A traição do projeto europeu

(Hugo Dionísio, in S. C. F., 18/06/2026, Revisão da Estátua)


Como a deriva belicista subverte o direito comunitário e enriquece o complexo militar-industrial norte-americano.


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O problema da União Europeia não passa somente por um desfasamento total entre o que representa e o significado semiótico da sua própria designação – “união” –, como o facto de utilizar e almejar a inconsistente imagem de “união” que nos surge na media corporativa e nos discursos dos seus dirigentes, basear-se apenas e tão só no fomento de que a Federação Russa é um inimigo vital, em torno do qual toda a estratégia territorial, militar, industrial e comunicacional, deve assentar. Quando observamos o assédio da UE a um país asiático como a Arménia, especialmente depois de rejeitada a Turquia, como podemos não constatar que, hoje, a União Europeia baseia toda a sua existência neste logro, que tenta alimentar comportando-se como uma extensão da NATO e, logo, dos EUA?

O desfasamento é tal que, um dos mais importantes ideólogos da construção europeia, de seu nome Robert Schuman, acreditou que tal construção se faria pela fusão dos interesses económicos, ao invés da força das armas, como haviam tentado Hitler, Napoleão e tantos outros antes deles, e que essa fusão de interesses económicos conduziria à paz. Partindo de tal concepção, Schuman idealizou que as matérias-primas fundamentais, de então, como o carvão e o aço, deveriam ser colocadas sob uma autoridade europeia e supranacional comum, tornando “materialmente impossível” a guerra entre França e Alemanha. Para os construtores e ideólogos da construção europeia, o carvão e o aço tinham o mesmo papel que hoje a energia e os minerais críticos, algo que tornou possível a coexistência entre a Europa ocidental e a União Soviética ou a Federação Russa.

O projeto europeu nasceu, portanto, e pelo menos na Teoria, como um projeto de desarmamento e de troca da força das armas, pela força económica daqueles que eram, à data, alguns dos países economicamente mais desenvolvidos do mundo.

Setenta e seis anos depois, a União Europeia tornou-se capaz de gastar 90 mil milhões de euros em empréstimos, para financiar um país em guerra, de criar um Fundo Europeu de Defesa, lançar o plano “ReArm Europe” e aprovar instrumentos como o EDIRPA, o ASAP e o EDIP – todos destinados a transformar o orçamento comunitário num motor de produção de armamento. A pergunta que se impõe vai para além da conformidade de tais políticas para com os desígnios iniciais do projeto – usar o poder da economia como arma de construção da paz –, mas também, se tais mecanismos cumprem, ao menos, para com a própria legislação europeia. Será que ainda existe “União Europeia”?

O n.º 2 do artigo 41.º do Tratado da União Europeia é muito claro: “As despesas operacionais (…) ficarão igualmente a cargo do orçamento da União, com excepção das despesas decorrentes de operações que tenham implicações no domínio militar ou da defesa e nos casos em que o Conselho, deliberando por unanimidade, decida em contrário”. Esta redacção não é de modo nenhum ambígua, visando duas coisas muito importantes: 1. Manter a UE e as suas instituições afastadas, operacionalmente, das coisas da Guerra; e, 2. Impedir que a União Europeia financie despesas militares. Ler este artigo hoje parece estarmos perante uma anedota e diz-nos o quão longe tem sido a traição dos “princípios e valores” que tanto apregoam Von der Leyen e Kaja Kallas. Quanto mais os apregoam, mais deles se afastam.

O TFUE é muito claro a este respeito, na alínea d) do seu artigo 32.º diz que “a Comissão orientar-se-á pela necessidade de evitar perturbações graves na vida económica dos Estados-Membros e de assegurar o desenvolvimento racional da produção e a expansão do consumo na Comunidade”. Gostava de saber onde ficou esta norma na decisão de acabar com o consumo de gás russo, aplicar 21 (?!?!) pacotes de sanções e prescindir de todos os factores de produção garantidos pela Federação Russa, com base em argumentos – de ofensa a outros Estados – que não encontram o mesmo tipo de resposta em casos mais graves como os dos EUA e Israel.

É inequívoco que a Comissão Europeia contorna constantemente a proibição que diz respeito às restrições quanto à sua interferência em matéria de política de segurança e assuntos militares, recorrendo amiúde à criatividade malandra, perpetrada por todo um gabinete jurídico que, tal como a Guerra, também nos custa milhões. Tornando-se o que nunca poderia vir a ser, a Comissão Europeia dedica o seu tempo a encontrar formas de violar os tratados que jurou defender, provocando, com as suas acções – em representação dos interesses inconfessáveis que a dominam –, precisamente o contrário do que prevê a legislação a que teria de se submeter.

Por exemplo, no caso dos empréstimos à Ucrânia (90 mil milhões) invoca-se o artigo 122.º do TFUE – a cláusula de “dificuldades excepcionais” – como se a geopolítica fosse uma catástrofe natural e como se a Ucrânia fosse um Estado da União Europeia, que justificasse a aplicação de tal mecanismo. Já o ReArm Europe (150 mil milhões) usa a mesma base legal, argumentando que os empréstimos são realizados aos Estados-Membros e não à Ucrânia. Para que tudo seja menos evidente, cria-se a narrativa de que a Federação Russa vai atacar a NATO amanhã, daqui a um ano, dois, três, ou dez, consoante os calendários e as pretensões de rearmamento através do dinheiro dos contribuintes, e, assim, o perigo passa a ser para a própria União Europeia, comprovando, desta forma, a sua relação instrumental com a NATO. Assim, a Ucrânia recebe dinheiro e os Estados-Membros da UE podem rearmar-se porque “ocorrências excepcionais” que não podem controlar, surgiram, subitamente, por graça divina.

Um artigo que se refere a “dificuldades de aprovisionamento de certos produtos, designadamente energia”, “calamidades naturais”, é usado para justificar, não apenas o enviesamento belicista, mas também a centralização de cada vez mais competências na Comissão Europeia, uma estrutura burocrática não eleita e muito longe da vida do europeu comum. Energia, armas, semicondutores, tudo passou a ser centralizado ao abrigo de circunstâncias excepcionais que só existem por incompetência da própria UE.

Já a reindustrialização em torno da defesa, recorre ao mecanismo do artigo 173.º do TFUE (competitividade industrial), como se a produção de munições e tanques fosse uma questão de mercado interno. Não apenas a UE e a Comissão Europeia, passam a concentrar-se em matérias que não era suposto concentrarem-se, como passam a fazer leituras enviesadas dos tratados, encontrando em todas as previsões, uma justificativa para a Guerra e para o desvio de verbas, da área social, para o complexo militar-industrial. Uma UE que entregou a competição pela 4ª revolução industrial aos EUA, que deixou cair na amargura a estratégia de transição energética e a energia atómica, vem usar o artigo que trata da “capacidade concorrencial” económica, não para a economia, mas para a Guerra. Para a competição militar.

Isto não é interpretação jurídica! É uma técnica de contorno sistemático. O artigo 24.º, n.º 1 do TUE proíbe a adopção de actos legislativos na Política Externa e de Segurança Comum (PESC). A solução? Não adoptar os instrumentos sob a insignia da CFSP. O artigo 41.º, n.º 2 do TUE proíbe a utilização do orçamento da UE para operações militares. A solução? Criar instrumentos intergovernamentais “off-budget” (como o EPF – European Peace Facility (que é para a Guerra e não para a paz)) ou invocar bases legais industriais. O artigo 4.º, n.º 2 do TUE estabelece que a segurança nacional é da “exclusiva responsabilidade de cada Estado-Membro”. A solução? Centralizar o financiamento da defesa em Bruxelas.

A Comissão, o Parlamento e os dirigentes nacionais que participam no Conselho sabem que os Tratados não foram feitos para isto. Como o sabem muitas caixas de ressonância com tempo de antena diário! Um estudo do Instituto Sueco de Estudos Políticos Europeus (SIEPS) questiona precisamente se esta “utilização criativa de bases legais”, acusando-a de reflectir um “desalinhamento crescente entre os Tratados actuais e a resposta da UE a uma realidade geopolítica em evolução”. O problema é que, ao contrário do que nos querem fazer crer, o desalinhamento não é uma fatalidade geológica – é uma escolha política. E escolhas políticas erradas e antidemocráticas, costumam ter consequências jurídicas.

Contudo, e depois de tudo isto, mesmo assim, o caso mais escandaloso é mesmo o dos empréstimos à Ucrânia. A Hungria, a Eslováquia e a República Checa opuseram-se. Sob as regras da PESC. De acordo com as regras e tratando-se de segurança comum, tal oposição deveria ter automaticamente bloqueado o processo – a unanimidade é a regra e não por acaso. O objectivo é não fazer Guerra e seguir o caminho da economia que conduz à paz, lembram-se? Mas a Comissão recorreu ao artigo 332.º do TFUE, argumentando com a lógica da “cooperação reforçada”, permitindo que 26 Estados avançassem sem os dissidentes, mas usando normas que não haviam sido construídas para situações como esta. Ou seja, violando o princípio da especialidade das normas, que devem ser usadas para o que foram previstas. Mais uma estratégia sabuja para contornar a legislação europeia.

Isto constitui, em termos constitucionais, um golpe. A cooperação reforçada foi concebida como último recurso, para quando a integração não pode avançar por unanimidade em áreas de competência partilhada. Mas a PESC não é uma área de competência partilhada como as outras. É uma área de competência exclusiva dos Estados-Membros, ou seja, não partilhada. É uma área onde a unanimidade é a própria alma do compromisso soberano que deveria enformar esta União Europeia, uma UE que vive e se alimenta da soberania dos povos. Usar a cooperação reforçada para contornar o veto de um Estado-Membro em áreas que nos podem levar à Guerra, a uma Guerra mundial, é como usar uma ambulância para fugir da polícia: tecnicamente possível mas moralmente inaceitável.

O que está em jogo para os povos europeus, contudo, não é apenas a legalidade formal. É o princípio da confiança mútua entre Estados-Membros. Se a maioria puder impor a Guerra à minoria, a UE deixa de ser uma união de soberanos e torna-se uma federação coerciva – sem, no entanto, ter o mandato democrático de uma federação. E esta é o logro para o qual nos conduziram os dirigentes nacionais, nomeadamente todos os governos Portugueses desde a entrada na então CEE. A cada passo, contribuíram para e aprofundaram a natureza puramente colonial desta União Europeia.

Mas há, no entanto, uma traição ainda mais profunda. A deriva belicista da UE não fortalece a Europa. Fortalece, especialmente, os Estados Unidos. Os números são implacáveis. Entre 2020 e 2024, as importações de armas dos EUA para a Europa – incluindo a Ucrânia – mais do que triplicaram em relação ao quinquénio anterior. A quota dos EUA nas exportações globais de armamento subiu de 35% para 43%. A Alemanha, historicamente reticente em matéria militar, viu as suas importações de armas aumentarem 334%, cerca de 70% das quais provenientes dos EUA.

O F-35 é o símbolo perfeito desta dependência. Mais países europeus compraram este caça americano desde a invasão da Ucrânia. Todos passaram a depender do governo dos EUA e da Lockheed Martin para actualizações de software. O avião foi concebido para usar armas americanas e adaptá-lo a armamento europeu exigiria aprovação de Washington – algo que não é realista. Aliás, a quebra no consórcio de construção do caça de sexta geração França-Alemanha, não deverá ser alheia a esta realidade.

O plano “ReArm Europe” de 150 mil milhões de euros, apesar do nome pomposo, não é, nem de longe nem de perto, um plano de autonomia europeia. Trata-se, isso sim, de um plano de compra. E quem vende? Os EUA. O Presidente Trump exigiu explicitamente que os parceiros da NATO aumentassem o gasto em defesa para 5% do PIB e comprassem armas americanas.

O “Buy European” de Berlim – que prevê apenas 8% de compras a fornecedores americanos – é uma reacção tardia e ainda assim incompleta. O problema não é apenas quem vende as armas, mas sim quem controla a tecnologia. Os sistemas de inteligência militar, as bases de dados de targeting, os softwares de defesa, a Inteligência Artificial – tudo isto depende dos EUA. É a própria Chatham House quem diz que “dados de sistemas de armas americanos são enviados automaticamente para os EUA, actualizações cruciais de software dependem de fabricantes americanos”.

A traição é dupla. Trata-se de uma traição aos Tratados – que a UE viola com a conivência de um exército de juristas criativos, para não lhes chamar outra coisa, sendo também uma traição ao espírito do projeto europeu, pelo menos, aquele que havia sido vendido para consumo interno.

Schuman poderia não ser ingénuo, mas sabia que se a integração não se fizesse pela paz, nunca se faria. Pelo menos assim o dizia. Não obstante, podemos sempre dizer que, um projeto de Guerra apenas pode dividir, porque é isso que a Guerra faz, divide, ao invés de unir!

A UE está a fazer exactamente isso. Está a usar o orçamento comunitário – financiado por contribuintes europeus que pagam impostos para hospitais, escolas e infraestruturas – para garantir empréstimos que financiam a indústria de defesa. Está a transformar o Banco Europeu de Investimento, historicamente proibido de financiar armamento, num banco de guerra. Está a aprovar regulamentos que obrigam a compra de produtos de defesa “europeus” – mas que, na prática, beneficiam empresas americanas com joint ventures na Europa e com diversos controlos de capital incorporados nas companhias europeias.

O argumento preferido dos defensores desta deriva belicista reside na “excepcionalidade” do momento. Ao classificarem a invasão russa da Ucrânia como um evento sem precedentes, arrastam todos os povos da UE para a ideia de que enfrentamos a inevitabilidade da adaptação. Poderiam apresentar-nos a inevitabilidade da denúncia e rejeição da Guerra, para que aponta a legislação europeia e internacional, aplicada na UE, mas não. Aproveita a excepcionalidade para não aplicar a lei que visava, precisamente, responder a tal situação.

Ao traírem o projeto europeu que venderam aos povos europeus e para o qual, muitas vezes de forma antidemocrática, os arrastaram, esta estirpe de dirigentes não trai apenas esse projeto. Trai tudo o que disseram que seria tal projeto, traem o que venderam, traem o que prometeram.

Houve quem, analisando a natureza profunda desse projeto o denunciasse desde sempre e acusasse tal empreitada de ser impossível, dada a relação de forças em confronto. Mas ter razão quando vem a desgraça, não é algo de que se orgulhe quem esteve nessa luta! A luta hoje reside em parar esta deriva para o abismo, sob pena de todos a ela capitularmos, uns conscientemente, uns culposamente e outros, ingenuamente!

FONTES E REFERÊNCIAS EXTERNAS

  1. Empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia (2026-2027):
  1. Plano “ReArm Europe” (150 mil milhões de euros):
  1. European Peace Facility (EPF) – instrumento “off-budget”:
  1. Base legal do artigo 122.º do TFUE (dificuldades excepcionais):
  1. Base legal do artigo 332.º do TFUE (cooperação reforçada) e veto da Hungria, Eslováquia e República Checa:
  1. Exportações de armas dos EUA para a Europa (2020-2024):
  1. Dependência tecnológica dos EUA e dados militares:
  • Chatham House, referências sobre dependência de sistemas de armas americanos e partilha de dados (citado no texto original; fonte específica a confirmar em publicações do Royal Institute of International Affairs).
  1. Artigo 41.º, n.º 2 do TUE (orçamento da UE e operações militares):
  • Tratado da União Europeia (TUE), artigo 41.º, n.º 2.
  1. Artigo 32.º, alínea d) do TFUE (desenvolvimento racional da produção):
  • Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE), artigo 32.º, alínea d).
  1. Artigo 173.º do TFUE (competitividade industrial):
  • Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE), artigo 173.º.
  1. Artigo 24.º, n.º 1 do TUE (proibição de actos legislativos na PESC):
  • Tratado da União Europeia (TUE), artigo 24.º, n.º 1.
  1. Artigo 4.º, n.º 2 do TUE (segurança nacional – exclusiva responsabilidade dos Estados-Membros):
  • Tratado da União Europeia (TUE), artigo 4.º, n.º 2.
  1. Estudo do SIEPS sobre “utilização criativa de bases legais”:
  • SIEPS (Instituto Sueco de Estudos Políticos Europeus), publicações sobre desalinhamento entre Tratados e resposta da UE à realidade geopolítica.

Fonte aqui

A mais estúpida de todas as guerras

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 19/06/2026)


Agora, resta a Trump tentar que o Irão aceite regressar aos termos do acordo negociado com a Administração Obama e que ele classificou como “o pior acordo alguma vez assinado na história dos Estados Unidos”.


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Sempre me pareceu inverosímil que o assassínio do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, por um anarquista sérvio, em Sarajevo, tivesse sido motivo suficiente para o desencadear de uma guerra generalizada na Europa, que durou quatro anos e deixou caídas dez milhões de vítimas. E também me pareceu difícil de acreditar que durante a maior parte desses quatro anos, de 1914 a 1918, a estratégia militar de ambos os lados em confronto tenha consistido quase exclusivamente numa guerra de trincheiras contra trincheiras, esporadicamente interrompida com cargas de infantaria dizimadas pelos canhões do inimigo: a “carne para canhão”, que passou à história como a mais estúpida estratégia militar de todos os tempos, ao serviço da mais estúpida guerra de sempre.

Com sorte, e com a capacidade de conter as provocações israelitas, a guerra que Donald Trump levou ao Irão e ao Médio Oriente terá durado apenas quatro meses. Mas quatro meses em que a estupidez de quem manda no mundo atingiu um grau de perfeição que ultrapassa os dirigentes políticos da I Guerra Mundial. Todos os objectivos que o ignorante Presidente dos Estados Unidos visava com a guerra que o parceiro israelita o convenceu a desencadear, sem mandato internacio­nal e até sem conhecimento prévio dos aliados, a quem depois acusou de não o ajudarem (com a “honrosa” excepção portuguesa), saíram frustrados e as suas razões agravadas. Claro que todos preferíamos ter visto derrubado um dos regimes mais repressivos do planeta e ver os seus ayatollahs despojados de uma arma nuclear que dizem iminente. Mas há mais regimes religiosamente fanáticos, como o de Israel, e já quase o dos próprios Estados Unidos — e há mais países que já dispõem da bomba e inspiram tudo menos confiança, como a Coreia do Norte, o Paquistão ou o próprio Israel — hoje, mas já de há uns tempos, a maior ameaça à paz no mundo. Trump falhou rotundamente qualquer desses dois objectivos e, de caminho, ao não ter inacreditavelmente previsto que o Irão responderia à agressão israelo-americana com o fecho do estreito de Ormuz à navegação, viu o fornecimento de petróleo às economias diminuir 20% da noite para o dia, mergulhando o mundo inteiro numa crise sem pára-quedas — ele, o grande defensor da economia baseada no petróleo. É preciso ser um lambe-botas consagrado, como o secretário-geral da NATO, o infeliz Mark Rutte, para louvar Trump pelo desfecho da desventura iraniana. Quatro meses de humilhação militar, de desprestígio político e de uma lição de geopolítica aprendida à custa de nós todos desembocaram naquela patética declaração de que, firmado um memorando de entendimento com o Irão para posteriores e incertas negociações de paz, tinha “ordenado a reabertura ao tráfego do estreito de Ormuz”, como se houvesse por aí alguma alma penada que ignorasse que o estreito só abriu quando o Irão o consentiu. Agora resta-lhe tentar que o Irão aceite regressar aos termos do acordo negociado com a Administração Obama, a Europa, a China e a Rússia, e que ele classificou como “o pior acordo alguma vez assinado na história dos Estados Unidos”. Se conseguir fazer regredir a situação ao ponto em que estava antes da guerra, reclamará vitória — depois de ter gasto na aventura 120 mil milhões de dólares dos contribuintes americanos e uns tri­liões de danos incalculáveis causados às economias de todos. Mas, se o conseguir, terá ainda de segurar a fúria destruidora de Israel e os seus planos para erguer a toda a sua volta o “Grande Israel” — que, não vale a pena iludirmo-nos, não é só o sonho do Governo criminoso de Netanyahu e do seu bando, ou a satisfação dos interesses pessoais do PM israelita, mas também, e desgraçadamente, a vontade largamente maioritária da população de um país que já foi governado por gente com a estatura de uma Golda Meir ou de um Shimon Peres e que hoje é defensor do genocídio de Gaza, do terrorismo dos colonos judeus na Cisjordânia, da ocupação do Líbano, da Síria e, se possível ou julgado necessário, da Jordânia e do Irão.

A mais estúpida de todas as guerras
Ilustração Hugo Pinto

2 A verdade, porém, é que, para já, todos suspiramos de alívio com a “pax trumpiana”. Frágil, incerta, tardia, é pelo menos uma esperança. Já na Ucrânia, cuja guerra já ultrapassou em tempo a I Guerra Mundial, tal como esta, nada de novo na frente de batalha. Exaustos, massacrados, sem vitória militar à vista, ambos os lados gritam por alguém que os vá ajudar a pôr fim àquilo. Com Donald Trump desinteressado do assunto, concentrado noutras frentes e tendo deixado para os europeus os custos do apoio militar à Ucrânia, esta seria então a hora de a Europa tentar mediar um esforço de paz, depois de se ter queixado que a falhada mediação de Trump a deixou de fora, há uns meses. Mas qual quê? Como se não houvesse nem urgência nem novidades, a Europa prossegue na sua política de sempre: armas e dinheiro para a Ucrânia ganhar a guerra (!) e sanções para a Rússia. Todos contentes, acabam de aprovar o 21º pacote de sanções a Moscovo, cujo principal efeito é o de impedir os europeus de comprar petróleo a 50 dólares a Putin e fazê-lo a 90 dólares a Trump — fora o gás, que preventivamente se tratou de impedir que chegasse à Europa dinamitando os gasodutos russos. Simultaneamente, e tomando como pretexto o sobrevoo de dois drones supostamente russos sobre a Roménia e a Letónia, até já o chefe da Luftwaffe se oferece para dizimar os russos em combate aéreo. Que recordações felizes, que regresso à história! Que estratégia vencedora e oportuna!

3 Não tenho nenhuma posição de princípio relativamente a privatizações. Sou a favor quando o Estado não responde às necessidades das pessoas, como seria de esperar e aparentemente a privatização de um serviço ou de uma empresa pública ou a abertura à concorrência entre público e privado aparece como melhor solução. Sou contra quando estão em causa funções de soberania ou bens e serviços alienáveis pelo Estado, como a água, as praias, etc. Mas sou contra também quando se torna evidente que a principal razão de uma privatização é a satisfação de interesses particulares, e não a melhor prestação do serviço público. Entre todas as privatizações a que já assistimos nos últimos 50 anos, nenhuma me pareceu mais desnecessária e mais prejudicial ao interesse público do que a da ANA — Aeroportos de Portugal. Tratava-se de uma empresa pública que tinha o monopólio da exploração de um serviço essencial: a exploração do espaço aéreo e da entrada por via aérea em território nacional de um número de estrangeiros que é o dobro da população residente. Era um grande negócio, e com ele o Estado ganhava dinheiro tranquilamente. Mas, a troco de um preço que ao fim de oito anos já estava amortizado pelos lucros, esse grande negócio foi oferecido à francesa Vinci, com experiência incipiente no sector. E a Vinci revelou aquilo que era de prever: uma absoluta incapacidade ou desinteresse em prestar um serviço aceitável para os passageiros, a par de uma insaciável voracidade pelo lucro, bem patente nas 24 actualizações de taxas que já levou a cabo no aeroporto de Lisboa e que, nos Açores, levou mesmo ao abandono da Easyjet, indisponível para pagar os preços exigidos pelos franceses. A própria IATA veio recentemente dizer que a Vinci estava apenas centrada nos lucros, sem realizar investimentos correspondentes. E a AirHelp, uma organização votada aos direitos dos passageiros, deu à Vinci a honrosa medalha de ter visto o aeroporto de Lisboa classificado em 274º lugar entre 277 aeroportos analisados no mundo inteiro — uma classificação perfeitamente adequada àquilo que cada passageiro do Aeroporto Humberto Delgado pode constatar quando o frequenta. E é esta empresa, a que um Governo do PSD deu a concessão da exploração de dez aeroportos em Portugal, que outro Governo do PSD confia agora para que ela leve a cabo a construção do futuro aeroporto de Lisboa sem custos para os contribuintes. Esperem sentados ou não percam mais tempo a alimentar ilusões.

4 E agora vamos para umas semanas de genuíno “patriotismo”: bandeirinhas nacio­nais nas janelas das casas ou dos carros, camisola da Selecção vestida, mão no peito a escutar o hino e inevitáveis vénias, que nunca serão de mais, a Cristiano Ronaldo. Com isto nos consolamos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Afinal, a “autocracia” era a liberdade

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 19/06/2026, Revisão da Estátua)


Estão finalmente na defensiva os hiper-adaptados da ideologia dos anos 90, aqueles que no quadro da trilogia liberalismo político, economia de mercado e “direitos do homem” apontavam o futuro de liberdade, enquanto legitimavam no plano interno o permanente recurso à violência social e no plano externo justificavam a aplicação sistemática da força bruta, fosse por via das chamadas revoluções coloridas ou por recurso à invasão militar.

Para essa falange de fanáticos, a destruição de tudo o que contrariasse a marcha para a liberdade era o mal necessário a pagar para o aceleramento da instauração do paraíso da abundância, do consumo e do indivíduo autodeterminado.

Desde 1991, não houve agressão, seguida de espoliação de regiões inteiras e o caudal de milhões de mortes em que não estivesse presente a desgraçada fórmula da libertação pelas bombas, cujos fautores superaram largamente Robespierre, o exaltado da Liberdade, que não obstante condenava a exportação da revolução se esta contrariasse a vontade dos povos.

A junção das seitas neoliberal e neoconservadora provocou catástrofes humanitárias sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial, pelo que muitos ainda mostram surpresa perante a resoluta determinação do Irão e do eixo da resistência em não quererem “ser livres”.

A derrota americana na Guerra do Irão de 2026 é o marco miliário que fixa o princípio do fim deste quase meio século em que aos EUA foram dadas todas as condições para a instalação da pax americana.

Queixam-se amargamente do retorno das “autocracias” e dos “homens fortes”, pelo que não percebem que foi o Ocidente que ao mobilizar o medo em regiões inteiras do planeta inviabilizou a globalização de uma prática democrática afeiçoada aos caracteres culturais específicos de cada povo.

A “autocracia” foi a fórmula mais eficaz de resistência à expansão do caos, o antídoto contra o jugo que impendia sobre Estados-civilização ameaçados. Neste particular, as “autocracias” foram o garante da liberdade para povos inteiros.

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