A necessidade de pensar o impensável

(Boaventura Sousa Santos, in Meer.com, 09/06/2025)

Judeus ortodoxos em frente à Downing Street protestando em solidariedade com a Palestina

Já publicámos aqui muito bons textos, mas permitam-me que sublinhe a qualidade e a atualidade deste trabalho. Se mais pensadores existissem com a capacidade de reflectir aqui evidenciada, e admitindo poderem ser as suas ideias divulgados com profusão, e o mundo seria um lugar mais amistoso e habitável. Parabéns ao Boaventura Sousa Santos de quem tive o prazer de ter sido aluno, na já longínqua década de 70 do século passado.

Estátua de Sal, 12/06/2025)


Torna-se impensável pensar que enquanto o Nazismo foi a grande incarnação do mal no século XX, o Sionismo é a grande incarnação do mal no século XXI. Torna-se impensável que as grandes vítimas se tenham transformado, no tempo exacto de um século, nos grandes agressores.


Este título não é uma proposta contraditória. É um apelo a que des-pensemos muito do que nos habituámos a pensar para poder enfrentar o maior desafio de sempre: o perigo de deixar de pensar. Novalis estava certo quando escreveu Die Philosophie ist eigentlich Heimweh, ein Trieb überall zu Hause zu sein (Na verdade, a filosofia é saudade, uma pulsão para se estar em casa em qualquer parte).

Por filosofia entendo todo o pensamento estruturado pela busca da verdade sem recurso a tecnologias que, em vez de se manter nos limites de instrumentos para ajudar o pensamento a pensar, pelo contrário, procuram substituir-se ao pensamento. Se deixarmos de pensar, equivale a sermos expulsos de casa e a vaguear sem abrigo nem sentido num mundo caótico e distópico de monstros engravatados que nos governarão em palácios de luxo e converterão em lixo tudo o que se interpuser no trânsito das suas viaturas híper-blindadas contra a busca da verdade.

O perigo iminente é que deixemos de ser seres pensantes (res cogitans de Descartes) para passarmos a ser seres pensados (res cogitata). Ser pensado é ter deixado de pensar, quer por não ser necessário pensar para viver tranquilamente nesta sociedade, quer por ser tão perigoso pensar que equivale ao risco iminente de ser morto ou, em alternativa, de se suicidar. Eis os perigos mais imediatos.

O perigo de pensar que os certificados da mediocridade não são válidos

Se os sistemas de educação e as universidades continuarem na senda da ignorância programada para os estudantes esquecerem tudo o que não interessa aos donos dos algoritmos e do poder, serão, em breve, lares para idosos de tenra idade onde aprendem o que já sabem há muito graças à magnanimidade das redes sociais, e onde o conforto e o isolamento do mundo real são fundamentais para os preparar para uma morte serena, isto é, para viverem nas bolhas onde toda a gente vive morta sem saber.

E viverão certamente com o mesmo conforto que aprenderam e, por isso, tudo o que fizerem ou ordenarem tem a marca da objectividade. Estou certo de que, quando tal acontece, os deuses e as deusas devem levar mãos à cabeça, tapar os olhos para não ver e os ouvidos para não ouvir. Mas como tal desastre não os afecta, continuarão imperturbados nos seus afazeres divinos. O problema para a humanidade e para a natureza é que, quando os medíocres conseguem provar o que são, a sua objectividade é, afinal, abjectividade. É próprio da mediocridade não poder confrontar-se consigo mesmo, precisamente por ser medíocre.

O perigo de pensar que as liberdades autorizadas são uma fracção das liberdades possíveis

Esta sociedade permite-nos ser intransigentes com a mediocridade desde que sigamos no caminho traçado pelos medíocres; sermos intransigentes contra a corrupção, desde que aceitemos ser governados por corruptos; sermos radicais, desde que cegos para sermos facilmente atropelados pelo trânsito dos tanques civis e militares; sermos ousados, desde que inexactos ou descuidados num detalhe para sermos duramente criticados e cancelados pelos guardadores da normalidade; sermos lúcidos na denúncia da hipocrisia, desde que convivamos amigavelmente com os hipócritas; sermos jovens desde que drogados para nos esgotarmos em criatividades e rebeldias inócuas e autodestrutivas; sermos velhos, desde que murmurando uma sabedoria que ninguém tem paciência para ouvir ou entender. Esta sociedade é um monstro de Goya porque a razão dorme um sono profundo.

O perigo de pensar que o que se vê é, de facto, horroroso

O horror vivido pela maior parte da humanidade, diariamente, sempre diferente e sempre igual, desmente tudo o que pensámos sobre o progresso da humanidade. O horror, quando pensado a fundo, corre o risco de ser horror vivido por solidariedade com quem o sofre. Isso obrigaria a ir para a luta concreta no socorro, no estancamento da morte inocente, na destituição dos governantes cúmplices com a morte inocente. Mas como isso dá trabalho e obriga a riscos tão graves quanto desnecessários, o melhor é não pensar, não saber, fingir não saber, admitir que talvez seja um mal-entendido.

O genocídio do povo palestiniano, transmitido em directo todos os dias, é a primeira guerra conduzida conscientemente contra mulheres e crianças, os dois inimigos principais de uma limpeza étnica perfeita. Tem toda a lógica. Lógica e o apoio activo dos nossos governantes democratas.

Tal como Himmler, arquitecto do holocausto, entrava em casa à noite pela porta traseira para não acordar o seu canário de estimação, os arquitectos do genocídio de hoje fazem uma pausa no morticínio para fazer as suas orações e ajudar os filhos nos trabalhos de casa. Isto degrada a tal ponto o que resta de humanidade na nossa raiva impotente que o horror de pensar tem de se reduzir a pensar o horror sem correr o risco de o viver por solidariedade.

Torna-se impensável pensar que enquanto o Nazismo foi a grande incarnação do mal no século XX, o Sionismo é a grande incarnação do mal no século XXI. Torna-se impensável que as grandes vítimas se tenham transformado, no tempo exacto de um século, nos grandes agressores. Torna-se impensável pensar que, tal como não teve êxito a solução final contra eles por parte dos Nazis, também eles não terão êxito na solução final que pretendem infligir ao povo palestiniano. E como tudo isto é impensável, é melhor mudar de canal e voltar às redes sociais ou comentar o trágico-cómico entretenimento das zangas entre dois gorilas, Donald Trump e Elon Musk (sem ofensa aos gorilas).

O perigo de pensar que a comida mental está na mesa e que quem não comer morre de fome

A Inteligência artificial (IA) nada cria nem transforma. Apenas acumula e sintetiza segundo critérios opacos apenas acessíveis aos donos dos programas dos algoritmos, isto é, aos donos do mundo. A inteligência artificial refere-se a máquinas que executam tarefas cognitivas como pensar, perceber, aprender, resolver problemas e tomar decisões. Não é a primeira vez que se atribui inteligência a máquinas. Na década de 1950 era comum designar os computadores emergentes como “cérebros electrónicos”. Actualmente, a maioria das aplicações populares de IA – o reconhecimento de voz e imagem, o processamento de linguagem natural, a publicidade direccionada, a manutenção preditiva de máquinas, carros sem condutor e drones – envolve a capacidade das máquinas para aprenderem com os dados sem serem explicitamente programadas.

Trata-se de uma mudança de paradigma na tecnologia informática. O que vai realmente fazer a diferença na corrida às aplicações de IA é a disponibilidade de dados; o elemento crítico é a abundância de dados. Mais dados conduzem a melhores produtos, o que, por sua vez, atrai mais utilizadores, que geram mais dados para melhorar ainda mais o produto. A escala de dados necessária para desenvolver aplicações avançadas de IA é a base do impacto da centralização e monopolização da IA. As grandes empresas americanas de tecnologia lideram o mundo em aplicações de IA, mas a China é um gigante em ascensão. Isto conduz a um duopólio da inovação da IA: EUA e China.

A IA é o caso paradigmático de uma tecnologia que visa ultrapassar os limites do instrumento que ajuda a pensar para se transformar no pensador que dispensa e substitui o pensador humano. A vertigem da sua ilimitada expansão está a entrar em todos os domínios da actividade humana, da medicina ao direito, da comunicação à guerra, da educação aos mercados financeiros. O que significa ser humano na época da IA?

No fundo, a IA funciona como um dispositivo estatístico, mas, devido ao número infinito de dados que gere e aos algoritmos que regem o seu funcionamento, a IA projecta a ideia de criar conhecimento a partir do nada, de inventar. Ou seja, a IA dá a impressão de funcionar como um ser humano, ainda que de forma infinitamente mais eficiente. Daí as designações utilizadas para a caracterizar – inteligência artificial, aprendizagem profunda – características até agora reservadas aos seres humanos ou, no máximo, aos seres vivos. Estas designações são utilizadas de forma metafórica, mas mostram até que ponto a IA parece estar a atingir níveis de compreensão e de transformação ainda reservados aos seres humanos.

O efeito de realidade é impressionante, porque enquanto cópia parece criativa, enquanto extractiva parece inventiva, enquanto reprodutiva parece produtiva, enquanto baseada em correlações parece oferecer novas relações. À luz da credibilidade desta “aparência”, as questões sobre o que conta como ser humano ou se a IA significa uma mudança civilizacional têm sido levantadas por pessoas em lados opostos do espectro político e ideológico.

Não gosto de citar criminosos de guerra, mas neste caso faço uma excepção para citar Henry Kissinger. Escrevia ele em 2018:

O Iluminismo procurou submeter as verdades tradicionais a uma razão humana liberta e analítica. O objetivo da Internet é ratificar o conhecimento através da acumulação e manipulação de dados em constante expansão. A cognição humana perde o seu carácter pessoal. Os indivíduos transformam-se em dados, e os dados tornam-se reinantes.

No início do texto Kissinger interrogava-se:

(…) “Qual seria o impacto na história das máquinas de auto-aprendizagem – máquinas que adquiriram conhecimento através de processos particulares a elas próprias, e aplicariam esse conhecimento a fins para os quais pode não haver nenhuma categoria de compreensão humana? Estas máquinas aprenderiam a comunicar umas com as outras? Como seriam feitas as escolhas entre as opções emergentes? Seria possível que a história da humanidade seguisse o caminho dos Incas, confrontados com uma cultura espanhola incompreensível e até inspiradora para eles? Estaríamos nós no limiar de uma nova fase da história humana?

Com Chomsky a meu lado, considero que:

a mente humana é um sistema surpreendentemente eficiente e até elegante que funciona com pequenas quantidades de informação; não procura inferir correlações brutas entre pontos de dados, mas sim criar explicações… Por muito úteis que os programas de IA possam ser nalguns domínios restritos (podem ser úteis na programação de computadores, por exemplo, ou na sugestão de rimas para versos ligeiros), sabemos pela ciência da linguística e pela filosofia do conhecimento que diferem profundamente da forma como os humanos raciocinam e utilizam a linguagem. Estas diferenças impõem limitações significativas ao que estes programas podem fazer, codificando-os com defeitos inerradicáveis…

De facto, estes programas estão presos numa fase pré-humana ou não-humana da evolução cognitiva. A sua falha mais profunda é a ausência da capacidade mais crítica de qualquer inteligência: dizer não só o que é o caso, o que foi o caso e o que será o caso – isto é descrição e previsão – mas também o que não é o caso e o que poderia e não poderia ser o caso. Estes são os ingredientes da explicação, a marca da verdadeira inteligência… O pensamento humano baseia-se em explicações possíveis e na correcção de erros, um processo que limita gradualmente as possibilidades que podem ser racionalmente consideradas.

Na sua obra-prima, O Mundo como Vontade e Representação, Schopenhauer ([1819] 2020) faz uma distinção entre talento e génio. Enquanto a pessoa talentosa alcança o que os outros não conseguem alcançar, o génio alcança o que os outros não conseguem imaginar. O génio tem uma capacidade superior de contemplação que o leva a transcender a pequenez do ego e a entrar no mundo infinito das ideias. O génio é a faculdade de permanecer no estado de perceção pura, de se perder na perceção, o poder de deixar os seus próprios interesses, desejos e objectivos inteiramente fora de vista, renunciando assim inteiramente à sua própria personalidade durante algum tempo, de modo a permanecer um puro sujeito conhecedor, com uma visão clara do mundo.

À luz disto, podemos especular com segurança que, se Schopenhauer vivesse hoje, defenderia que a IA, por muito estimulantes que sejam as suas realizações, nunca poderá atingir os patamares da possibilidade humana. No máximo, poderá atingir o nível do talento. A genialidade é inacessível à IA. O génio é o limite superior da IA. O limite inferior é a actividade humana não registada ou, melhor ainda, a actividade humana que é registada e armazenada de formas que desafiam o extractivismo de dados.

Este jogo homem-máquina deixa escapar um ponto crucial: o facto de os seres humanos não existirem em abstracto, mas sim em contextos históricos, sociais e culturais específicos. Os exercícios sobre características universais construídas abstractamente convertem características locais centradas no Ocidente, capitalistas, colonialistas e patriarcais em características universais derivadas do conhecimento “visto a partir do zero”. Os preconceitos ontológicos e políticos são assim transformados em artefactos neutros em termos de IA.

O perigo de pensarmos que o que cai fora do algoritmo não existe é a nova forma do que tenho designado por sociologia das ausências. O perigo de pensar que o algoritmo é a única comida mental ao nosso dispor é o mesmo que pensar que o hamburger da MacDonald’s é a única comida ao nosso dispor.

O perigo de pensar que o pós-humano pressupõe que já fomos plenamente humanos

Desde o início do milénio tem havido um debate sobre o pós-humano. A morte do ser humano vinha de longe: de Nietzsche, de Heidegger, de Foucault, de Barthes, de Deleuze. Mais recentemente, a ideia do pós-humano centrou-se nos seres humanos sujeitos a xenotransplantes (transplantes de células, tecidos ou órgãos de outras espécies animais) ou vivendo com objectos tecnológicos inseridos no seu corpo. A ideia do pós-humanismo implica a crítica do antropocentrismo, a negação de qualquer privilégio ao ser humano no conjunto dos seres viventes do planeta.

Não vou neste texto discutir os méritos desta concepção. O que me interessa questionar é ideia de humano que subjaz à de pós-humano. É uma ideia substantivista e abstracta que pressupõe a existência prévia de uma natureza humana mais ou menos fixa. De resto, a questão de saber se há ou não uma natureza humana não é a questão que me preocupa. É antes a ideia de que os seres humanos foram sempre tratados como seres privilegiados e abstractamente iguais.

O perigo de pensar que, na verdade, isso nunca aconteceu na era moderna é um dos mais aterradores para a boa consciência liberal que formou a nossa consciência desde o século XVII. Ao longo dos anos, tenho mostrado que, com o colonialismo histórico, se traçou uma linha abissal, tão radical quanto radicalmente invisível, entre os seres tratados como seres plenamente humanos (a zona metropolitana) e seres tratados como seres sub-humanos (a zona colonial).

Essa linha abissal dura até hoje e a sub-humanidade que ela desenha abrange mais populações no mundo que durante o período do colonialismo histórico. Que o digam os imigrantes deportados com algemas e enviados para campos de concentração em El Salvador e em outros lugares de que um dia teremos notícia. Ou os camponeses da República Democrática do Congo martirizados pela maldição do lítio e dos minerais raros. O espectro da sub-humanidade paira sobre cada um de nós.

De um momento para o outro, como previa Brecht, pode caber a qualquer de nós ser atirado para a zona colonial onde as declarações universais dos direitos humanos e as garantias constitucionais não são mais que mentiras piedosas. Pensar que isto é um retrocesso é pensar que houve progresso. Claro que houve progressos, mas não houve Progresso com P maiúsculo.

Todos estes perigos obrigam a uma tarefa de des-pensar e de desaprender antes que seja possível dar sentido ao que não tem sentido.

Fonte aqui

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Descobriram uma limpeza étnica? Tem 80 anos…

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 07/02/2025)


A transformação de Gaza, ou pelo menos a sua costa, em empreendimentos habitacionais e turísticos fechados já foi testada e esteve em vigor durante quase um quarto de século. 


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O boçal pato-bravo de negócios globais em comissão de serviço na Presidência dos Estados Unidos da América, Donald Trump, ignorando ostensivamente os filtros do cinismo político dominante e assumindo a ganância inerente ao seu empreendedorismo, deitou os olhos gulosos à costa mediterrânica da Faixa de Gaza e deduziu que ali se poderia construir uma nova, paradisíaca e altamente lucrativa «Riviera».

Sem o saber, ou talvez tentando desde já marcar posição, o construtor civil-presidente entrou nos terrenos entretanto reclamados pelos colonos sionistas, já que estes há muito tempo reivindicam o regresso à Faixa de Gaza para explorarem o paraíso segundo os seus próprios interesses.

A transformação de Gaza, ou pelo menos a sua costa, em empreendimentos habitacionais e turísticos fechados já foi testada e esteve em vigor durante quase um quarto de século. Os 19 colonatos sionistas existentes na Faixa de Gaza entre 1982 e 2006 eram condomínios privados e de luxo, protegidos pela tropa de Israel;  ocupavam 120 quilómetros quadrados, um terço do território, com sete mil habitantes e uma densidade próxima de 60 habitantes por quilómetro quadrado. Cerca de milhão e meio de palestinianos viviam então em dois terços do enclave, sem acesso ao mar e com uma densidade brutal de sete mil habitantes por quilómetro quadrado, a mais elevada do mundo, a grande distância. A título de exemplo, a densidade da Índia é de 500 habitantes por quilómetro quadrado, a da China é de 145 e a de Portugal é de 115.

Em 2006, o criminoso de guerra Ariel Sharon, então primeiro-ministro, mandou evacuar os colonatos de Gaza, não por qualquer acesso anti-colonização, mas porque pretendia iniciar as ofensivas terroristas regulares contra o território, continuadas por Netanyahu,  e não queria ter limites na envergadura das operações militares por nele habitarem sionistas.

Em termos gerais, poderia haver um impedimento concreto a resolver para que o plano de Trump se concretizasse. No enclave viviam até há pouco, antes de Benjamin Netanyahu lançar esta nova etapa do genocídio da população original da Palestina, mais de dois milhões de pessoas. Agora há menos, mas muitas das recentemente expulsas estão a regressar, mesmo que seja para as ruínas deixadas pelos nazi-sionistas; porém, uma vez que a violação de cessar-fogo é um dos desportos em que Israel está no topo, não tarda que, mais uma vez, sejam obrigadas a seguir o caminho inverso, pelo menos as que restarem vivas.

Para Trump, afinal, não existe qualquer problema. Despacham-se os habitantes do território para países árabes, que vão ter de os acolher e integrar, talvez ignorando que este processo, a versão mais recente de «solução final», está em curso há quase oitenta anos e sem que haja integração. Ele próprio, na pessoa do genro, inventou durante a primeira administração os chamados «acordos de Abraão», que assentavam na transferência dos palestinianos de Gaza e da Cisjordânia para a península egípcia do Sinai e para uma moderníssima e imensa cidade criada de raiz, Neom, já em construção na província de Tabuk, na Arábia Saudita, ligada à citada Península do Sinai passando pelo Golfo de Aqaba e o sul da Jordânia. Para não fugir ao espírito de um dos objectivos do empreendimento e para que a construção de Neom seja concretizada em áreas despovoadas, já se processou, a mando do governo saudita, uma limpeza étnica do território, vitimando principalmente a tribo Howeitat.

Os palestinianos expulsos para Neom e o Sinai iriam servir principalmente os turistas milionários que poderiam usufruir em exclusivo das delícias do Mar Vermelho até ao Mediterrâneo. A nova «Palestina» resultaria então de uma transferência da população de Gaza e da Cisjordânia para um território desde o Sinai até à megalómana Neom.

Não digam que Trump, na sua heterodoxia político-empresarial, chamemos-lhe assim, não é um visionário. De Gaza a Sharm-el-Sheik e Neom, do Mediterrâneo ao Mar Vermelho, está na sua mente o maior e mais paradisíaco complexo turístico do planeta, acessível a meia dúzia de mafiosos que cada vez mais controlam o mundo. Não será esta uma gloriosa antecipação do espírito do globalismo, esse brilhante futuro para o qual o Ocidente tanto trabalha, mesmo que isso custe a vida e a expulsão dos locais de nascimento e residência a milhões e milhões de seres humanos?

O rei vai nu

Aqui d’El Rei, grita-se com a mesma convicção com que as chamadas democracias liberais dizem defender a «solução de dois Estados» na Palestina. Mas o rei vai nu. Todo o aranzel em torno de mais esta extravagância (para levar a sério) de Trump não passa de um fruto natural da imensa estratégia de enganos e mentiras cultivada pela política dominante para cometer as maiores atrocidades.

De alguns governos até à ONU interpretaram-se as palavras de Trump, com uma razão que não lhes pode ser negada, como a intenção de praticar uma limpeza étnica.

Sejamos sérios. Há muito que a limpeza étnica está em curso na Palestina. A «marcha da morte» de Lydda em 1948, o massacre da população das aldeias de Deir Yassin, ou o de Ramle, no mesmo ano – como exemplo das centenas de localidades palestinianas «despovoadas» na mesma altura – são episódios equivalentes ao da mortandade em curso em Gaza ou à expulsão em massa concretizada há dias em Jenin, no Norte da Cisjordânia. É o mesmo sistema, é o mesmo processo: limpeza étnica.

No fundo, estas ocorrências criminosas são uma inevitabilidade da existência da doutrina nazi, supremacista e racista do sionismo. «Uma terra sem povo para um povo sem terra» foi o primeiro princípio fundador do sionismo, há mais de 130 anos. Isto é, a Palestina estaria desabitada e à espera do povo judeu, a quem fora prometida por Deus há três mil anos, através da pena de Moisés.

A Palestina, porém, estava e está povoada por um povo multifacetado e milenar no seio do qual existia uma comunidade perfeitamente integrada de judeus palestinianos que, segundo as teses do sionismo, também faziam parte, simultaneamente, do «povo sem terra». É em mistificações como esta que se baseia a existência do Estado de Israel, que não se considera deste mundo, está acima de todos os outros e não se rege por leis terrenas mas sim pelos dogmas do Antigo Testamento, com o seu inegável cunho de crueldade. Nada disso é impeditivo de que o Estado sionista seja venerado por praticamente todos os outros do planeta, como se tivessem má consciência pelo Holocausto praticado por Hitler, horror que o sionismo sequestrou e invoca abusivamente e no qual nem só judeus foram chacinados, como reza a História que não é conhecida em Israel e nos seus principais aliados.

Uma nota imprescindível e que nunca é demais repetir. O sionismo não representa «os judeus», sejam religiosos, sejam étnicos. Os dois conjuntos, sionistas e judeus, estão longe de se sobrepor sendo que, por exemplo, não são poucos os cristãos – como os energúmenos Biden e Trump – que se proclamam sionistas.

O sionismo não tem procuração para invocar o Holocausto nem para se considerar representante de todos os judeus, muitos dos quais – quem nos diz que não é a maioria? – não se identificam com a limpeza étnica e os episódios de genocídio cometidos em seu nome e considerados indispensáveis para que se cumpra a meta do sionismo: a criação do Grande Israel, do Nilo ao Eufrates, pelo menos. Essa foi a terra prometida pelo deus dos sionistas, essa é a terra que o sionismo quer anexar, sejam quais forem os meios que tenha de utilizar. O judaísmo não se rege por esses objectivos e ambições. O sionismo é uma corrupção do judaísmo, é uma doutrina colonial, desumana e supremacista que considera os outros povos como «estrangeiros» e sem os mesmos direitos. Nada disso tem a ver com os judeus, o judaísmo e a sua imensa cultura milenar, de que sobram os grandes exemplos técnicos, científicos, económicos e artísticos – da literatura à música, da pintura, escultura e arquitectura ao cinema.

A realidade demonstrou, naturalmente, que a Palestina era habitada. Para ali se instalarem «os judeus» era necessário, portanto, expulsar os palestinianos. Uma acção que deveria fazer-se, escreveram os teóricos sionistas, para criar um Estado «com um regime de tipo europeu». A tal «única democracia do Médio Oriente», cujos resultados estão à vista.

Mas se a Palestina estava habitada, encontrou-se maneira de dar a volta à realidade e encaixá-la, à força, na doutrina sionista.

Por isso é natural ouvir os ministros israelitas de hoje e de ontem, militantes da extrema-direita, fanáticos religiosos ou colonos sem quaisquer raízes na Palestina – alguns nem são judeus, na verdadeira acepção da palavra –  afirmar que os palestinianos «não são humanos»; ou são «bárbaros», ou «animais», ou «selvagens», ou «sub-humanos»; ou «os palestinianos e os outros “goyim” (estrangeiros e não-judeus) têm a alma mais próxima da alma dos animais do que da alma de um judeu», leia-se, neste caso, de um sionista. Em suma, seres inferiores que devem ser escorraçados para que se cumpra «a vontade de Deus» e, finalmente, aquela terra prometida seja santificada.

Donald Trump enunciou, afinal, com palavras cruas, brutas e inconvenientes para as más consciências, principalmente as ocidentais, um conceito que é inerente ao sionismo, que não ao judaísmo.

Escândalo com o resort de Trump em Gaza? Afinal é mais um episódio de uma limpeza étnica a que o mundo assiste, às vezes palavroso, mas sempre impávido e sereno, há quase 80 anos. Uns governos e coisas do tipo da União Europeia insistem, como um mantra, na «solução de dois Estados» sem mexer um dedo para isso; outros manifestam solidariedade com a Palestina e os palestinianos e ou não têm influência ou acham que assim cumprem o seu dever; a ONU arrisca algumas palavras mais acrimoniosas mas tem a faca e o queijo na mão para fazer cumprir leis que aprovou e não respeita; para aplicar resoluções que ignora e armazena umas atrás das outras, transformadas em arqueologia diplomática e do direito internacional. Tem as suas «forças de paz», que prefere utilizar como tropas coloniais; representa todos os países do planeta mas tem medo de Israel, além de ser incapaz de denunciar o conceito nocivo e tóxico de sionismo. Teve coragem e autoridade suficientes para impor sanções contra o regime de apartheid na África do Sul, mas não consegue ou não quer fazer o mesmo contra o apartheid em Israel

Escândalo com a franqueza de Trump? Talvez motive alguns dirigentes influentes a chocar-se com a ligeireza com que o presidente norte-americano aborda o destino pretendido para os palestinianos e a pensar a sério naqueles seres humanos que lutam para sobreviver no inferno de Gaza em degradantes campos de refugiados e cidades e aldeias arrasadas; e que não podem sequer, por causa do «direito à existência» do Estado sionista, pisar a areia das praias, pescar artesanalmente ou banhar-se nas tépidas águas mediterrânicas.

Há pelo menos alguma agitação nos meios políticos e mediáticos, sem dúvida, também porque Trump, pelo seu fascismo indisfarçado, é o bombo da festa das castas políticas hipócritas e bem falantes, apesar de a sua doutrina económica e política, na prática, ser a mesma que guia os nossos dirigentes neoliberais. E se Biden tivesse pronunciado as mesmas palavras que Trump? Seria um presidente criativo ao propor uma solução eficaz para o problema de Gaza? Ou apenas mais um cristão sionista cúmplice de genocídio e limpeza étnica? Fica a dúvida.

Mais vale tarde do que nunca, dir-se-á a propósito do alarido. Neste caso é difícil que o aforismo seja verdadeiro. Trump e o seu confidente Benjamin Netanyahu – que, sejamos sinceros, ganhou uma nova vida porque os seus chacras não alinhavam muito bem com os de Biden – prosseguirão a saga iniciada no primeiro mandato do mega pato-bravo e potenciarão sinergias genocidas contra o povo palestiniano; o mundo em redor, principalmente a Ocidente, regressará à passividade do costume, incapaz ou sem querer ir além das palavras. Os palestinianos continuarão sozinhos e desprotegidos, mesmo com a sua inesgotável capacidade de luta e resistência, tendo apenas ao seu lado a solidariedade planetária de cidadãos e organizações cívicas capazes de lhes dar algum alento e cuja eficácia dos esforços em desenvolvimento é cada vez mais notável.

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Esclarecimento preventivo

Este texto não é antissemita, apenas desobedece ao decreto sionista que pretende fazer equivaler, mais uma vez abusivamente, o conceito de antissemitismo ao exercício saudável e democrático da crítica à doutrina sionista e aos comportamentos do Estado de Israel. O sionismo é, na teoria e na prática, o conceito mais antissemita aplicado à face do planeta pois define como antissemitas os outros povos semitas, designadamente os palestinianos e até comunidades judaicas da Palestina contrárias à existência do Estado de Israel. Quanto aos governos ocidentais que aceitam a definição sionista de antissemitismo, pretendendo até criminalizar os desobedientes e impô-la no quadro da opinião única, não passam, eles próprios, de antissemitas.

Fonte aqui.

A Europa dos três S: servil, submissa e subjugada

(Pablo Jofré Leal , in resumenlatinoamericano-org, 26/12/2023, Trad. Estátua)

A chamada União Europeia, associação política e económica cuja origem remonta a 1951, é composta por 27 membros, que delegaram a sua soberania a instituições comuns, para tomar decisões sobre o que a casta dominante europeia chama: interesses comuns.


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Uma comunidade de nações cuja realidade indica que se tornou o quintal dos Estados Unidos e, sobretudo, a linha da frente das ações de desestabilização e agressão contra múltiplos países: Líbia, Síria, Líbano, Iraque, Iémen, entre outros. ocupando para isso o seu braço militar, a NATO, com um papel predominante desempenhado pelo Pentágono quando existe uma situação de guerra (1).

Bruxelas, capital da maioria das instituições da UE, bem como da NATO, é o símbolo da submissão das sociedades europeias a uma política externa ditada por Washington, em estreita aliança com a entidade nacional-sionista israelita, quando o assunto diz respeito à Ásia Ocidental. Como se vê com os processos vividos em países como a Palestina, Líbano, Iraque, Síria, Iraque, Iémen e tendo como centro principal dos seus objectivos de dominação, desestabilizando a República Islâmica do Irão.

É uma vassalagem constituída numa mancha vergonhosa, para o conjunto de 450 milhões de pessoas, que constitui a Europa dos três S’s (servil, submissa e submetida) chamada União Europeia (2), e onde a subordinação aos interesses dos Estados Unidos é diretamente prejudicial aos interesses nacionais de cada um dos seus membros. As autoridades políticas e militares da UE e da NATO (que tem mais membros da comunidade europeia) não têm capacidade para criar e executar uma agenda política a longo prazo baseada nos interesses europeus. Tudo se limita ao que foi estabelecido por Washington em urgente comunhão com os grupos de pressão sionistas sediados nos Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Alemanha, principalmente.

Um projeto europeu estéril em termos de autodeterminação face às potências estrangeiras e que emana fundamentalmente da Secretaria de Estado do poder norte-americano, do Pentágono e de grupos de pressão como o complexo militar-industrial e o lobby sionista. Este último marca o rumo daquilo que deveria ser a política externa do Ocidente na zona do Levante Mediterrâneo, o que implica, no essencial, apoiar o regime policial, militar, diplomático e financeiro do regime nacional-sionista israelita judaico.

O referido projeto implica participar numa comunhão de interesses com Washington e com os seus aliados na Ásia Ocidental, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, em diversas áreas; política, militar, diplomática, financeira e de inteligência no seu trabalho de ocupação, colonização e genocídio contra o povo palestiniano, bem como de desestabilização e ataques contra o Líbano, Síria, Iraque e Iémen. Mapa de conflitos que visa também cercar e atacar, no quadro de uma guerra híbrida, a República Islâmica do Irão e a Federação Russa.

A União Europeia e os Estados Unidos, apesar de certas e mínimas discrepâncias, mantêm uma aliança férrea em amplas esferas de relações políticas e militares e em áreas geopolíticas fundamentais. Aí, interesses transnacionais multimilionários em questões energéticas, por exemplo, gás e petróleo, são objectivos mais do que deslumbrantes, para este casamento de interesses manter o comércio bilateral que, só em 2023, representou um máximo histórico de mais de 1,6 biliões de euros, multiplicando o poder das castas políticas de ambos os lados do Atlântico.

E, para manter este nível de intercâmbio e irmandade de interesses, ainda que sujeitos à submissão da Europa ao poder omnipotente dos Estados Unidos, Washington conta com a presença de, pelo menos, 275 bases e locais militares (aéreos, navais e com tropas terrestres) dos países bálticos até à Turquia, num arco que reflete o objetivo predominante de usar a Europa como um muro de separação e uma ameaça latente contra a Rússia e todos os que se encontram a leste desta nova cortina de aço. Estas bases representam um terço do total de bases militares que os Estados Unidos possuem fora das suas fronteiras.

No âmbito destas considerações, é sempre inevitável recordar que, em caso de conflito, de guerra na Europa, onde participam países membros da NATO, o comando geral desta organização militar é chefiado por um general americano. Tal mostra claramente que a capitulação não é apenas económica e política, mas essencialmente militar.

E se estes números e os seus projetos de aumento significam sacrificar a Ucrânia, então não há dúvida por um segundo que o regime de Kiev disponibiliza sangue em grandes quantidades para tentar enfraquecer a Rússia e expandir as áreas de domínio em toda a Europa, e expandir-se para. o Sul do Cáucaso. E, ao mesmo tempo, com o apoio nacional-sionista, influência para criar condições de desequilíbrio de poder na Ásia Ocidental, como observamos em relação ao genocídio na Palestina, à agressão contra a resistência libanesa, à deposição do governo sírio, aos ataques a Ansarolá no Iémen, as ameaças ao Iraque e a política de pressão máxima contra o Irão.

Com o governo moribundo do democrata Joe Biden, esta aliança entre a Europa e os Estados Unidos parecia passar por altos e baixos, mas a capitulação europeia aos poderes do império foi menos vergonhosa do que a vivida na primeira administração governamental de Donald Trump. Hoje esta liderança europeia está profundamente preocupada com a tomada de posse, para um segundo mandato, de Trump, o bilionário, megalómano, pouco diplomático, uma locomotiva impetuosa onde o respeito pela lei do seu país e pelo direito internacional não são impedimento para dizer e fazer o que quer que seja. 

O comércio será uma das principais frentes de luta entre os Estados Unidos e uma Europa que teme o próximo mandato presidencial de Trump, que tem ameaçado repetidamente com a necessidade de o seu país impor tarifas de 10% sobre todas as importações europeias que chegam aos Estados Unidos. Uma medida que “se introduzida, poderá causar estragos incalculáveis ​​em toda a UE, uma potência exportadora que depende em grande parte do comércio global para crescer e compensar a sua fraca procura interna” (3)

Trump é um político com uma mentalidade limitada na diplomacia, mas bastante forte como empresário avassalador, que já apontou à Europa uma série de ameaças relacionadas com o aumento das contribuições do PIB para encher os cofres da NATO ou abandoná-la definitivamente. Foi o que disse assim que foi eleito: “Vou retirar os Estados Unidos da NATO se os parceiros não pagarem as suas contas” (4) O republicano afirmou que a NATO “tira vantagem” dos Estados Unidos nas contribuições para a Aliança, apesar de o seu país ser quem a defende, enquanto a Europa não lhe dá um tratamento comercial justo, na sua opinião.

Tratam-se das questões relacionadas com o pagamento da “proteção” concedida à Europa em termos do guarda-chuva nuclear, embora a França e a Grã-Bretanha também sejam potências nucleares, mas Donald Trump pouco se preocupa com o pequeno príncipe Macron ou com o maçador Primeiro-ministro britânico. Trump alertou ainda que a sua administração poderia reduzir a ajuda à Ucrânia. Trump não tem papas na língua, o seu objetivo é “America First”.

Os políticos europeus estão extremamente preocupados com a próxima administração Trump, pois esta reflete que a subordinação será maior. Não há político naquela Europa fulva, capaz de se opor a este bilionário que pela segunda vez ocupa a Casa Branca e aos 78 anos aparece com mais energia do que nunca, para levar a cabo os seus planos onde a questão da Ucrânia é uma prioridade. E isto veio a público depois da denúncia do Primeiro-ministro da Hungria, Víctor Orbán, que trouxe à luz o que há muito foi denunciado:

“Os Estados Unidos e a União Europeia forneceram mais de 300 mil milhões de euros em ajuda à Ucrânia desde o início da guerra. Uma quantia de dinheiro que teria feito maravilhas se tivesse sido gasta para melhorar a vida das pessoas na União Europeia, para desenvolver os países dos Balcãs Ocidentais a nível da UE ou para reforçar as capacidades militares.”

As palavras de Orbán, deveriam gerar protestos nas sociedades europeias, algo que considero impensável, uma vez que se tratam de sociedades adormecidas, esmagadas sob o poder abrangente da casta política que apenas procura continuar a lucrar com as guerras, que tendem a dinamizar as suas economias.

.A liderança europeia não está preocupada com o fim da guerra, mas sim com o facto de esta terminar, devido à decisão de Washington minimizar a contribuição financeira, e até apoiar o seu fim, como Donald Trump tem repetidamente defendido.

Os meios de comunicação social europeus sublinham com urgência que, em antecipação do regresso de Donald Trump à Casa Branca, a União Europeia está a dar os primeiros passos para desenvolver uma estratégia unificada. O regresso de Trump à Casa Branca não foi propriamente uma grande surpresa para Bruxelas, uma vez que as sondagens apontavam para uma corrida extremamente renhida em que qualquer resultado era possível. Ainda assim, o regresso de um homem com tamanha aversão ao sistema multilateral numa altura em que o mundo vive várias guerras brutais faz suar as autoridades e os diplomatas europeus. O primeiro-ministro luxemburguês, Luc Frieden, observou em relação a Trump que “vamos falar com ele, vamos ouvi-lo e depois temos de nos adaptar com uma forte resposta coletiva europeia (5).

Para Trump, a guerra na Ucrânia nunca deveria ter acontecido e afirma que poderia impor a paz neste país da Europa de Leste em “24 horas”, tecendo mesmo comentários elogiosos sobre o presidente russo, Vladimir Putin, e a relação que mantém com ele. Tanto na Europa, nas suas organizações políticas e militares, como no regime de Kiev, existe um medo manifesto pelo próximo chefe na Sala Oval da Casa Branca.

Mandato que poderá obrigar o oprimido presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, (que só exerce o poder com base num decreto de lei marcial desde que o seu mandato terminou constitucionalmente em maio de 2024) a negociar a paz nas condições impostas por Moscovo, que derrotou estrategicamente há muitos meses o regime de Kiev, que só se mantém precariamente de pé graças ao apoio militar e financeiro do Ocidente.

Entre os líderes europeus, aquele que produziu declarações que o apresentam como o mais lúcido e fundamentado de todos os líderes políticos da União Europeia, parece ser precisamente o presidente húngaro, Viktor Orbán, que apontou “o rumo atual dos acontecimentos na Ucrânia, e a tomada de posse de Trump exige que os líderes do bloco comunitário adotem uma abordagem mais pragmática para garantir a estabilidade e a resiliência económica na União Europeia”.

Para o presidente húngaro, Bruxelas continua desligada das realidades globais e a prova disso foi a decisão do Parlamento Europeu de continuar a enviar fundos para Kiev (50 mil milhões de euros), sendo isso um exemplo claro de prioridades erradas. Decisão que, recorde-se, teve o veto de Orbán (6),  que só foi ultrapassado com base em certas concessões à presidência do conselho da União Europeia nas mãos de Orbán  até Janeiro de 2025. No início de dezembro de 2024, Orbán propôs um cessar-fogo de Natal entre a Ucrânia e a Rússia – que chegou mesmo a ser abordado pelo Presidente eleito dos EUA durante a visita de Orbán aos EUA -, uma contribuição sublinhada por Moscovo, mas categoricamente rejeitada por Kiev.

Em termos de negociações, na conferência anual perante a imprensa internacional, o presidente russo Vladimir Putin, afirmou que “a Rússia está pronta para negociar e chegar a acordos sobre questões estratégicas e estou disposto a qualquer momento para me reunir com o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. Não sei quando o verei. Ele não disse nada sobre isso. Não falo com ele há mais de quatro anos. Estou pronto para isso, claro. Em qualquer momento. Se alguma vez tivermos uma reunião com o Presidente eleito Trump, tenho a certeza que teremos muito que conversar” (7).

 A última reunião entre Putin e Trump teve lugar em Junho de 2019, no âmbito da cimeira do G20 no Japão. Trump, por sua vez, indicou na conferência Turning Point, realizada no Arizona a 23 de dezembro, a sua disponibilidade para se reunir com Putin “onde esperamos pôr fim a esta guerra”. O presidente eleito descreveu o conflito na Ucrânia como “terrível” e reiterou que, se tivesse sido presidente dos Estados Unidos em vez do atual chefe de Estado, Joe Biden, este conflito não teria acontecido (8).

Disputas políticas no seio da União Europeia, uma ou outra declaração de soberania, mais sonante do que real, a realidade é que a Europa é agora o novo quintal dos Estados Unidos. Já referi num artigo anterior que a casta política norte-americana, juntamente com os lobbies do complexo militar-industrial e os movimentos e organizações sionistas, são os que moldam a política externa dos Estados Unidos e, portanto, os pilares da sua relação com a Europa, que há muito perdeu todos os sinais de soberania.

Vemos isso, não só em relação à questão ucraniana, mas também na vergonhosa condução da política quanto ao genocídio levado a cabo pelo regime sionista israelita, que não sofre qualquer pressão da Europa para pôr fim aos seus crimes. E onde está a questão da possibilidade de prender o primeiro-ministro sionista Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Guerra Yoav Gallant por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, de acordo com um mandado de detenção internacional emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI)? É também aqui que entra em jogo a decisão de Washington de fazer com que os seus filhotes europeus incumpram um mandato legal que é vinculativo para todos aqueles que assinaram o Estatuto de Roma.

Hoje, na Europa, através da imposição de uma narrativa política, apoiada pelos grandes meios de comunicação ocidentais de manipulação e desinformação, levada a cabo pelo governo americano, promove-se o fortalecimento de um sentimento e comportamento de submissão à Casa Branca.

Nesse quadro prevalece o poder dos lobbies dos EUA, o seu modelo de vida e a sua visão do mundo. E trudo isso interligado com um eixo de russofobia, como nunca antes se viu na história das relações internacionais, que criou um continente, uma Europa servil, submissa e subjugada. Um continente norte-americanizado de forma indigna (9).

NOTAS:

  1. Estrutura de comando militar. As operações militares da NATO são lideradas pelo Presidente do Comité Militar da NATO e estão divididas em dois Comandos Estratégicos, ambos comandados há muito tempo por oficiais norte-americanos, assistidos por pessoal proveniente de toda a NATO. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) tem a sua origem no Tratado de Washington assinado em 4 de abril de 1949, pelo qual doze países de ambos os lados do Atlântico (Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, França, Islândia, Itália, Luxemburgo , Noruega, Países Baixos, Portugal e Reino Unido) comprometeram-se a defender-se mutuamente em caso de agressão armada contra qualquer um deles.  https://www.exteriores.gob.es/RepresentacionesPermanentes/otan/es/Organismo/Paginas/Que-es.aspx.

2. A União Europeia e os Estados Unidos representam 60% do PIB mundial, 33% do comércio mundial de bens e 42% do comércio mundial de serviços.

3.    https://www.nytimes.com/es/2024/12/20/espanol/mundo/europa-trump-aranceles.html

4.    https://www.dw.com/es/trump-dice-que-considerar%C3%A1-que-estados-unidos-abandone-la-otan/a-70996508

5.    https://es.euronews.com/my-europe/2024/11/13/hablar-pactar-refuer-asi-planea-la-union-europea-gestionar-el-regreso-de-donald-trump

6.    https://www.larazon.es/internacional/hungria-levanta-veto-desblocka-50000-millones-euros-ayuda-europea-ukrania_2024020165bb79c1c3cb30000117bc36.html

7.     https://www.dw.com/es/putin-est%C3%A1-disposto-a-encontrar-com-trump-em-qualquer-momento/a-71112506

8.    https://noticiaslatam.lat/20241222/trump-expresa-que-esperara-a-una-reunion-con-putin-para-resolver-el-conflicto-de-ukrania-1159967431.html

9.    https://www.hispantv.com/noticias/opinion/603638/europa-nuevo-patio-trasero-washington

Fonte aqui