Side-by-side illustration of a human brain and an electronic circuit board connected in the center

Um professor universitário suspeitou da utilização de IA num teste e decidiu contra-atacar

(Susan Svrluga, in Público, 16/07/2026)

Side-by-side illustration of a human brain and an electronic circuit board connected in the center

(Publico estes dois textos pela sua atualidade. Uma revelação dos perigos e armadilhas do mundo que estamos a criar, com a introdução da IA a subjugar a racionalidade humana.

Estátua de Sal, 18/07/2026)


Um professor da Universidade Brown suspeitou que os alunos recorreram à IA após um exame feito em casa ter notas muito acima do habitual.


Roberto Serrano ficou chocado quando viu os resultados do exame intermédio da sua disciplina de economia matemática avançada na Universidade Brown no semestre passado: a média foi de 96, quando, no passado, tinha variado entre os 60 e os 80. Quase metade dos estudantes este ano obteve uma pontuação perfeita de 100.

Quando Serrano e os seus assistentes puseram um grande modelo de linguagem, o ChatGPT, a fazer o exame, este apresentou um processo estranho e rebuscado para resolver um dos problemas, em vez de uma demonstração directa e simples. O mesmo aconteceu com muitos estudantes.

Roberto Serrano decidiu, depois do tiroteio mortal na universidade em Dezembro, permitir que os alunos fizessem a prova em casa pela primeira vez. E acabou por descobrir que estes resultados já não podem ser considerados fiáveis para medir a aprendizagem dos estudantes, mesmo numa universidade de elite, da chamada Ivy League, as mais respeitadas dos Estados Unidos.

“Penso que é basicamente impossível”, disse Serrano, “encontrar uma explicação alternativa que explique os dados para além de terem copiado em massa.”

Os resultados da disciplina de Serrano mostram que o ensino superior continua a debater-se com uma questão muito básica: à medida que os alunos se tornam melhores a utilizar inteligência artificial, como podem os docentes garantir que os estudantes estão realmente a aprender?

Quando o ChatGPT foi lançado, em 2022, alguns educadores recearam que os estudantes o utilizassem para fazer batota, mas outros acharam que os grandes modelos de linguagem (LLMs, do inglês Large Language Models) não conseguiam escrever ensaios convincentes nem resolver problemas matemáticos difíceis. Agora conseguem.

E novos dispositivos estão a tornar mais difícil avaliar os estudantes. Existem calculadoras de aspecto inocente com câmaras e IA generativa. (“Fotografa. Resolve. Feito.” é o slogan de um desses dispositivos.) Óculos com câmaras e IA incorporadas podem fornecer respostas durante os testes sem que os professores façam a mínima ideia de que isso está a acontecer.

“A realidade é que os estudantes vão utilizar IA, quer os professores saibam disso ou não”, diz Laurent Lessard, professor associado de engenharia mecânica e industrial na Universidade Northeastern. Lessard, que fez parte de um grupo de trabalho sobre IA — algo que muitas universidades têm —, defende que a tecnologia está a evoluir tão depressa que os professores têm de se adaptar rapidamente ou deixarão de compreender as suas capacidades e a forma como os estudantes a utilizam.

Lessard diz que a IA conseguiria completar uma cadeira universitária semestral em cerca de duas horas.

De muitas formas, as universidades estão a adoptar a IA, com investigadores a utilizá-la para potenciar o seu trabalho em algumas áreas, docentes a desenvolver aplicações de tutoria para ajudar os estudantes a lidar com problemas difíceis, e responsáveis universitários a criar disciplinas e cursos relacionados com IA para preparar os estudantes para um mercado de trabalho em rápida mudança.

Mas o problema mantém-se: para os estudantes que sabem que podem conseguir uma nota melhor se utilizarem um LLM e que sabem que irão competir por empregos e admissões com colegas que o utilizam, o incentivo para recorrer a uma ferramenta tão rápida e fácil pode ser muito forte, diz Lessard; é por isso que tantos docentes estão a tentar repensar a forma como ensinam, como avaliam e o que classificam.

Algumas universidades estão a recuperar, ou a ponderar recuperar, práticas tradicionais, como os exames supervisionados e os exames orais. As universidades de Stanford e Princeton começaram este ano a permitir e, no caso de Princeton, a exigir exames monitorizados por software, apesar dos seus códigos de honra.

A Faculdade de Direito da Universidade de Chicago está a testar a proibição de dispositivos nas salas de aula das disciplinas obrigatórias do primeiro ano. E alguns professores deixaram de atribuir, ou de classificar, trabalhos de casa; passaram a dar mais importância ao processo de aprendizagem do que ao produto final; e aumentaram o tempo dedicado às discussões presenciais.

A maioria dos adolescentes, 59%, considera que utilizar IA para copiar é uma ocorrência normal na sua escola, de acordo com um relatório de Fevereiro do Pew Research Center. Especialistas afirmam que a utilização de IA entre estudantes universitários é generalizada.

Na Universidade Brown, uma comissão que estudou a utilização da IA durante grande parte deste ano lectivo divulgou, na semana passada, um relatório que recomendava várias alterações, incluindo a revisão dos regulamentos académicos para garantir que a integridade académica continua a ser um princípio fundamental.

A universidade está a investigar o que aconteceu na disciplina de Serrano. “Brown trata todas as alegações de integridade académica com a máxima seriedade”, afirmou Brian Clark, porta-voz da universidade.

Serrano, professor de economia, sabe que aprender pode ser uma luta: aos 17 anos, enquanto crescia em Madrid, começou a perder a visão. Chegou a ponderar não continuar os estudos. Em vez disso, aprendeu a usar uma bengala e a ler Braille. Na universidade, o pai ajudava-o a reconstituir os apontamentos que tinha rabiscado nas aulas para que Serrano os pudesse transcrever para Braille. Depois de concluir o doutoramento na Universidade de Harvard, começou a leccionar na Brown.

Muitas pessoas enfrentam circunstâncias muito mais difíceis, considera, mas “isso deu-me claramente a ideia de que aprender e ter sucesso não acontecem sem esforço”.

Serrano ficou surpreendido quando 86 estudantes se inscreveram na sua disciplina este ano, cerca de três vezes mais do que o número habitual. Agora pergunta-se se isso aconteceu porque o programa da disciplina deixava claro que o exame intermédio e o exame final seriam realizados em casa.

Após o exame intermédio, Serrano disse à turma que parecia ter havido fraude generalizada, apesar de os estudantes terem assinado uma declaração de integridade académica ao realizarem a prova. A resposta foi o silêncio, conta.

Também lhes disse que lhes daria uma oportunidade para lhe provarem que estava errado. Depois de alterar o exame final para uma prova presencial de três horas, 27 estudantes desistiram da disciplina. Vinte e dois deles tinham obtido uma pontuação perfeita de 100 no exame intermédio.

A média do exame final foi de 48,6.

Perante os resultados, disse à turma que anulava o exame intermédio. E perguntou-lhes, se optaram por utilizar IA num exame: “Porque estão aqui? Porque estão a frequentar uma universidade?”

A boa notícia, diz Serrano, foi que continuou a ter um grupo muito forte de estudantes que demonstrou um bom domínio da matéria no exame final. A nota mais alta no exame final foi 95. Esse estudante também tinha obtido 95 no exame intermédio.

Depois de contar a sua história ao jornal El País, recebeu mensagens de centenas de pessoas, de todo o tipo de escolas, a maioria confirmando a sua convicção de que a preocupação com a IA na sala de aula é generalizada. Sempre existiu fraude no meio académico, e as novas tecnologias trouxeram frequentemente novos desafios.

Mas a IA, nas suas várias formas, surgiu tão subitamente — como um tsunami, disse ele — que apanhou os educadores desprevenidos, não apenas para impedir a batota, mas também para avaliar se os estudantes estão realmente a aprender.

Agora estão a responder, diz. “Com pessoas suficientes a pensar sobre isto, acabaremos todos por encontrar soluções melhores.”

Um exclusivo PÚBLICO/Washington Post

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Consegue distinguir uma canção feita por IA de uma criada por humanos

(Pedro Rios, in Público, 16/07/2026)

Foi há apenas três anos: Heart on my sleeve dava-nos um dueto entre Drake e The Weeknd. Duas megaestrelas juntas, um acontecimento pop. Acontece que nem Drake nem The Weeknd andavam realmente por ali: a façanha fora concebida com ajuda da inteligência artificial (IA). Foi uma das primeiras demonstrações de grande impacto público do poder da IA na geração de música. Nos meses e anos seguintes, tivemos, por exemplo, folk-rock impecavelmente sintetizado, sem qualquer guitarra real, tudo simulado, emulado, congeminado pela IA — eram os Velvet Sundown, talvez já não se lembre deles.

Agora, a indústria da música alia-se à indústria da IA à qual em tempos mostrou os dentes: há notícias de contratos milionários com designers de música feita com IA e com serviços de geração de música, como o popular Suno.

“Esta é, sem dúvida, uma das transformações mais rápidas que a indústria da música alguma vez viveu”, diz Kristin Robinson, jornalista da Billboard que tem acompanhado o tema. “Também acho que é uma transformação com mais consequências do que outras que já vimos.”

Daniel Dias (texto) e Gabriela Pedro (ilustração e infografia) radiografaram esta revolução em curso. E fizeram perguntas. A música gerada por inteligência artificial está em todo o lado. Como lidar com ela num meio que já era precário para os artistas? A que soará a música do futuro? Que ouvintes seremos nós?

“Muitas pessoas dizem que não querem ouvir nada que tenha sido conspurcado por IA”, diz ao Ípsilon a artista de carne e osso Holly Herndon. “Mas a rádio já está, hoje, cheia de música que é gerada artificialmente e depois regravada. Vai ser muito difícil diferenciar entre o que foi e o que não foi tocado por IA.” Um estudo indica que 97% dos ouvintes não conseguem perceber as diferenças.

“A diferença que tenho visto nestes últimos anos é inacreditável. Hoje olho para o Royal e é outra companhia. Toda a diversidade só a beneficiou. Quando estamos num ambiente muito igual, tudo parece sempre o mesmo. Quando são introduzidos novos corpos, ideias e energias, o ballet renova-se”, diz Marcelino Sambé, português, negro, bailarino principal do prestigiadíssimo Royal Ballet de Londres. Volta a Portugal para dançar num programa em Seteais que junta experiência e futuro. 

Do Irão ao Sudão, da Argélia a França, os filmes no programa do Curtas Vila do Conde falam com o mundo. Desta sexta-feira até ao dia 26, a 34.º edição do festival celebra o cinema em toda a sua variedade. Uma das vertentes da programação, sob o signo do cineasta iraniano Mohammad Rasoulof, que estará no festival, fala de resistência e espaço. 

O Canto das Árvores Esquecidas é “uma obra ardente, revoltada contra as inevitabilidades da sociedade de onde emana, fogosa e franca na exposição da infância, dores e culpa, e intimidade”, elogia Vasco Câmara.​ “Provavelmente não farei filmes tão bons como os clássicos indianos, mas farei sempre third world cinema, com as coisas que experimentei”, disse-lhe a realizadora Anuparna Roy.

Em O Cume, um dos momentos altos da recta final do Festival de Almada, Christoph Marthaler desmonta com “o seu prodigioso sentido do absurdo a coreografia e a cacofonia dos retiros onde as elites decidem a vida dos demais. Uma alegoria enigmática — mas urgente”, escreve Inês Nadais, que conversou com o encenador suíço. Já Gonçalo Frota falou com Christian Benedetti sobre a sua Gaivota — na qual os velhos querem matar os novos.

Nascida em Coimbra há 30 anos, a Lux Records revelou-nos Belle Chase Hotel, Legendary Tigerman, Sean Riley & The Slowriders e outros nomes essenciais da música portuguesa. Não há segredos: laços de proximidade e acção independente. Mário Lopes esteve à conversa com Rui Ferreira, o faz-tudo da Lux.


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O fantasma do comunismo apanha sustos da realidade

(António Rodrigues, in Público, 10/07/2026)

Shattered monument showing three women with 'Harmony & Aspiration' and crumbled buildings with signs reading 'City Grit' and 'Revelation'

Um monumento despedaçado, intitulado “Harmonia e Aspiração”, revela a realidade crua da cidade além dele. Imagem gerada por IA.

O comunismo é muito fácil de vender. Destrói tudo, mas é muito fácil. E vou ser sincero, eu acho que seria o maior comunista da história”, Donald Trump, Presidente dos EUA.


A “ameaça mortal”

Nos seus dois discursos a propósito dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, assinalados a 4 de Julho, o Presidente norte-americano agitou o espantalho da ameaça comunista (“ameaça mortal para a liberdade americana”) como se, de repente, o país tivesse voltado para os anos 1950, em plena Guerra Fria.

Encurralado pelos seus erros políticos, tanto internos como externos, e com um nível de popularidade muito baixo (a última taxa de aprovação da revista The Economist, na terça-feira, ficava-se pelos 36%, contra 59% de desaprovação), sem trunfos para apresentar com vista às eleições intercalares de Novembro, Trump “recorreu a um dos mais antigos chavões da direita: acusar os Democratas (sobretudo uma nova geração de políticos democratas, jovens, dinâmicos e em ascensão) de serem comunistas”, escreve no Guardian Robert Reich, antigo secretário do Trabalho norte-americano.

“A ideia de o comunismo ser uma ameaça real aos EUA é tão presente quanto a de que os marcianos poderão desembarcar e invadir o Texas”, afirmou ironicamente Guillaume Lavoie, especialista canadiano em história, sociedade e instituições norte-americanas. “O que temos aqui é Trump a tentar encontrar uma nova forma de mobilizar a sua base”, acrescentou, em entrevista ao canal de televisão do Quebeque LCN.

Um desses “comunistas” ameaçadores (e o principal), o presidente da Câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, num discurso a propósito dos mesmos 250 anos dos EUA, lembrou que Nova Iorque é “uma cidade de contradições numa nação de contradições”. Sentado na secretária de George Washington e flanqueado por cidadãos norte-americanos acabados de naturalizar, Mamdani lembrou que o “país mais rico na história do mundo” é o mesmo onde “as crianças dormem com fome e o primeiro bilionário da história tem fome de mais”.

O melhor da Europa

Eleito o melhor presidente de câmara da Europa em 2021, Philippe Rio foi reeleito com uma larga maioria, em Março, nas últimas municipais francesas, apesar de estar há 14 anos à frente de Grigny, a cidade mais pobre de França (50% de jovens, 50% de desempregados), nos arredores a sul de Paris, onde a falta de trabalho é tanta como a desconfiança em relação às instituições e aos políticos.

Nesse ano, Grigny concorria com outras 32 cidades, entre elas estavam as norte-americanas Washington e Milwaukee, mas o trabalho efectuado pela gestão de Philippe Rio, nesse bocado de hexágono que muitos em França classificam como zona a evitar a todo o custo, valeu-lhe a distinção, dividida com Ahmed Aboutaleb, presidente da câmara de Roterdão.

“França tem muitos multimilionários, mas Paris também tem bolsas de grande pobreza e de segregação social espacial”, dizia Rio há cinco anos, em entrevista à revista Jacobin. Grigny, o departamento 91 das matrículas dos automóveis, não se tornou um paraíso nestes anos, mas, em Fevereiro, o presidente da câmara garantia, em entrevista à AEF Info, que conseguiram mudar a narrativa. “Passámos de uma cidade com problemas para uma cidade com desafios. Isto aplica-se ao urbanismo, à educação e também à área social. Estamos a enfrentar estas três frentes em simultâneo, o que significa que todos fazem parte deste projecto.”

No mês passado, Pharrell Williams aterrou em França para gravar um vídeo com Angélique Kidjo e o rapper Quavo em Grigny. Mais propriamente nessa utopia urbana do arquitecto Émile Aillaud, chamada Grande Borne, a vasta cidade social de 3685 fogos edificada entre 1967 e 1971 nos territórios comuns de Grigny e Viry-Châtillon. O realizador procurava um cenário “autêntico” e quis filmar com as gentes dali. Uma logística de loucos que se tornou algo “mágico”, afirma ao Parisien Christian “Grice”, do site de comunicação urbana que leva o seu nome. “Importa ainda sublinhar que tudo decorreu com calma. Um evento como este contribui para melhorar a imagem de Grigny.”

Prefeito comunista

Eleito como vice-prefeito de João Campos em 2024, Victor Marques, engenheiro civil de 31 anos, é desde 2 de Abril o prefeito da cidade do Recife (os cem dias no cargo completam-se no domingo) que, com 1,5 milhões de habitantes, é a nona maior do Brasil. Campos renunciou ao cargo para ser candidato a governador de Pernambuco nas eleições de 4 de Outubro e deixou o município nas mãos de um membro do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Em tempos de grandes divisões no Brasil, Marques assumiu o cargo com vontade de dialogar, à esquerda e à direita, ao ponto de ter sido elogiado pelo vereador da oposição Felipe Alecrim, eleito pelo partido Novo (direita). “Victor Marques parece ser alguém mais centrado na gestão e tem construído um diálogo mais amplo com a Câmara Municipal”, disse à Folha de Pernambuco.

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“Longe dos embates políticos e das polémicas, o prefeito tem concentrado esforços na entrega de obras e na execução de programas”, escreve o jornalista Américo Rodrigo, no blog Cenário, a propósito destes três meses de Victor Marques à frente da prefeitura. “Num ambiente político marcado pela polarização e pelo excesso de exposição, o estilo reservado de Victor Marques acaba se transformando num activo que pode contribuir para consolidar a sua liderança à frente da Prefeitura do Recife.”

Roberta Jungmann, colunista social do quase centenário Jornal do Commercio, insuspeita propagandista de ideais revolucionários, escrevia na passada sexta-feira que Marques “tem futuro político” e augurou-lhe voos mais altos que o da prefeitura. Jovem e dinâmico, “mostrou-se um grande líder e muito preparado para governar o Recife”.

Cidade vermelha de Graz

Há cinco anos, a vitória do Partido Comunista da Áustria (KPÖ, na sigla em alemão) nas eleições municipais na cidade de Graz, a segunda maior do país, apanhou toda a gente de surpresa. Depois de 18 anos ininterruptos do Partido Popular Austríaco, de direita, os eleitores entregavam a gestão da cidade aos comunistas pela primeira vez na sua história.

Muitos analistas trataram essa vitória como resultado de um voto de protesto, pois dificilmente um partido com menos de 1% dos votos a nível federal repetiria a façanha. No final de Junho, os eleitores de Graz responderam aos analistas com um reforço da votação nos comunistas. Não só o KPÖ voltou a ganhar as eleições, como Elke Kahr, a primeira mulher a governar Graz, e que em 2023 foi considerada a melhor presidente de câmara do mundo, aumentou a sua percentagem de votos de 28,8% para 35,7%.

“Nos Estados Unidos, o comunismo é habitualmente tratado como papão herdado da História ou como sonho impossível”, escreve o escritor e activista norte-americano Max Micallef no site Medium. “Graz mostra que o comunismo não conquista as pessoas apenas com palavras de ordem abstractas. Conquista-as quando assenta nas necessidades materiais, como a habitação, o endividamento, as rendas, os salários, os serviços públicos, os transportes e a dignidade. Conquista-as quando os políticos não vivem desligados da classe trabalhadora, mas convivem com as pessoas, atendem as suas chamadas e constroem uma relação de confiança ao longo dos anos.”

No site do partido, Elke Kahr deixou uma mensagem: “Numa época marcada por múltiplas crises, foi possível alcançar muito por Graz, com resultados que perdurarão por muitos anos. Para mim e para os meus colegas do executivo municipal, Manfred Eber e Robert Krotzer, foi sempre fundamental que a política estivesse ao serviço do bem comum e da coesão social. Foi assim que interpretei o mandato que os eleitores nos confiaram há cinco anos e essa continuará a ser a nossa orientação de fundo e o princípio que guiará a acção política do KPÖ nos próximos anos.”

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Outra Esquerda e outra Direita

(Joseph Praetorius, in Facebook, 19/01/2025)

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A ponderação da evolução política alemã, não dispensa a análise das presenças de Sahra Wagenknecht e Alice Weidel.

A primeira, oferece um percurso consistente desde a sua militância comunista na Alemanha Oriental, tendo seguido todas as transformações do partido, até à rutura, consumada com a fundação do seu próprio partido, agora com a singularidade de trazer o seu nome.

Admiro-lhe a beleza, a elegância, a discrição e a consistência intelectual. Com o doutoramento em Ciências Políticas (o doutoramento na Alemanha não é raro desde Lutero) ela vem formular posições de austeridade severa relativamente à guerra da Ucrânia, aos refugiados e aos imigrantes. Tolera mal os desafios políticos e sociais do Islão dentro das fronteiras, sustentados em minorias de imigrantes. E defende a retoma das relações económicas com a Rússia, como qualquer pessoa sensata. Bate-se pela uniformização das retribuições mínimas do trabalho na União Europeia com um salário mínimo comum a toda a União de 14 euros por hora.

Isto, evidentemente e entre nós, deixará sem um pingo de sangue os homens da CIP e da CAP. Ora, organizem-se por modo a encontrar soluções de rentabilidade além do trabalho que ultrapassa a escravatura em violência e desprezo, designado pelo eufemismo de “mão de obra barata”, quer dizer, gente que trabalha e não tem dinheiro para se alojar com decência, para se alimentar normalmente e para sustentar os filhos. Nem na escravatura estavam em causa o alojamento, a comida e o vestuário. (Escravo era património que não devia desvalorizar-se). Sahra Wagenknecht tem razão. Estas situações são a negação do projeto europeu e a confissão da sua hipocrisia e do seu fiasco. Salário mínimo de 14 euros por hora, em todo o território da União. Como recusar?

Deve-se-lhe, portanto, a salvação da esquerda. Os sistemas políticos europeus não  podem passar sem uma esquerda vigorosa e consistente, lavada das ficções da “terceira via”. A “terceira via” vai remetida a lugar onde melhor caiba. E tenho uma ideia de qual seja, mas não digo.

Recordo Sahra Wagenknecht a deixar constrangida outra antiga militante comunista da Alemanha Oriental, a quem desancava frequentemente com oratória parlamentar certeira e sulfurosa -Ângela Merkel.

No outro lado do leque político, Alice Weidel da AfD é outra figura interessante, por motivos diversos. Fez doutoramento em Economia e pretende também a recuperação dos fornecimentos russos de energia, como o pretenderá quem quer que não seja lunático. 

Também mantém uma perspetiva severíssima relativamente à imigração e é alérgica aos imigrantes islâmicos de quem recorda que a inibiam na adolescência, pelo insulto soez, nas piscinas públicas. Quer aquela corja dali para fora e pode bem dar-se o caso de não ser meiga, se atingir a possibilidade de o decidir. A guerra na Ucrânia é para acabar e já, devendo cessar imediatamente as subvenções alemãs à clique de Kiev. Evidentemente. Há mais que fazer ao dinheiro, cada vez mais escasso.

No plano pessoal, o conservadorismo é de novo tipo. É mãe de dois filhos. E lésbica, vivendo com uma produtora de cinema com ascendência no Ceilão. As posições quanto aos imigrantes não têm portanto substracto racista. É inútil tentarem esse enquadramento.

Ainda no plano pessoal, amadureceu profissionalmente na Goldman Sachs. Isso, evidentemente, não tranquiliza ninguém, sabendo como sabemos que aquilo visa infiltrar os centros de decisão europeus. O apoio de Musk também inquieta (como não?) mas tranquiliza, por outro lado. É mais difícil, agora, manterem-se as fantasias que vão da dissolução da AfD até quaisquer batotas, avulsas ou sistemáticas, no registo e contagem de votos.

Não, os 20% de Weidel nas intenções de voto, erguem-se como uma ameaça letal ao SPD e ao CSU/CDU para quem a morte política não é imerecida.

A China não antipatizará com ela, embora a olhe em silêncio. Será dos raros dirigentes políticos europeus a falar mandarim e viveu na China – não sendo possível viver na China, sem nutrir a maior admiração por aquela terra, pela delicadeza quotidiana daquela gente e pelos níveis assombrosos de desenvolvimento atingidos.

A impostura dos “partidos cristãos” vai pois perder radicalmente a relevância até agora mantida. É uma bênção de Deus. Não há dúvida.

Mas ao lado, há as cedências parvas às conveniências de momento, onde Weidel corre riscos de perder mais do que ganha: dizer que Hitler era comunista é completa idiotice. Completamente escusada. O disparate talvez tenha a utilidade de reforçar Sahra Wagenknecht, a quem não podem imputar-se tolices.

Estas duas senhoras são já e serão por algum tempo figuras de peso notório na vida política alemã. Tal traduz já um primeiro objetivo de importância fundamental: outra esquerda e outra direita. E isso é, em si mesmo, um êxito e um alívio.