Descobriram uma limpeza étnica? Tem 80 anos…

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 07/02/2025)


A transformação de Gaza, ou pelo menos a sua costa, em empreendimentos habitacionais e turísticos fechados já foi testada e esteve em vigor durante quase um quarto de século. 


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O boçal pato-bravo de negócios globais em comissão de serviço na Presidência dos Estados Unidos da América, Donald Trump, ignorando ostensivamente os filtros do cinismo político dominante e assumindo a ganância inerente ao seu empreendedorismo, deitou os olhos gulosos à costa mediterrânica da Faixa de Gaza e deduziu que ali se poderia construir uma nova, paradisíaca e altamente lucrativa «Riviera».

Sem o saber, ou talvez tentando desde já marcar posição, o construtor civil-presidente entrou nos terrenos entretanto reclamados pelos colonos sionistas, já que estes há muito tempo reivindicam o regresso à Faixa de Gaza para explorarem o paraíso segundo os seus próprios interesses.

A transformação de Gaza, ou pelo menos a sua costa, em empreendimentos habitacionais e turísticos fechados já foi testada e esteve em vigor durante quase um quarto de século. Os 19 colonatos sionistas existentes na Faixa de Gaza entre 1982 e 2006 eram condomínios privados e de luxo, protegidos pela tropa de Israel;  ocupavam 120 quilómetros quadrados, um terço do território, com sete mil habitantes e uma densidade próxima de 60 habitantes por quilómetro quadrado. Cerca de milhão e meio de palestinianos viviam então em dois terços do enclave, sem acesso ao mar e com uma densidade brutal de sete mil habitantes por quilómetro quadrado, a mais elevada do mundo, a grande distância. A título de exemplo, a densidade da Índia é de 500 habitantes por quilómetro quadrado, a da China é de 145 e a de Portugal é de 115.

Em 2006, o criminoso de guerra Ariel Sharon, então primeiro-ministro, mandou evacuar os colonatos de Gaza, não por qualquer acesso anti-colonização, mas porque pretendia iniciar as ofensivas terroristas regulares contra o território, continuadas por Netanyahu,  e não queria ter limites na envergadura das operações militares por nele habitarem sionistas.

Em termos gerais, poderia haver um impedimento concreto a resolver para que o plano de Trump se concretizasse. No enclave viviam até há pouco, antes de Benjamin Netanyahu lançar esta nova etapa do genocídio da população original da Palestina, mais de dois milhões de pessoas. Agora há menos, mas muitas das recentemente expulsas estão a regressar, mesmo que seja para as ruínas deixadas pelos nazi-sionistas; porém, uma vez que a violação de cessar-fogo é um dos desportos em que Israel está no topo, não tarda que, mais uma vez, sejam obrigadas a seguir o caminho inverso, pelo menos as que restarem vivas.

Para Trump, afinal, não existe qualquer problema. Despacham-se os habitantes do território para países árabes, que vão ter de os acolher e integrar, talvez ignorando que este processo, a versão mais recente de «solução final», está em curso há quase oitenta anos e sem que haja integração. Ele próprio, na pessoa do genro, inventou durante a primeira administração os chamados «acordos de Abraão», que assentavam na transferência dos palestinianos de Gaza e da Cisjordânia para a península egípcia do Sinai e para uma moderníssima e imensa cidade criada de raiz, Neom, já em construção na província de Tabuk, na Arábia Saudita, ligada à citada Península do Sinai passando pelo Golfo de Aqaba e o sul da Jordânia. Para não fugir ao espírito de um dos objectivos do empreendimento e para que a construção de Neom seja concretizada em áreas despovoadas, já se processou, a mando do governo saudita, uma limpeza étnica do território, vitimando principalmente a tribo Howeitat.

Os palestinianos expulsos para Neom e o Sinai iriam servir principalmente os turistas milionários que poderiam usufruir em exclusivo das delícias do Mar Vermelho até ao Mediterrâneo. A nova «Palestina» resultaria então de uma transferência da população de Gaza e da Cisjordânia para um território desde o Sinai até à megalómana Neom.

Não digam que Trump, na sua heterodoxia político-empresarial, chamemos-lhe assim, não é um visionário. De Gaza a Sharm-el-Sheik e Neom, do Mediterrâneo ao Mar Vermelho, está na sua mente o maior e mais paradisíaco complexo turístico do planeta, acessível a meia dúzia de mafiosos que cada vez mais controlam o mundo. Não será esta uma gloriosa antecipação do espírito do globalismo, esse brilhante futuro para o qual o Ocidente tanto trabalha, mesmo que isso custe a vida e a expulsão dos locais de nascimento e residência a milhões e milhões de seres humanos?

O rei vai nu

Aqui d’El Rei, grita-se com a mesma convicção com que as chamadas democracias liberais dizem defender a «solução de dois Estados» na Palestina. Mas o rei vai nu. Todo o aranzel em torno de mais esta extravagância (para levar a sério) de Trump não passa de um fruto natural da imensa estratégia de enganos e mentiras cultivada pela política dominante para cometer as maiores atrocidades.

De alguns governos até à ONU interpretaram-se as palavras de Trump, com uma razão que não lhes pode ser negada, como a intenção de praticar uma limpeza étnica.

Sejamos sérios. Há muito que a limpeza étnica está em curso na Palestina. A «marcha da morte» de Lydda em 1948, o massacre da população das aldeias de Deir Yassin, ou o de Ramle, no mesmo ano – como exemplo das centenas de localidades palestinianas «despovoadas» na mesma altura – são episódios equivalentes ao da mortandade em curso em Gaza ou à expulsão em massa concretizada há dias em Jenin, no Norte da Cisjordânia. É o mesmo sistema, é o mesmo processo: limpeza étnica.

No fundo, estas ocorrências criminosas são uma inevitabilidade da existência da doutrina nazi, supremacista e racista do sionismo. «Uma terra sem povo para um povo sem terra» foi o primeiro princípio fundador do sionismo, há mais de 130 anos. Isto é, a Palestina estaria desabitada e à espera do povo judeu, a quem fora prometida por Deus há três mil anos, através da pena de Moisés.

A Palestina, porém, estava e está povoada por um povo multifacetado e milenar no seio do qual existia uma comunidade perfeitamente integrada de judeus palestinianos que, segundo as teses do sionismo, também faziam parte, simultaneamente, do «povo sem terra». É em mistificações como esta que se baseia a existência do Estado de Israel, que não se considera deste mundo, está acima de todos os outros e não se rege por leis terrenas mas sim pelos dogmas do Antigo Testamento, com o seu inegável cunho de crueldade. Nada disso é impeditivo de que o Estado sionista seja venerado por praticamente todos os outros do planeta, como se tivessem má consciência pelo Holocausto praticado por Hitler, horror que o sionismo sequestrou e invoca abusivamente e no qual nem só judeus foram chacinados, como reza a História que não é conhecida em Israel e nos seus principais aliados.

Uma nota imprescindível e que nunca é demais repetir. O sionismo não representa «os judeus», sejam religiosos, sejam étnicos. Os dois conjuntos, sionistas e judeus, estão longe de se sobrepor sendo que, por exemplo, não são poucos os cristãos – como os energúmenos Biden e Trump – que se proclamam sionistas.

O sionismo não tem procuração para invocar o Holocausto nem para se considerar representante de todos os judeus, muitos dos quais – quem nos diz que não é a maioria? – não se identificam com a limpeza étnica e os episódios de genocídio cometidos em seu nome e considerados indispensáveis para que se cumpra a meta do sionismo: a criação do Grande Israel, do Nilo ao Eufrates, pelo menos. Essa foi a terra prometida pelo deus dos sionistas, essa é a terra que o sionismo quer anexar, sejam quais forem os meios que tenha de utilizar. O judaísmo não se rege por esses objectivos e ambições. O sionismo é uma corrupção do judaísmo, é uma doutrina colonial, desumana e supremacista que considera os outros povos como «estrangeiros» e sem os mesmos direitos. Nada disso tem a ver com os judeus, o judaísmo e a sua imensa cultura milenar, de que sobram os grandes exemplos técnicos, científicos, económicos e artísticos – da literatura à música, da pintura, escultura e arquitectura ao cinema.

A realidade demonstrou, naturalmente, que a Palestina era habitada. Para ali se instalarem «os judeus» era necessário, portanto, expulsar os palestinianos. Uma acção que deveria fazer-se, escreveram os teóricos sionistas, para criar um Estado «com um regime de tipo europeu». A tal «única democracia do Médio Oriente», cujos resultados estão à vista.

Mas se a Palestina estava habitada, encontrou-se maneira de dar a volta à realidade e encaixá-la, à força, na doutrina sionista.

Por isso é natural ouvir os ministros israelitas de hoje e de ontem, militantes da extrema-direita, fanáticos religiosos ou colonos sem quaisquer raízes na Palestina – alguns nem são judeus, na verdadeira acepção da palavra –  afirmar que os palestinianos «não são humanos»; ou são «bárbaros», ou «animais», ou «selvagens», ou «sub-humanos»; ou «os palestinianos e os outros “goyim” (estrangeiros e não-judeus) têm a alma mais próxima da alma dos animais do que da alma de um judeu», leia-se, neste caso, de um sionista. Em suma, seres inferiores que devem ser escorraçados para que se cumpra «a vontade de Deus» e, finalmente, aquela terra prometida seja santificada.

Donald Trump enunciou, afinal, com palavras cruas, brutas e inconvenientes para as más consciências, principalmente as ocidentais, um conceito que é inerente ao sionismo, que não ao judaísmo.

Escândalo com o resort de Trump em Gaza? Afinal é mais um episódio de uma limpeza étnica a que o mundo assiste, às vezes palavroso, mas sempre impávido e sereno, há quase 80 anos. Uns governos e coisas do tipo da União Europeia insistem, como um mantra, na «solução de dois Estados» sem mexer um dedo para isso; outros manifestam solidariedade com a Palestina e os palestinianos e ou não têm influência ou acham que assim cumprem o seu dever; a ONU arrisca algumas palavras mais acrimoniosas mas tem a faca e o queijo na mão para fazer cumprir leis que aprovou e não respeita; para aplicar resoluções que ignora e armazena umas atrás das outras, transformadas em arqueologia diplomática e do direito internacional. Tem as suas «forças de paz», que prefere utilizar como tropas coloniais; representa todos os países do planeta mas tem medo de Israel, além de ser incapaz de denunciar o conceito nocivo e tóxico de sionismo. Teve coragem e autoridade suficientes para impor sanções contra o regime de apartheid na África do Sul, mas não consegue ou não quer fazer o mesmo contra o apartheid em Israel

Escândalo com a franqueza de Trump? Talvez motive alguns dirigentes influentes a chocar-se com a ligeireza com que o presidente norte-americano aborda o destino pretendido para os palestinianos e a pensar a sério naqueles seres humanos que lutam para sobreviver no inferno de Gaza em degradantes campos de refugiados e cidades e aldeias arrasadas; e que não podem sequer, por causa do «direito à existência» do Estado sionista, pisar a areia das praias, pescar artesanalmente ou banhar-se nas tépidas águas mediterrânicas.

Há pelo menos alguma agitação nos meios políticos e mediáticos, sem dúvida, também porque Trump, pelo seu fascismo indisfarçado, é o bombo da festa das castas políticas hipócritas e bem falantes, apesar de a sua doutrina económica e política, na prática, ser a mesma que guia os nossos dirigentes neoliberais. E se Biden tivesse pronunciado as mesmas palavras que Trump? Seria um presidente criativo ao propor uma solução eficaz para o problema de Gaza? Ou apenas mais um cristão sionista cúmplice de genocídio e limpeza étnica? Fica a dúvida.

Mais vale tarde do que nunca, dir-se-á a propósito do alarido. Neste caso é difícil que o aforismo seja verdadeiro. Trump e o seu confidente Benjamin Netanyahu – que, sejamos sinceros, ganhou uma nova vida porque os seus chacras não alinhavam muito bem com os de Biden – prosseguirão a saga iniciada no primeiro mandato do mega pato-bravo e potenciarão sinergias genocidas contra o povo palestiniano; o mundo em redor, principalmente a Ocidente, regressará à passividade do costume, incapaz ou sem querer ir além das palavras. Os palestinianos continuarão sozinhos e desprotegidos, mesmo com a sua inesgotável capacidade de luta e resistência, tendo apenas ao seu lado a solidariedade planetária de cidadãos e organizações cívicas capazes de lhes dar algum alento e cuja eficácia dos esforços em desenvolvimento é cada vez mais notável.

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Esclarecimento preventivo

Este texto não é antissemita, apenas desobedece ao decreto sionista que pretende fazer equivaler, mais uma vez abusivamente, o conceito de antissemitismo ao exercício saudável e democrático da crítica à doutrina sionista e aos comportamentos do Estado de Israel. O sionismo é, na teoria e na prática, o conceito mais antissemita aplicado à face do planeta pois define como antissemitas os outros povos semitas, designadamente os palestinianos e até comunidades judaicas da Palestina contrárias à existência do Estado de Israel. Quanto aos governos ocidentais que aceitam a definição sionista de antissemitismo, pretendendo até criminalizar os desobedientes e impô-la no quadro da opinião única, não passam, eles próprios, de antissemitas.

Fonte aqui.

A Europa dos três S: servil, submissa e subjugada

(Pablo Jofré Leal , in resumenlatinoamericano-org, 26/12/2023, Trad. Estátua)

A chamada União Europeia, associação política e económica cuja origem remonta a 1951, é composta por 27 membros, que delegaram a sua soberania a instituições comuns, para tomar decisões sobre o que a casta dominante europeia chama: interesses comuns.


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Uma comunidade de nações cuja realidade indica que se tornou o quintal dos Estados Unidos e, sobretudo, a linha da frente das ações de desestabilização e agressão contra múltiplos países: Líbia, Síria, Líbano, Iraque, Iémen, entre outros. ocupando para isso o seu braço militar, a NATO, com um papel predominante desempenhado pelo Pentágono quando existe uma situação de guerra (1).

Bruxelas, capital da maioria das instituições da UE, bem como da NATO, é o símbolo da submissão das sociedades europeias a uma política externa ditada por Washington, em estreita aliança com a entidade nacional-sionista israelita, quando o assunto diz respeito à Ásia Ocidental. Como se vê com os processos vividos em países como a Palestina, Líbano, Iraque, Síria, Iraque, Iémen e tendo como centro principal dos seus objectivos de dominação, desestabilizando a República Islâmica do Irão.

É uma vassalagem constituída numa mancha vergonhosa, para o conjunto de 450 milhões de pessoas, que constitui a Europa dos três S’s (servil, submissa e submetida) chamada União Europeia (2), e onde a subordinação aos interesses dos Estados Unidos é diretamente prejudicial aos interesses nacionais de cada um dos seus membros. As autoridades políticas e militares da UE e da NATO (que tem mais membros da comunidade europeia) não têm capacidade para criar e executar uma agenda política a longo prazo baseada nos interesses europeus. Tudo se limita ao que foi estabelecido por Washington em urgente comunhão com os grupos de pressão sionistas sediados nos Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Alemanha, principalmente.

Um projeto europeu estéril em termos de autodeterminação face às potências estrangeiras e que emana fundamentalmente da Secretaria de Estado do poder norte-americano, do Pentágono e de grupos de pressão como o complexo militar-industrial e o lobby sionista. Este último marca o rumo daquilo que deveria ser a política externa do Ocidente na zona do Levante Mediterrâneo, o que implica, no essencial, apoiar o regime policial, militar, diplomático e financeiro do regime nacional-sionista israelita judaico.

O referido projeto implica participar numa comunhão de interesses com Washington e com os seus aliados na Ásia Ocidental, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, em diversas áreas; política, militar, diplomática, financeira e de inteligência no seu trabalho de ocupação, colonização e genocídio contra o povo palestiniano, bem como de desestabilização e ataques contra o Líbano, Síria, Iraque e Iémen. Mapa de conflitos que visa também cercar e atacar, no quadro de uma guerra híbrida, a República Islâmica do Irão e a Federação Russa.

A União Europeia e os Estados Unidos, apesar de certas e mínimas discrepâncias, mantêm uma aliança férrea em amplas esferas de relações políticas e militares e em áreas geopolíticas fundamentais. Aí, interesses transnacionais multimilionários em questões energéticas, por exemplo, gás e petróleo, são objectivos mais do que deslumbrantes, para este casamento de interesses manter o comércio bilateral que, só em 2023, representou um máximo histórico de mais de 1,6 biliões de euros, multiplicando o poder das castas políticas de ambos os lados do Atlântico.

E, para manter este nível de intercâmbio e irmandade de interesses, ainda que sujeitos à submissão da Europa ao poder omnipotente dos Estados Unidos, Washington conta com a presença de, pelo menos, 275 bases e locais militares (aéreos, navais e com tropas terrestres) dos países bálticos até à Turquia, num arco que reflete o objetivo predominante de usar a Europa como um muro de separação e uma ameaça latente contra a Rússia e todos os que se encontram a leste desta nova cortina de aço. Estas bases representam um terço do total de bases militares que os Estados Unidos possuem fora das suas fronteiras.

No âmbito destas considerações, é sempre inevitável recordar que, em caso de conflito, de guerra na Europa, onde participam países membros da NATO, o comando geral desta organização militar é chefiado por um general americano. Tal mostra claramente que a capitulação não é apenas económica e política, mas essencialmente militar.

E se estes números e os seus projetos de aumento significam sacrificar a Ucrânia, então não há dúvida por um segundo que o regime de Kiev disponibiliza sangue em grandes quantidades para tentar enfraquecer a Rússia e expandir as áreas de domínio em toda a Europa, e expandir-se para. o Sul do Cáucaso. E, ao mesmo tempo, com o apoio nacional-sionista, influência para criar condições de desequilíbrio de poder na Ásia Ocidental, como observamos em relação ao genocídio na Palestina, à agressão contra a resistência libanesa, à deposição do governo sírio, aos ataques a Ansarolá no Iémen, as ameaças ao Iraque e a política de pressão máxima contra o Irão.

Com o governo moribundo do democrata Joe Biden, esta aliança entre a Europa e os Estados Unidos parecia passar por altos e baixos, mas a capitulação europeia aos poderes do império foi menos vergonhosa do que a vivida na primeira administração governamental de Donald Trump. Hoje esta liderança europeia está profundamente preocupada com a tomada de posse, para um segundo mandato, de Trump, o bilionário, megalómano, pouco diplomático, uma locomotiva impetuosa onde o respeito pela lei do seu país e pelo direito internacional não são impedimento para dizer e fazer o que quer que seja. 

O comércio será uma das principais frentes de luta entre os Estados Unidos e uma Europa que teme o próximo mandato presidencial de Trump, que tem ameaçado repetidamente com a necessidade de o seu país impor tarifas de 10% sobre todas as importações europeias que chegam aos Estados Unidos. Uma medida que “se introduzida, poderá causar estragos incalculáveis ​​em toda a UE, uma potência exportadora que depende em grande parte do comércio global para crescer e compensar a sua fraca procura interna” (3)

Trump é um político com uma mentalidade limitada na diplomacia, mas bastante forte como empresário avassalador, que já apontou à Europa uma série de ameaças relacionadas com o aumento das contribuições do PIB para encher os cofres da NATO ou abandoná-la definitivamente. Foi o que disse assim que foi eleito: “Vou retirar os Estados Unidos da NATO se os parceiros não pagarem as suas contas” (4) O republicano afirmou que a NATO “tira vantagem” dos Estados Unidos nas contribuições para a Aliança, apesar de o seu país ser quem a defende, enquanto a Europa não lhe dá um tratamento comercial justo, na sua opinião.

Tratam-se das questões relacionadas com o pagamento da “proteção” concedida à Europa em termos do guarda-chuva nuclear, embora a França e a Grã-Bretanha também sejam potências nucleares, mas Donald Trump pouco se preocupa com o pequeno príncipe Macron ou com o maçador Primeiro-ministro britânico. Trump alertou ainda que a sua administração poderia reduzir a ajuda à Ucrânia. Trump não tem papas na língua, o seu objetivo é “America First”.

Os políticos europeus estão extremamente preocupados com a próxima administração Trump, pois esta reflete que a subordinação será maior. Não há político naquela Europa fulva, capaz de se opor a este bilionário que pela segunda vez ocupa a Casa Branca e aos 78 anos aparece com mais energia do que nunca, para levar a cabo os seus planos onde a questão da Ucrânia é uma prioridade. E isto veio a público depois da denúncia do Primeiro-ministro da Hungria, Víctor Orbán, que trouxe à luz o que há muito foi denunciado:

“Os Estados Unidos e a União Europeia forneceram mais de 300 mil milhões de euros em ajuda à Ucrânia desde o início da guerra. Uma quantia de dinheiro que teria feito maravilhas se tivesse sido gasta para melhorar a vida das pessoas na União Europeia, para desenvolver os países dos Balcãs Ocidentais a nível da UE ou para reforçar as capacidades militares.”

As palavras de Orbán, deveriam gerar protestos nas sociedades europeias, algo que considero impensável, uma vez que se tratam de sociedades adormecidas, esmagadas sob o poder abrangente da casta política que apenas procura continuar a lucrar com as guerras, que tendem a dinamizar as suas economias.

.A liderança europeia não está preocupada com o fim da guerra, mas sim com o facto de esta terminar, devido à decisão de Washington minimizar a contribuição financeira, e até apoiar o seu fim, como Donald Trump tem repetidamente defendido.

Os meios de comunicação social europeus sublinham com urgência que, em antecipação do regresso de Donald Trump à Casa Branca, a União Europeia está a dar os primeiros passos para desenvolver uma estratégia unificada. O regresso de Trump à Casa Branca não foi propriamente uma grande surpresa para Bruxelas, uma vez que as sondagens apontavam para uma corrida extremamente renhida em que qualquer resultado era possível. Ainda assim, o regresso de um homem com tamanha aversão ao sistema multilateral numa altura em que o mundo vive várias guerras brutais faz suar as autoridades e os diplomatas europeus. O primeiro-ministro luxemburguês, Luc Frieden, observou em relação a Trump que “vamos falar com ele, vamos ouvi-lo e depois temos de nos adaptar com uma forte resposta coletiva europeia (5).

Para Trump, a guerra na Ucrânia nunca deveria ter acontecido e afirma que poderia impor a paz neste país da Europa de Leste em “24 horas”, tecendo mesmo comentários elogiosos sobre o presidente russo, Vladimir Putin, e a relação que mantém com ele. Tanto na Europa, nas suas organizações políticas e militares, como no regime de Kiev, existe um medo manifesto pelo próximo chefe na Sala Oval da Casa Branca.

Mandato que poderá obrigar o oprimido presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, (que só exerce o poder com base num decreto de lei marcial desde que o seu mandato terminou constitucionalmente em maio de 2024) a negociar a paz nas condições impostas por Moscovo, que derrotou estrategicamente há muitos meses o regime de Kiev, que só se mantém precariamente de pé graças ao apoio militar e financeiro do Ocidente.

Entre os líderes europeus, aquele que produziu declarações que o apresentam como o mais lúcido e fundamentado de todos os líderes políticos da União Europeia, parece ser precisamente o presidente húngaro, Viktor Orbán, que apontou “o rumo atual dos acontecimentos na Ucrânia, e a tomada de posse de Trump exige que os líderes do bloco comunitário adotem uma abordagem mais pragmática para garantir a estabilidade e a resiliência económica na União Europeia”.

Para o presidente húngaro, Bruxelas continua desligada das realidades globais e a prova disso foi a decisão do Parlamento Europeu de continuar a enviar fundos para Kiev (50 mil milhões de euros), sendo isso um exemplo claro de prioridades erradas. Decisão que, recorde-se, teve o veto de Orbán (6),  que só foi ultrapassado com base em certas concessões à presidência do conselho da União Europeia nas mãos de Orbán  até Janeiro de 2025. No início de dezembro de 2024, Orbán propôs um cessar-fogo de Natal entre a Ucrânia e a Rússia – que chegou mesmo a ser abordado pelo Presidente eleito dos EUA durante a visita de Orbán aos EUA -, uma contribuição sublinhada por Moscovo, mas categoricamente rejeitada por Kiev.

Em termos de negociações, na conferência anual perante a imprensa internacional, o presidente russo Vladimir Putin, afirmou que “a Rússia está pronta para negociar e chegar a acordos sobre questões estratégicas e estou disposto a qualquer momento para me reunir com o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. Não sei quando o verei. Ele não disse nada sobre isso. Não falo com ele há mais de quatro anos. Estou pronto para isso, claro. Em qualquer momento. Se alguma vez tivermos uma reunião com o Presidente eleito Trump, tenho a certeza que teremos muito que conversar” (7).

 A última reunião entre Putin e Trump teve lugar em Junho de 2019, no âmbito da cimeira do G20 no Japão. Trump, por sua vez, indicou na conferência Turning Point, realizada no Arizona a 23 de dezembro, a sua disponibilidade para se reunir com Putin “onde esperamos pôr fim a esta guerra”. O presidente eleito descreveu o conflito na Ucrânia como “terrível” e reiterou que, se tivesse sido presidente dos Estados Unidos em vez do atual chefe de Estado, Joe Biden, este conflito não teria acontecido (8).

Disputas políticas no seio da União Europeia, uma ou outra declaração de soberania, mais sonante do que real, a realidade é que a Europa é agora o novo quintal dos Estados Unidos. Já referi num artigo anterior que a casta política norte-americana, juntamente com os lobbies do complexo militar-industrial e os movimentos e organizações sionistas, são os que moldam a política externa dos Estados Unidos e, portanto, os pilares da sua relação com a Europa, que há muito perdeu todos os sinais de soberania.

Vemos isso, não só em relação à questão ucraniana, mas também na vergonhosa condução da política quanto ao genocídio levado a cabo pelo regime sionista israelita, que não sofre qualquer pressão da Europa para pôr fim aos seus crimes. E onde está a questão da possibilidade de prender o primeiro-ministro sionista Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Guerra Yoav Gallant por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, de acordo com um mandado de detenção internacional emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI)? É também aqui que entra em jogo a decisão de Washington de fazer com que os seus filhotes europeus incumpram um mandato legal que é vinculativo para todos aqueles que assinaram o Estatuto de Roma.

Hoje, na Europa, através da imposição de uma narrativa política, apoiada pelos grandes meios de comunicação ocidentais de manipulação e desinformação, levada a cabo pelo governo americano, promove-se o fortalecimento de um sentimento e comportamento de submissão à Casa Branca.

Nesse quadro prevalece o poder dos lobbies dos EUA, o seu modelo de vida e a sua visão do mundo. E trudo isso interligado com um eixo de russofobia, como nunca antes se viu na história das relações internacionais, que criou um continente, uma Europa servil, submissa e subjugada. Um continente norte-americanizado de forma indigna (9).

NOTAS:

  1. Estrutura de comando militar. As operações militares da NATO são lideradas pelo Presidente do Comité Militar da NATO e estão divididas em dois Comandos Estratégicos, ambos comandados há muito tempo por oficiais norte-americanos, assistidos por pessoal proveniente de toda a NATO. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) tem a sua origem no Tratado de Washington assinado em 4 de abril de 1949, pelo qual doze países de ambos os lados do Atlântico (Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, França, Islândia, Itália, Luxemburgo , Noruega, Países Baixos, Portugal e Reino Unido) comprometeram-se a defender-se mutuamente em caso de agressão armada contra qualquer um deles.  https://www.exteriores.gob.es/RepresentacionesPermanentes/otan/es/Organismo/Paginas/Que-es.aspx.

2. A União Europeia e os Estados Unidos representam 60% do PIB mundial, 33% do comércio mundial de bens e 42% do comércio mundial de serviços.

3.    https://www.nytimes.com/es/2024/12/20/espanol/mundo/europa-trump-aranceles.html

4.    https://www.dw.com/es/trump-dice-que-considerar%C3%A1-que-estados-unidos-abandone-la-otan/a-70996508

5.    https://es.euronews.com/my-europe/2024/11/13/hablar-pactar-refuer-asi-planea-la-union-europea-gestionar-el-regreso-de-donald-trump

6.    https://www.larazon.es/internacional/hungria-levanta-veto-desblocka-50000-millones-euros-ayuda-europea-ukrania_2024020165bb79c1c3cb30000117bc36.html

7.     https://www.dw.com/es/putin-est%C3%A1-disposto-a-encontrar-com-trump-em-qualquer-momento/a-71112506

8.    https://noticiaslatam.lat/20241222/trump-expresa-que-esperara-a-una-reunion-con-putin-para-resolver-el-conflicto-de-ukrania-1159967431.html

9.    https://www.hispantv.com/noticias/opinion/603638/europa-nuevo-patio-trasero-washington

Fonte aqui

O jogo da vergonha em quatro etapas

(In Contre-Attaque.net, 16/11/2024, Trad. da Estátua)

Quinta-feira, 14 de novembro, aconteceu um encontro vergonhoso no Stade de France: colocou os Blues contra a seleção israelita, o que permitiu ao Estado colonial normalizar os crimes contra a Humanidade cometidos em Gaza no cenário desportivo.


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Se o jogo foi massivamente boicotado pelo público e protegido por mais de 4.000 polícias, ou seja, um polícia para cada 4 espectadores, é necessário sublinhar 4 pontos particularmente escandalosos que não foram suficientemente denunciados naquela noite:

1 – Os hooligans de extrema-direita israelitas atacaram imediatamente os apoiantes franceses, derrubando-os no chão, e eram 20 para 1. Estes são os mesmos hooligans que choramingavam depois de receberem alguns golpes em Amesterdão. Desta vez, ninguém falou em “pogrom”, “linchamento” ou “Kristallnacht”. E, ainda mais surpreendente, apesar dos milhares de polícias e seguranças num local ultra-seguro e filmados de todos os ângulos, os atacantes sionistas conseguiram agir com total impunidade e nenhum deles foi preso. Imaginem a situação oposta: se os adeptos israelitas fossem espancados no chão no meio de um estádio.

2 – Ao mesmo tempo, nada menos que 3 presidentes e muitos líderes franceses, desde o partido socialista até à extrema-direita, subiram às bancadas para demonstrar claramente o seu “apoio incondicional” a Israel. Ainda que este jogo seja insignificante a nível desportivo, e vazio em termos de público. O desporto é obviamente político, a presença de tanta gente impotante da política provou-o.

3 – Um dos agressores israelitas, um tal Alexandre, que literalmente veste uma camiseta do exército israelita, foi gentilmente entrevistado pela BFM após a partida. Ele repete que foi “magnífico”, super bem organizado e muito seguro. A prova é que ele e os seus amigos conseguiram semear o terror com calma e exibir símbolos genocidas enquanto as bandeiras palestinianas eram proibidas. Obrigado às autoridades!

4 – Ponto alto do show: adeptos israelitas cantaram elogios ao Cnews, Pascal Praud e à polícia na saída do estádio, enquanto a polícia repelia uma manifestação pela Palestina.

Ver abaixo vídeo da vergonha. É hora de acordarmos. O Ocidente apoia nazis na Ucrânia e criminosos genocidas em Israel.

Fonte aqui.