1. Os militantes do PSD que genuinamente apoiam o partido e que dele não esperam nenhuma benesse, particularmente os que ainda conheceram o PSD pré-Passos, deveriam estar muito, muito preocupados. Não é que o partido não tenha um importante núcleo duro eleitoral, não seja um grande partido autárquico, não seja uma referência da democracia portuguesa, é tudo isso sem qualquer dúvida. Ainda se pode afirmar com grande certeza que o PSD pela sua própria existência molda a forma da democracia portuguesa, mas nenhum partido tem um contrato com a eternidade, nem negociou com o demónio nunca morrer ou ter o elixir da juventude.
2. Na verdade, o PSD está neste momento não só numa situação de irrelevância, como cercado politicamente, e, pior que tudo, dentro dele existe uma profunda apatia em relação ao destino partidário. Essa apatia é o caldo de cultura em que prolifera uma oligarquia partidária que enquanto tiver o mínimo dos seus lugares garantidos agarra-se a eles como uma lapa, mantendo qualquer debate como uma coisa pestífera, quase uma traição. Traição a quê? Aos dirigentes actuais, Passos Coelho e a sua entourage.
Ilustração de Susana Vilar
3. Qual é a política actual do PSD? Uma combinação fatal de dois elementos: uma nostalgia justificativa do passado nos anos do “ajustamento”, e uma espera apocalíptica pela crise económica e financeira do governo PS-PCP-BE. No seu conjunto, esta é uma política “antipática” como Passos Coelho gosta de lembrar como se fosse uma medalha. Até podia ser “antipática” e ser justa e necessária, mas não é nem uma coisa nem outra. É uma política injusta socialmente, e que economicamente garante apenas uma medíocre estabilização do crescimento económico.
4. A nostalgia do passado é muito autojustificativa, centrada na altura em que a direcção de Passos se colou à troika primeiro com equívoco e depois com convicção. Hoje sabemos que muito do que foi atribuído à troika foi iniciativa do governo PSD -CDS. O PSD tornou-se um dos partidos de passado social-democrata e centrista que mais se deslocou à direita e, se isso consolidou um bloco político com o CDS de Portas, criou um animal híbrido em que umas patas andam para um lado e outras arrastam-se pelo chão.
5. Politicamente isolado, o PSD esbraceja oscilando entre uma política tribunícia, muito semelhante à que criticava no BE, e críticas ao Governo PS que são inaceitáveis vindas de quem governou com maioria absoluta durante uma longa legislatura. O caso mais exemplar é a questão dos fogos, em que um PS e um Governo fragilizados acabam por se sair melhor devido ao estilo agressivo e insensato das críticas de Passos e de algumas figuras menores do grupo parlamentar. A exploração da tragédia por táctica política, que é evidente para todos, tem aspectos de “trumpismo” à portuguesa que não dão um voto ao PSD, porque há gente muito melhor para ser o interlocutor populista dessa política, felizmente ainda só quase nos media e não na política institucional.
6. A apatia no interior do partido, em que muitos sabem que esta política é má, nada tem a ver com a herança social-democrata e gera inércia e fragmentação. As estruturas locais do partido, como se vê nas autárquicas, avançam com listas e candidatos quase em autogestão, e onde é a direcção do partido a interferir, como acontece nas grandes cidades e candidaturas urbanas como Loures, os resultados estão e vão estar à vista. As distritais gerem o seu poder de forma sindical, o mesmo acontecendo nas outras estruturas, mas sem qualquer lógica nacional ou partidária global.
7. Periodicamente, na comunicação social e numa ou noutra personagem partidária, há surtos de agitação, muito superficiais e pouco duradouros. Fala-se então de Rui Rio. Na verdade, quer a inércia de muitos, quer a barragem do bloco de poder à volta de Passos, quase todo por interesses de carreira, bloqueiam qualquer movimento de mudança, conduzindo à tese pouco sadia de que as coisas só mudam com uma derrota eleitoral flagrante. Tenho sempre dito e repito que nem isso é líquido, dado que o partido está ao mesmo tempo mais “capturado” por interesses e mais “morto” do que se pensa. Só havia uma alternativa: abrir as eleições a simpatizantes e eleitores sociais-democratas, como fez o PS, com um colégio eleitoral de dezenas de milhares que ultrapassam a capacidade do aparelho de controlar as eleições. É a única chance de Rio ou de qualquer outro que queira sair deste marasmo.
A mera junção destes dois nomes parece insultuosa, tanto mais que são duas personagens muito distintas e que detestariam em se verem reunidos num mesmo título. Na verdade, Marcelo tem pouco a ver com Trump e vice-versa. Marcelo é um político sofisticado, culto, elegante, educado, honesto e Trump é uma personagem grosseira, ignorante, brutal, corrupta e corruptora e ameaçadora. Acima de tudo, Marcelo é um político democrata e Trump é um autocrata, a diferença mais substancial. Porém há uma coisa que têm em comum: é o facto de ambos terem chegado ao poder através de uma contínua utilização do sistema mediático moderno, com criatividade e intuição, moldando o universo dos media aos seus interesses pessoais e políticos. E aqui pode-se fazer uma comparação entre ambos, e percebendo-os, perceber algumas das características da política em democracia, em particular a sua ligação/sujeição aos mecanismos mediáticos.
Trump e Marcelo são políticos muito intuitivos e inventivos e perceberam como é possível usar os media modernos, do jornalismo às “redes sociais” que não são jornalismo. O caso de Marcelo é exemplar no jornalismo e na comunicação pós-.25 de Abril. À data do 25 de Abril não havia qualquer experiência de jornalismo em democracia, pesem embora os esforços de várias gerações de jornalistas, em particular a gerada nos anos sessenta, para oferecerem uma alternativa quer ao proselitismo dos propagandistas do Estado Novo, quer ao silêncio demasiado longo da Censura. Mas isso não é uma plena experiência de jornalismo em democracia, o que explica que na euforia da liberdade, a maioria destes jornalistas, que vinha da oposição política e estudantil, gerassem um jornalismo militante de esquerda, que acompanhou os ciclos políticos do PREC até à “normalização” democrática. Com uma excepção, o Expresso com Marcelo Rebelo de Sousa.
No Expresso, Marcelo inicia uma escola de jornalismo que foi a primeira típica da nossa democracia, e que veio mais tarde a trazer para a rádio e para a televisão. Ele foi o mestre, mas os seus discípulos ainda hoje usam a “gramática” e o “léxico” do estilo de jornalismo que ele criou. Usam a forma de pensar de Marcelo e o seu vocabulário, naquilo a que chamam “jornalismo político”, mas estão muito longe da mestria de Marcelo. Os artigos de opinião, as perguntas em entrevistas, a lógica dos títulos, a enunciação dos “problemas”, os “destaques”, toda a mecânica interpretativa nasce daí, embora se se fosse a verificar a pertinência das questões da “agenda”, e os resultados de alguns vaticínios veríamos que praticamente nada acerta, ou tem utilidade analiticamente.
É um jornalismo discursivo e narrativo, pouco metafórico (aí o Independente bate todos), bastante a-histórico e onde não cabem surpresas. Inclui algum psicologismo na interpretação das personagens, mas muito superficial e muito dominado por uma lógica lúdica de intriga e mexerico, que davam ao “produto” uma lógica popular de entretenimento.
Que estilo deixou Marcelo nos media, que depois lhe criou o caminho aberto para a presidência com a complacência e a cumplicidade de muitos dos jornalistas que ele tinha “formado” ou “enformado”? Baseava-se em várias coisas: uma obsessão com o calendário e a utilização do calendário – prazos, contextos temporais, etc.- para cenarização da vida política. Os cenários eram possibilidades hipotéticas de acção por parte de personagens da vida política, umas vezes baseados em truísmos, outros em provocações, destinadas a obter respostas dos provocados e a introduzir “picante” na vida política. Neste tipo de jornalismo, uma espécie primitiva de “fake news”, os chamados “factos políticos” criados por Marcelo tinham um papel.
Com a crescente simbiose discursiva dos políticos em democracia com esta forma de mediatização, passava a haver um contínuo entrelaçado entre os cenários e as personagens que supostamente eram os seus actores. Este efeito de teatralização da vida política ainda hoje é dominante, com a sua excessiva atenção á coreografia e desprezo pela substância. O conteúdo das políticas foi subsumido pela maneira como eram “comunicadas”, os célebres “erros de comunicação”, um aspecto muito comum nos comentários de Marcelo, como aliás nos de Marques Mendes, particularmente quando eles próprios concordavam com as políticas de fundo, mas não o queriam dizer.
Porque é que este longo tirocínio comunicacional abriu a Marcelo o caminho da Presidência, que a sua própria actividade política não abriu? Primeiro, a longa exposição mediática é de um modo geral uma vantagem para quem tem que fazer um comentário. Não precisa de perder tempo com preliminares, visto que o seu público conhece-o muito bem, e de um modo geral sabe o que ele pensa. Pode não saber como ele o vai dizer, a intensidade de uma crítica ou até de uma desculpa, mas não há muitas surpresas. Contrariamente ao que os media valorizam, – a novidade, – esta só é relevante quando o produto “velho” é mau e o novo muito bom, o que raras vezes acontece.
O resultado desta longa exposição é uma espécie de intimidade, o “homem está lá em casa todas as semanas”, tornou-se um hábito que gera um núcleo fiel de leitores, mesmo críticos, e Marcelo foi capaz como ninguém de criar essa intimidade que se manifestava inclusive nas formas de tratamento entre o próximo e o deferencial.
Por outro lado, havia um aspecto nos comentários de Marcelo que exercia uma função cívica: explicava procedimentos, processos, comparações que davam ao seu público uma pedagogia da democracia, que é um dos aspectos mais positivos do bom comentário político. Mas Marcelo ia mais longe, ao apresentar-se com a persona do “professor” dando notas, um mecanismo adoptado por toda a comunicação social nas setas do sobe e desce, valorizava o classificador reduzindo o classificado ao papel de aluno. Na verdade, poucas coisas eram mais absurdas do que ver Marcelo a classificar com notas Cavaco ou Clinton, mas o facto de nós não vermos essa absurdidade, remete para o seu poder mediático. A verdadeira subversão seria classificar o próprio Marcelo, como aliás analisar os seus comentários com uma fact checking que eles muitas vezes falhavam, por exemplo em política internacional.
Estes são alguns dos aspectos da “escola de Marcelo” A ela se soma, depois do 25 de Abril, dois momentos de alternativa, todos anti-Marcelo, também com algum sucesso, um a escola do Independente de Portas e Miguel Esteves Cardoso, outra a linha da Alt-rightportuguesa que começou nos blogues de direita e que desembocou no Observador.
Fora destes três momentos, o resto são cópias e imitações, embora haja alguma capilaridade entre estas experiências, quer com a imprensa tablóide, quer com a de referência, umas vezes no noticiário, outras vezes no jornalismo cultural, ou no comentário desportivo. Falo essencialmente da imprensa escrita, mas é possível também passar para a rádio e para a televisão, embora ai outras personagens como Emídio Rangel ou José Eduardo Moniz, tenham deixado marcas.
Em seguida, veremos como a sociedade e o eleitorado pode hoje ser manipulado, é esta a palavra certa, pela capacidade mediática de personagens como Marcelo e Trump.
Num debate recente afirmei a minha convicção de que a “geringonça” não ia durar muito. Só não fiquei no “clube da catástrofe” liderado por Passos Coelho porque ele deseja ardentemente que ela não dure, e eu penso que é positivo que dure, mas não tenho muita esperança. Um assistente ao debate perguntou-me: “Porque é que diz isso?”. E eu respondi: “Não é por desavenças interiores, é por causa da Europa.”
O que é que significa esse “por causa da Europa”? Aquilo a que hoje se chamam “regras europeias”, que não são nem regras, nem europeias, é uma receita para a estagnação económica, acompanhada pelo aumento das desigualdades e pela destruição da mobilidade social. Ou seja, a conjugação do Tratado Orçamental – que convém dizê-lo não é um Tratado “europeu”, mas apenas de uma parte de países europeus – com a condução do Eurogrupo e as posições de vários comissários europeus impedem o governo PS de tomar medidas que permitam, em termos significativos, fazer o País crescer.
Não é de agora, já vem de antes porque sabemos hoje que a manipulação dos números do governo PSD -CDS era grande, e nenhum dos objectivos principais tinha sido conseguido. Nem o défice, nem a dívida, nem a resolução do mais grave problema da economia portuguesa, o sector financeiro. Só que agora o governo fica entalado por dois lados, nem pode prosseguir a sua política, de reposição de rendimentos e aumento do consumo interno, não pode fazer investimentos a partir do Estado para “puxar” a economia (sim, não é um crime, é uma opção política e económica), nem pode satisfazer os “falcões” do “ajustamento” que estão no Ministério das Finanças alemão, no Eurogrupo, e na Comissão.
Sim, é verdade que o governo parece estar a controlar o défice, mas fá-lo com medidas que ajudam a deprimir a economia, quer por acção quer por omissão. Uma das maiores tretas que diz a oposição é falar num “modelo económico do PS”. Não há nenhum “modelo económico do PS” e, se houver, não se percebem as críticas porque é estranhamente parecido com o do PSD-CDS. A grande diferença vem de que o PS e os seus aliados querem mudar o alvo da austeridade, mas com enormes dificuldades.
O meu cepticismo vem de que, a uma determinada altura, as vozes europeias vão colocar o Governo perante opções que não são comportáveis com o acordo que lhe dá maioria na Assembleia. Quem as impõe sabe disso e isso é um incentivo a propô-las. O que se passará depois, não sei. Mas sei que convinha pensá -lo e prepará-lo, porque não é sempre possível passar pelos pingos da chuva. E vai chover muito.
José Rodrigues, o homem que não parava de desenhar
Fui amigo de José Rodrigues, escrevi sobre ele quando, in illo tempore, fazia crítica de arte (imaginem!), viajei com ele, “vivi” quase quotidianamente à sua volta durante um par de anos, ele fez-me vários retratos e dele possuo dezenas de pequenos desenhos e vários quadros de diferentes períodos. E correspondência, feita de gatafunhos, porque escrever não era o seu forte. Podia ter uma escultura, mas na altura não sabia onde a pôr e fiquei sem ela. Tenho pena, mas os tempos eram atribulados.
Mas o José Rodrigues é-me inesquecível porque fazia parte daquele pequeno grupo de pessoas que têm uma arte inscrita na cabeça, na voz, ou nas mãos, que o fazia compulsivamente desenhar com tudo o que tinha à mão ou ao dedo. Desenhava nos guardanapos de papel, nas toalhas, no verso de envelopes ou programas, nas margens de um jornal, mas desenhava sempre. Usava a caneta, qualquer caneta, e molhava o dedo nos restos do café para sombrear o que desenhava. Sem parar. O outro caso que conheci, esse com as palavras, era o Vasco Graça Moura.
O José Rodrigues, o mestre, uma velha palavra cada vez mais em desuso, também porque não há mestres, era intitulado de “escultor”. Esculpiu muitas peças, fez medalhas, e várias obras suas fazem parte da iconografia da cidade do Porto. Mas o desenhador foi sempre, para mim, o que era o José Rodrigues. Bastava estar com ele, para ver uma mente que se manifestava sem parar nas mãos e que moldava o material à sua vontade com uma imaginação física, essa sim afim da escultura.
Tinha uma cultura de autodidacta, sem teorias nem complicações, muito menos com “conceitos” e “projectos”, e contrastava nos Quatro Vintes com o Ângelo de Sousa que era o mais intelectual de todos. O Armando Alves e o Jorge Pinheiro ficavam no meio da escala. Mas, o José Rodrigues, quando via algo que lhe agradava artisticamente, mudava de um dia para o outro de estilo, passava da sua enorme capacidade para desenhar em termos figurativos, para experiências de abstracção completamente distintas. Funcionava por osmose, também porque não tinha muitos preconceitos em intelectualizar o que fazia.
Da última vez que o encontrei já estava bastante doente, alquebrado, mas mantinha ainda os traços de um velho sátiro, que nunca olhava para ninguém, principalmente para as mulheres, com inocência. Gostava dele, sabia do seu valor, vai fazer falta.