Itália: “As Bodas do Caos”

(Jorge Almeida Fernandes, in Público, 05/11/2016)
renzi
Falta um mês para o referendo constitucional italiano de 4 de Dezembro. O “não” está em vantagem, de dois a quatro pontos, dentro da lógica dita “TCR: Todos contra Renzi.” Quando a consulta popular foi anunciada, no fim de 2015, as reformas constitucionais reuniam um vasto consenso. Ao longo dos meses, o referendo tornou-se tema de guerra interpartidária, enquanto mudava o humor dos italianos: hoje, 57% dizem que vão votar a favor ou contra o Governo Renzi e apenas 26 a favor ou contra a revisão constitucional. É um efeito típico dos referendos.

O alarme foi lançado pouco antes do “Brexit” (23 de Junho), quando o “não” começou a subir nas sondagens. Tornou–se tema de debate internacional — na imprensa britânica, alemã, espanhola ou americana, nas capitais europeias e nos meios financeiros. Em Junho, o alemão Wolfgang Münchau traçava um quadro negro no Financial Times, advertindo que o impacto do “não” seria politicamente desastroso. Matteo Renzi seria obrigado a cumprir a promessa de se demitir. O vazio político e um estado de emergência económico poderiam levar inclusive a uma saída da Itália da moeda única, o que por sua vez “provocaria o colapso total da zona euro num período curto”.

“E provavelmente levaria ao mais violento choque económico na história, superando a falência do Lehman Brothers em 2008 e o crash de 1929 na Wall Street.” Münchau pode ser um “profeta da desgraça”, mas não está só. O Wall Street Journal sublinhou que o referendo italiano “é mais importante do que o ‘Brexit’”. O El País ou o Die Welt avisaram que uma derrota de Renzi empurrará a UE para nova crise.

O que está em jogo

Na Itália, “a hipérbole e o exagero são um traço do debate público”, diz o analista Antonio Polito. Para os apoiantes do “sim”, a alternativa é “Renzi ou o dilúvio”. Para os defensores do “não”, a Itália está ameaçada por uma “ditadura de governo” ou por um “despotismo da maioria”. Entre os constitucionalistas, o debate assume ares de uma polémica teológica medieval, explica o L’Espresso, e de um teatral ajuste de contas entre partidos, facções, professores, intelectuais, jornalistas e cineastas: “Um debate à italiana.”

Que está afinal em jogo?

Renzi propôs-se mudar o sistema político italiano e para tal fez um acordo com Berlusconi. As reformas foram aprovadas em 2015 no Parlamento por larga maioria, mas sem os dois terços necessários no Senado depois de o Cavaliere ter rompido o contrato. O objectivo principal é pôr termo ao bicameralismo perfeito: a Câmara de Deputados e o Senado, eleitos de forma distinta, dispõem dos mesmos poderes, tanto na investidura dos governos como na aprovação das leis. Mas sendo eleitos de forma diferente, é frequente terem maiorias diferentes, o que muitas vezes bloqueia a governação ou obriga a fazer acordos bastardos. Segundo o novo texto, o Senado passa a ser uma câmara representativa das regiões. Os deputados terão proeminência no processo legislativo e só eles poderão votar moções de desconfiança ao governo. O resto é lana-caprina.

O debate foi envenenado pela aprovação da nova lei eleitoral, dita Italicum, que prevê a concessão de uma maioria absoluta ao partido vencedor desde que tenha mais de 40%. Em alternativa, haverá uma segunda volta (balotaggio) entre as duas formações mais votadas para efeito da atribuição do “prémio de maioria”.

Em nome da estabilidade, a reforma visa pôr termo às coligações multipartidárias que depressa se desfazem e reforçar o executivo. O sistema permanece dominantemente parlamentarista, pois os deputados podem votar a desconfiança ao governo. É um difícil equilíbrio entre governabilidade e representação — este é o cavalo-de-batalha do campo do “não”.

Os dois erros de Renzi

O quadro político italiano é hoje tripolar. O centro-esquerda é dominado pelo Partido Democrático (PD, de Renzi). A direita é composta pela Força Itália (FI, de Berlusconi) e por uma extrema-direita le-penista, a Liga Norte (LN, de Matteo Salvini). O terceiro pólo é o populista Movimento 5 Estrelas (M5S, de Beppe Grillo). Renzi e os seus constitucionalistas imaginavam a reorganização de uma direita clássica, pela recomposição do partido de Berlusconi, e uma alternância entre centro-esquerda e centro-direita.

Em vez disso, aconteceram duas coisas. Primeiro, o M5S consolidou a posição de segundo partido e ameaça o PD, enquanto Salvini disputa a Berlusconi e seus herdeiros a hegemonia da direita. Segundo, a introdução do balotaggio teve um efeito perverso. Grillo, Salvini e Berlusconi descobriram que a única maneira de eliminar Renzi era somar os seus votos nas segundas voltas. O método foi ensaiado com êxito nas eleições autárquicas de Junho. O M5S poderia vencer as futuras legislativas. O mesmo acontece no referendo: “Todos contra Renzi.”

O primeiro-ministro tinha no fim do ano passado um elevadíssimo apoio popular. O PD ganhou as europeias com mais de 40% dos votos. Queria uma nova legitimação eleitoral, pois é um “primeiro-ministro que não foi eleito nas urnas”. Personalizou o referendo: “Se a reforma não vencer, vou para casa.” Os adversários usam agora contra ele a sua promessa. Se perder, demite-se. E pode ser inevitável a dissolução. Acresce que lei eleitoral, que entrou já em vigor, foi contestada junto do Tribunal Constitucional. Se for chumbada, os italianos votarão com um sistema proporcional perfeito, o que significa a balcanização do Parlamento. A reforma foi imposta pela crise de 2013, em que o Parlamento foi incapaz de eleger um Presidente da República durante semanas.

A engrenagem

A divisão dos campos pouco ou nada tem que ver com a divisão esquerda-direita, mas com a fractura política-antipolítica. O que motiva os eleitores? “Antes de mais a irritação geral perante as instituições do Estado e os partidos”, escreve o politólogo Ilvo Diamanti. “Trata-se dos actores políticos da antipolítica. Depois, os alvos comuns. Primeiro, a imigração. Logo, a União Europeia. Noutros termos, as duas faces da globalização. A perda de soberania política e económica a favor das entidades supranacionais. (…) As migrações que vêm do Sul do mundo e que aumentam o nosso sentido de vulnerabilidade. E de despaisamento. A Liga e o M5S, embora tenham uma sociologia e uma geografia diversas, partilham estes sentimentos.” A sua estratégia passa por desgastar e deslegitimar os fundamentos do poder que pretendem conquistar.

A conjugação da antipolítica com a grave crise económica italiana pode ser explosiva. O desemprego não recua. O crescimento é anémico. A produtividade não sobe desde 1999. Os bancos estão descapitalizados. Dirão os optimistas que, na Itália, “tudo continuará como dantes”. Mas ninguém ousa prever o efeito de um vazio político, sobre a Itália e sobre a Europa.

Observa no La Repubblica, o ex-director Ezio Mauro: o M5S e a Liga, os mais determinados antagonistas do PD, preparam-se para celebrar as “Bodas do Caos”.

A Europa vista pelo Presidente da República – (2) O lado de dentro

(José Pacheco Pereira, in Público,30/07/2016)

Autor

             Pacheco Pereira

A deslegitimação democrática do processo europeu é a fonte da pressão referendária. E não, senhor Presidente, Portugal não “se sente bem na União Europeia”.


Voltando à intervenção do Presidente da República há duas semanas e acrescentando-lhe várias outras declarações entretanto feitas sobre a mesma matéria — Marcelo produz declarações a um ritmo, digamos, de forma eufemística, acelerado —, vamos agora ver o “lado de dentro” dessas declarações, ou seja, o que elas revelam sobre Portugal e a União. Este é, aliás, o aspecto pior dessas declarações, visto que Marcelo acaba por ser o porta-voz do atentismo voluntarista que explica por que razão a nossa consciência crítica e a nossa vontade cívica soçobram face àquilo que hoje a Europa é contra os interesses nacionais, insisto, contra os interesses nacionais.

Eu sou mais europeísta do que eles, porque estou consciente do caminho para o desastre que se está a seguir e mais próximo da Europa dos fundadores, que de há muito renegaram. E, sim, o facto de não haver sanções não justifica nenhum dos elogios que estão a ser feitos à União, porque eles assentam numa análise asséptica das razões por que não houve sanções.

O facto de não haver sanções foi o resultado de um combate político que se fez exactamente contra a Europa dos europeístas, em vez da atitude de submissão que era e é a norma. Se há mérito, não é da Europa das “regras”, mas do Governo português, que a contestou, mesmo que não o diga. Este combate travado pela primeira vez por um governo do lado débil do Sul é em si uma novidade, mas está longe de significar uma mudança qualitativa da União.

Se este sucesso tem continuidade, é o que se vai ver, espero que sim, mas duvido que tenha, em particular pela reafirmação do garrote do Tratado Orçamental, um instrumento contra o desenvolvimento económico dos países da Europa que mais precisam de alguma folga prudente, consistente mas continuada.

Aliás, é com ironia que vejo o FMI juntar-se aos perigosos esquerdistas que falavam da reestruturação da dívida e do desastre que foi o programa da troika e, por maioria de razão, o modo como foi aplicado em Portugal. O recente documento do FMI é um libelo contra as políticas do Tratado Orçamental impostas pelo Eurogrupo e apoiadas com entusiasmo pelo Governo PSD-CDS, que queria, de forma pouco disfarçada, que Portugal sofresse sanções… pela política de 2016.

Usar o facto de não ter havido sanções para crer em intervenções avulsas, do Presidente, do ministro de Negócios Estrangeiros e até de dirigentes europeístas de partidos como o Livre, pretender que isso significa  que a Europa afinal funciona “bem” e os que a criticam não tem razão é mais uma cegueira a acrescentar a muitas outras que se repetem há quinze anos.

Aliás, se, nesta matéria, só houvesse direito a falar caso se tivesse acertado nalguma coisinha nestes últimos anos, nenhum europeísta teria sequer a possibilidade de dizer alguma coisa. Em democracia, há o direito de errar, mas a credibilidade dos europeístas é muito escassa. Desde pelo menos o célebre discurso de Joschka Fischer de 2000, o caminho é errado, só tem conduzido a desastres sobre desastres e falar de cegueira tem todo o sentido.

A cegueira de ter contribuído para o enfraquecimento da Comissão em detrimento do fortalecimento do Parlamento e do Conselho, a cegueira da Constituição Europeia vencida pelo “canalizador polaco”, a cegueira das discussões egoístas do Tratado de Nice, aquele que está debaixo do tapete, a cegueira de um tratado como o de Lisboa que não serviu para nada nestes anos de crise, a cegueira de ir tornando a cada dia que passa a União mais desigual, mais reduzida a directórios e por fim a um só poder, a cegueira da gestão do euro, a cegueira de ter tornado a solidariedade entre os países mais ricos a favor dos mais pobres num conflito entre diligentes e preguiçosos, a cegueira de ter aberto a crise das dívidas soberanas, a cegueira e, pior do que isso, a política da canhoneira, com a Grécia, a cegueira do Tratado Orçamental, a cegueira criminosa de querer ter uma política externa agressiva sem forças armadas, na Ucrânia, na Líbia, na Síria, a cegueira de engolir uma burocracia cada vez mais arrogante, que usa e abusa das fugas de informação, a cegueira de aceitar presidentes da Comissão cada vez mais fracos, — em todos estes passos houve quem criticasse e dissesse quais eram as consequências. Foram isolados como reaccionários face à marcha progressista da engenharia política europeia, apelidados de soberanistas (agora é um insulto), nacionalistas e extremistas. De cada vez que ganham um referendo, são apelidados de populistas, face à elite das elites iluminadas, que os perde. E as consequências previstas verificaram-se todas.

Voltando ao discurso presidencial, um dos seus pontos-chave é o ataque à proposta de referendo que foi feita pelo BE, caso houvesse sanções. O BE andou para trás e para a frente com a proposta, deixou-se enredar nas críticas do Presidente e do PCP sobre a não possibilidade de haver referendos a tratados internacionais. Claro que a questão não precisa de ser constitucional ou a pergunta ser sobre um tratado, até porque há muitas maneiras de perguntar ao povo português sobre a Europa sem violar a Constituição. Marcelo deve conhecer pelo menos vinte.

O problema é outro: é a demonização do referendo cuja proposta, seja sob que forma for, é considerado quase uma proposta criminosa e antinacional, própria de fascistas, nacionalistas, comunistas e diversos extremistas. É irónico que Marcelo seja hoje um porta-voz dessa demonização, ele que fez parte do partido com mais tradição referendária e que propôs ele próprio pelo menos um referendo. É irónico, insisto, que seja alguém do PSD que acha que fazer um referendo é quase um crime, quando uma das reivindicações históricas do PPD e depois do PSD foi a realização de um referendo em matérias constitucionais, e que homens como Alberto João Jardim regularmente proponham um referendo, na tradição, aliás, de Sá Carneiro. E que se esqueça que não passou muito tempo desde que PSD e PS foram a votos com a promessa de levar a referendo qualquer novo tratado europeu que implicasse alterações na Constituição, promessa que abandonaram pela porta baixa quando os franceses queriam ultrapassar o chumbo da Constituição, para fazer a fraude que é incluir no Tratado de Lisboa aquilo que tinha sido rejeitado na França e na Holanda.

Este aspecto da crise democrática da União, que desde essa altura não fez mais do que se agravar, é algo de que os europeístas não falam nem têm em consideração. E bastava isso para olharmos com um olhar muito crítico a actual União, entregue a um efectivo poder de uma só nação e dos seus aliados, ou seja, exactamente aquilo que os fundadores da Europa não queriam que acontecesse.

A perda de poderes dos parlamentos nacionais e dos governos mais frágeis da União, substituídos pela burocracia de Bruxelas, aumentou insidiosamente na última década e meia sob um pano de fundo doloso e de mentira. Sobre isso os europeístas entregaram a reivindicação soberana aos extremos, coisa para que nunca ninguém lhes deu mandato, nem tem qualquer sentido no modelo igualitário com que se construiu a União.

Aliás, por que razão é que pensam que a reivindicação referendária tem crescido, a não ser pela consciência crescente de que o bloco PPE-PSE que domina a Europa retira o pluralismo da discussão política da União para o entregar a maiorias pouco sadias, e de costas cada vez mais voltadas para a opinião popular? É por saberem que partidos como o PS e o PSD, assim como os seus congéneres europeus, não entram em conta com o crescente sentimento hostil à União Europeia, e que nenhuma discussão parlamentar exprime os seus ponto de vista a não ser rotulando-os de nacionalistas, extremistas, quiçá fascistas, que a pressão referendária aumenta.

À medida que a democracia nacional é sugada pela burocracia de Bruxelas e pelos países mais poderosos, que os parlamentos enfraquecidos e subordinados se transformam em entidades vazias, apenas resta às pessoas a exigência referendária. Se a democracia parlamentar funcionasse como devia, representando as opiniões reais e não directórios partidários, e o Parlamento tivesse os poderes de dizer que não em muitas matérias em que foi desapossado desse poder sub-repticiamente, a pressão referendária era menor.

Foi o que aconteceu no Reino Unido, é o que acontece por regra quando se leva ao voto popular medidas propostas pela União, que ou chumbam, ou passam ao milímetro quando não tem de se repetir referendos até dar o resultado “certo”. A deslegitimação democrática do processo europeu é a fonte da pressão referendária.

E não, senhor Presidente, Portugal não “se sente bem na União Europeia”.

A tirania climatizada

(Baptista Bastos, in CM, 20/07/2016)

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Baptista Bastos

Vai haver sanções. Não vai haver sanções. A escala de valores das ‘penalizações’ a aplicar, ou não, a Portugal sobe e desce consoante os interesses ocultos, e as astúcias políticas. A tenaz pretende, sobretudo, apertar o governo português, e não é estritamente necessário saber alemão para se descortinar o que, na verdade, querem dizer as frases de Schauble, o inquietante ministro das Finanças de Angela Merkel.

Certa comunicação social portuguesa, essa, parece muito feliz na criação deste enervamento artificial. O que está em causa é que o poder em gerência na ‘União’ Europeia detesta a prática de António Costa, e que contradiz a ideologia dominante em Bruxelas e arredores. Além de indeferir a servidão. A Grécia do Syriza já foi punida, por recalcitrante, ante o silêncio cúmplice dos ‘parceiros’ europeus, mas abriu um precedente que as estruturas político-económico-sociais não podem tolerar.

Como Noam Chomsky no-lo disse, esta Europa de remendos é um exemplo da luta de classes. Unificar os Estados, liquidar as nações, impor o pensamento único, uniformizar as diferenças, e inculcar o sentimento de que a hegemonia pertence ao mais forte parece coisa de outro tempo. Mas não é. Tem sido tentada várias vezes com resultados conducentes a guerras e a conflitos medonhos.

As pequenas humilhações pelas quais o nosso país tem passado só não constituem ofensas maiores porque quem as pratica não dispõe de altura moral nem intelectual. Estamos nas mãos de ignorantes ambiciosos, factótuns da grande finança, como, por exemplo, acontece com um português recentemente nomeado para uma dessas instituições.

Sei que é muito difícil enfrentar colossos desta natureza. Difícil, mas não impossível.

Há muita gente que se manifesta contra o domínio paralisante da Europa alemã. E o referendo, em algumas nações, surge como resposta à tirania climatizada.