Crimes sem castigo

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 07/10/2016)

bb1

Estamos num outro período da indiferença e do desespero humanos. O turbilhão de nomes de países e de povoações onde estes crimes medonhos ocorrem abre um novo e terrível capítulo na história da condição humana.


Há uma evidente ocultação da crise, aparentemente irremediável, que vai passando pela União Europeia. As exigências violentas aos países mais vulneráveis, feitas pelas direcções daquela organização, deixam depauperadas as direcções mais vulneráveis, ou seja: as mais pobres. O equilíbrio é instável e, a maioria das vezes, as exigências das direcções obrigam os países mais vulneráveis (Portugal é um deles) a contorcionismos assustadores. A direita tem dirigido a organização a seu bel-prazer, delegando aos países mais ricos a direcção dos destinos de todos.

Claro que os actuais vinte e sete têm obedecido, por vezes com desagrado, às indicações dadas pela direcção-geral. Mas esta direcção, um pouco disseminada e, acaso, manobrada e manobradora, tem somente servido interesses que se não coadunam com as necessidades colectivas. A manifestação de quase subserviência pela Alemanha e por aquilo que ela aparentemente representa tem sido uma característica da mansuetude dos vinte e sete países da União. Porém, as coisas não são assim tão cabisbaixas como aparentam. E a imprensa internacional, pressurosa em calar, ou não divulgar, a surda inquietação que vai pelos restantes países europeus, está a causar um prejuízo maior, muito maior do que se presume, à organização.

Agora, contrariando princípios e perspectivas, a Hungria manifestou o seu desacordo pelos caminhos tomados pela União, erguendo fronteiras, longas fronteiras, de ferro e arame, impedindo a longa caminhada de todos aqueles, milhões e milhões, que pretendem fugir à tragédia que se verifica nas suas nações. Na era moderna, este êxodo é o mais trágico registado até hoje. E a indiferença que se manifesta, sem pudor e com a maior das desumanidades, caracteriza uma época que trai os princípios fundamentais do humanismo e da compreensão entre os povos.

Os princípios fundamentais com os quais a União Europeia se fundou estão dizimados. Os grandes interesses económicos sobrepõem-se ao humanismo mais elementar, fundado após a Segunda Guerra Mundial. A decisão dos dirigentes húngaros em erguer linhas de arame farpado em todo o seu território fronteiriço é um escândalo inominável, pelo que representa de separação e de humilhação humanas. Na história recente das afrontas generalizadas, nada de semelhante se lhe aproxima. E é bom que tenhamos em conta esta violência quase generalizada contra a nossa condição cada vez mais desesperada e afrontada.

O mundo está cada vez pior. As relações entre as pessoas deterioraram-se a tal ponto que chegam a descer às mais afrontosas relações pessoais. Todos os dias chegam notícias do desespero humano. O que se passa, por exemplo, em Calais tem sido minimizado ou calado pelos órgãos de comunicação social. As guerras que ocorrem deixaram de ser factos localizados: são medonhas ofensas à condição humana. Com milhões de mortos a atestar a indiferença generalizada, que apenas se manifesta quando é pessoal. E mesmo assim…
Estamos num outro período da indiferença e do desespero humanos. O turbilhão de nomes de países e de povoações onde estes crimes medonhos ocorrem abre um novo e terrível capítulo na história da condição humana. Não temos, somente e cautelosamente, de procurar respostas para estes inomináveis crimes contra a humanidade, é urgente que se procure e se apontem os nomes dos causadores. E que sejam punidos pela execração e pela enormidade dos crimes cometidos contra a humanidade. Contra todos nós.

Cuidado com o tempo em que vivemos

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 30/09/2016)

bb1

É lá com eles, dizemos para nosso recato e aparente tranquilidade. Mas as guerras, os medos e os terrores estão a tocar-nos no batente.

A reunião dos 27, em Bratislava, não conduziu a coisa alguma, a não ser ao surdo reconhecimento de que a União Europeia está cada vez mais periclitante. As pressões feitas pela Alemanha, com a parva aquiescência de França e do emproado François Hollande, têm resultado num encolhimento da organização, no despautério da Hungria, e na construção, exacerbada, de linhas divisórias de arame farpado. Angela Merkel é, cada vez mais, a desorientação política em pessoa. Os problemas agigantaram-se com o êxodo de milhões de pessoas de várias nacionalidades, que tentavam escapar, através dos mares, e em condições de fragilidade temerosas, à exacerbação das grandes cóleras.

É um dos mais dramáticos êxodos da história humana, com consequências imprevisíveis. Há países que fecham violentamente as suas portas de entrada, caso da Hungria, e outros que desanimam as intenções de fuga de populações de vários países. Eis o quadro impressionante desta imensa tragédia humana. Em Calais, a dimensão do horror ainda não foi suficientemente determinada, mas as expressões que se lhe conhecem fornecem um retrato medonho da condição humana.

Estamos, de facto, a perder as noções dos valores de solidariedade que nos inculcaram após os criminosos malefícios causados pela II Guerra Mundial. Os valores do dinheiro, da riqueza a todo o custo, abalaram o que nos fora inculcado. Apreciando os valores modernos, chegamos à conclusão de que a nobreza das ideias nascidas no final da guerra estão a desaparecer.

Em que situação estamos, no mundo de hoje, desejadamente pacífico e sonhadoramente fraterno? Um pouco por todo o lado, mortandades, chacinas, fugas de um para outro sítio, alteraram completamente o nosso modo de ver e de viver. O local onde estamos é um lugar amargo e extremamente perigoso, mesmo que o não sintamos directamente. É lá com eles, dizemos para nosso recato e aparente tranquilidade. Mas as guerras, os medos e os terrores estão a tocar-nos no batente.

O encontro de Bratislava não serviu para coisa alguma. Nada de importante, que defendesse e salvaguardasse os nossos valores e princípios, foi decidido ou resolvido. A União Europeia é um mito que se tornou assaz enfadonho e medíocre para quem possui da Europa e do tempo corrente uma noção fechada. Mas a verdade é que os conflitos sociais e políticos estão à vista de quem desejar ver. A extrema-direita assume, cada vez mais, a consciência de que os seus valores são eternos e estão a regressar, após a confusão do momento. E a União Europeia, porventura o mais importante aglomerado de nações, não reage, eficazmente, através da via ética (que foi subvertida pela força da ganância e do poder discricionário), ao espectáculo deplorável da ascensão do poder mais maléfico e redutor.

Estamos num período propício aos avanços mais perturbadores dos poderes maléficos, e não receio utilizar a palavra. As próprias forças da cultura, do desenvolvimento intelectual, da discussão de ideias e de pensamentos foram calafetadas. Há algo de vazio e de frustrante naquilo que nos apresentam como nossa salvação. Regressamos àqueles que nos ajudaram a suportar o insuportável, mas mesmo esses não conseguem ajudar-nos a resolver os nossos próprios dilemas.

Vivemos num dos períodos mais dramáticos no nosso tempo. O vazio de ideias é total, e a observância do escrúpulo e da honra está a ser minuciosamente dizimada. Que nos resta?

A sombra sinistra do passado

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 29/01/2016)

Autor

                            Daniel Oliveira

A Dinamarca acabou de aprovar esta semana uma lei que exibe à Europa o espelho da sua trágica memória. A partir de agora, todos os refugiados que cheguem ao país verão os seus bens particulares confiscados (acima de 1340 euros). Ficam de fora “objetos de alto valor sentimental” (alianças de casamento e retratos de família), que a selvajaria tenta sempre mostrar sentimentos. Os refugiados estarão impedidos de reconstruir as suas vidas com a ajuda dos seus próprios meios, mesmo que entre esses meios esteja, por exemplo, um computador pessoal. O que for apreendido será destinado a pagar as despesas que a Dinamarca tem com estas pessoas, diz o cinismo legislativo que, supõe-se, passou a ter o confisco de bens como forma de pagamento de serviços ao Estado. Esta aberração, para a qual tenho dificuldade em encontrar adjetivos que correspondam à náusea que sinto, foi aprovada por 81 deputados e contou apenas com 27 votos contra e uma abstenção.

O primeiro sinal mais visível da revolta veio, curiosamente, de um não europeu: em protesto, Ai Weiwei encerrou uma exposição em Copenhaga e retirou uma obra sua do museu de Aros. No entanto, não haverá nenhuma medida da União Europeia contra a Dinamarca. Parece que está tudo bem com o seu défice e as normas da concorrência são cumpridas. Na realidade, a única sanção de que se fala por estes dias é à Grécia, que pode ser suspensa do espaço Schengen por não estar a conseguir cumprir, com os parcos recursos que sobreviveram à crise, o papel de polícia de fronteira do norte da Europa. E é nestes momentos que me pergunto: o que raio quer dizer ser “europeísta” hoje em dia. A que valores se refere essa ideia? Estamos a unir-nos em torno de quê, exatamente? Ainda faz algum sentido?

A ver se nos entendemos, porque, quando todos os valores essenciais se perdem, pode haver alguma confusão em algumas cabeças. Os refugiados não são emigrantes. Recebê-los não é uma prerrogativa dos Estados. É um dever. Fogem da guerra e da morte e quem lhes recusa a entrada recusa-lhes a vida. Ao contrário da Turquia ou do Líbano (onde os refugiados já representarão um quarto da população), a Europa não está a ser inundada por refugiados. Na realidade, tirando a Alemanha, a Europa quase nada fez para os receber. E até desanca nos Estados do sul que têm de lidar com a situação.

Como parece que já só nos conseguimos envergonhar com coisas do passado, imaginem os Estados Unidos, durante a II Guerra e o Holocausto, a confiscarem os bens dos judeus à sua entrada. Imaginem e sintam a imensa vergonha. Confiscar bens a um refugiado é um ato de cobardia, de roubo e de selvajaria. E, já agora, uma estupidez: quem tenha alguma coisa de seu para recomeçar a sua vida não quererá ir para a Dinamarca.

A única coisa que consigo escrever perante isto é que não me conformo com o facto de estar na União que me liga a um Estado que aprova esta abjeção. Logo a Dinamarca, que ajudou os judeus a fugir do Holocausto. Envergonham os seus antepassados, envergonharão os seus descendentes. E que sinto, só não sente quem nada sente, o regresso dos tempos mais sombrios desta Europa. O mesmo clima de racismo e intolerância religiosa, a mesma frieza criminosa. O mal é banal e o ódio contagioso. É só deixá-lo à solta.