Ontem e hoje

(José Faustino, in Facebook, 20/09/2017)

1964_2017

Ano 1964:
Depois de passar 15 dias com a família atrelada numa caravana puxada por um Fiat 600 pela costa de Portugal, ou passar esses 15 dias na praia do Castelo do Queijo, terminam as férias. No dia seguinte vai-se trabalhar e os miúdos para as aulas.

Ano 2017:
Depois de voltar de Cancún de uma viagem com tudo pago, terminam as férias. As pessoas sofrem de distúrbios de sono, depressão, seborreia e caganeira.


Situação:

Ano 1964:
Chega o dia de mudança de horário de Verão para Inverno. :
Não se passa nada.

Ano 2017:
As pessoas sofrem de distúrbios de sono, depressão e caganeira.


Situação: O Pedro está a pensar ir até à mata depois das aulas. Assim que entra no colégio mostra uma navalha ao João, com a qual espera poder cortar uns ramos e fazer uma fisga.

Ano 1964:
O professor vê, pergunta-lhe onde se vendem daquelas navalhas, e mostra-lhe a sua, que é mais antiga, mas que também é boa.

Ano 2017:
A escola é encerrada, chamam a Polícia Judiciária e levam o Pedro para um reformatório. A SIC e a TVI apresentam os telejornais desde a porta da escola.


Situação: O Carlos e o Quim trocam uns socos no fim das aulas.

Ano 1964:
Os companheiros animam a luta, puxam por eles, e o Carlos ganha. Apertam as mãos e acabam por ir juntos jogar matrecos.

Ano 2017:
A escola é encerrada. A SIC proclama o mês anti-violência escolar. O Jornal de Notícias faz uma capa inteira dedicada ao tema, e a TVI insiste em colocar uma equipe de reportagem à porta da escola a apresentar o telejornal, mesmo debaixo de chuva.


Situação: O Jaime não pára quieto nas aulas, interrompe e incomoda os colegas.

Ano 1964:
Mandam o Jaime falar com o Director, e este dá-lhe uma bronca de todo o tamanho. O Jaime volta à aula, senta-se em silêncio e não interrompe mais.

Ano 2017:
Administram ao Jaime umas valentes doses de Ritalin. O Jaime parece um zombie. A escola recebe um apoio financeiro por terem um aluno incapacitado.


Situação: O Luis parte o vidro dum carro do bairro dele. O pai caça um cinto e espeta-lhe umas chicotadas com este.

Ano 1964:
O Luis tem mais cuidado da próxima vez. Cresce normalmente, vai à universidade e converte-se num homem de negócios bem-sucedido.

Ano 2017:
Prendem o pai do Luís por maus-tratos a menores. Sem a figura paterna, o Luís junta-se a um gang de rua. Os psicólogos convencem a sua irmã que o pai abusava dela e metem-no na cadeia para sempre. A mãe do Luís começa a namorar com o psicólogo. O programa da Fátima Lopes mantém durante meses o caso em estudo, bem como o Você na TV do Manuel Luís Goucha.


Situação: O Zezinho cai enquanto praticava atletismo, arranha um joelho. A professora encontra-o sentado na berma da pista a chorar e abraça-o para o consolar.

Ano 1964:
Passado pouco tempo, o Zezinho sente-se melhor e continua a correr.

Ano 2017:
A professora é acusada de perversão de menores e vai para o desemprego. Confronta-se com 3 anos de prisão. O Zezinho passa 5 anos de terapia em terapia. Os seus pais processam a escola por negligência e a professora por trauma emocional, ganhando ambos os processos. A professora, no desemprego e cheia de dívidas, suicida-se atirando-se de um prédio. Ao aterrar, cai em cima de um carro, mas antes ainda parte com o corpo uma varanda. O dono do carro e do apartamento processam os familiares da professora por destruição de propriedade. Ganham. A SIC e a TVI produzem um filme baseado neste caso.


Situação: Um menino branco e um menino negro andam à batatada por um ter chamado ‘chocolate’ ao outro.

Ano 1964:
Depois de uns socos de parte a parte, levantam-se e vai cada um para sua casa. Amanhã são amigos.

Ano 2017:
A TVI envia os seus melhores correspondentes. A SIC prepara uma grande reportagem dessas com investigadores que passaram dias no colégio a averiguar factos. Emitem-se programas documentários sobre jovens problemáticos e ódio racial. A juventude skinhead finge revoltar-se a respeito disto. O governo oferece um apartamento à família do miúdo negro.


Situação: Fazias uma asneira na sala de aula.

Ano 1964:
O professor espetava-te duas valentes lambadas bem merecidas. Ao chegar a casa o teu pai dava-te mais duas porque ‘alguma deves ter feito’

Ano 2017:
Fazes uma asneira. O professor pede-te desculpa. O teu pai pede-te desculpa e compra-te uma Playstation 4.


“Economicamente correcto”? Não, obrigado.

(Sandro Mendonça, in Expresso Diário, 14/09/2017)

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Sandro Mendonça

O vírus do “politicamente correcto” não se vê mas é real. Teve origem na América do Norte há cerca de 3 ou 4 décadas e foi infectando outros países. Os sinais são qualquer coisa como a sensibilidade extrema por parte de uma elite urbana e bem-pensante de que todas as atitudes e a linguagem que ofendam determinados grupos supostamente descriminados devem ser denunciadas e eliminadas. Este filão do “politicamente correcto” veio de uma (à altura) “nova esquerda” que tinha perdido a batalha na arena da economia. Isto é, desistiu da luta de classes (se calhar isso dava muito trabalho!) e agarrou-se à bandeira identitária: isto é, investiu tudo em categorias como “género”, “raça”, “orientação sexual”, etc.

Contudo, o “politicamente correcto” é uma patologia. Mas não é uma patologia gratuita: dá de comer a muita gente. É pau para toda a obra e tornou-se, como se diz hoje em dia, uma “indústria”. Parte do seu problema essencial é a contradição. Por exemplo: 1) o facto é que para uma certa “esquerdinha adocicada” é fácil falar bater no peito em prol de ciganos mas na verdade não quer viver perto deles; 2) certos jornalistas iluminados de um certo diário generalista português exploram o filão o racismo do império português e fazem manchetes contra o racismo em Portugal não hesitando em usar os testemunhos de privilegiados académicos africanos bem conhecidos pelas suas atitudes racistas para com portugueses ou classistas para com os seus concidadãos e em usar a auto-vitimização para esconder manifestas faltas de competência.

Enfim, há algo hipócrita aqui: o “politicamente correcto” é não dizer o que efectivamente se pensa.

Porém, a direita não está imune a manifestações de outras estirpes desta família de vírus moderno. O fenómeno homólogo na direita é o “Economicamente correcto”, isto é, a insistência em medidas que sabe à partida que falham e que ela própria não desejaria de ver aplicadas a si.

Por exemplo, austeridade: a) na realidade não há provas que tenha funcionado para equilibrar as contas públicas em nenhum país em que tenha sido aplicada pois é uma política macroeconómica auto-derrotista, e b) sobretudo a austeridade é para os “outros”, para os assalariados e para o resto da plebe.

Que manifestações de “Economicamente correcto” por cá hoje em dia? Estas:

  • CIP quer baixar o IRC: Deste o início da década de 1990 que a taxa de IRC baixa e isso só tem coincidido com a queda tendencial do crescimento da economia portuguesa. Portanto, nada permite presumir na prática que esta medida seja uma “bala de prata” para dinamizar a produção. Aliás, nem os custos do Estado nem os custos do trabalho são assim tão determinantes para as empresas que mais produzem e exportam…. O problema são os custos intermédios com electricidade, telecomunicações e financiamento. Então o que faz António José Saraiva, Presidente da CIP, quando aparecer a reclamar uma baixa radical de IRC?! É que se ele na sua empresa não admitiria um corte radical de receitas estando a oferecer o mesmo serviço aos clientes mas esquece-se que o Estado também é um agente económico que produz serviços para empresas e famílias. O que esses representantes do patronato perpetram é, portanto, o “politicamente correcto” aplicado à economiazinha.
  • Greve na Autoeuropa é estúpida: A luta na Autoeuropa tornou-se uma polémica. Agita-se o papão do desinvestimento em Portugal…. com instabilidade laboral ninguém vai querer investir cá, dizem! Porém, sabemos como na Inglaterra ou até na Alemanha (pessoal da Lufthansa, levando ao cancelamento de milhares de voos) há greves …. países afinal sempre usados como alegadas fontes emanadoras do “economicamente correcto”. É que, como alguém explicou muito bem, muita gente que anda por aí a dizer isto e aquilo na internet mas afinal nunca desejaria para si ou para os seus filhos trabalhar sempre ao fim de semana pelas condições oferecidas.
  • Junker, o integracionista: Junker num discurso de fuga para a frente acusa a Turquia de se afastar dos valores mas tolera no seio da UE experiências proto-fascistas como na Polónia e na Hungria. Essa é boa, Sr. Junker! A maior crise na Europa é de democracia, como a imposição de uma distribuição assimétrica dos custos da recessão económica bem mostrou…. E para Junker a cura para essa doença é, nada mais nada menos, que menos democracia! É que a sua proposta é um ministro das finanças não eleito para a Europa a mandar nos recursos públicos nacionais contornando os parlamentos eleitos. Tudo em nome da “eficácia”, como ele diz. Essa é muito boa, bravo!
  • Comércio internacional sem transparência e justiça económica é bom: Quase do dia para a noite foi marcada a votação do CETA (Acordo Global, Económico e Comercial entre o Canadá e a União Europeia) na Assembleia da República para 18 e 20 de Setembro. Cada um dos estados-membro da UE tem de proceder à sua votação e ratificação, mas isso arrisca-se em Portugal a suceder sem o mínimo de debate genuíno. Que haja pelo menos uma forte chamada de atenção pois o governo português está demasiado inclinado a fazer passar isto como se nada de mais se tratasse. Dia 18 frente à AR há o evento “24 horas contra o CETA” (ver detalhes aqui)… que seja um alerta pela transparência e justiça económica nos negócios internacionais.

A seta da história, o progresso, a Tina e Trump

Autor

                    Pacheco Pereira

(José Pacheco Pereira, in Público, 12/11/2016)

 

Hoje, a direita está rapidamente a reciclar-se no pró-trumpismo porque lhe agrada a “reversão” de muita legislação social, a proibição do aborto, a vingança contra os media, os intelectuais e a esquerda dos anos 60, que é um dos seus inimigos predilectos.


No debate à volta de Trump há uma contínua recorrência de um argumento que vai de uma interpretação da história para a política e que curiosamente é usado quer à esquerda, quer à direita. Esse argumento pode ser enunciado da seguinte forma simples: “não se pode voltar para trás”, na história há o “velho” e o “novo” e a tentativa de manter o “velho” contra o “novo” é inútil e reaccionária, a história “anda sempre para a frente”. Quando se traduz esse argumento nas várias partes em que é usado, encontramos diversas variantes que vão do pregressismo comteano à esquerda ao “não há alternativa” (Tina) à direita, tendo todos em comum a ideia de que na história há uma seta do tempo que define um “progresso”, e que, a partir dela, se pode definir e classificar determinados eventos como indo no sentido da história e outros não.

É uma ideia já com algumas centenas de anos, mas não mais do que isso. Data do século XVIII e tem sucesso porque é psicologicamente amável, dá-nos a entender que o que fazemos tem sentido, fornece-nos uma teorização do presente que pode ser politicamente instrumental, e introduz uma pretensão de “ciência”, onde não há ciência nenhuma. A única seta do tempo que conheço existe na física e é a da segunda lei da termodinâmica, que explica a entropia, bem pouco amável para os humanos, porque mostra a inevitabilidade da morte, da usura das coisas, e é uma teoria mais de perda do que ganho. Na história não conheço seta nenhuma, nem o passado é repetível, nem o futuro é previsível, a única parte da história que é vivível é o presente, ou seja, a parte que não é história.

É interessante verificar como a eleição de Trump nas suas interpretações é vista à luz desta teoria da história. Nesse sentido, repetem-se muitos argumentos do “Brexit”, muita discussão sobre a globalização, muita da transposição social e política daquilo que se entendem ser os efeitos das novas tecnologias, muito do deslumbramento psicológico com as “redes sociais”, os “mundos virtuais”, etc., etc. Ainda recentemente o seu papel no debate político foi evidente na discussão da Uber e da “uberificação” da sociedade, do trabalho, dos direitos sociais, mesmo da democracia. Embora isto fique para outra discussão, tenho para mim que esta interpretação dos eventos “velhos” e “novos” é pouco compatível com a democracia, desvaloriza o presente em nome ou de um passado mítico ou de um futuro hipotético, e dá origem a uma curiosa amálgama de teorias teleológicas da história como o marxismo, com a “inevitabilidade” da economia de modelo singapuriano, assente em várias interpretações neomalthusianas e na ideia de que existe uma “realidade” inescapável.

Se há matéria em que esta teoria da história não resiste a uma análise dos factos, é exactamente no domínio dos movimentos sociais e políticos em que “novos” e “velhos” elementos se misturam e há tanto de subversivo, ou, se quiserem outra palavra, crítico, na defesa do “velho”, como há de reaccionário na defesa do “novo”. Nos movimentos sociais e políticos tanto há ludismo como vanguardismo e os resultados da acção e da luta social de uns ou de outros podem dar aos homens concretos melhores condições de vida, ou seja, o único objectivo democrático do “bem comum”. Muitas vezes é na resistência ao “novo” que “se progride”, mais do que na aceitação acrítica de tudo o que vem com esse rótulo. Outras vezes, não.

Para nos mostrar que as coisas na história concreta não são assim tão simples basta lembrar-nos do sucesso de instituições consideradas caducas, velhas e ultrapassáveis, a começar pela monarquia nos países europeus, que muita gente dava como extinta ou em extinção há dezenas de anos. Ou na mais improvável aliança como a que fizeram grupos de activistas LGBT com um dos mais “arcaicos” sindicatos ingleses, o dos mineiros, na luta contra Thatcher. Ou, ainda mais significativo nos dias de hoje, a contínua resistência operária contra a introdução do “científico” sistema Taylor nas fábricas, retratada nos Tempos Modernos de Charlot. “Modernos”, tão modernos, que entusiasmaram o senhor Ford e Lenine e Estaline.

O anátema do “velho” é hoje um instrumento do conflito social usado como classificação para homens como Jeremy Corbin ou Bernie Sanders que são o “velho Labour” ou o “velho socialismo dos anos 60”, para os jornais em papel que estão caducos, porque ler em papel está “ultrapassado” por “ler” nos telemóveis, para justificar a desregulação, a Uber, o fim da privacidade, o trabalho precário, tudo aquilo a que nos temos de “habituar”, porque é o “mundo novo” que as “novas” tecnologias e globalização trazem inevitavelmente, tornando “ultrapassado” as soberanias, o proteccionismo, as nações, e por aí adiante. Não estou a misturar coisas não misturáveis, bem pelo contrário, estou a uni-las exactamente pelo modo como elas são usadas no debate político. Veja-se, por exemplo, os argumentos contra o “Brexit” ou Trump, tal como são usados por este novo internacionalismo europeu, que aceita o TTIP e o CETA, mas mete os seus refugiados em várias “selvas”.

Na verdade, aquilo a que Trotsky chamava com desprezo o “caixote do lixo da história”, uma típica frase desta maneira de pensar, é capaz de conter mais “novidades” esfuziantes do que “velhas” sobrevivências e como se vê o “lixo” mexe-se. Foi do “caixote do lixo da história” que se levantaram muitos milhões de eleitores de Trump, dos campos ignorados pela nossa ideia da América, das cidades industriais póstumas, de uma coorte de pessoas a quem a crise financeira tirou as casas e os rendimentos e as fez passar de uma vida que lhes parecia mais digna para outra muito menos digna. Não adianta ver apenas as estatísticas do emprego, ou as melhorias da Administração Obama – tem de se ver como estas pessoas foram colocadas em guetos reais e virtuais e se sentiram desapossados do poder por “eles”. O mundo deles era “velho” disseram-nos, queriam fábricas e indústrias “ultrapassadas”, explicaram-nos como os sindicatos “resistiam” ao “progresso” em nome das suas corporações reaccionárias, todos os dias nos dizem como as mais importantes decisões devem ser tomadas in camera (típico argumento dos dias de hoje na União Europeia), e depois surpreendem-se que, órfãos de representação, se voltem para quem lhes aparece à frente e lhes dá inimigos reais e imaginários, Washington e os emigrantes, duma mesma assentada.

Trump foi atacado à esquerda e à direita na Europa. A esquerda mais radical não o queria ver nem pintado pelo seu desprezo por muitas das causas “fracturantes” que substituíram nessa esquerda as causas sociais do “passado”; e noutra parte da esquerda, como aconteceu com muitos partidos sociais-democratas e socialistas, há demasiados compromissos com a agenda económica e financeira dos grandes interesses que capturaram há muito o sistema político. Hillary Clinton era por isso a sua candidata, com aquela carreira de conúbio que a fez a candidata de Wall Street e dos “mercados”.

A direita queria pôr-se a milhas daquilo que percebia ser o lado revolucionário e anticonservador de muito do que Trump dizia. Andou a lavar as mãos de Trump durante meses, tomava como um insulto qualquer associação a Trump, comportava-se como o Partido Republicano nos EUA. Hoje, a direita está rapidamente a reciclar-se no pró-trumpismo porque lhe agrada a “reversão” de muita legislação social, a proibição do aborto, a vingança contra os media, os intelectuais e a esquerda dos anos 60, que é um dos seus inimigos predilectos, mas acima de tudo agrada-lhe, mesmo que o não diga, o pendor claramente autoritário de Trump. Basta ver a evolução do conteúdo dos artigos portugueses no Observador, o farol da nossa direita, para se perceber a rápida adesão a Trump.

A vontade de mudar, o elemento mais decisivo nestas eleições, foi parar às piores das mãos, mas foram as únicas que lhes apareceram. Quando Bernie Sanders, outro “antiquado”, cuja candidatura “falava” para estas mesmas pessoas, foi afastado – conhece-se hoje o papel de um conjunto de manobras dos amigos de Hillary Clinton no Partido Democrático –, ficou apenas Trump. E, como já disse, não tenho a mínima simpatia por Trump, a mínima. Mas tenho uma imensa simpatia pela vontade de mudar, que tanta falta faz nos dias de hoje nas democracias esgotadas na América e na Europa.