Os angariadores de vítimas em roda-viva

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 04/07/2025, Revisão da Estátua)


Os angariadores de vítimas para uma guerra que nos destruiria andam em roda-viva. Se atentarmos, todos os comentadores e a totalidade da classe política, da extrema-esquerda à extrema-direita, renderam-se ao lobby e foram tomados por uma fúria armamentista que acena com as potencialidades de reindustrializar para os canhões, para os mísseis e para os carros de assalto.

Uma meta cega, pois que sabemos que a fortuna terá de ser talhada na educação, na saúde, na justiça e na cultura e não haverá exportação, ou não têm os russos, os chineses e até os brasileiros indústrias muitíssimo mais competitivas?

Nesta corrida para a guerra, só falta regressar à ingenuidade do «romantismo da guerra» que levou à destruição da Geração de 1914, aquela que partiu em euforia com a vitória assegurada até ao Natal, mas só regressou em 1918 mutilada, gazeada e psicologicamente desfeita.

Ao lermos El Licenciado Vidriera, uma das Novelas Exemplares de Cervantes, somos confrontados com a mesma atmosfera. Então, por todas as partes de Espanha [e de Portugal] cirandavam oficiais e sargentos que seduziam os jovens para a aventura das guerras intermináveis que a Coroa mantinha nos mares e continentes.

Acenavam aos paisanos – lenhadores, pastores, camponeses – com uma vida regalada, farta e aventurosa em Itália, nos Países Baixos, no Novo Mundo e na Ásia distante.

Encantavam os pobres com narrativas das belezas de Nápoles, com os divertimentos de Palermo, os festins da Lombardia, as massas e as carnes do rancho abundante, as delícias dos frutos e dos vinhos – um verdadeiro horizonte de liberdade, «mas o Capitão nada disse do frio das [noites] de sentinela, do perigo dos assaltos, da fome dos cercos, dos desastres das minas» (…).

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Uma lista incompleta de coisas que não se podem dizer nem fazer na Europa democrática

(António Gil, in Substack.com, 06/05/2025, Revisão da Estátua)


(Tudo para salvar a democracia, claro).


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Na Europa podemos opinar sobre tudo menos sobre o genocídio dos palestinos. Mas vivemos em democracia. Em alguns países também não se pode questionar o Holocausto dos judeus. Mas esses países são democráticos e isso não deve ser contestado. Também não se pode questionar a pertença de nenhum país à NATO ou à UE, isso seria muuuiiito antIdemocrático.

Nem se pode discordar da ajuda financeira enviada à Ucrânia. Essa ajuda foi democraticamente decidida pelos respectivos líderes porque eles são tão democráticos que não têm de consultar os seus povos a tal respeito.

Dizer que a Rússia está a vencer a guerra na Ucrânia também não é boa ideia, porque isso é defender um ditador autoritário que, por acaso até foi eleito, mas as eleições russas não são como as europeias, portanto não são democráticas.

A UE e a NATO têm líderes não eleitos, mas isso não importa porque os líderes eleitos nos garantem que essas pessoas são democráticas, então, estão dispensados de eleições.

Ocasionalmente os líderes europeus impõem medidas autoritárias mas, como foram eleitos, podem reprimir as manifestações de protesto enviando polícias democráticos, treinados para distribuirem democraticamente bastonadas, balas de borracha e gás lacrimogéneo.

As democracias da Europa Ocidental constroem muros ou erguem barreiras de arame farpado junto às fronteiras com a Rússia mas isso é muito diferente dos muros construídos durante os tempos da cortina de ferro porque esses não eram muros democráticos; os actuais são tão democráticos que nalguns casos as populações que vivem perto deles até roubam os seus materiais para vender na sucata ou a empresas de construção civil a preços de amigo.

As leis dos países europeus proíbem as suas empresas de negociar com a Rússia e dificultam a vida aos cidadãos comuns que querem visitar a Rússia (até de alguns líderes europeus) mas isso é a democracia em acção, porque as pessoas deste lado não estão bem informadas sobre todas as coisas más que acontecem do lado russo, nem se deseja que estejam, porque poderiam convencer outros cidadãos que tudo o que há de errado nesse país poderia dar certo deste lado e isso colocaria em perigo a democracia europeia.

Ainda assim, os nossos governos descobriram recentemente que havia falhas nas nossas democracias, sendo a mais grave de todas a possibilidade de os eleitores escolherem democraticamente partidos e personalidades não democráticas; então baniram ou querem banir esses partidos e prender essas personalidades.

Sim, é verdade que dizem que é isso que Putin faz, mas ele faz isso para defender o seu posto de ditador eleito, ao passo que os nossos mandantes querem apenas ser democratas dizendo-nos que temos de os eleger a eles. Não queremos ser governados por ninguém como Putin, ou queremos?

Por favor, ninguém pense que eu sou antidemocrata. Eu vejo muitas vantagens em viver num país democrático e, tanto assim é, que acho que devíamos (todos os europeus) pelo menos tentar viver num país democrático, coisa que pelos vistos não estamos a conseguir.


Fonte aqui.

Encharcados no delírio, irmanados na penitência

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 27/02/2025, Revisão da Estátua)


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A chuva diluviana que se abateu sobre Macron e Marcelo durante a receção na Praça do Império presta-se a mil interpretações soturnas e empresta à cerimónia uma nota de fim de era.

Os dois regimes envolveram-se numa guerra antecipadamente perdida, empurrados por delírios ideológicos e uma notória falta de informação, agravando a penitência que certamente terão de pagar por não terem acautelado o interesse nacional dos respectivos países.

A derrota francesa só será diferente da nossa na proporção do peso que ambos os países possuem no tablado internacional. Se a França foi escorraçada da África francófona, onde punha e depunha presidentes, Portugal terá perdido capital de prestígio junto da lusofonia, sobretudo no Brasil que aqui veio na pessoa do seu Presidente pedir-nos que não nos envolvêssemos em demasia num conflito que não era nosso.

Não sabemos ainda o que restará da França com projeção mundial após a guerra, mas no que a Portugal respeita, a doidice anti Rússia não só comprometeu o entrosamento com o Brasil, como também chamuscou as excelentes relações que tínhamos com a China. Nós bem dizíamos, debalde, que não era “putinismo”, nem “russismo”, mas interesse nacional.