Mercenários dos EUA mortos na Rússia; Ocidente fica histérico com a alegada presença dúbia da Coreia do Norte

(Finian Cunningham, in Strategic Culture Foundation, 29/10/2024, Trad. da Estátua)

A NATO e os líderes ocidentais preferem fantasiar sobre a Coreia do Norte do que admitir a verdade da sua “grave escalada” nas fronteiras da Rússia, e da sua ameaça imprudente à paz mundial.


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É uma grave escalada nesta guerra e uma ameaça à paz global, disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, esta semana.

Certamente é um desenvolvimento alarmante que mercenários americanos, canadianos e polacos tenham sido mortos em ação, em solo russo, esta semana. Os membros de uma unidade de reconhecimento e sabotagem foram eliminados pelas forças russas quando cruzavam a região de Bryansk, na Rússia, vindos da Ucrânia.

Mas, von der Leyen e outros líderes ocidentais não disseram nada sobre isso. Eles estiveram a dar hiper atenção, em vez disso, a alegações precárias sobre tropas norte-coreanas enviadas para a Rússia.

Imagens confiáveis ​​da segurança russa mostraram os homens mortos deitados ao lado de armas pesadas, incluindo explosivos Semtex e lançadores de granadas antitanque, “o suficiente para explodir uma cidade pequena“, foi  relatado. Uma das vítimas tinha a tatuagem do 75º Regimento Ranger dos EUA, uma unidade de elite das forças especiais aerotransportadas. Não está claro se o soldado americano era um ex-membro do Exército dos EUA que se juntou a um grupo mercenário privado ou se ele foi transferido das fileiras do exército para lutar na Ucrânia contra a Rússia.

De qualquer forma, a presença de combatentes militares dos Estados Unidos e de outros países da NATO em território russo é uma evidência clara de que as potências da NATO estão diretamente envolvidas na guerra por procuração da Ucrânia contra a Rússia.

Washington e Bruxelas mantiveram a ténue ficção de que “apenas” fornecem armas à Ucrânia, mas que a NATO não participa no conflito com a Rússia, sendo esta uma potência nuclear.

Essa ficção sempre foi um insulto ao senso comum. Os países da NATO têm-se envolvido ativamente no recrutamento de mercenários estrangeiros para lutar na Ucrânia. A Rússia estima que 15.000 a 18.000 militantes viajaram para serem mobilizados pelas Forças Armadas da Ucrânia desde que o conflito eclodiu em fevereiro de 2022. Muitos deles foram mortos ou feitos prisioneiros.

Mercenários dos EUA, Grã-Bretanha, Canadá, Alemanha, França, Polônia, Países Bálticos e Geórgia foram identificados, bem como jihadistas da Síria treinados pelas forças de ocupação americanas em bases como Al Tanf. Estima-se que combatentes estrangeiros de mais de 100 países tenham acabado na Ucrânia, auxiliando o regime de Kiev patrocinado pela NATO.

Alguns deles são, sem dúvida, “soldados da fortuna” ganhando ao dia de combate. Outros teriam que ser militares da NATO porque a operação de armas técnicas, como artilharia HIMARS e assim por diante, deve envolver a expertise de manuseio especial.

Acredita-se que a incursão desesperada na região de Kursk, na Rússia, que começou em 6 de agosto, incluiu muitos mercenários estrangeiros. Uma empresa privada identificada, contratante de militares americanos, foi o Forward Observation Group.

A mídia ocidental ignorou ou obscureceu amplamente os relatos de conexões da NATO com os combates no terreno. Não é surpreendente, dada a função de propaganda da mídia ocidental de “notícias”, no que é a guerra de informação.

Enquanto isso, esta semana, o Secretário-Geral da NATO, Mark Rutte, anunciou preocupação de que tropas norte-coreanas estejam lutando na região de Kursk. Esta foi a primeira vez que a NATO fez a afirmação, oficialmente. Durante semanas houve especulações e rumores sobre tropas norte-coreanas, que se teriam juntado às forças russas. A mídia americana e europeia publicaram manchetes sugerindo que as alegações da NATO eram factos.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou: “Soldados norte-coreanos estão a ser enviados para dar suporte à guerra de agressão da Rússia. É uma grave escalada nesta guerra e uma ameaça à paz global.”

Mas, um ceticismo saudável justifica-se. Rutte, da NATO, não forneceu nenhuma evidência para apoiar sua alegação. Ele, simplesmente, referiu-se às suas discussões com oficiais da inteligência militar sul-coreana.

O ditador ucraniano, de facto, Vladimir Zelensky (ele cancelou as eleições há uns meses atrás) vem há meses alegando que milhares de tropas norte-coreanas estão a juntar-se às fileiras da Rússia na Ucrânia.

Parece significativo que Zelensky se tenha encontrado com o presidente sul-coreano, Yoon Suk Yeol, no ano passado na cimeira do G7 em Hiroshima. Foi o primeiro encontro deles. Imediatamente após esse encontro, a Coreia do Sul prometeu mais ajuda militar e financeira à Ucrânia. A esposa de Zelensky também fez viagens suspeitas à Coreia do Sul para comparecer em “eventos de mídia”.

O índice de aprovação do presidente Yoon, entre o público sul-coreano, atingiu o fundo do poço devido a uma série de queixas, incluindo o alto custo de vida. Yoon é um falcão nas relações com a Coreia do Norte. Pyongyang criticou Seul por incrementar deliberadamente as tensões.

Durante a presidência de Yoon, a Coreia do Sul tornou-se uma grande exportadora de armas, tendo vendido cerca de US$ 20 biliões em armas nos últimos dois anos. A Coreia do Sul está alertando que aumentará os seus fornecimentos militares para a Ucrânia, com base nas alegações de que as tropas norte-coreanas estão a ser enviadas para a Rússia.

Parece haver muita dramatização sobre o suposto contingente norte-coreano. O regime de Kiev está amplificando as alegações como uma forma de envolver mais os Estados Unidos e a NATO na guerra por procuração em curso. A Casa Branca expressou preocupações sobre as alegações da suposta participação de Pyongyang. Para o presidente Yoon, a Ucrânia apresenta oportunidades para impulsionar os seus investimentos em investigação, agora em declínio, e os seus ganhos económicos com o aumento das exportações de armas.

A mídia ocidental está afirmando, ilusoriamente, que o envio de tropas norte-coreanas é um sinal de desespero do presidente russo, Vladimir Putin, em relação às supostas perdas militares na Ucrânia.

Essa alegação não faz sentido. As forças russas estão a avançar rapidamente para assumir o controlo total da região de Donbass, na Ucrânia. O lado apoiado pela NATO está a perder território agora, a um ritmo tão elevado que nunca ocorreu em mais de dois anos de conflito. A ideia de que a Rússia precisa de ajuda militar norte-coreana é implausível, se não absurda.

Moscovo assinou um pacto de defesa mútua com Pyongyang no início deste ano. Se soldados norte-coreanos forem enviados para a Rússia, talvez para treino, isso é uma questão inteiramente legal, de acordo com o direito internacional.

Não é a Rússia que está “desesperada”. A mobilização de mercenários americanos, e de outros países da NATO para a Ucrânia, é um sinal real de desespero de que o regime de Kiev ficou sem carne para canhão e está a envolver-se em provocações transfronteiriças.

É claro que a NATO, e os líderes ocidentais, preferem fantasiar sobre a Coreia do Norte do que admitir a verdade da sua “grave escalada” nas fronteiras da Rússia, e da sua ameaça imprudente à paz mundial.

Fonte aqui.


“Tropas norte-coreanas” na Operação Militar Especial nem deveriam ser um problema para o Ocidente

(Lucas Leiroz, in Strategic Culture Foundation, 28/10/2024, Trad. da Estátua)

Se os coreanos estão, ou não, lutando pela Federação Russa é uma questão que interessa apenas a Moscovo e Pyongyang.


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A mais recente grande controvérsia na mídia ocidental é a suposta presença de tropas norte-coreanas no campo de batalha da Operação Militar Especial. Recentemente, surgiram relatos de que soldados coreanos chegaram à frente para lutar ao lado dos russos, o que causou pânico no Ocidente. Autoridades americanas comentaram que tais unidades coreanas seriam “alvos legítimos” para a Ucrânia e condenaram hipocritamente a suposta ação de Pyongyang de “enviar tropas” para o Donbass.

As autoridades russas negaram tais rumores, esclarecendo que não há tais tropas nas linhas da frente, mas a mídia ocidental insiste que há evidências de tal presença por meio de imagens de satélite. Na mídia alternativa, muitas fontes relatam dados contraditórios, tanto confirmando quanto negando os rumores, mas nada de concreto foi apresentado, até agora, para refutar o que foi oficialmente comunicado pelas autoridades russas.

No entanto, é interessante ver como tais rumores se tornaram uma questão relevante no Ocidente. Simplesmente não deveria haver nenhum problema em torno dessa questão, já que é algo que não diz respeito ao Ocidente, mas apenas aos laços militares diretos entre a Federação Russa e a República Popular Democrática da Coreia.

Recentemente, ambos os países assinaram um acordo de defesa estabelecendo um pacto de assistência militar mútua, em caso de ataque. Por outras palavras, Moscovo e Pyongyang atualmente têm um acordo de defesa coletiva, semelhante ao que os países ocidentais têm no âmbito da NATO. Um ataque à Rússia é uma declaração de guerra à Coreia. Um ataque à Coreia é uma declaração de guerra à Rússia.

Obviamente, esses acordos não preveem nenhuma “implementação automática” da cláusula de defesa coletiva. Embora a Coreia pudesse legalmente enviar tropas para apoiar a Rússia com base no acordo, ela só o faria se a própria Rússia o solicitasse ou autorizasse. Como Moscovo é uma potência militar absolutamente autossuficiente, não há razão para que tal solicitação ocorra.

No entanto, a falta de necessidade por parte dos russos não impede os coreanos de enviarem discretamente algumas unidades especiais para estas ganharem experiência de combate. Não há razão para a Rússia recusar tal suporte se os coreanos o oferecerem. No final, isso beneficiaria muito mais a Coreia, pois permitiria que os militares coreanos lidassem com situações reais de combate, trazendo experiência e conhecimento vitais para o resto das tropas do seu país – o que é do seu interesse, dadas as tensões curso na Península Coreana.

De facto, como a Rússia e a Coreia do Norte têm um acordo de defesa coletiva, não há nada no direito internacional que as impeça de lutarem juntas em qualquer conflito em que qualquer uma das partes esteja envolvida.

Os EUA estão certos quando dizem que os soldados coreanos são “alvos legítimos” para a Ucrânia. De facto, Kiev tem o direito de tentar eliminar quaisquer soldados inimigos, independentemente de sua nacionalidade. Mas deve lembrar-se que a Rússia também tem esse direito – e que se Moscovo começar a destruir os centros de tomada de decisão da NATO na Ucrânia, a situação tornar-se-á muito difícil para o regime neonazi e para os seus patrocinadores internacionais.

A NATO, que está diretamente envolvida na guerra enviando sistematicamente tropas disfarçadas de “mercenários”, não pode dizer nada. Os coreanos, que aparentemente não estão realmente envolvidos no conflito, têm o direito de lutar pela Rússia no âmbito de um tratado internacional. Os ocidentais, que são conhecidos por estarem envolvidos na guerra, não têm o direito de lutar pela Ucrânia, pois não há qualquer tratado que o fundamente.

Qualquer crítica do Ocidente no caso do apoio coreano à Rússia deve ser vista como mera hipocrisia, quando é o próprio lado ocidental-ucraniano que está violando as normas internacionais ao promover uma coligação internacional anti Rússia na guerra atual.

Fonte aqui.


O Ocidente dos “valores democráticos” ao lado do terror nazi-fascista

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 14/10/2024, revisão da Estátua)

A recuperação do nazismo coloca-nos a todos, os povos ocidentais, ao lado e sob a influência nazi-fascista!


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O cerco à Rússia não se confina ao domínio militar, comercial, institucional ou financeiro. Antes destas, foi implantada uma outra barreira – melhor dizendo, “alimentada” -, no sentido de se constituir uma espécie de “cintura sanitária” agressiva e activa, constituída pelos estados cujas fronteiras comunicam, por terra ou por mar, com as da Federação Russa.

Esta “cintura sanitária”, conceptualizada a partir do que sabemos ser o enquadramento mental das classes dominantes ocidentais, tem uma natureza profundamente ideológica, visando tocar, de forma repulsiva, nos valores mais profundos e encarnados na história russa dos últimos 100 anos e, através dessa conexão, provocar uma relação antagónica caracterizada por um mútuo efeito repelente, prevenindo qualquer comunicação humana que se pudesse estabelecer entre as partes.

A força soberana que reside na cultura multinacional, multiétnica e multirreligiosa russas, responsável, desde logo, pela capacidade de agregação de forças que tornou possível a derrota do nazi-fascismo na segunda guerra mundial, é também o que separa as reservas minerais, humanas, energéticas, entre outras, das garras do capitalismo ocidental e do seu ímpeto alimentado pela fase imperialista em que se encontra.

Se a brutalidade de uma ideologia como o nazi-fascismo representou, na primeira metade do século XX, o combustível que alimentou a agressão à então pátria soviética, foi a sua preservação e recuperação históricas – num processo de revisionismo e branqueamento sem paralelo – que possibilitou, já nas primeiras décadas do século XXI, a sua utilização como combustível para a tal “cintura sanitária” em torno da Rússia. 100 anos depois, repete-se a receita, embora com as limitações claras que o desespero impõe.

O que pode ser mais antagónico e mutuamente repulsivo do que o nazismo em contacto com o que se pode considerar a “alma russa” actualizada com os acontecimentos do século XX? Que mais vívida e carnal imagem existe, na sua brutalidade e violência, para além do pesadelo sofrido, principalmente pelo povo Russo, às mãos do terror nazi?

Os primeiros a sofrerem o efeito desta “cintura sanitária” são os próprios cidadãos de origem russa que, após o colapso da URSS, se quedaram na Estónia, Lituânia ou Letónia e hoje aí residem. Para além de proibirem a comunicação social russa, violando o seu direito à opinião e à informação, com base numa suposta política de combate à “propaganda do Kremlin” (algo a que também se assiste em toda a EU e à margem das constituições nacionais dos diversos países), a Letónia promoveu mesmo a eliminação do ensino do russo dos currículos escolares, o que provocou preocupações por parte de especialistas da ONU em direitos Humanos, relativamente à protecção dos direitos nas minorias étnicas. Para quem acusa a Rússia de não as ter em conta…

Segundo a narrativa, o Kremlin usa o russo como arma, que depois utiliza como veículo para a sua propaganda, perpetrada através da designada “média estatal”, que referem como toda a comunicação social que, financiada ou não pelo executivo russo, não está alinhada com a narrativa ocidental. O que nunca referem é que, afinal, o uso do russo como veículo de propaganda não será, como dizem, um exclusivo das fontes russas, pois a própria letónia financia órgãos de comunicação como o Meduza, os quais, escrevendo em russo, apenas visam passar informação alinhada com a narrativa ocidental.

Não sendo tão radical como a Letónia na eliminação da língua russa dos currículos escolares, a Estónia é, mesmo assim, um exemplo de destruição de monumentos alusivos à vitória soviética sobre o nazismo. Principalmente sob o mandato de Kaja Kallas, o processo de remoção destes monumentos assistiu a uma aceleração, chegando mesmo a ser discutida no quadro europeu, processo que levou à remoção do Tanque Soviético nos arredores da cidade de Narva. Segundo a mesma Kaja Kallas, o tanque é uma “arma do crime” – talvez do “crime” de derrotar nazis – “estando a morrer pessoas na Ucrânia com o mesmo tipo de tanque”.

Mas esta perseguição à cultura e memória soviéticas – não apenas russa – diz-nos que a propagação de uma lógica russófoba incorpora uma dimensão que vai para além do mero confronto étnico, representado, por exemplo, na discussão de limitações da aquisição de propriedade imobiliária, por parte de cidadãos russos, na Letónia, na sequência de uma proposta feita pelas autoridades finlandesas. Para quem diz que o povo russo é oprimido, não se percebe esta generalização.

A ligação do confronto étnico com as populações russófonas e russas, ao passado soviético e à memória da vitória sobre o nazifascismo, encontra origem na vaga de colaboracionismo e simpatia com a ideologia nazi que ocorreu nesses países, por parte de uma certa camada da população e classes dominantes, antes, no início e durante a segunda guerra mundial. A responsabilização da Federação Russa, enquanto única depositária da memória histórica colectiva da vitória do multinacional exército vermelho sobre as hordas nazis, faz a ponte entre a cobiça dos vastos recursos detidos pela Rússia e a necessidade de encontrar fundamentação ideológica, teórica, psicológica e emocional que justifique a agressão.

Tal justificação teórica e ideológica, a meu ver, é fornecida pelo neonazismo e pela glorificação do passado colaboracionista com as forças de Hitler. A força dessa ideologia anticomunista, racista e supremacista branca, colocada num primeiro plano, aliada ao processo de revisão histórica e branqueamento do terror nazifascista, faz a ponte, do passado para o presente, entre o anticomunismo que justificou a agressão à URSS e a russofobia que serve de desculpa ao cerco actual.

Ora, para promover a tal “cintura sanitária” com a Federação Russa, cuja função reside em impedir o contacto saudável entre a Europa (Alemanha, principalmente), a Rússia, repúblicas euroasiáticas e China. foi preciso recuperar o activo histórico que constitui a ideologia nazi, para os EUA e para as classes dominantes do ocidente colectivo. Como sucede com todos os activos, só se recuperam os que já existem per se. A recuperação do património histórico nazi é resultado de um processo, mais longo, de preservação e revitalização desse activo.

Actualmente, quando assistimos à glorificação dos “Irmãos da Floresta”, um grupo abertamente anticomunista surgido nos países bálticos, formado por ex-membros das Waffen-SS locais e que lutaram contra o que designavam como “ocupação soviética”, mesmo depois do fim da segunda guerra, tendo sido responsáveis por horríveis crimes contra civis e polícias soviéticos, operado com informação da inteligência ocidental, ou assistimos ao branqueamento e entronização de organizações como o “Sonderkommando A”, o qual, colaborando com as forças nazis, recorrendo a letões e lituanos, assassinaram quase 250.000 judeus na Lituânia, até 1944, verificamos que o património histórico nazi está bem vivo e mais forte do que alguma vez esteve, desde o final da segunda guerra mundial.

Para possibilitar o seu ressurgimento e recuperação foi necessário implementar todo um processo de revisionismo, minimizando os danos e branqueando os seus crimes. Na Lituânia homenageou-se o general Povilas Plechavicius que combateu ao lado dos nazis; em 2008 o parlamento lituano equiparou as ideologias comunista e nazi, o que representou uma normalização e recuperação histórica do nazismo (ao contrário de uma diabolização, como muitos defendem) e, em 2010, os tribunais lituanos declararam a suástica “parte do património cultural do país”, provando que a equiparação ideológica não passa de um processo de recuperação histórica desse passado.

O facto é que, desde 1991 que milhares de comunistas foram perseguidos na Lituânia, ao passo que foram sendo permitidas manifestações com símbolos nazis e lemas racistas. Sintomático! Como disse Jean Pierre Faye no prefácio ao livro “O arquipélago de Sangue”, escrito por Chomsky e Herman, o acto de incluir o nazismo e comunismo no saco do “totalitarismo”, permitiu aos EUA apoiar as forças mais retrógradas, reaccionárias e tirânicas, contanto que não se dissessem apoiantes do “totalitarismo”.

Assim, equiparando as ideologias comunista e nazi, o facto é que as autoridades lituanas, como hoje muitas outras na União Europeia dos “valores” e da “democracia”, perseguem os comunistas, mas toleram – para não dizer algo mais – as manifestações de extrema direita. Aliás, a profusão de governos abertamente reaccionários e racistas na União europeia, comprova de forma quase irrefutável as razões que estiveram na base de equiparação. O facto é que em todos esses países, os comunistas são perseguidos, ao passo que os nazis são admitidos. Nada como a prática como critério de aferição da verdade!

No caso Português, um grupo como o 1143, alinhado com as facções mais extremistas em Portugal e com gente que tem um passado de perseguição – e assassinato – de migrantes e minorias de qualquer tipo (comunistas, homossexuais, negros, asiáticos ou muçulmanos), é caracterizado na comunicação social mainstream como sendo um simples “grupo nacionalista”. O que terá tal a ver com o apoio por parte de André Ventura, do partido Chega, contra o que referiu como “Imigração descontrolada”? E porque razão não refere o mesmo André Ventura, os órgãos de comunicação social que lhe dão voz e espaço e os poderosos interesses que o apoiam, que quem contrata os imigrantes são as empresas, que são as associações patronais quem junto aos governos pede a abertura das fronteiras, que são as UBER desta vida quem mais explora a imigração e que é a própria União Europeia, que André Ventura defende, que fomenta, causa e legitima toda a imigração a que assistimos? E porque razão não atacam o turismo descontrolado que destrói Lisboa, actividade, para a qual, trabalham grande parte dos imigrantes?

Ora, esta lógica racista que faz a ponte com o anticomunismo, visando ligar a Rússia actual, como única depositária do passado soviético e daí partir para a sua diabolização actual, de modo a justificar uma agressão, isolamento e opressão que possibilite a sua pilhagem – como sucedeu nos terríveis anos 90 do século XX sob Boris Ieltsin – encontra exemplo claro na permissão, por parte da Meta (Facebook, Instagram, WhatsApp), em os seus usuários poderem exprimir mensagens de ódio contra os russos).

Esta perspectiva russófoba, absolutamente inaceitável para uma Europa que se diz “dos valores”, representa um pilar fundamental da adesão destes países à OTAN e deixa antever a que mecanismos recorrem os EUA para conseguirem que os países “eleitos” façam da adesão à aliança atlântica, não apenas uma questão de defesa contra a Rússia, mas, acima de tudo, uma necessidade existencial. E o nível de extremismo implantado é tão grande que, basta ouvirmos a forma como a elite, que compõe o regime de Kiev, fala sobre os russos, não os distinguindo, para perceber que o ódio é indiscriminado, profundo, visceral, como só algo irracional, como o racismo, pode ser. E a própria sobrevivência da OTAN depende desse ódio irracional, animal.

Para preservar no tempo, recuperar e revitalizar o património histórico nazi, há um país em especial que cumpriu esse papel como nenhum outro: o Canadá! Ainda hoje, o Canadá resiste a fornecer as identidades dos 900 nazis foragidos que aí encontraram santuário.

Já num artigo passado expus o verdadeiro museu vivo que a Universidade de Alberta, e a sociedade canadiana, são para os fugitivos dos julgamentos de Nuremberga, nomeadamente os da 14ª divisão da Galicia Waffen SS. Contudo, o legado canadiano, neste aspecto, vai muito mais longe, tendo-se constituído esse país como um refúgio pacífico para cientistas, militares e outros foragidos nazis.

Embora neste país, entre 1985 e 1986, e após muita pressão política e popular, se tenha realizado uma investigação sobre o assunto, na altura designada por Comissão Deschênes, chegando-se mesmo a uma compilação de nomes, a verdade é que o trabalho deixou muito a desejar e foi realizado para produzir resultados, no mínimo, ambíguos.

A comissão não investigou materiais mantidos na União Soviética ou em países do Bloco de Leste, potencialmente perdendo evidências cruciais que aí se encontravam; o Juiz Deschênes estabeleceu condições rigorosas para consultar evidências desses países, mas tendo a resposta soviética para a consulta chegado apenas em junho de 1986, tal foi considerado tarde demais para a comissão viajar e examinar, o que deixa antever que o levantamento da realidade material não constituía, talvez, o objectivo principal da missão.

A comissão não investigou uma lista de 38 nomes adicionais fornecida no final do inquérito, devido ao que considerou como restrições temporais; ficou incompleta a investigação de uma lista de 71 cientistas e técnicos alemães; a segunda parte do relatório final da comissão, contendo alegações contra indivíduos específicos e recomendações sobre como proceder em certos casos, permanece confidencial e não foi divulgada ao público; uma cópia não editada do relatório de Alti Rodal para a Comissão Deschênes, que contém relatos detalhados de como criminosos de guerra entraram no Canadá e a responsabilidade do governo pela sua entrada, não foi totalmente divulgada; os arquivos do Departamento de Justiça e da Polícia Montada Real Canadense sobre criminosos de guerra nazis mantidos por essas agências não foram tornados públicos; as provas das actividades anteriores dos membros da Divisão da Galiza não foram examinadas, nomeadamente as que referiam potenciais crimes de guerra cometidos em outras unidades policiais alemãs antes de se juntarem à divisão; um estudo secreto conduzido pela comissão descobriu que autoridades britânicas e americanas transportaram para o Canadá colaboradores nazis, vindos da Europa Oriental, logo após a Segunda Guerra Mundial sem informar o governo canadiano e com um escrutínio mínimo.

Ainda hoje a retenção destas provas conduz a debates contínuos sobre a precisão e a integridade do trabalho da comissão, com muitos argumentando que, ao invés, o trabalho da comissão ajudou a encobrir o registo histórico sobre criminosos de guerra nazis no Canadá. Parece que a Comissão Deschênes visou mais branquear o passado, do que avaliá-lo e julgar os crimes cometidos.

Todo este dossier foi reactivado aquando da polémica relativa à recepção de Yaroslav Hunka no parlamento canadiano. As acusações de branqueamento têm-se multiplicado, o que não admira, considerando que foi essa a comissão que declarou os membros da Divisão da Galicia Waffen SS como inocentes da prática de crimes de guerra, pois, segundo arguiu, haviam sido examinados aquando da sua admissão no país.

Actualmente, após toda esta pressão, argumenta-se que a divulgação total do trabalho da comissão para além de poder deixar marcas na credibilidade do governo canadiano, pode ainda “ajudar a Rússia”, na medida em que ajuda a reforçar a narrativa de “desnazificação” do Kremlin. Ora, não era algo que não se soubesse, o problema não é conhecer a verdade, o problema consiste em diabolizar a Rússia, descredibilizar a sua versão dos factos e justificar a continuação da guerra.

O que esta realidade demonstra, mais do que nunca e especialmente quando ouvimos Blinken referir que os EUA são um país do ártico e que quer formar com o Canadá e os países europeus bálticos, uma organização para manter aquela região “livre de conflitos” (agora seria hora de dar umas fortes gargalhadas), é que o Canadá não apenas constituiu um importante “armazém museológico” para preservação, protecção e recuperação dos activos nazis, como agora passa também a fazer parte da “cintura sanitária” que os EUA promovem à volta da Rússia. Tudo isto também demonstra que o Canadá não passa de uma república das bananas e um campo de retiro dos activos humanos importantes para o imperialismo anglo-americano.

O que nos ensina esta triste realidade é que o revisionismo histórico que visou comparar o comunismo ao nazismo não visou apenas normalizar o segundo e desabilitar historicamente o primeiro, apagando a contribuição da URSS para a vitória aliada na segunda guerra mundial. Visou muito mais do que isso. Visou criar uma barreira repulsiva entre a Rússia e os que seriam, geograficamente, os seus aliados naturais, os países europeus…

Coincidentemente, para os que acusam Putin de ser “fascista” e de “extrema direita”, é a Europa dos “valores” e da “democracia” quem fica do lado nazi… A recuperação do nazismo não coloca apenas a Rússia do outro lado…. Coloca-nos a todos, os povos ocidentais, ao lado e sob a influência nazi-fascista!

Fonte aqui.