Encharcados no delírio, irmanados na penitência

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 27/02/2025, Revisão da Estátua)


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A chuva diluviana que se abateu sobre Macron e Marcelo durante a receção na Praça do Império presta-se a mil interpretações soturnas e empresta à cerimónia uma nota de fim de era.

Os dois regimes envolveram-se numa guerra antecipadamente perdida, empurrados por delírios ideológicos e uma notória falta de informação, agravando a penitência que certamente terão de pagar por não terem acautelado o interesse nacional dos respectivos países.

A derrota francesa só será diferente da nossa na proporção do peso que ambos os países possuem no tablado internacional. Se a França foi escorraçada da África francófona, onde punha e depunha presidentes, Portugal terá perdido capital de prestígio junto da lusofonia, sobretudo no Brasil que aqui veio na pessoa do seu Presidente pedir-nos que não nos envolvêssemos em demasia num conflito que não era nosso.

Não sabemos ainda o que restará da França com projeção mundial após a guerra, mas no que a Portugal respeita, a doidice anti Rússia não só comprometeu o entrosamento com o Brasil, como também chamuscou as excelentes relações que tínhamos com a China. Nós bem dizíamos, debalde, que não era “putinismo”, nem “russismo”, mas interesse nacional.

Crónica dos mil pascácios

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 25/02/2025, Revisão da Estátua)


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Os mil pascácios, que ainda há um mês se julgavam o centro da Terra e exerciam tiranicamente a langue de bois dessa cangalhada maltrapilha de supostos conceitos, tais como «ordem internacional regida por normas», «Ocidente alargado», «democracias liberais vs. iliberais», «o lado certo da História», «bombas de gasolina com armas nucleares» e «a nossa maneira de viver»,  enquanto pronunciavam fatwās pelas quais excomungavam a torto e a direito todos os que pudessem levantar a mais benigna objeção, acusando-os de alinhamento com as «autocracias», calaram-se subitamente e alguns até já ensaiam argumentos toscos para demonstrar que estão em trânsito para a nova situação.

De facto, essa gente envelheceu 100 anos num mês e transformou-se em Donas Elviras imprestáveis, calhambeques de outro mundo, pelo que vão ter de purgar gota a gota tanta jactância, adaptar-se ao novo tempo e procurar cabidela na era que agora lhes caiu aos trambolhões sobre os costados.

 Em 1524, fez agora 500 anos, a Europa esperou, ansiosa, o fim do mundo previsto por astrólogos. O erro terá sido de meio milénio, pois esse fim de um mundo aconteceu-lhes agora. Não sinto a mínima pena, embora já os esteja a ver a chegar a Moscovo com a cestinha na mão para vender grelos e cenouras no Aviapark.

O que ele gostava mesmo era ser da PIDE

(Major-General Carlos Branco, in Blog Cortar a Direito, 09/02/2025)


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Este jovem que dá pelo nome de João Gomes (JG), sob o disfarce de um avatar, publicou na sua página do “X”, a imagem que podem ver acima junto com o seguinte texto: “São estes alguns dos rostos que em Portugal servem o regime de Putin. Se souberem mais, diga-se que se vai adicionando.”, como podem constatar.

Há um website mantido por elementos ucranianos nazis que faz algo semelhante. Publica uma lista das pessoas que considera inimigos da Ucrânia, com informação pessoal, com o intuito de lhes causar dano pessoal. Ao fim do dia, como agora se diz, recorrendo à terminologia anglo-saxónica, o objetivo do post deste jovem não anda muito longe disso.

Apesar da sua tenra idade (rondará os 35 anos), apresenta-se como conselheiro sénior da Iniciativa Liberal (não tenho nada contra a IL), para além de comentador de futebol, olheiro de futebolistas, e associado a um projeto falhado de alojamentos de curta duração para turistas.

Também fez algumas incursões no jornal Observador (dizem que é o jornal da IL) publicando uma rábula de frases feitas e banalidades sobre a liberdade. Teve a lata de dizer ser “Portugal um país historicamente associado aos valores da liberdade e da democracia”. Esqueceu-se de dizer qual era a janela temporal a que se referia. Mas isso não interessa. É uma coisa bonita de se dizer. Afinal a ignorância também deve ter direito a expressar a sua opinião. E tem uma vantagem, impede de ver o ridículo.

O que é mesmo cool para subir na vida é dar nas vistas, um conselheiro sénior tem de dizer umas coisas – mesmo que sejam umas banalidades, aproveitando o que está a dar para malhar nuns tipos que com a idade dele já tinham estado em cenários de guerra, e que talvez tenham alguma propriedade para falar de coisas que JG ignora.

Ah, e falar assim de coisas fixes como liberdade, globalização, resiliência, tolerância, multiculturalismo. A inteligência artificial dá um jeito do caraças. Não é preciso ter ideias. Basta ver se as vírgulas estão no sítio certo. E, entretanto, ir seguindo as crianças que dão toques certeiros na bola. Depois de ler a sua prosa em que não diz nada concluo que aquilo em que o Dr. JG é mesmo bom é em não pensar.

O bufo

Há formas dignas de subir na vida, mas andar armado em bufo a apontar o dedo a pessoas por delito de opinião, como se fossem criminosos, não parece ser a mais adequada, nem compaginável com a regurgitação de chavões sobre liberdade de pensamento, mesmo que não se perceba o significado daquilo que se diz.

Mas JG  tem de o fazer porque afinal ele é conselheiro sénior. E um dia, portando-se bem, ainda vai ser presidente da junta.

PS: Das nove pessoas nas fotografias, só conheço pessoalmente duas. Uma nem sei quem é. As restantes quatro conheço-as da televisão. Nunca cheguei à fala com elas.

Fonte aqui.