As pensões e os depósitos estão em perigo? 

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 18/04/2025)

Cuidado com as carteiras! Eles andam aí! 🙂

Maria Luís Albuquerque, a Comissária da Estabilidade Financeira, Serviços Financeiros e Mercados de Capitais da União Europeia (que nome de cargo tão comprido, caramba!) anda há um mês em campanha a promover a ideia de que há 10 biliões de euros (é mesmo biliões, 10 mil vezes mil milhões) de pequenas poupanças dos cidadãos europeus estacionadas em depósitos bancários e em poupanças para as reformas que, acha ela, podem ser muito melhor aproveitadas. 

O que a Comissária propõe para cobrir a falta de dinheiro para os projetos de Bruxelas é a União das Poupanças e Investimentos que, e cito um discurso da semana passada, “visa colmatar essa lacuna, especialmente em áreas-chave como a inovação digital, a transição climática e a defesa”. 

Isto foi reafirmado numa intervenção feita por Maria Luís no Eurofi High Level Seminar. E o que é este Eurofi? É um “think thank” formado no ano 2000, que reúne de seis em seis meses políticos europeus com dirigentes de bancos, seguradoras, fundos de investimento, bolsas, consultoras e sistemas de transações financeiras.  

São 100 empresas europeias, norte-americanas e asiáticas, todas gigantes, membros da fina flor do capitalismo financeiro mundial, que tantas vezes nos tem atirado para crises gravíssimas, e que pretendem, diz o seu site, “contribuir para o fortalecimento e a integração dos mercados financeiros europeus e o trabalho político relacionado”. 

Maria Luís foi oferecer a estes mestres da criação de falsa riqueza uma maneira de chegarem ao dinheiro dos remediados da União, seduzindo estes com a hipótese de obterem uma rendibilidade um pouco maior. 

Prometeu campanhas de “literacia financeira” para convencer as pessoas, “de forma voluntária” a tirar esse dinheiro dos depósitos para investir em novos produtos financeiros. 

Prometeu mudanças de legislação e de procedimentos que prevêem coisas como “inscrição automática em esquemas de pensões ocupacionais”, criação de “pensões complementares” e “investimentos em ações dos fundos de pensões”. 

Tudo isto é apresentado sempre com a palavra “prudência” a acompanhar (foi dita seis vezes ao longo dos 10 ou 15 minutos de discurso) para não assustar a opinião pública, mas a palavra-chave que daqui retiro é outra: usurpação. 

Desculpem, mas habituado como estou à realidade predatória da alta política e da alta finança, o que acho que se está a passar é isto: a bem ou a mal, com propaganda ou com legislação, as poupanças dos pequenos aforradores e dos pensionistas vão ser postas ao serviço dos grandes investidores, aumentando substancialmente o risco das pessoas perderem o seu dinheiro no processo. 

Em Portugal houve um caso BES, não sei se se lembram, onde muitos cidadãos, também de “forma voluntária”, perderam tudo o que tinham em investimentos ditos “seguros” e “prudentes”. O que exemplifica perfeitamente o que se está a preparar em toda a União Europeia sem, como é costume, escrutínio político e debates públicos adequados. 

Há, ainda, uma questão moral: eu não quero que a minha poupança para a reforma ou o depósito que tenho no banco sejam usados para comprar armas. Não tenho esse direito? Como posso impedi-lo?… 

Os governantes elitistas europeus estão a fazer alarde da ameaça russa e da guerra a fim de sobreviverem politicamente

(SCF, in Resistir, 15/04/2025)


– Canalhas políticos europeus, impregnados de russofobia, fogem às suas responsabilidades quando histericamente retratam a Rússia como uma ameaça para o resto da Europa.   Precisam de o fazer para justificar a sua exigência de militarizar as economias europeias, promovendo uma agenda de guerra contra a Rússia.


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Os dirigentes elitistas da União Europeia são a prova do ditado consagrado pelo tempo de que a guerra e o militarismo são uma fuga conveniente aos problemas internos.

E a União Europeia, bem como os seus seguidores, como os valentes britânicos, têm uma abundância de problemas intrínsecos e estruturais que equivalem a um colapso político. Ao longo de décadas, o bloco europeu de 27 membros evoluiu para uma estrutura super-estatal centralizada, em que as decisões políticas se tornaram totalmente dissociadas das preferências democráticas dos seus 450 milhões de cidadãos.

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A Europa, de novo: a cultura da paz e a cultura da guerra

(José Sócrates, in Diário de Notícias, 14/04/2025)

E é isto a Europa…

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O que vejo de pior no recente discurso sobre o rearmamento da Europa é a forma como ele é apresentado — simples questão de bom senso, dizem. Não é uma escolha, não é uma opção política, é apenas bom senso. E sendo uma questão de bom senso, não é necessário debate, nem boas razões — a coisa é autoexplicativa: a invasão russa da Ucrânia e o abandono americano da guerra não deixam alternativa. Assim se constrói o pensamento único — chamando-lhe bom senso.

A pressão do jornalismo pela política de rearmamento é tão forte que qualquer personagem que a ponha em causa é imediatamente banida para o espaço marginal que as democracias reservam aos doidos e aos hereges — não devem ser levados a sério. Eis, portanto, a nova cultura política europeia: o discurso da paz é radical, o da violência é normal. A paz é a retórica dos fracos.

O discurso nas televisões europeias aparece dominado por aquilo a que alguém chamou de fenômeno da “estupidez estruturalmente induzida”. Bem observado: se a proposta de produzir mais armas tem como principal razão de ser a ameaça russa, ela é realmente muito estúpida. Salvo melhor opinião, que não estou a ver qual seja no domínio dos fatos, a invasão da Ucrânia não aumentou a ameaça russa, mas revelou, isso sim, a sua fraqueza. Se o exército russo não conseguiu em três anos derrotar a Ucrânia, não estou a ver como poderia invadir com sucesso a Europa ocidental.

Depois, o argumento do abandono americano. É certo que a atual administração fragilizou a aliança transatlântica e afetou a confiança em que se baseia o artigo 5º da OTAN (um ataque a um é um ataque a todos). Estou de acordo. No entanto, a guerra da Ucrânia veio derrubar um mito de décadas — o de que a Europa precisa dos Estados Unidos para se defender. Há muito que isso deixou de ser verdade.

A Europa tem mais homens, mais tanques e mais jatos de combate que a Rússia. A Europa gasta mais em defesa do que a Rússia (os membros europeus da OTAN gastaram 476 bilhões de dólares em 2024 enquanto a Rússia gastou cerca de 140 bilhões). Estes dois indicadores parecem-me suficientes para contrariar o argumento base da corrida aos armamentos.

Temos ainda o argumento do regime: a ideia implícita de que o regime russo se funda numa necessidade incontrolável de expansão. O perigo russo, dizem os novos belicistas europeus, o verdadeiro perigo russo, é a sua memória histórica imperial. É essa condição que torna a vizinhança com a Rússia perigosa e que obriga os seus vizinhos a prepararem-se para a guerra. Este discurso tem raízes antigas — o perigo eslavo como razão militar. No entanto, nunca houve imperialismo sem força militar e a Rússia não a tem. E se não a tem não constitui uma ameaça.

Por outro lado, se queremos falar de pulsões primárias coletivas, convirá lembrar que os séculos 19 e 20 foram os séculos dos impérios europeus. E, assim sendo, se a história molda a atitude dos países, não se percebe por que razão a Rússia é mais perigosa que a Europa ocidental. O argumento não faz sentido, ou melhor, só faz sentido para quem julga a Rússia como inimigo eterno e os russos como pessoas não dotadas de razão.

Finalmente: o que significa realmente o rearmamento europeu? O que é que se pretende? Por mim, só vejo uma mudança critica — a do rearmamento alemão. Essa será a mudança essencial, tudo o resto será insignificante face ao que agora existe. É isso que a Europa deseja? Fazer regressar os jogos da balança de poder ao interior da Europa? Fazer regressar as desconfianças e os medos? Quantos anos passarão até que a França comece a temer o poder militar do seu vizinho alemão? Quando tempo demorará até que a Inglaterra comece de novo a fazer contas sobre como evitar o domínio do continente por uma única potência militar?

Há uns anos ouvia os dirigentes políticos sul-americanos elogiar a combinação de políticas de economia de mercado e de proteção social do estado a que demos um nome que nos orgulhava — o modelo social europeu. Ouvia-os falar com admiração do projeto de partilha de soberania que inspirou o Mercosul. Nessa altura o projeto europeu irradiava para o mundo como um projeto de paz, um projeto de defesa dos direitos humanos e de respeito pelo direito internacional.

Agora, a Europa está reduzida a isto — a falar de guerra, de armas e de inimigos existenciais. Como se a paz fosse impossível e a guerra eterna. O que está a acontecer na Europa não é apenas uma mudança de prioridades políticas, mas uma séria e profunda mudança de cultura política — a cultura da paz pela cultura da guerra.