Gronelândia

(Fernando Oliveira in Tertúlia Orwelliana, 24/01/2026)

O quadro intitula-se TRUMP e é da autoria do artista gronelandês Kristian Keto Christiansen. Retrata Trump envergando os trajes, os óculos e as botas tradicionais dos gronelandeses a escavar o solo com um remo à procura de Elementos de Terras Raras. 

Gronelândia: o que não nos dão a conhecer está soterrado debaixo de muitas camadas de gelo, sofrimento e esquecimento motivado.


«A América não tem amigos ou inimigos PERMANENTES, só tem interesses»

Henry A. Kissinger, The White House Years,  Little, Brown and Company , 1979.


0. INTRODUÇÃO

Em 2019, quando o The Wall Street Journal anunciou que o Presidente Donald Trump encarava seriamente a possibilidade de adquirir a Gronelândia, ninguém o levou a sério.

 Encontro Putin-von der Leyen à margem da Conferência de Berlim, 19 de Janeiro de 2020 

Mais uma piada, uma maluqueira do Trump. No século XXI não se compra um país, o feudalismo já acabou há muito. E ainda era o tempo em que: «Foi bom reunir com o Presidente Vladimir Putin (…)»

No início de Janeiro de 2026, a declaração da Casa Branca de que o Presidente Donald Trump explorava activamente um amplo leque de opções para garantir a posse da Gronelândia provocou ondas de choque na UE, tanto mais surpreendentes quanto esta tinha ido à Escócia prestar vassalagem ao senhor feudal Trump. É o tempo da muito propagandeada e nunca especificada «crescente agressividade da Rússia e da China»!

O artigo publicado na revista dinamarquesa Politiken, que refiro mais abaixo, fez-me ir levantando sucessivas camadas de gelo que revelaram feridas profundas e não cicatrizadas. O que aparece não é só terras raras, petróleo, gás, lítio e outras matérias-primas como se refere aqui. É lixo radioactivo, promessas não cumpridas e uma história de experimentação humana que parece ficção, mas não é.

Vamos aos factos.

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A sombra sinistra do passado

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 29/01/2016)

Autor

                            Daniel Oliveira

A Dinamarca acabou de aprovar esta semana uma lei que exibe à Europa o espelho da sua trágica memória. A partir de agora, todos os refugiados que cheguem ao país verão os seus bens particulares confiscados (acima de 1340 euros). Ficam de fora “objetos de alto valor sentimental” (alianças de casamento e retratos de família), que a selvajaria tenta sempre mostrar sentimentos. Os refugiados estarão impedidos de reconstruir as suas vidas com a ajuda dos seus próprios meios, mesmo que entre esses meios esteja, por exemplo, um computador pessoal. O que for apreendido será destinado a pagar as despesas que a Dinamarca tem com estas pessoas, diz o cinismo legislativo que, supõe-se, passou a ter o confisco de bens como forma de pagamento de serviços ao Estado. Esta aberração, para a qual tenho dificuldade em encontrar adjetivos que correspondam à náusea que sinto, foi aprovada por 81 deputados e contou apenas com 27 votos contra e uma abstenção.

O primeiro sinal mais visível da revolta veio, curiosamente, de um não europeu: em protesto, Ai Weiwei encerrou uma exposição em Copenhaga e retirou uma obra sua do museu de Aros. No entanto, não haverá nenhuma medida da União Europeia contra a Dinamarca. Parece que está tudo bem com o seu défice e as normas da concorrência são cumpridas. Na realidade, a única sanção de que se fala por estes dias é à Grécia, que pode ser suspensa do espaço Schengen por não estar a conseguir cumprir, com os parcos recursos que sobreviveram à crise, o papel de polícia de fronteira do norte da Europa. E é nestes momentos que me pergunto: o que raio quer dizer ser “europeísta” hoje em dia. A que valores se refere essa ideia? Estamos a unir-nos em torno de quê, exatamente? Ainda faz algum sentido?

A ver se nos entendemos, porque, quando todos os valores essenciais se perdem, pode haver alguma confusão em algumas cabeças. Os refugiados não são emigrantes. Recebê-los não é uma prerrogativa dos Estados. É um dever. Fogem da guerra e da morte e quem lhes recusa a entrada recusa-lhes a vida. Ao contrário da Turquia ou do Líbano (onde os refugiados já representarão um quarto da população), a Europa não está a ser inundada por refugiados. Na realidade, tirando a Alemanha, a Europa quase nada fez para os receber. E até desanca nos Estados do sul que têm de lidar com a situação.

Como parece que já só nos conseguimos envergonhar com coisas do passado, imaginem os Estados Unidos, durante a II Guerra e o Holocausto, a confiscarem os bens dos judeus à sua entrada. Imaginem e sintam a imensa vergonha. Confiscar bens a um refugiado é um ato de cobardia, de roubo e de selvajaria. E, já agora, uma estupidez: quem tenha alguma coisa de seu para recomeçar a sua vida não quererá ir para a Dinamarca.

A única coisa que consigo escrever perante isto é que não me conformo com o facto de estar na União que me liga a um Estado que aprova esta abjeção. Logo a Dinamarca, que ajudou os judeus a fugir do Holocausto. Envergonham os seus antepassados, envergonharão os seus descendentes. E que sinto, só não sente quem nada sente, o regresso dos tempos mais sombrios desta Europa. O mesmo clima de racismo e intolerância religiosa, a mesma frieza criminosa. O mal é banal e o ódio contagioso. É só deixá-lo à solta.