Cuidado com o tempo em que vivemos

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 30/09/2016)

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É lá com eles, dizemos para nosso recato e aparente tranquilidade. Mas as guerras, os medos e os terrores estão a tocar-nos no batente.

A reunião dos 27, em Bratislava, não conduziu a coisa alguma, a não ser ao surdo reconhecimento de que a União Europeia está cada vez mais periclitante. As pressões feitas pela Alemanha, com a parva aquiescência de França e do emproado François Hollande, têm resultado num encolhimento da organização, no despautério da Hungria, e na construção, exacerbada, de linhas divisórias de arame farpado. Angela Merkel é, cada vez mais, a desorientação política em pessoa. Os problemas agigantaram-se com o êxodo de milhões de pessoas de várias nacionalidades, que tentavam escapar, através dos mares, e em condições de fragilidade temerosas, à exacerbação das grandes cóleras.

É um dos mais dramáticos êxodos da história humana, com consequências imprevisíveis. Há países que fecham violentamente as suas portas de entrada, caso da Hungria, e outros que desanimam as intenções de fuga de populações de vários países. Eis o quadro impressionante desta imensa tragédia humana. Em Calais, a dimensão do horror ainda não foi suficientemente determinada, mas as expressões que se lhe conhecem fornecem um retrato medonho da condição humana.

Estamos, de facto, a perder as noções dos valores de solidariedade que nos inculcaram após os criminosos malefícios causados pela II Guerra Mundial. Os valores do dinheiro, da riqueza a todo o custo, abalaram o que nos fora inculcado. Apreciando os valores modernos, chegamos à conclusão de que a nobreza das ideias nascidas no final da guerra estão a desaparecer.

Em que situação estamos, no mundo de hoje, desejadamente pacífico e sonhadoramente fraterno? Um pouco por todo o lado, mortandades, chacinas, fugas de um para outro sítio, alteraram completamente o nosso modo de ver e de viver. O local onde estamos é um lugar amargo e extremamente perigoso, mesmo que o não sintamos directamente. É lá com eles, dizemos para nosso recato e aparente tranquilidade. Mas as guerras, os medos e os terrores estão a tocar-nos no batente.

O encontro de Bratislava não serviu para coisa alguma. Nada de importante, que defendesse e salvaguardasse os nossos valores e princípios, foi decidido ou resolvido. A União Europeia é um mito que se tornou assaz enfadonho e medíocre para quem possui da Europa e do tempo corrente uma noção fechada. Mas a verdade é que os conflitos sociais e políticos estão à vista de quem desejar ver. A extrema-direita assume, cada vez mais, a consciência de que os seus valores são eternos e estão a regressar, após a confusão do momento. E a União Europeia, porventura o mais importante aglomerado de nações, não reage, eficazmente, através da via ética (que foi subvertida pela força da ganância e do poder discricionário), ao espectáculo deplorável da ascensão do poder mais maléfico e redutor.

Estamos num período propício aos avanços mais perturbadores dos poderes maléficos, e não receio utilizar a palavra. As próprias forças da cultura, do desenvolvimento intelectual, da discussão de ideias e de pensamentos foram calafetadas. Há algo de vazio e de frustrante naquilo que nos apresentam como nossa salvação. Regressamos àqueles que nos ajudaram a suportar o insuportável, mas mesmo esses não conseguem ajudar-nos a resolver os nossos próprios dilemas.

Vivemos num dos períodos mais dramáticos no nosso tempo. O vazio de ideias é total, e a observância do escrúpulo e da honra está a ser minuciosamente dizimada. Que nos resta?

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