O neoliberalismo e a destruição da consciência

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 01/11/2024, revisão da Estátua)

Com a destruição do professor, o ocidente neoliberal destrói algo mais importante ainda: a consciência de nós próprios!


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Muito se tem falado sobre a crise no Ocidente e, em especial, na União Europeia. O discurso tem-se concentrado sobretudo na crise energética, militar, social ou migratória. Contudo, estas crises são resultado de um mal muito mais profundo, representativas, sobretudo, da vitória da ignorância sobre o conhecimento, do individuo sobre o colectivo, do económico sobre o social.

Ao contrário do que muitos possam pensar, é nos próprios países ocidentais que a pilhagem neoliberal, operada pelas oligarquias ocidentais, mais se tem intensificado. Podemos mesmo dizer que esta pilhagem aumenta à medida que diminui a dos povos da maioria global.

Mas, para infelicidade dos que aí residem, esta dicotomia vais mais longe: quanto mais alertados estão os povos, da maioria global, para o caracter predatório da oligarquia ocidental, menos conscientes estão, os povos ocidentais, das razões, pelas quais, se agravam as suas condições de vida. Os povos ocidentais estão em contraciclo com os povos da maioria global, em todos os sentidos. À medida que os segundos ganham consciência de si, os primeiros tornam-se cada vez mais inconscientes do seu ser, alienados que estão das suas raízes, culturas, famílias, comunidades…

Vector fundamental para a produção desta inconsciência, traduzida na incapacidade crítica e analítica crescentes, por parte das populações ocidentais, tem sido, precisamente, a área da educação.

A degradação dos sistemas públicos de educação, não apenas constitui uma das características mais repugnantes, por parte dos sistemas que sucumbem ao reaccionarismo e revisionismo histórico e científico, como constitui, também, o motor desse processo reaccionário.

Portanto, não foi surpresa, para os mais avisados, que um estudo da EDULOG, um Think Thank da Fundação Belmiro de Azevedo (um dos principais multibilionários portugueses já falecido, que pertencia à Forbes 500), tenha retirado, entre muitas outras, a seguinte conclusão: “A crise de falta de professores está a tornar-se sistémica em todas as economias da OCDE”.

Como razões para este drama, entre outras, o estudo aponta: “a degradação da imagem e estatuto dos professores; a fraca atractividade dos salários e das condições de trabalho; a falta de perspectivas de progressão e evolução na carreira profissional”.

Este estudo trouxe-me à memória (uma coisa criminosa no Ocidente) que – já em 2002, durante o governo de “sua eminência”, o Dr. Durão Barroso, ex-Primeiro Ministro de Portugal, Ex-Presidente da Comissão Europeia e homem de confiança da Golden Sachs -, se havia intensificado um processo de redução dos salários dos professores, mascarado sob a forma de “sistema de avaliação”, o qual, à boleia da introdução de um sistema de medição da qualidade do desempenho acabava a reduzir os salários e, principalmente, a progressão na carreira dos professores.

Eu pergunto-me porque razão o Professor Doutor David Justino, à data Ministro da Educação, não teve em conta o que lhe transmitiram os sindicatos dos professores da CGTP-IN (maior central sindical em Portugal). Nomeadamente, alertando para as consequências nefastas que o seu ataque teria para a escola pública, a profissão do professor e para os alunos. Vejam lá o que se teria poupado em estudos e políticas desastrosas.

Fossemos ingénuos e acreditaríamos que, à data, David Justino não poderia prever estas coisas, mas a ingenuidade que não temos, é proporcional à inexistência de espinha dorsal por parte de quem, um dia atacou os professores portugueses e, passados 22 anos, fez um estudo concluindo que as políticas que então defendeu, estão todas absolutamente erradas.

Os argumentos que hoje são conclusão deste estudo, foram, à data, esgrimidos contra o governo de Durão Barroso e de que fazia parte David Justino. É caricato pensarmos que, hoje, a União Europeia de Úrsula Von Der Leyen convida sindicatos e patrões europeus para celebrar um “Pacto Europeu para o Diálogo Social”, quando, repetidamente, desconsideram todas as propostas e argumentos, empíricos, científicos ou outros, que contrariam os seus planos de guerra, concentração de riqueza e supressão das soberanias, e com elas, das liberdades nacionais.

Como prova a história, o resultado de tão intenso “diálogo social”, entre sindicatos da educação e os sucessivos governos, consistiu na “elevação” do Secretário Geral da FENPROF (Federação Nacional dos Professores), Mário Nogueira, a inimigo público número um, um dos ódios predilectos da oligarquia dominante. De cada vez que alertou para o facto de que a destruição do estatuto dos professores resultaria numa destruição a escola pública, o exército de comentadores e jornalistas de serviço, acusaram-no de “corporativismo” e de apenas se importar com os professores. Faz lembrar os EUA quando acusam os outros de fazerem, ou quererem fazer, tudo o que eles já fizeram, querem continuar a fazer e querem ser os únicos a poder fazer. O oportunismo excepcionalista constitui uma das mais odiosas expressões do supremacismo neoliberal norte americano.

Hoje tão preocupada com as “competências”, Ursula Von Der Leyen até se esquece que é parte da organização, que integrou a maldita Troika governativa (FMI, BCE e EU), que se seguiu à crise de 2008, introduzida em Portugal pela mão de um governo do Partido Socialista (só de nome, sendo um partido liberal social) e continuando a todo o gás, com um governo do Partido Social Democrata (só de nome, é neoliberal puro e duro), coligado com o partido do Centro Democrático Social (só de nome, sendo um partido da oligarquia mais reaccionária e nostálgica do fascismo), que prometiam “ir além da Troika”, produzindo uma espécie de choque neoliberal ao modo Chileno ou Argentino. Tudo isto com o beneplácito de Durão Barroso, então já Presidente da comissão Europeia.

Foi neste período que se assistiu a um abrupto desinvestimento nos gastos públicos com a educação. Dizer que este cenário é decalcado do que sucedeu nos EUA e Reino Unido, seria redundante. Seria não se perceber que factores políticos provocaram tal situação e de onde foram importados.

Mas se existe coisa que este estudo, tal como todos os estudos do tipo, nunca fazem, consiste em fazer a ligação entre estes resultados desastrosos, em matéria de política pública, e as teorias económicas que o ocidente exporta e quer impor, através do FMI, Banco Mundial e BCE, a todo o mundo. Não admira que muitos olhem para o que se passou em Kazan na semana passada, como um evento histórico. Afinal, se existe algo comum a todos esses países, consiste na tentativa de afirmarem a sua soberania económica, política e social, rejeitando o “paraíso” liberal (ou neoliberal) idealizado por Fukuyama.

Pelas razões apontadas, olhar para as conclusões deste estudo é como sofrer um déjà-vu, revivendo numa fracção temporal mínima todas as horas, dias e anos de combate político aceso, por parte de todos os que – como eu próprio – se opuseram (e opõem), de forma veemente, ao neoliberalismo, ao consenso de Washington e às charlatanices que, mascaradas de discurso tecnocrático, alegadamente pragmático e extirpada de cientificidade, mais não visaram do que desviar enormes quantidades de recursos – produzidos pelo trabalho – para a oligarquia dominante, com resultados nefastos para a própria normalidade democrática, hoje ameaçada pelo retorno do fascismo e do nazismo.

Já em 2015, aponta o estudo, um grupo de investigadores (Padhy et al., 2015) concluiu que a probabilidade de se escolher a profissão “aumenta com a percepção de ser uma carreira agradável, com bom ambiente de trabalho, colegas que colaboram e com quem se estabelecem boas relações profissionais, ter uma garantia de emprego com contratos de longo prazo”.

Acresce ainda que, “mais recentemente, um estudo alargado e desenvolvido em vários países (BCG, 2023) identificou as características mais valorizadas num emprego: emprego estável, com um bom equilíbrio entre vida pessoal e trabalho; um horário de trabalho fixo e que não se arraste pelos fins de semana; um salário compatível com as habilitações e possibilidade de evoluir na carreira; possibilidade de negociar condições adaptadas à situação individual, incluindo adaptação de horários de trabalho, períodos de férias e planos de reforma”.

Perante tais conclusões, chegou o momento de sermos jocosos: quem diria que as pessoas, os trabalhadores, querem estabilidade, salários adequados, horários fixos e não muito extensos, progressão na carreira e capacidade de negociação, férias e bons planos de reforma? Eu questiono-me sobre quantos estudos são necessários, quantos biliões de euros terão de ser gastos, quantos Think Thank de bilionários têm de ser fundados, para se chegar a esta “brilhante” conclusão. Seja para os professores ou para todos os trabalhadores, em geral.

Vale a pena questionar onde se enquadram as políticas de desregulação do mercado de trabalho, destruição da contratação colectiva, defesa da precariedade laboral e da flexibilidade do horário de trabalho. Onde se enquadram então as propostas de “contenção dos custos laborais” e “promoção da mobilidade laboral”, como encontramos, de forma repetidamente doentia, nos compêndios normativos da EU, da Reserva Federal, do BCE ou do FMI.

Numa era em que o ocidente, e a europa em particular, se debate com graves problemas de mão de obra, envelhecimento populacional e enceta uma corrida por recursos humanos, apenas para conter salários; numa época em que se desenvolve, instrumentos como a Inteligência Artificial e torna-se possível produzir em maior quantidade, com melhor qualidade, em muito menos tempo e consumindo menos recursos ainda; nesta época, em que tanto se fala de quarta revolução industrial, automação e digitalização; poucos, muito poucos, defendem que toda esta inovação, este aumento brutal da produtividade, a que se acumulam os subsídios estatais que faltam aos serviços públicos e o desagravamento fiscal para a oligarquia dominante, todos estes factores resultando, eles próprios, do trabalho, devam de reproduzir-se na melhoria das condições de vida, de quem deu vida a tais recursos..

Ao invés, as mesmas vozes que calam a conferência de Kazan, que escondem o descalabro do regime de Kiev, que nos contam que a Federação Russa e esse “maléfico” Vladimir Putin, querem conquistar a europa toda; as mesmas vozes que calam, consentem e são cúmplices do genocídio palestiniano; são as mesmas vozes que, apesar de todas as evidências, empíricas e científicas, continuam a considerar que a solução passa por intensificar ainda mais as medidas que tanto falham.

Louve-se, contudo, que o estudo da EDULOG vem, pelo menos, dizer que os governos devem evitar fazer, o que afinal têm feito em toda a linha: Baixar (e desregular) a qualificação dos docentes; alargar o horário de trabalho dos professores; aumentar o número de alunos por turma”.

Ao mesmo tempo que, para os professores (poderia ser para qualquer outro profissional) os estudos científicos dizem que não se devem “baixar as qualificações” de acesso, a União Europeia, ansiosa por captar mão de obra migrante e, ainda mais ansiosa, por poupar na sua integração e qualificação, adopta, ao invés de uma agenda para as qualificações, para a valorização das profissões ou do trabalho, opta antes por uma “Agenda para as Competências”. Não pensem que é despiciendo ou se trata de um acaso. O objectivo é bem claro. Uma vez, trata-se de flexibilizar e desregular qualificações e profissões.

Para libertar os sistemas nacionais de qualificações da necessidade de investirem em processo de educação e formação mais estruturados, de maior duração, mas com maior amplitude de conhecimentos e competências, resistindo mais tempo à obsolescência e à desactualização e possibilitando um maior leque de escolhas profissionais, a EU vem promover a atomização do sistema de qualificações, com vista a reduzir o investimento com a formação estrutural dos indivíduos, promovendo uma lógica de formação de curta ou curtíssima duração, mas sem o suporte de competências chave essenciais para o desenvolvimento pessoal, social e profissional (literacia, numeracia, pensamento crítico, competências digitais…). Uma vez mais, dos EUA importam-se então coisas como as “micro-credentials”, tentando reproduzir no espaço europeu, todos os cancros educacionais e formativos que se observam no centro imperial.

Coincidentemente, é o próprio estudo da EDULOG que nos diz que EUA e Reino Unido, não apenas já sofrem, com agudeza, o problema da falta de professores, como não o conseguem resolver.

Quando me recordo, nos idos anos 80 e 90, sobre o papel que os meus professores tiveram na minha vida, nunca me esqueço que os professores eram um pilar fundamental do nosso desenvolvimento individual e social. Era absolutamente impensável, para mim ou um colega meu, falar mal, de forma gratuita, de um professor.

A crise no sistema de educação ocidental é, sobretudo, reflexo de uma crise moral e éticas profundas. As brilhantes, mas banais conclusões a que este estudo chegou- este e muitos outros –, pecam por tardias, pecam, sobretudo, por anacronia. A experiência histórica, o conhecimento científico e os instrumentos de análise permitiam em 1989 (ano da celebração do consenso de Washington), como hoje, perceber o quão erradas estavam aquelas propostas políticas. Não faltaram avisos, críticas e análises fundamentadas sobre as reais intenções e as falácias montadas para deturpar a realidade e justificar o movimento ilusório. Todas foram e são secundarizadas, quando não perseguidas e ostracizadas.

No máximo dos máximos faz-se como faz este estudo: nunca ligam as causas e as conclusões à vivência política. Fazê-lo, dizem, é “ideologizar”, não o fazer é “pragmatizar”. E assim se justifica e branqueia a candidatura e eleição, mesmo que precária e democraticamente pouco representativa, de todos os que defendem o erro e, mais grave ainda, a sua continuidade e aprofundamento.

Décadas de testes americanos – de escolha múltipla – em que se diz ao aluno o que pensar, ao invés de o fazer pensar por si mesmo, de burocratização e mercantilização do ensino, ataque à escola pública e destruição do estatuto individual e colectivo do professor, foram os veículos usados pelo neoliberalismo para conseguir o que o fascismo fazia com o analfabetismo: convencer o povo de que os seus interesses eram, na realidade, os interesses da oligarquia que o oprime.

Para o conseguir, retirou-se dos programas de ensino o desenvolvimento e utilização de um instrumento cognitivo essencial para qualquer ser humano: a análise dialéctica, ou seja, a capacidade de analisar a realidade em movimento e como parte de um processo histórico. Fazendo-o, conseguiram apresentar uma versão histórica unicista e unificadora, a versão liberal. A história tinha acabado e era importante transmitir esse facto, fazendo acreditar que, não apenas era impossível outra realidade, como não era sequer desejável. Para tal diabolizaram-se todas as experiências indesejáveis e perigosas para a oligarquia. Hoje, quando se assiste ao fenómeno BRICS, os EUA apresentam-no como uma espécie de “união das autocracias”. Trata-se de um elogio, um elogio dito pelo medo, o medo de ficarem para trás.

Neste mundo neoliberal, para chegar ao topo, o fundamental é saber operar, mas não pensar. Stoltenberg não soube responder à questão de quantas invasões a China tinha praticado nos últimos 40 anos ou de quantas bases possui no estrangeiro; o Ministro da Defesa de Portugal, Nuno Melo, não sabia o que queria dizer a sigla NATO, chamando-lhe Tratado do “Atlético” Norte; Von Der Leyen acreditava que a Rússia retirava semicondutores de máquinas de lavar…).

Num mundo em que o conhecimento é pernicioso e perigoso para a oligarquia dominante, não admira que não existam professores suficientes. Não admira que a sua imagem tenha sido degradada e destruída, afastando os jovens dessa profissão.

Não admira que o ocidente seja o mundo do populismo, das fake-news, da pós-verdade, das revoluções coloridas, das vitórias eleitorais contestadas, dos golpes de estado judiciais e da alternância sem alternativa. Neste quadro, o professor torna-se uma personagem, não apenas redundante, como indesejada. O professor da escola pública, que se organiza e organiza os alunos em turmas, que transmite, pensa e faz pensar, é persona non grata.

Num sistema que promove o individualismo e o narcisismo, em que os heróis são os que enriquecem à custa de bilionários contrato públicos, o professor constitui, ainda e apesar de todas as limitações, um elo social precioso, ainda representativo da nossa conexão social, podendo conferir-lhe coesão e sentido de unidade.

Neste sentido, a destruição da sua imagem, do seu estatuto, é consequência inevitável da aceleração e intensificação do processo neoliberal, um sistema que vive precisamente do isolamento, solidão e desconexão social. O professor, enquanto elo de ligação entre seres de uma comunidade, é triturado por um sistema que sonha ver-nos aprender sozinhos, ligados a um ecrã e apenas comunicando pelo tempo estritamente necessário e sem conexão real, emocional.

Como qualquer fascismo, também o neoliberalismo tem ódio ao grupo, ao nosso ser social e colectivo, à civilização que a existência colectiva importa. “Em 2018, já mais de metade dos países da UE reportavam falta acentuada de professores”. A violência e o sentimento de desagregação social a que se assiste no ocidente, tem muito a ver com esta aniquilação do estatuto do professor.

Não é possível viver numa sociedade civilizada, que valorize o conhecimento e a sabedoria, e ao mesmo tempo, promova o neoliberalismo, o imperialismo e a hegemonia. A sua sobrevivência depende da destruição do sistema público de educação e das suas componentes fundamentais: a turma, o grupo, a escola e o elo que liga tudo isto, o professor.

Torna-se, portanto, imperioso para o neoliberalismo, “matar” a figura do professor, para melhor dominar e chegar ao aluno. Eis o que se esconde por detrás da destruição da escola pública! No final, basta apresenta-lo como uma consequência inesperada, prometer que se vai mudar, e tudo fica como está. “Democraticamente” imóvel, em degradação constante até final.

Com a destruição do professor, o ocidente neoliberal destrói algo mais importante ainda: a consciência de nós próprios!

O individualismo extremo consiste na inconsciência mais absoluta.

Fonte aqui.


O Ocidente dos “valores democráticos” ao lado do terror nazi-fascista

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 14/10/2024, revisão da Estátua)

A recuperação do nazismo coloca-nos a todos, os povos ocidentais, ao lado e sob a influência nazi-fascista!


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O cerco à Rússia não se confina ao domínio militar, comercial, institucional ou financeiro. Antes destas, foi implantada uma outra barreira – melhor dizendo, “alimentada” -, no sentido de se constituir uma espécie de “cintura sanitária” agressiva e activa, constituída pelos estados cujas fronteiras comunicam, por terra ou por mar, com as da Federação Russa.

Esta “cintura sanitária”, conceptualizada a partir do que sabemos ser o enquadramento mental das classes dominantes ocidentais, tem uma natureza profundamente ideológica, visando tocar, de forma repulsiva, nos valores mais profundos e encarnados na história russa dos últimos 100 anos e, através dessa conexão, provocar uma relação antagónica caracterizada por um mútuo efeito repelente, prevenindo qualquer comunicação humana que se pudesse estabelecer entre as partes.

A força soberana que reside na cultura multinacional, multiétnica e multirreligiosa russas, responsável, desde logo, pela capacidade de agregação de forças que tornou possível a derrota do nazi-fascismo na segunda guerra mundial, é também o que separa as reservas minerais, humanas, energéticas, entre outras, das garras do capitalismo ocidental e do seu ímpeto alimentado pela fase imperialista em que se encontra.

Se a brutalidade de uma ideologia como o nazi-fascismo representou, na primeira metade do século XX, o combustível que alimentou a agressão à então pátria soviética, foi a sua preservação e recuperação históricas – num processo de revisionismo e branqueamento sem paralelo – que possibilitou, já nas primeiras décadas do século XXI, a sua utilização como combustível para a tal “cintura sanitária” em torno da Rússia. 100 anos depois, repete-se a receita, embora com as limitações claras que o desespero impõe.

O que pode ser mais antagónico e mutuamente repulsivo do que o nazismo em contacto com o que se pode considerar a “alma russa” actualizada com os acontecimentos do século XX? Que mais vívida e carnal imagem existe, na sua brutalidade e violência, para além do pesadelo sofrido, principalmente pelo povo Russo, às mãos do terror nazi?

Os primeiros a sofrerem o efeito desta “cintura sanitária” são os próprios cidadãos de origem russa que, após o colapso da URSS, se quedaram na Estónia, Lituânia ou Letónia e hoje aí residem. Para além de proibirem a comunicação social russa, violando o seu direito à opinião e à informação, com base numa suposta política de combate à “propaganda do Kremlin” (algo a que também se assiste em toda a EU e à margem das constituições nacionais dos diversos países), a Letónia promoveu mesmo a eliminação do ensino do russo dos currículos escolares, o que provocou preocupações por parte de especialistas da ONU em direitos Humanos, relativamente à protecção dos direitos nas minorias étnicas. Para quem acusa a Rússia de não as ter em conta…

Segundo a narrativa, o Kremlin usa o russo como arma, que depois utiliza como veículo para a sua propaganda, perpetrada através da designada “média estatal”, que referem como toda a comunicação social que, financiada ou não pelo executivo russo, não está alinhada com a narrativa ocidental. O que nunca referem é que, afinal, o uso do russo como veículo de propaganda não será, como dizem, um exclusivo das fontes russas, pois a própria letónia financia órgãos de comunicação como o Meduza, os quais, escrevendo em russo, apenas visam passar informação alinhada com a narrativa ocidental.

Não sendo tão radical como a Letónia na eliminação da língua russa dos currículos escolares, a Estónia é, mesmo assim, um exemplo de destruição de monumentos alusivos à vitória soviética sobre o nazismo. Principalmente sob o mandato de Kaja Kallas, o processo de remoção destes monumentos assistiu a uma aceleração, chegando mesmo a ser discutida no quadro europeu, processo que levou à remoção do Tanque Soviético nos arredores da cidade de Narva. Segundo a mesma Kaja Kallas, o tanque é uma “arma do crime” – talvez do “crime” de derrotar nazis – “estando a morrer pessoas na Ucrânia com o mesmo tipo de tanque”.

Mas esta perseguição à cultura e memória soviéticas – não apenas russa – diz-nos que a propagação de uma lógica russófoba incorpora uma dimensão que vai para além do mero confronto étnico, representado, por exemplo, na discussão de limitações da aquisição de propriedade imobiliária, por parte de cidadãos russos, na Letónia, na sequência de uma proposta feita pelas autoridades finlandesas. Para quem diz que o povo russo é oprimido, não se percebe esta generalização.

A ligação do confronto étnico com as populações russófonas e russas, ao passado soviético e à memória da vitória sobre o nazifascismo, encontra origem na vaga de colaboracionismo e simpatia com a ideologia nazi que ocorreu nesses países, por parte de uma certa camada da população e classes dominantes, antes, no início e durante a segunda guerra mundial. A responsabilização da Federação Russa, enquanto única depositária da memória histórica colectiva da vitória do multinacional exército vermelho sobre as hordas nazis, faz a ponte entre a cobiça dos vastos recursos detidos pela Rússia e a necessidade de encontrar fundamentação ideológica, teórica, psicológica e emocional que justifique a agressão.

Tal justificação teórica e ideológica, a meu ver, é fornecida pelo neonazismo e pela glorificação do passado colaboracionista com as forças de Hitler. A força dessa ideologia anticomunista, racista e supremacista branca, colocada num primeiro plano, aliada ao processo de revisão histórica e branqueamento do terror nazifascista, faz a ponte, do passado para o presente, entre o anticomunismo que justificou a agressão à URSS e a russofobia que serve de desculpa ao cerco actual.

Ora, para promover a tal “cintura sanitária” com a Federação Russa, cuja função reside em impedir o contacto saudável entre a Europa (Alemanha, principalmente), a Rússia, repúblicas euroasiáticas e China. foi preciso recuperar o activo histórico que constitui a ideologia nazi, para os EUA e para as classes dominantes do ocidente colectivo. Como sucede com todos os activos, só se recuperam os que já existem per se. A recuperação do património histórico nazi é resultado de um processo, mais longo, de preservação e revitalização desse activo.

Actualmente, quando assistimos à glorificação dos “Irmãos da Floresta”, um grupo abertamente anticomunista surgido nos países bálticos, formado por ex-membros das Waffen-SS locais e que lutaram contra o que designavam como “ocupação soviética”, mesmo depois do fim da segunda guerra, tendo sido responsáveis por horríveis crimes contra civis e polícias soviéticos, operado com informação da inteligência ocidental, ou assistimos ao branqueamento e entronização de organizações como o “Sonderkommando A”, o qual, colaborando com as forças nazis, recorrendo a letões e lituanos, assassinaram quase 250.000 judeus na Lituânia, até 1944, verificamos que o património histórico nazi está bem vivo e mais forte do que alguma vez esteve, desde o final da segunda guerra mundial.

Para possibilitar o seu ressurgimento e recuperação foi necessário implementar todo um processo de revisionismo, minimizando os danos e branqueando os seus crimes. Na Lituânia homenageou-se o general Povilas Plechavicius que combateu ao lado dos nazis; em 2008 o parlamento lituano equiparou as ideologias comunista e nazi, o que representou uma normalização e recuperação histórica do nazismo (ao contrário de uma diabolização, como muitos defendem) e, em 2010, os tribunais lituanos declararam a suástica “parte do património cultural do país”, provando que a equiparação ideológica não passa de um processo de recuperação histórica desse passado.

O facto é que, desde 1991 que milhares de comunistas foram perseguidos na Lituânia, ao passo que foram sendo permitidas manifestações com símbolos nazis e lemas racistas. Sintomático! Como disse Jean Pierre Faye no prefácio ao livro “O arquipélago de Sangue”, escrito por Chomsky e Herman, o acto de incluir o nazismo e comunismo no saco do “totalitarismo”, permitiu aos EUA apoiar as forças mais retrógradas, reaccionárias e tirânicas, contanto que não se dissessem apoiantes do “totalitarismo”.

Assim, equiparando as ideologias comunista e nazi, o facto é que as autoridades lituanas, como hoje muitas outras na União Europeia dos “valores” e da “democracia”, perseguem os comunistas, mas toleram – para não dizer algo mais – as manifestações de extrema direita. Aliás, a profusão de governos abertamente reaccionários e racistas na União europeia, comprova de forma quase irrefutável as razões que estiveram na base de equiparação. O facto é que em todos esses países, os comunistas são perseguidos, ao passo que os nazis são admitidos. Nada como a prática como critério de aferição da verdade!

No caso Português, um grupo como o 1143, alinhado com as facções mais extremistas em Portugal e com gente que tem um passado de perseguição – e assassinato – de migrantes e minorias de qualquer tipo (comunistas, homossexuais, negros, asiáticos ou muçulmanos), é caracterizado na comunicação social mainstream como sendo um simples “grupo nacionalista”. O que terá tal a ver com o apoio por parte de André Ventura, do partido Chega, contra o que referiu como “Imigração descontrolada”? E porque razão não refere o mesmo André Ventura, os órgãos de comunicação social que lhe dão voz e espaço e os poderosos interesses que o apoiam, que quem contrata os imigrantes são as empresas, que são as associações patronais quem junto aos governos pede a abertura das fronteiras, que são as UBER desta vida quem mais explora a imigração e que é a própria União Europeia, que André Ventura defende, que fomenta, causa e legitima toda a imigração a que assistimos? E porque razão não atacam o turismo descontrolado que destrói Lisboa, actividade, para a qual, trabalham grande parte dos imigrantes?

Ora, esta lógica racista que faz a ponte com o anticomunismo, visando ligar a Rússia actual, como única depositária do passado soviético e daí partir para a sua diabolização actual, de modo a justificar uma agressão, isolamento e opressão que possibilite a sua pilhagem – como sucedeu nos terríveis anos 90 do século XX sob Boris Ieltsin – encontra exemplo claro na permissão, por parte da Meta (Facebook, Instagram, WhatsApp), em os seus usuários poderem exprimir mensagens de ódio contra os russos).

Esta perspectiva russófoba, absolutamente inaceitável para uma Europa que se diz “dos valores”, representa um pilar fundamental da adesão destes países à OTAN e deixa antever a que mecanismos recorrem os EUA para conseguirem que os países “eleitos” façam da adesão à aliança atlântica, não apenas uma questão de defesa contra a Rússia, mas, acima de tudo, uma necessidade existencial. E o nível de extremismo implantado é tão grande que, basta ouvirmos a forma como a elite, que compõe o regime de Kiev, fala sobre os russos, não os distinguindo, para perceber que o ódio é indiscriminado, profundo, visceral, como só algo irracional, como o racismo, pode ser. E a própria sobrevivência da OTAN depende desse ódio irracional, animal.

Para preservar no tempo, recuperar e revitalizar o património histórico nazi, há um país em especial que cumpriu esse papel como nenhum outro: o Canadá! Ainda hoje, o Canadá resiste a fornecer as identidades dos 900 nazis foragidos que aí encontraram santuário.

Já num artigo passado expus o verdadeiro museu vivo que a Universidade de Alberta, e a sociedade canadiana, são para os fugitivos dos julgamentos de Nuremberga, nomeadamente os da 14ª divisão da Galicia Waffen SS. Contudo, o legado canadiano, neste aspecto, vai muito mais longe, tendo-se constituído esse país como um refúgio pacífico para cientistas, militares e outros foragidos nazis.

Embora neste país, entre 1985 e 1986, e após muita pressão política e popular, se tenha realizado uma investigação sobre o assunto, na altura designada por Comissão Deschênes, chegando-se mesmo a uma compilação de nomes, a verdade é que o trabalho deixou muito a desejar e foi realizado para produzir resultados, no mínimo, ambíguos.

A comissão não investigou materiais mantidos na União Soviética ou em países do Bloco de Leste, potencialmente perdendo evidências cruciais que aí se encontravam; o Juiz Deschênes estabeleceu condições rigorosas para consultar evidências desses países, mas tendo a resposta soviética para a consulta chegado apenas em junho de 1986, tal foi considerado tarde demais para a comissão viajar e examinar, o que deixa antever que o levantamento da realidade material não constituía, talvez, o objectivo principal da missão.

A comissão não investigou uma lista de 38 nomes adicionais fornecida no final do inquérito, devido ao que considerou como restrições temporais; ficou incompleta a investigação de uma lista de 71 cientistas e técnicos alemães; a segunda parte do relatório final da comissão, contendo alegações contra indivíduos específicos e recomendações sobre como proceder em certos casos, permanece confidencial e não foi divulgada ao público; uma cópia não editada do relatório de Alti Rodal para a Comissão Deschênes, que contém relatos detalhados de como criminosos de guerra entraram no Canadá e a responsabilidade do governo pela sua entrada, não foi totalmente divulgada; os arquivos do Departamento de Justiça e da Polícia Montada Real Canadense sobre criminosos de guerra nazis mantidos por essas agências não foram tornados públicos; as provas das actividades anteriores dos membros da Divisão da Galiza não foram examinadas, nomeadamente as que referiam potenciais crimes de guerra cometidos em outras unidades policiais alemãs antes de se juntarem à divisão; um estudo secreto conduzido pela comissão descobriu que autoridades britânicas e americanas transportaram para o Canadá colaboradores nazis, vindos da Europa Oriental, logo após a Segunda Guerra Mundial sem informar o governo canadiano e com um escrutínio mínimo.

Ainda hoje a retenção destas provas conduz a debates contínuos sobre a precisão e a integridade do trabalho da comissão, com muitos argumentando que, ao invés, o trabalho da comissão ajudou a encobrir o registo histórico sobre criminosos de guerra nazis no Canadá. Parece que a Comissão Deschênes visou mais branquear o passado, do que avaliá-lo e julgar os crimes cometidos.

Todo este dossier foi reactivado aquando da polémica relativa à recepção de Yaroslav Hunka no parlamento canadiano. As acusações de branqueamento têm-se multiplicado, o que não admira, considerando que foi essa a comissão que declarou os membros da Divisão da Galicia Waffen SS como inocentes da prática de crimes de guerra, pois, segundo arguiu, haviam sido examinados aquando da sua admissão no país.

Actualmente, após toda esta pressão, argumenta-se que a divulgação total do trabalho da comissão para além de poder deixar marcas na credibilidade do governo canadiano, pode ainda “ajudar a Rússia”, na medida em que ajuda a reforçar a narrativa de “desnazificação” do Kremlin. Ora, não era algo que não se soubesse, o problema não é conhecer a verdade, o problema consiste em diabolizar a Rússia, descredibilizar a sua versão dos factos e justificar a continuação da guerra.

O que esta realidade demonstra, mais do que nunca e especialmente quando ouvimos Blinken referir que os EUA são um país do ártico e que quer formar com o Canadá e os países europeus bálticos, uma organização para manter aquela região “livre de conflitos” (agora seria hora de dar umas fortes gargalhadas), é que o Canadá não apenas constituiu um importante “armazém museológico” para preservação, protecção e recuperação dos activos nazis, como agora passa também a fazer parte da “cintura sanitária” que os EUA promovem à volta da Rússia. Tudo isto também demonstra que o Canadá não passa de uma república das bananas e um campo de retiro dos activos humanos importantes para o imperialismo anglo-americano.

O que nos ensina esta triste realidade é que o revisionismo histórico que visou comparar o comunismo ao nazismo não visou apenas normalizar o segundo e desabilitar historicamente o primeiro, apagando a contribuição da URSS para a vitória aliada na segunda guerra mundial. Visou muito mais do que isso. Visou criar uma barreira repulsiva entre a Rússia e os que seriam, geograficamente, os seus aliados naturais, os países europeus…

Coincidentemente, para os que acusam Putin de ser “fascista” e de “extrema direita”, é a Europa dos “valores” e da “democracia” quem fica do lado nazi… A recuperação do nazismo não coloca apenas a Rússia do outro lado…. Coloca-nos a todos, os povos ocidentais, ao lado e sob a influência nazi-fascista!

Fonte aqui.


Escola, eu te detesto!

(António Guerreiro, in Público, 30/04/2021)

António Guerreiro

Temos assistido, no nosso tempo, a “revisões” históricas e a uma aceitação mais ou menos consensual de que não é possível defender hoje comportamentos e ideias que faziam parte de códigos culturais, sociais e políticos do passado. O que é menos consensual é o modo de reparação das injustiças cometidas no passado e o modo de olhar retrospectivamente para outras épocas históricas (próximas ou longínquas) e para os seus protagonistas usando os utensílios mentais do presente.

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Esta questão foi discutida e desenvolvida pelo historiador francês Lucien Febvre, num livro onde defendia que falar de um Rabelais ateu, apesar do fortíssimo pendor herético e muitas vezes obsceno da sua obra literária, era um anacronismo. Esse livro era não apenas uma refutação desse anacronismo, mas também um tratado de metodologia da investigação histórica.

O esclavagismo, o racismo, o anti-semitismo, a tutela e a violência exercida pelos homens sobre as mulheres, a discriminação e perseguição dos homossexuais e dos indivíduos transgénero, a pedofilia — tudo isto e muito mais tornou-se objecto de condenação veemente. Não quer dizer que, por exemplo, o racismo e o machismo tenham sido erradicados definitivamente. Longe disso, como sabemos muito bem. Mas já não podem contar, sem serem contestados, com os antigos discursos de legitimação. Já não fazem parte de uma “visão do mundo” naturalmente aceite. As revisões e reparações que daqui decorrem nem sempre têm sido isentas de violência e, certamente, de algumas injustiças. As revoluções, mesmo as que se dão no domínio das ideias e das mentalidades, nunca são movimentos pacíficos nem inteiramente controlados. Toda esta questão torna-se bastante mais controversa e cheia de equívocos quando se começa a exigir que até a literatura e a arte em geral estejam do lado do Bem e poupem aos leitores e espectadores ideias e atitudes que não devem hoje ser partilhadas na vida social e política.

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Em tempo de reparações e de assumpção de injustiças colectivas, ainda ninguém veio reivindicar que seja reparado, ou pelo menos nomeado, o crime cometido sobre as crianças e adolescentes na escola de antigamente, quando as sevícias faziam parte dos métodos pedagógicos. Quem frequentou a escola ou os liceus nesse tempo (acho que o 25 de Abril constituiu, também aqui, uma cesura, mas não sei se foi imediata e generalizada) sabe bem que muitos professores tinham métodos sádicos e comportamento de carrascos. Não sou certamente o único que tem uma memória da escola primária como uma instituição de terror, um lugar a que sobrevivi a custo, mas que me deixou marcas que a memória reactiva com mais força à medida que o tempo passa. Percebo hoje que essa escola era profundamente medíocre (quando a frequentei tinha apenas uma muito vaga noção de que era odiosa) e, dela, havia os que se salvavam e os que submergiam (bem sei que estas palavras são uma ilegítima e perigosa citação, mas como deixar de ver essa escola como um “espaço concentracionário”?). Aí, a arbitrariedade era absoluta e os castigos infligidos às crianças eram semelhantes aos de uma colónia penal. Numa época em que não havia o controlo que há hoje e as crianças iam em grupo, a pé, para a escola, alguns “fugiam à escola” e ficavam escondidos, até à hora do regresso a casa, para escaparem à tortura. Recordo alguns nomes e rostos de colegas “fugitivos”, que depois tinham que enfrentar os pais; e que eram vistos como potenciais delinquentes e socialmente falhados. Recordo-os e interrogo-me se eles nunca pensaram em pedir contas pelo mal que lhes fizeram, por terem sido condenados ao falhanço por gente criminosa. Interrogo-me também se eles, já adultos, conseguiram cruzar-se com esses antigos professores sem os insultarem ou sentirem uma enorme aversão.

E pergunto: como foi possível, já depois de ter desaparecido este ambiente escolar, manter a complacência em relação a professores que foram agentes do terror? A pedofilia é um crime que não prescreve; uma escola que pratica a pedocriminalidade deveria ser julgada. Se os ditos professores agiam assim por obediência a uma concepção da escola e da pedagogia instauradas como ideologia do Estado, então o Estado devia, em algum momento, ter pedido desculpa às vítimas e assumir a responsabilidade que não poder ser pedida aos carrascos que tinha ao seu serviço. As vítimas, uma enorme multidão, têm direito, pelo menos, a uma pedido oficial de desculpa. Mesmo que em muitos os casos o mal cometido seja da ordem do irreparável.