verdades tradicionais a uma razão humana liberta e analítica. O objetivo da Internet é ratificar o conhecimento através da acumulação e manipulação de dados em constante expansão. A cognição humana perde o seu carácter pessoal. Os indivíduos transformam-se em dados, e os dados tornam-se reinantes.

No início do texto Kissinger interrogava-se:

(…) “Qual seria o impacto na história das máquinas de auto-aprendizagem – máquinas que adquiriram conhecimento através de processos particulares a elas próprias, e aplicariam esse conhecimento a fins para os quais pode não haver nenhuma categoria de compreensão humana? Estas máquinas aprenderiam a comunicar umas com as outras? Como seriam feitas as escolhas entre as opções emergentes? Seria possível que a história da humanidade seguisse o caminho dos Incas, confrontados com uma cultura espanhola incompreensível e até inspiradora para eles? Estaríamos nós no limiar de uma nova fase da história humana?

Com Chomsky a meu lado, considero que:

a mente humana é um sistema surpreendentemente eficiente e até elegante que funciona com pequenas quantidades de informação; não procura inferir correlações brutas entre pontos de dados, mas sim criar explicações… Por muito úteis que os programas de IA possam ser nalguns domínios restritos (podem ser úteis na programação de computadores, por exemplo, ou na sugestão de rimas para versos ligeiros), sabemos pela ciência da linguística e pela filosofia do conhecimento que diferem profundamente da forma como os humanos raciocinam e utilizam a linguagem. Estas diferenças impõem limitações significativas ao que estes programas podem fazer, codificando-os com defeitos inerradicáveis…

De facto, estes programas estão presos numa fase pré-humana ou não-humana da evolução cognitiva. A sua falha mais profunda é a ausência da capacidade mais crítica de qualquer inteligência: dizer não só o que é o caso, o que foi o caso e o que será o caso – isto é descrição e previsão – mas também o que não é o caso e o que poderia e não poderia ser o caso. Estes são os ingredientes da explicação, a marca da verdadeira inteligência… O pensamento humano baseia-se em explicações possíveis e na correcção de erros, um processo que limita gradualmente as possibilidades que podem ser racionalmente consideradas.

Na sua obra-prima, O Mundo como Vontade e Representação, Schopenhauer ([1819] 2020) faz uma distinção entre talento e génio. Enquanto a pessoa talentosa alcança o que os outros não conseguem alcançar, o génio alcança o que os outros não conseguem imaginar. O génio tem uma capacidade superior de contemplação que o leva a transcender a pequenez do ego e a entrar no mundo infinito das ideias. O génio é a faculdade de permanecer no estado de perceção pura, de se perder na perceção, o poder de deixar os seus próprios interesses, desejos e objectivos inteiramente fora de vista, renunciando assim inteiramente à sua própria personalidade durante algum tempo, de modo a permanecer um puro sujeito conhecedor, com uma visão clara do mundo.

À luz disto, podemos especular com segurança que, se Schopenhauer vivesse hoje, defenderia que a IA, por muito estimulantes que sejam as suas realizações, nunca poderá atingir os patamares da possibilidade humana. No máximo, poderá atingir o nível do talento. A genialidade é inacessível à IA. O génio é o limite superior da IA. O limite inferior é a actividade humana não registada ou, melhor ainda, a actividade humana que é registada e armazenada de formas que desafiam o extractivismo de dados.

Este jogo homem-máquina deixa escapar um ponto crucial: o facto de os seres humanos não existirem em abstracto, mas sim em contextos históricos, sociais e culturais específicos. Os exercícios sobre características universais construídas abstractamente convertem características locais centradas no Ocidente, capitalistas, colonialistas e patriarcais em características universais derivadas do conhecimento “visto a partir do zero”. Os preconceitos ontológicos e políticos são assim transformados em artefactos neutros em termos de IA.

O perigo de pensarmos que o que cai fora do algoritmo não existe é a nova forma do que tenho designado por sociologia das ausências. O perigo de pensar que o algoritmo é a única comida mental ao nosso dispor é o mesmo que pensar que o hamburger da MacDonald’s é a única comida ao nosso dispor.

O perigo de pensar que o pós-humano pressupõe que já fomos plenamente humanos

Desde o início do milénio tem havido um debate sobre o pós-humano. A morte do ser humano vinha de longe: de Nietzsche, de Heidegger, de Foucault, de Barthes, de Deleuze. Mais recentemente, a ideia do pós-humano centrou-se nos seres humanos sujeitos a xenotransplantes (transplantes de células, tecidos ou órgãos de outras espécies animais) ou vivendo com objectos tecnológicos inseridos no seu corpo. A ideia do pós-humanismo implica a crítica do antropocentrismo, a negação de qualquer privilégio ao ser humano no conjunto dos seres viventes do planeta.

Não vou neste texto discutir os méritos desta concepção. O que me interessa questionar é ideia de humano que subjaz à de pós-humano. É uma ideia substantivista e abstracta que pressupõe a existência prévia de uma natureza humana mais ou menos fixa. De resto, a questão de saber se há ou não uma natureza humana não é a questão que me preocupa. É antes a ideia de que os seres humanos foram sempre tratados como seres privilegiados e abstractamente iguais.

O perigo de pensar que, na verdade, isso nunca aconteceu na era moderna é um dos mais aterradores para a boa consciência liberal que formou a nossa consciência desde o século XVII. Ao longo dos anos, tenho mostrado que, com o colonialismo histórico, se traçou uma linha abissal, tão radical quanto radicalmente invisível, entre os seres tratados como seres plenamente humanos (a zona metropolitana) e seres tratados como seres sub-humanos (a zona colonial).

Essa linha abissal dura até hoje e a sub-humanidade que ela desenha abrange mais populações no mundo que durante o período do colonialismo histórico. Que o digam os imigrantes deportados com algemas e enviados para campos de concentração em El Salvador e em outros lugares de que um dia teremos notícia. Ou os camponeses da República Democrática do Congo martirizados pela maldição do lítio e dos minerais raros. O espectro da sub-humanidade paira sobre cada um de nós.

De um momento para o outro, como previa Brecht, pode caber a qualquer de nós ser atirado para a zona colonial onde as declarações universais dos direitos humanos e as garantias constitucionais não são mais que mentiras piedosas. Pensar que isto é um retrocesso é pensar que houve progresso. Claro que houve progressos, mas não houve Progresso com P maiúsculo.

Todos estes perigos obrigam a uma tarefa de des-pensar e de desaprender antes que seja possível dar sentido ao que não tem sentido.

Fonte aqui

A Estátua de Sal precisa da sua ajuda. Click aqui.