TV Guia da culpa da mulher

(Isabel Moreira, in Expresso, 28/08/2016)

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Todos as semanas somos confrontados com capas do correio da manhã e de certas publicações que violam grosseiramente direitos fundamentais. A grosseria com que se invade o direito à vida privada, à intimidade, o direito à imagem, o direito à palavra, o direito ao bom nome, a dignidade pessoal, é hoje desporto sem sanções.

Acorda-se e vê-se na banca dos jornais, com uma insustentável leveza, um amontoado de calúnias e de difamações, bem como uma técnica hostil e destruidora da paz psicológica dos visados, a qual consiste num amontoado de insinuações construídas em simultâneo com um processo judicial em curso.

A violência doméstica é um dos crimes (públicos) que tem merecido mais atenção por parte dos sucessivos governos. Assim é, porque a lei foi aperfeiçoada, as práticas foram aperfeiçoadas, os instrumentos internacionais foram transpostos para a ordem jurídica portuguesa, mas continuamos numa guerra infernal de mortes persistentes todos os anos, bem como um número assustador de sobreviventes a habitarem um processo doloroso conhecido, com feridas emocionais, físicas e sociais.

Esta guerra devia, pensar-se-ia, ser agarrada por todas e por todos. Cada cidadã, cada cidadão, cada instituição, cada órgão de comunicação social, num mundo decente, saberia do seu papel social na sensibilização para o tema, na desconstrução de estereótipos, na mudança do paradigma de uma sociedade patriarcal, sexista e demolidora das mulheres, que continua a provocar, todos os anos, cerca de 40 mortes.

Selvaticamente, acontece o contrário. Por vezes, desistimos de denunciar cada publicação abjeta, porque somos invadidos por um sentimento de impotência, de resto justamente: estamos pasmados a olhar para o horror e nada ouvimos da ERC, da justiça ou do sindicado dos jornalistas.

A Capa da TV Guia de 21 de agosto traz uma fotografia da cara de uma figura pública, Bárbara Guimarães, uma mulher, como se sabe, mãe de dois filhos, que fez queixa de ter sido vítima de violência doméstica.

O seu ex-marido foi acusado e a justiça deve fazer o seu caminho, não me passando pela cabeça, naturalmente, antecipar-me ao resultado do julgamento.

O ponto é outro. A capa traz esta frase a letras gordas vermelhas e amarelas em modo de pré-terramoto: “Bárbara em noites loucas com os filhos”. A narrativa começa com uma mentira descarada: Bárbara Guimarães é ré.

Há fotos com o apontamento no canto da hora a que cada uma foi tirada, sim, fotos com Bárbara Guimarães e a filha num restaurante de uma praia do Algarve onde se percebe (embora tentem esconder) que há um grupo de amigos a assistir a um evento musical exclusivo para estes.

“Bárbara não se priva de álcool e de diversão”, nas tais das noites loucas. A mãe, imagine-se, a mulher que devia estar em casa e que devia saber que se deita os filhos às 21h da noite “não se priva” de “álcool”, nem de “diversão”, ela que está a viver o que se sabe, a louca, deduz-se.

Pior: induz-se um nexo de causalidade quando lemos este horror e o que se segue relativo a “a não resistir a noites quentes e animadas e serões regados a álcool”, “com a filha”, esta, a “menina cansada”. O nexo causal é simples: Bárbara Guimarães é má mãe (pronto, já está) e as suas alegações não são credíveis ou não estaria a divertir-se, não é? É a mulher que não resiste, que não se priva, todo um vocabulário.

Afinal, a TV Guia está todos os dias de olhos postos na alegada vítima e observa que em mais de 3 anos Bárbara Guimarães não ficou sempre fechada em casa e foi, nas palavras da grandiosa publicação, “apanhada”.

O nexo causal é simples para estes bandidos vendedores de papel: Bárbara Guimarães vai à praia todo o dia com a filha, de noite ficou para um evento “sempre de copo numa mão e de cigarro numa outra”, ao mesmo tempo que a filha pedia para ir para casa (a TV Guia ouviu, claro), logo é má mãe, logo as suas aptidões para ser mãe são duvidosas, logo a sua credibilidade deve ser posta em causa, logo encher esta reportagem com a “memória” do acordo de regulação do poder parental feito entre os pais das crianças em questão.

Já chega?

Não.

Falta o corpo. A TV Guia trata de “apanhar”, também, o corpo de Bárbara Guimarães. Fotos de um ser humano na praia, com os seus direitos espatifados, seguidas do escrutínio: “de biquíni e sem problemas em mostrar o seu corpo. Bárbara mostrou um corpo que surpreendeu quem está habituado a ver em excelente forma física”.

A TV Guia tem a resposta. Bárbara afirmou que perdeu muito peso desde o início do processo conhecido e agora tem uma “barriga saliente”, “pernas magras demais” e “pele envelhecida”.

Porquê?

“Provavelmente culpa da quantidade de cigarros que fuma ao longo do dia”, lê-se.

Culpa.

É isto.

Não sei quantos homens acusados de violência doméstica ou que tenham feito queixa deste crime, e a mãos com um acordo de regulação do poder parental, foram capa de sucessivas publicações à conta da expressão do seu rosto, do aumento de gordura da sua zona abdominal, da quantidade de cigarros que funam, das horas a que se deitam, dos dias em que se atrevem a sair com amigos e com os seus filhos, da sua roupa, do grau de envelhecimento da sua pele, das namoradas que têm ou que não têm.

Sei: zero.

E deve ser assim.

Mas vivemos no esgoto do duplo-padrão, em que uma mulher que apresenta queixa é atirada aos lobos, muitos deles femininos, como a mulher que assina esta peça da TV Guia. Para os lobos vão também as crianças, exploradas de publicação em publicação, ficando tudo registado, crianças que hoje saberão do que estão a fazer com elas e que amanhã poderão ver o histórico do que fizeram com elas.

Uma publicação como esta – que se junta a centenas sobre o caso – deve ser objeto de reflexão coletiva, porque não está apenas em causa o nome de uma mulher e os direitos daquelas crianças.

Está em causa a substância: esse duplo-padrão. Está em causa o modelo de sociedade em que queremos viver. Está em causa sermos ou não cúmplices com uma cidade que toma por arrogância uma mulher falar, que reduz as mulheres ao seu papel, o do silêncio, que expressa por múltiplos meios, como no exemplo dado neste artigo, que uma mulher não pode estar no espaço público com a mesma liberdade de um homem.

Está em causa sermos ou não cúmplices com uma história documentada e feroz de descredibilização do discurso feminino, está em causa olhar para uma mulher em tribunal e recordarmo-nos de todos os casos monstruosos em que a coragem de algumas não venceu a violência para silenciar o histerismo da espécie.

Está em causa não ser cúmplice com quem transforma o direito de viver e de aparecer em furo para dar cabo de uma pessoa apenas e só porque essa pessoa é uma mulher.

Isto é connosco.

Proposta de proibição do Verão para os políticos

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 26/08/2016)

Autor

                Pacheco Pereira

Mas o que é que deu a vários políticos no activo que quando chega o Verão perdem o juízo todo? Eu sei que o sol tem estado muito forte, e a canícula é grande, mas todos são gente com dinheiro para se protegerem, estarem repousados no ar condicionado, usarem bons chapéus e porem cremes no corpo. Mas não, passam-se da cabeça e do corpo e é um estendal pouco dignificante nas revistas do “coração”, que, pelo menos uma vez por ano, não têm como matéria prima apenas as estrelinhas das telenovelas e os famosos porque são “famosos” e têm gente que, todos esperamos, sabem o que fazem. Às vezes duvido.

Podem dizer, e esse é também o argumento comercial e interesseiro das revistas e dos fotógrafos que vendem as férias dos “famosos”, que não havendo nada a esconder, tudo se pode mostrar. Mas mostrar e exibir são duas coisas diferentes. Não são fotos de paparazzi tiradas às escondidas, mas exposições e poses consentidas e certamente negociadas, feitas voluntariamente num exibicionismo insensato, para não dizer outra coisa.

Vejamos dois exemplos: o que leva o nosso Presidente da República, que eu pensava mais comedido nestas matérias, a exibir a sua praia em companhia, numa companhia que, aliás, sempre se tinha pautado pela reserva e ainda bem? O outro exemplo é o de Assunção Cristas que se mostra para a fotografia com um vestido curto com kiwis (Nossa Senhora do Gosto alumiai-nos a todos!) e noutra série de fotos combinadas com os calções que antes se chamavam hot pants e o hot estava lá por alguma razão.

É-me indiferente que o Presidente queira aparecer de “namorado” ou que a líder do CDS tenha resolvido ser sexy, estão no seu direito de ter as ilusões que quiserem. Mas não me venham depois dar lições de moral do comedimento, de moral da reserva, ou da moral que deve assistir a adolescentes e adultos na defesa da privacidade, sua e dos seus.

O exemplo que estas pessoas com responsabilidade estão a dar conflui num grave problema dos nossos tempos: a contínua erosão do valor da privacidade, da reserva, e mesmo do bom gosto. Quando nós assistimos a uma geração de adolescentes que usa e abusa das fotografias provocatórias nas redes sociais, de que só mais tarde amargamente se arrepende, vemos agora estes adultos a fazer algo que não é muito diferente. O mal disto é que se gera uma cultura de exibição que torna mais difícil para quem não a deseja, ou mesmo a abomina, poder resistir, dizer que não, que não quer ser fotografado, que não quer ver cada passo seu escrutinado no Twitter e que, acima de tudo, não tem que dar nenhuma satisfação a ninguém de por que razão quer que permaneça intacta a sua reserva de intimidade e privacidade.

Ah! e outra coisa: ainda estou para ver alguém que não venha a arrepender-se destas exibições, ou porque, com o tempo, deixou de gostar de se ver “exibida”, ou porque tem razões para não querer ver a sua vida tão devassada como no passado. Foram precisos 200 anos de “civilização burguesa” para criar as condições económicas da privacidade e mais de 200 anos para se perceber o valor de não se viver numa “aldeia global”, onde todos sabem tudo sobre todos e a liberdade é menor. Liberdade, meus senhores e senhoras.


O fascínio pelo MPLA, a outra maneira de falar do fascínio pelo dinheiro
Que Portas, que está vendido a tudo o que pague, se tenha dedicado a assegurar o sucesso do Congresso do partido que governa Angola em ditadura, a gente hoje já o percebeu. Mas a surpresa veio agora do CDS que, apesar dos muitos desmentidos pouco convictos, deu um claro aval à ditadura de José Eduardo dos Santos, o homem dos 99% dos votos. Imagino como devem estar entalados os propagandistas do CDS que pululam pelos blogues de direita e que agora elogiam um partido comunista reciclado, uma elite corrupta até à medula, e que, ainda recentemente, mostrou o que era na perseguição a Luaty e aos seus companheiros. Ainda não perceberam o que são más companhias, mas agora têm uma.

Ascensão e queda da privacidade

(José Pacheco Pereira, in Público, 14/05/2016)

Autor

                   Pacheco Pereira

Demorou mais de 200 anos para uma parte importante da população ocidental conquistar não só um direito à privacidade, como condições para o exercer de facto. Não foi uma conquista generalizada, seguia uma fractura social. Os mais ricos, mas também a classe média e remediada, podiam usufruir de condições de vida que incluíam a intimidade e um módico de privacidade, embora os mais pobres continuassem a ter uma vida promíscua, sem “espaço” para ter privacidade.

De igual modo, a situação não era idêntica nas cidades e no campo, nas cidades e nas aldeias. Este processo acompanha a criação de uma sociedade “burguesa”, centrada nas cidades, com casas e janelas com cortinas, várias divisões e diversificação dessas divisões. Não viviam amontoados, nem com a rua a entrar-lhes em casa. Nas aldeias, a privacidade era muito menor, vivendo as pessoas num espaço pequeno, em que o grau de interacção era muito maior, e em que “todos sabiam tudo sobre todos”. Durkheim estudou este tipo de espaços sociais e os tecidos de vida que implicavam.

Muito do mundo “burguês” nos séculos XIX e XX assentava na privacidade e isso permitiu mais identidade e liberdade. As pessoas podiam escolher mostrar-se ou esconder-se e, romances como a Anna Karenina de Tolstoy, ou Madame Bovary de Flaubert, muitos dos contos de Tchekov e do teatro de Ibsen ou Stindberg, só são possíveis nestes novos espaços protegidos da promiscuidade. As personagens que se movem nesses espaços, tem identidade e liberdade, a começar pela de fazer “asneiras” e para se desviarem do comportamento dominante, podem desenvolver relações diferentes, mesquinhas ou nobres, sem escândalo público e sem sanção social imediata. Amores, paixões, adultérios, abandonos, traições, entraram na literatura no novo espaço da casa “burguesa”.

Com a melhoria das condições de vida de parte considerável da população, aumentou esse espaço privado. Mas, insisto, uma parte ficou e fica de lado, quando se habita em pouco mais de um quarto e uma cama, e se faz tudo no mesmo espaço. É por isso natural que o valor da privacidade estivesse muito associado a quem tinha a possibilidade de a ter. Os pobres têm toda uma outra lista de necessidades antes da privacidade, mas quando uma família sai de uma barraca e vai para um pequeno apartamento num bairro social, é o “espaço” a primeira coisa que refere em entrevista.

Hoje tudo isto está a andar para trás, a privacidade, as suas condições e o seu valor, estão a ser postos seriamente em causa e é preciso ter cada vez mais riqueza e poder para garantir alguma privacidade, débil que seja. O que se está a passar é que duas forças poderosas estão a minar a conquista da privacidade e a ideia de que “ninguém tem nada a ver com o modo como vivo a minha vida”, desde que não cometa crimes.

Essas duas forças são o estado moderno e a sociedade urbana dos nossos dias, num processo que se desenvolve dos mais jovens para os mais velhos. O estado actual, e estou a falar do estado democrático e não totalitário, está cada vez mais a arrogar-se o direito de espiar a vida de todos os cidadãos, a começar por essa parte vital que são as suas comunicações, mas também todos os aspectos da sua vida quotidiana. Há duzentos anos, um inglês não tinha qualquer documento de identificação, podia deslocar-se para onde entendesse, mesmo para países em guerra com o seu, podia fazer do seu dinheiro o que entendesse, sair com ele, entrar com ele, colocá-lo num banco ou num colchão, podia contratar, comprar e vender apenas limitado pelas regras comerciais existentes, podia praticamente fazer tudo que a lei não impedia. Essa forte pulsão anglo-saxónica para considerar que o estado não tem o direito de saber de mais sobre a vida de quem quer que seja e ou controlar os seus cidadãos, ainda não desapareceu, mas está muito erodida.

As escutas sistemáticas feitas por quase todos os grandes países democráticos, com relevo para os EUA, o Reino Unido, de todas as comunicações, insisto de todas as comunicações, muito para além da lei, representam uma ameaça à privacidade sem paralelo no passado. O pretexto é o terrorismo, mas é mau pretexto, porque a maioria dos crimes de terrorismo recentes são particularmente desleixados em matéria clandestina, usam métodos muito pouco sofisticados, e, se não fossem erros clamorosos dos serviços de informação e das polícias e a substituição de técnicas de intelligence, como a chamada humint pela aparente facilidade da espionagem electrónica generalizada, teriam sido detectados.

No caso português, o estado arroga-se, principalmente no fisco, a utilização de processos absolutamente invasivos da privacidade, sem ninguém mexer uma palha, enquanto, como todos sabemos, não vê os offshores que lhe passam à frente. Quem tiver acesso a um portal das finanças e consulte as facturas lá registadas, pode saber tudo sobre a vida de qualquer cidadão, muito para além da luta contra a evasão fiscal. Por que razão mesmo medidas timoratas como as que foram propostas de passar factura sem identificar os produtos, mas apenas a sua categoria para efeitos fiscais (em vez do livro A ou B, a indicação de Produto categoria A), não foram aceites?  O que há hoje no Portugal democrático mais próximo de um estado totalitário é o comportamento da Autoridade Tributária, mas, como a cultura de privacidade nunca foi muito forte entre nós, tudo se consente ao estado em nome de uma suposta eficácia e necessidade.

Se somarmos a isso, todos os devices electrónicos que aceitamos usar quando clicamos na “aceitação das condições” e que implicam a criação de perfis comercializáveis, indicações de localização, por aí adiante, a que se somam as câmaras de vigilância em locais públicos, os contadores electrónicos de consumo que permitem a cada momento saber se está alguém em casa, ou não, a lista é infindável e muito preocupante. Já estivemos mais longe de usar chips no corpo como os cães.

Somemos agora a esta lista, mudanças de mentalidade e de comportamento social, bem patentes nos mais jovens, que não atribuem valor à protecção da sua privacidade e assumem atitudes de exposição de si próprios nas “redes sociais” de que, muitas vezes, mais tarde se vem a arrepender amargamente. Esses comportamentos são incentivados pelas empresas de telecomunicações que somam nos seus aparelhos múltiplos mecanismos, quase sempre desnecessários, para controlar a vida alheia com fins comerciais e outros.

Os jovens são o primeiro mercado e a força impulsionadora. Eles utilizam o telemóvel como instrumento de controlo (como os adultos já fazem sistematicamente) e não de comunicação. “Onde estás?” é a pergunta canónica, que pode agora ser feita 24 horas por dia. Eles “vivem” todo o dia em linha, com mensagens, SMS, telefonemas, entradas no Facebook, colocação de fotografias, numa presentificação da sua vida que vai muito mais longe do que o efeito de “aldeia”. Eles usam os relógios “inteligentes” como se fossem detectores de mentira, através do ritmo cardíaco. Todos passam agora a ser sempre eternamente presentes, e não é difícil saber, como nas aldeias, a vida de cada um.

As alterações de sociabilidade que já existem nas “redes sociais” e no uso de telemóveis, relógios e aplicações “inteligentes”, a que se vira somar a “internet das coisas”, com os seus carros que comunicam trajectos, frigoríficos que encomendam comida, e roupa que consulta o médico se quem a usa tiver febre, anunciam um “mundo novo” muito pouco amável para o valor da privacidade. Com a introdução de devices que actuam sobre o nosso corpo, sobre o sistema nervoso, então aí há um problema sério com enormes repercussões sociais.

Todos estes aparelhos são excelentes quando usados por quem percebe certas fronteiras éticas e de civilização. Mas eles são como as drogas e a manipulação química do nosso corpo. Talvez nos façam mais felizes a curto prazo, mas fazem-nos menos humanos. Bem sei que isso hoje não conta para nada, mas, como nas distopias, quando as máquinas nos atacarem, ver-se-á se fomos ou não longe demais.