Para perceber o que se está a passar na Ucrânia

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 16/07/2026, Revisão da Estátua)


Continuam por toda a Ucrânia manifestações de apoio ao recém-demitido ministro Fedorov e espera-se para muito breve a detenção do ex-titular da Defesa que rompeu publicamente com Zelensky.

O que sobressai nas manifestações é o elemento burguês da sociedade ucraniana, ou seja, aqueles que estão alinhados com Bruxelas, que não querem ser mobilizados e que de algum modo têm beneficiado com a cornucópia de dinheiros e negócios que rodeiam o esforço de guerra.

Zelensky apoia-se em Sirsky e no exército e avança para uma ditadura sem máscaras e, talvez, para a não realização de quaisquer eleições no outono, usando as prerrogativas que o estado de sítio lhe confere para governar por decreto.

É agora claro que Fedorov tem o apoio da UE/NATO e que representa os avultados investimentos nas tecnologias em detrimento dos defensores de uma guerra popular e da mobilização geral defendida por Zelensky e o seu grupo.

Com a intensificação da destruição sistemática do aparelho industrial, assim como de Odessa pelos russos, a Ucrânia está à beira do abismo. Os patrocinadores e co-beligerantes europeus não sabem o que fazer, pois Zelensky é a cabeça de cartaz e Fedorov o representante dos negócios em ascensão.

O que de pior poderia agora acontecer seria a eclosão de graves distúrbios e, até, de enfrentamentos armados entre facções ucranianas.

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A Terceira Guerra Mundial ainda está a ser preparada

(Por Chris Pantelimon, in Reseau International, 16/07/2026, Trad. Estátua)


A única forma de os Estados Unidos manterem o controlo dos assuntos mundiais é através de uma guerra mundial — isto é, um conflito de grande escala em que os Estados Unidos assumam o papel de árbitro, e não de participante direto.

Os estrategas americanos não têm imaginação, razão pela qual repetem padrões de há um século — por exemplo, o rearmamento da Alemanha e a sua preparação para o combate contra a URSS.

Hoje, o inimigo designado, à primeira vista, é a Rússia, porque a Rússia está activa, mas o verdadeiro alvo é sobretudo a China, o principal rival estratégico dos Estados Unidos.

Um ponto deve ser realçado: para os americanos, não importa quem ganhe a guerra.

O rearmamento da Europa, supostamente concebido para a sua defesa contra Putin, pode muito bem levar à ruína da Europa. Tanto melhor! O que importa é a guerra e o árbitro (os Estados Unidos) na sombra, não o seu resultado.

Da mesma forma, o rearmamento do Japão, que só pode ocorrer em oposição à China, não significa que os americanos desejem realmente — ou esperem — que o Japão prevaleça (tal como não esperam que a Ucrânia prevaleça sobre a Rússia). A estratégia é mais cínica: o importante é provocar a guerra.

E os Estados que produzem ou compram armas (os infames 5% do PIB), outrora saturados de tecnologia militar, podem ser facilmente colocados uns contra os outros.

O caso ucraniano é um excelente exemplo. Uma Ucrânia bem armada será sempre um alvo para a Rússia. Mas o mesmo se aplica à Polónia ou a um Estado báltico. As tensões estão a aumentar e a história europeia, com todas as suas tragédias passadas, aguardava por isto: uma corrida ao armamento entre vizinhos. Nunca faltam motivos para a guerra!

Eis o que o CEO da Palantir escreve num livro de um franchise tipicamente americano sobre a política de armamento dos aliados dos Estados Unidos:

  1. Alemanha

A resistência a novos investimentos militares tem sido, naturalmente, particularmente disseminada na Alemanha. Günter Grass, romancista e autor de ‘O Tambor de Lata’, opôs-se veementemente à reunificação da Alemanha Oriental e Ocidental, argumentando que um Estado alemão unificado poderia abrir as portas a outro Auschwitz. Em 1991, escreveu: ‘Nada — nem o sentimento de pertença nacional, por mais idílico que seja retratado, nem a certeza da boa vontade das gerações do pós-guerra — pode alterar ou apagar a experiência que nós, criminosos, juntamente com as nossas vítimas, partilhamos enquanto Alemanha unida’.

No entanto, a neutralização de facto do país nos últimos cinquenta anos teve consequências. A ausência de uma Alemanha forte e assertiva contribuiu, sem dúvida, para a invasão da Ucrânia pela Rússia em Fevereiro de 2022. Vladimir Putin calculou corretamente que não pagaria um preço significativo por essa ação. Após décadas de autoflagelação, o exército alemão passou a assemelhar-se mais a uma caricatura de uma força armada genuína”,

2. Japão

O mesmo se aplica, em grande parte, ao Japão. A democracia mais rica da região necessitaria ainda hoje do apoio dos EUA para repelir — quanto mais sobreviver — a uma invasão em grande escala. (…)

O erro não foi dissolver o Exército Imperial Japonês e adotar salvaguardas legais destinadas a impedir a sua reconstituição no período imediatamente a seguir à guerra. O erro foi manter esta política durante três quartos de século, apesar da transformação da ordem mundial, incluindo a ascensão de uma China cada vez mais poderosa e assertiva, bem como um renovado sentido de ambição na Rússia.

O desarmamento e a privação das significativas capacidades militares da Alemanha constituíram uma reação excessiva, pela qual a Europa paga agora um preço elevado. Um compromisso semelhante, em grande parte teatral, com o pacifismo japonês ameaça, a manter-se, alterar também o equilíbrio de poder na Ásia”.

A conclusão é simples, como a história recente demonstrou!

Fonte aqui

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Reflexão – a criação da NATO, uma ideia nazi?

(João Gomes, in Facebook, 11/07/2026)


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A História não pode ser lida apenas através das versões oficiais. Também se constrói a partir das perguntas incómodas que muitos preferem evitar. Uma dessas perguntas diz respeito à origem da NATO e ao papel desempenhado por antigos oficiais da máquina militar de Hitler na formação da aliança que viria a dominar a estratégia de defesa do Ocidente durante mais de sete décadas.

A NATO foi criada em 1949 e apresenta-se, desde então, como uma “organização defensiva” destinada a proteger a Europa da ameaça soviética. Essa é a narrativa oficial. Mas será suficiente para explicar a realidade do momento histórico?

Quando a Aliança Atlântica nasceu, a União Soviética encontrava-se profundamente devastada pela Segunda Guerra Mundial. Cerca de 27 milhões de cidadãos soviéticos tinham morrido. Cidades inteiras estavam reduzidas a escombros, a capacidade industrial encontrava-se seriamente afetada e a economia vivia um enorme esforço de reconstrução. O Exército Vermelho permanecia numeroso, mas também enfrentava uma gigantesca tarefa de reorganização e desmobilização.

Perante este cenário, é legítimo perguntar se o receio de uma invasão soviética da Europa Ocidental era tão iminente como foi apresentado ou se esse perigo serviu igualmente para justificar uma nova arquitetura política e militar destinada a consolidar um bloco ocidental sob liderança norte-americana. É precisamente neste ponto que a ação de antigos oficiais do regime nazi dentro da NATO deixa de ser um simples detalhe histórico para assumir uma importância muito maior.

E não se tratava de militares de segunda linha. Eram alguns dos estrategas mais experientes da Wehrmacht. Homens que tinham planeado campanhas militares, dirigido operações de grande escala e combatido precisamente contra a URSS. Tinham sido formados numa cultura profundamente anticomunista e participaram numa guerra que o regime de Hitler apresentava como uma luta existencial contra o bolchevismo.

Poucos anos depois da derrota da Alemanha nazi, muitos desses mesmos oficiais voltavam a ocupar posições de enorme responsabilidade. Adolf Heusinger tornou-se Presidente do Comité Militar da NATO. Hans Speidel assumiu o comando das forças terrestres da NATO na Europa Central. Johann Adolf von Kielmansegg ocupou igualmente importantes funções de comando na estrutura aliada. Reinhard Gehlen, antigo responsável pela espionagem alemã na Frente Oriental, foi aproveitado pelos Estados Unidos, colaborou diretamente com a CIA e criou o serviço de informações da Alemanha Federal, fornecendo durante anos informação estratégica utilizada pelo bloco ocidental.

Não foram casos isolados. Fizeram parte de uma escolha política consciente. Os Estados Unidos e os restantes aliados concluíram que o conhecimento militar destes homens era demasiado valioso para ser desperdiçado. A desnazificação deixou rapidamente de constituir prioridade quando entrou em cena um novo adversário.

A questão verdadeiramente incómoda não é, por isso, saber se antigos nazis participaram na construção da NATO. Isso encontra-se amplamente documentado. A verdadeira questão consiste em perguntar até que ponto esses homens influenciaram a cultura estratégica da organização porque uma instituição militar não é apenas feita de edifícios, tratados ou equipamentos. É construída pelas pessoas que definem a sua doutrina, elaboram os seus planos e estabelecem a forma como identifica amigos, adversários e ameaças.

Ora, quando uma parte significativa dessa elite militar foi formada durante o Terceiro Reich, torna-se difícil acreditar que toda essa herança intelectual tenha desaparecido simplesmente porque terminou a guerra. As ideias estratégicas, os métodos de planeamento e a visão geopolítica não desaparecem por decreto. Também não mudam apenas porque muda a bandeira.

É difícil não admitir que uma organização cuja estrutura militar foi parcialmente desenhada por antigos generais da Wehrmacht tenha herdado parte da sua leitura estratégica da Europa e que isso tenha influenciado largamente a leitura global que ainda hoje se faz do Mundo. Não no plano ideológico do nacional-socialismo, mas na forma de encarar o Leste e o resto do Mundo como “adversários permanentes” e de considerar indispensável a existência de um poderoso bloco militar ocidental para manter a defesa de uma “ideologia branca”, apesar de surgirem com intenções democráticas e objetivos económicos.

Após a sua formação a NATO rapidamente ultrapassou a simples missão de defesa territorial. A sua influência passou igualmente pela consolidação política do espaço ocidental. Ao longo da Guerra Fria, a integração militar caminhou lado a lado com a integração económica e política das democracias ocidentais, sempre sob forte influência e exigências dos Estados Unidos. Em vários países europeus, movimentos comunistas ou socialistas revolucionários passaram a ser encarados não apenas como adversários políticos internos, mas também como fatores de risco para a arquitetura estratégica construída no pós-guerra. Novos movimentos revolucionários de transformação nas nações europeias rapidamente eram ameaçados de “intervenção”. Foi o caso de Portugal em 1974, por exemplo.

Não significa isto que a NATO tenha sido criada para restaurar o nazismo mas também não ajudou a eliminá-lo. E a prova foram os vários movimentos fascistas que permaneceram ativos em toda a Europa e noutras partes do Mundo: Portugal, Espanha, Grécia, Alemanha Ocidental (reintegração de numerosos antigos oficiais e dirigentes do Terceiro Reich nas forças armadas, serviços de informações e administração do Estado), Itália (permanência de estruturas e partidos neofascistas, como o Movimento Sociale Italiano e reintegração de antigos quadros do regime de Mussolini), França (reintegração parcial de antigos colaboradores do regime de Vichy), Bélgica, Países Baixos e Noruega são os casos europeus.

Os mesmos homens que poucos anos antes eram considerados parte integrante da máquina militar de um regime responsável por alguns dos maiores crimes da História passaram a ser vistos como parceiros indispensáveis na construção da segurança ocidental. A moral foi substituída pela utilidade. A justiça cedeu lugar ao pragmatismo. E talvez tenha sido precisamente nesse momento que nasceu uma NATO cuja missão foi muito além da defesa militar.

Mais do que conter uma URSS exausta e ocupada com a sua própria reconstrução, a “Aliança” contribuiu para consolidar uma determinada ordem política, económica e estratégica na Europa Ocidental, tornando extremamente difícil qualquer evolução que se afastasse do modelo liberal apoiado pelos Estados Unidos.

Essa opção pode ter sido considerada necessária pelas lideranças ocidentais da época. Mas isso não impede que hoje se coloque uma pergunta legítima. Até que ponto a NATO nasceu apenas para defender a Europa? Ou nasceu também para definir que Europa deveria existir e como os cidadãos europeus deveriam viver?

Hoje a visão é muito clara: a Europa volta a estar ameaçada pelas antigas ideologias de extrema-direita porque as novas gerações desconhecem, nunca viveram e não aprenderam o que foi o papel de uma extrema-direita nacionalista que se quis tornar um império e submeter primeiro a Europa e depois o resto do Mundo a uma ideologia onde os direitos dos cidadãos não existissem.

O que seria – hoje – a Europa se a URSS não tivesse vencido Hitler? O que seria hoje a Europa se a NATO não impusesse a sua (des)ordem politica e as exigências dos caminhos a seguir na economia, nas finanças, nas garantias sociais? Essa a pergunta que fica.