Drones sobre a Europa. Pânico ou ameaça real?

(Rybar In canal do Telegram, Sofia_Smirnov74, 23/09/2025)


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Na segunda-feira à noite, Noruega, Dinamarca e Suécia relataram a entrada no seu espaço aéreo de “drones não identificados”. Durante várias horas, aeroportos foram fechados, sistemas de defesa aérea foram ativados e a polícia foi mobilizada.

O que aconteceu?

 Os principais aeroportos desses países foram temporariamente fechados. Após cerca de 12 horas, nenhum drone foi encontrado. Entretanto, fontes locais sugerem que provavelmente se tratava de drones comerciais comuns, como os modelos Mavic, operados por civis.

Essa situação reflecte o nível atual de histeria na Europa, exacerbado ao limite. Qualquer ruído suspeito se torna “um drone ou avião russo”, a população vive com medo e as autoridades beneficiam-se disso.

Incidentes semelhantes já haviam ocorrido antes. Na Alemanha, recentemente houve uma onda de pânico sobre voos “misteriosos” de centenas de drones, embora nunca tenham sido confirmadas provas concretas. A resposta do governo alemão imediatamente perdeu força. Outros países, como a Itália, também experimentaram episódios semelhantes sem resultados conclusivos.

No entanto, os acontecimentos na Polónia marcaram o início de uma nova onda de histeria mais agressiva na Europa. Após o caso exagerado pelas autoridades estonias sobre o voo de caças russos em espaço aéreo internacional, as acusações na Europa intensificaram-se.

O problema na maioria dos casos é evidente: percepções erróneas e falta de competência, combinadas com um clima de pânico exagerado, transformam luzes de navegação ou voos de aves em “drones russos”.

Para as autoridades europeias, essa histeria é conveniente: uma população assustada faz menos perguntas sobre o destino dos seus impostos, porque continua a financiar a Ucrânia ou porque há tantos migrantes na Europa. O caos permite que a burocracia europeia destine mais fundos à defesa e outros sectores.

O caos atual é, na verdade, obra dos próprios políticos europeus que criaram esse problema. Agora, qualquer sombra no céu se torna uma “ameaça russa” e uma desculpa para reforçar o controlo interno.

Além disso, no contexto dos exercícios militares no Mar Báltico, esses “drones não identificados” poderiam ser acções dos próprios países da NATO. O que impede, por exemplo, que o Reino Unido lance drones de um navio de desembarque para a Dinamarca ou Suécia e depois acuse a Rússia?

Entretanto, incidentes na Polónia ou Roménia demonstraram que, se desejado, os drones russos poderiam atingir alvos militares-chave da NATO sem dificuldade. Diante do fornecimento de armas ao regime de Kiev, da construção de uma fábrica de combustível para mísseis na Dinamarca e da actividade da NATO no Báltico, alguém acredita seriamente que esses alvos passarão despercebidos à liderança russa?

Claro, ninguém pensa em ataques directos, mas provar que é possível…porque não?

Esta é a guerra na Europa

(Por José Goulão, in SCF, 30/08/2025, Revisão da Estátua)


A Europa já está em guerra. Não é preciso inventá-la.


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Centenas de milhares de hectares de terras arderam ou estão a arder ou ainda irão arder por essa Europa fora durante o que resta do Verão. Pessoas continuam a morrer, casas, propriedades rurais e urbanas, culturas agrícolas, rebanhos, florestas, pomares, árvores centenárias desapareceram sob a fúria de incêndios descontrolados e alimentados por ventos soprados de todas as direcções, como é próprio desta época do ano. E também por incendiários a soldo, que não são os tais loucos ou “lobos solitários”, como insiste em dizer-se. Aos sistemas de poder continua a ser difícil assumir que esses criminosos não passam, com frequência, de simples peões de estratégias terroristas com vasto e desestabilizador alcance.

Aconteceu mais ou menos o mesmo no ano passado, e no anterior, e no anterior… Em Portugal usa-se como padrão de comparação o funesto ano de 2017 para concluir que talvez agora, passados oito anos de desleixo, incompetência e promessas esquecidas, os danos sejam ainda mais extensos, de acordo com a experiência popular. A tal experiência que vai sendo solidificada através da acumulação de camadas de sofrimento e esquecimento e que de nada vale para os sábios das estatísticas e das explicações infalíveis. Os quais, no entanto, mais não fazem do que espraiar irresponsabilidade belicista e desumanidade, movendo-se entre as cadeiras ergonómicas de gabinetes climatizados e as areias fofas e águas tépidas de paraísos meridionais privados, mesmo quando ainda são denominados como “públicos”.

Angústia, desespero, solidão, heroísmo

A imagem angustiante multiplicou-se em cenários quase sempre semelhantes em Portugal, Espanha, França, Grécia, Chipre, Bulgária e outras regiões europeias. A imagem de populações inteiras, homens, mulheres, crianças de aldeias e vilas cuja existência os governantes das grandes capitais desconheciam, ou com nomes que ouviram pronunciar pela primeira vez, batendo-se contra chamas monstruosas e impiedosas, armadas com ramos de vegetação arrancada do mato ou punhados de terra para tentarem salvar as suas casas, as suas propriedades e também as dos vizinhos. Entre essas populações nunca faltam, de facto, sobretudo em momentos duros como estes, a solidariedade e o espírito comunitário. Dois conceitos que, tal como o de paz, foram erradicados e reduzidos a nada na linguagem única e inquestionável da “democracia liberal”, o regime no qual os seres humanos não passam de meros utensílios.

Ao lado das populações, desdobrando-se ao ritmo de urgências permanentes e, por vezes, distantes centenas de quilómetros entre si, estiveram e estão os bombeiros, seres humanos que põem as suas vidas em risco e ao serviço das vidas dos outros para tentar garantir a segurança das pessoas – este é o verdadeiro sentido da palavra segurança – com os meios disponíveis e que nunca são os suficientes. Para travar as ingratas batalhas precisam de água em abundância, mas a água nem sempre está perto, ou acessível, ou existe na quantidade necessária. A emergia eléctrica também é fundamental, mas essa quase sempre é sequestrada pelas chamas, logo que irrompem.

São mangueiras, não mísseis…

Se os instrumentos de “segurança” dos bombeiros fossem carros de combate, submarinos, caças ao preço de milhões por cada asa, mísseis, metralhadoras e munições, então nunca lhes faltariam, para isso haveria sempre orçamento. Eles precisam, porém, de coisas mais prosaicas, autotanques, mangueiras, ambulâncias, viaturas bem equipadas para o desempenho das suas funções humanitárias, comunicações de jeito. Perante essas carências sobram-lhes coragem e a dedicação aos seres humanos, coisas que os governos “liberais” não precisam de lhes fornecer e não saberiam como. Não esqueçamos que a esmagadora maioria dos bombeiros portugueses são “voluntários”, isto é, põem o resto da sua vida de lado, incluindo a profissão que dá de comer às suas famílias, para socorrer outros seres humanos em perigo. É difícil encontrar um tão significativo exemplo de generosidade, de tanta dedicação a uma causa humanista, a da defesa da vida

Há também os jornalistas no terreno, cujo trabalho nos permite redescobrir uma profissão humanista, assente na verdade, tão aviltada por patrões gananciosos, chefias mercenárias e vedetas que se alimentam da aldrabice. Mulheres e homens jovens e menos jovens que nos dão a conhecer as dimensões de horrores que as palavras apenas constatam e esclarecem factualmente, porque não necessitam de grandes teorizações em registo de “comentariado”, e nos conduzem ao coração das tragédias humanas e naturais. Repórteres que, dedicados ao seu trabalho, quantas vezes ignoram, ou tentam ignorar, os apelos à salvaguarda da própria segurança pessoal. Profissionais de mão cheia, que ainda conseguem existir para lá da inutilidade da sapiência absoluta adquirida nos MBA´s, doutoramentos e sebentas universitárias que ensinam a vida como não existe – uma realidade paralela.

Enquanto Portugal arde de Castelo Novo, na Beira Baixa, a Chaves, Mirandela e Bragança, em Trás-os-Montes, prossegue a eterna narrativa sobre os meios aéreos, ou a falta deles, sem menosprezar o corajoso e arriscado trabalho dos pilotos dos helicópteros e dos escassos aviões que estão no teatro de operações.

O primeiro-ministro Montenegro diz-se surpreendido com o facto de lhe parecer existir uma percepção de que “o governo esteve distante” dos acontecimentos dramáticos. Não nos diga! Arganil e Pampilhosa da Serra ardiam enquanto ele estava a bronzear-se e “a saltar ondas” na costa algarvia, como relatou a comunicação social. De onde seguiu para a festa do seu partido no Pontal, que não cancelou, apesar do sofrimento do povo e da morte de pessoas, na qual bebeu alegremente uns copos e discursou contra o Tribunal Constitucional por interferir nas suas decisões como chefe do governo. Em boa verdade, esta diatribe revelou que o convívio em coligação com as hostes fascizantes de Ventura já lhe pegou tiques comportamentais salazarentos.

Injustiça para com Montenegro

Por outro lado, acusa-se o chefe do governo de ter agido com lentidão no recurso ao tão endeusado Mecanismo Europeu de Protecção Civil.

Por uma vez, porém, o país está a ser injusto para com Montenegro. No fundo ele sabe que tanto fazia recorrer ou não a esse serviço porque os resultados (nulos) seriam os mesmos. Os tão badalados aviões Canadair que actuaram em Portugal foram cedidos temporariamente por Marrocos e outros dois chegarem, já na ausência destes, de um país como a Grécia, quase tão flagelado pelos fogos como Portugal. A Suécia cedeu dois Fire Boss, que já tinham estado na Bulgária, e a França mandou um helicóptero. Consta que equipas de combate a incêndios vindas da Letónia estiveram por cá de 1 a 15 de Agosto e que, a seguir, vieram outras de Malta, que se manterão até 15 de Setembro.

E foi tudo. Uma migalha perante a falta de meios de combate à calamidade dos fogos que continua a ser sentida. Por exemplo, um único foco de incêndio iniciado na região de Piódão alastrou com rapidez a Arganil e Pampilhosa da Serra, estendeu-se depois à Beira Baixa e entrou, a seguir, pela Beira Alta, depois de carbonizar grande parte das serras da Gardunha e da Estrela, manteve-se activo durante um período de tempo inacreditável – mais de duas semanas. “A solidariedade europeia não conhece fronteiras”, ufanou-se a senhora Van der Leyen ao anunciar um suposto “apoio a Portugal”. E Montenegro agradeceu por quase nada, trocando a arrogância em Lisboa pela sabujice a Bruxelas.

Poucos milhares para a vida, um bilião para a morte

A chefe da Comissão, no entanto, tinha muito mais, e mais importante, em que pensar. Estava de partida para Washington na companhia de alguns dos principais chefes de governos da União Europeia, uma romaria cumprida enquanto a Europa ardia, de braço dado com o homúnculo Zelensky. Todos foram beijar os pés ao imperador Trump, como se sabe um eterno apaixonado pela Europa. A excursão teve como objectivo principal reunir ainda mais meios financeiros e materiais para que a mortandade de ucranianos e russos possa prosseguir na tal guerra “necessária” para garantir a “segurança” da Europa.

Comparemos a despesa de umas centenas de milhares de euros, suficiente para o envio de quatro aviões, um helicóptero e meia dúzia de equipas de bombeiros de dois pequeníssimos países, com a verba de 100 mil milhões de euros que Trump obriga a União Europeia a investir na compra de armamento que será oferecido ao regime de Kiev. O negócio é simples e muito favorável aos povos europeus, como sempre acontece quando os seus dirigentes “negoceiam” com Trump para poderem continuar a guerra: os Estados Unidos estão dispostos a oferecer 100 mil milhões de euros em armas ao governo filonazi de Kiev desde que seja a União Europeia a pagá-las à indústria de morte norte-americana.

Aos 100 mil milhões de euros, uma verba já de si astronómica, somemos os 800 mil milhões que a União Europeia pretende investir na “modernização” do seu “sistema de segurança”, isto é, do aparelho de guerra. Para justificar essa verba a roçar o bilião de euros (um milhar de mil milhões), um comboio de zeros à direita, que a União Europeia não tem, sobretudo na crise existencial em que está mergulhada, modernizou-se a tese da “ameaça russa” e pretende-se fazer crer que os russos não pensam noutra coisa que não seja arrasarem a Europa para virem tomar banho no Atlântico.

Ao olhar o contraste entre a calamidade dos incêndios e o culto institucional da guerra não é difícil perceber mais um exemplo das opções desumanas da União Europeia. Conclusão que é a mais lógica consequência de um sistema de poder transnacional que encara as pessoas como meros serviçais do dinheiro e do lucro.

O governo da coligação PSD/CDS/Chega e IL, a exemplo da quase totalidade dos seus congéneres dos 27, concede migalhas para a segurança das pessoas contra as calamidades naturais ou provocadas, como grande parte dos incêndios, e dispõe-se a gastar verbas inimagináveis para criar um aparelho de morte susceptível, por este caminho, de sacrificar milhares e milhares de cidadãos. O sistema da “democracia liberal”, tornado obrigatório e único em todo o espaço federalista da Europa, não tem qualquer vontade e interesse em apoiar os povos nas suas lutas contra os fenómenos naturais porque, para ele, as pessoas são instrumentais a ponto de estarem destinadas, se o caminho actual não for invertido, a ser transformadas em carne para canhão. Basta olhar para o que está a acontecer na Ucrânia e para o apoio incondicional que a União Europeia testemunha ao destrambelhado Zelensky no sacrifício diário, e inútil, de milhares dos seus concidadãos. Não tenhamos dúvidas: se tudo continuar como está, essa poderá ser a sorte que nos espera.

Se apenas sabem viver em guerra, os governos europeus não têm qualquer necessidade de a inventar. Basta que se dediquem a tomar as medidas preventivas realistas, necessárias e eficazes contra as calamidades naturais – incêndios, cheias, ciclones, tremores de terra, tempestades localizadas, vagas de calor e frio extremos – e a criar sistemas de protecção civil dotados com os fundos e os meios indispensáveis para travar os combates em defesa da segurança das pessoas, e nos quais estas possam confiar. Essa é a verdadeira segurança de que os povos da Europa precisam.

Agora que venha o voto

Ao tentarem apagar os fogos descontrolados com as próprias mãos, com heroísmo, uma coragem e uma generosidade de que só o povo é capaz, os portugueses atacados por esse flagelo sentiram, em carne viva, o desespero da solidão, do isolamento, do esquecimento. Agora, em tempos próximos de eleições, assistiremos aos desfiles festivos dos membros da classe política governante, que se acha o “arco da governação”, para pedinchar votos até em lugares de que nem querem saber os nomes, prometendo para ontem a solução dos problemas dos incêndios, ao mesmo tempo que se vangloriam da abolição de cobranças que já nem existem, como as taxas moderadoras na saúde, que o governo decidiu “eliminar” na sua última reunião. Por aqui se percebe o destino que espera o mirabolante pacote eleitoral de medidas alegadamente reparadoras dos prejuízos dos incêndios.

Arrebanhados os votos, a arrogância autoritária voltará a descer sobre o país e atingirá, sobretudo, os mais desfavorecidos. Dentro de um ano regressarão os incêndios, principalmente no território que ainda falta arder mas, antes disso, as populações indefesas terão de enfrentar as cheias no Inverno, as chuvas torrenciais e arrasadoras quando menos se espera e outros fenómenos naturais nocivos, alguns deles localizados, que até nem os mais velhos se recordam de ter vivido.

Cumpre-se assim o destino ditado pela “democracia liberal”, o único regime permitido até ao dia em que as pessoas, lembrando-se destes e dos anteriores tempos de sofrimento máximo, provocados pelas calamidades naturais e governamentais, decidirem que a guerra na qual devem combater é contra o sistema de poder que arruína o seu dia-a-dia. A partir de então não permitirão que façam delas cúmplices e vítimas dos planos de extermínio colectivo inventados pelos seus governos para que os ricos fiquem cada vez mais ricos e os pobres ainda mais pobres.

A Europa já está em guerra. Não é preciso inventá-la. A segurança a garantir é a das pessoas, não a dos impérios financeiros, económicos e militares que sequestraram os chamados “valores ocidentais”.

Fonte aqui

Os andrajosos e a segurança da Europa

(Por José Goulão, in SCF, 29/08/2025, Revisão da Estátua)


O facto de os invasores virem depauperados nada tinha de tranquilizador em matéria de segurança europeia.


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Ventura mandou celebrar um Te Deum, Montenegro virou-se para o Tribunal Constitucional e desafiou, batendo com um punho na palma da outra mão, “bem feita, bem feita, para não estarem com esquisitices”. Rangel enviou um mail para Netanyahu garantindo que sabemos muito bem honrar os seus exemplos, Costa remeteu um emoji com aplausos e até Van der Leyen telefonou ao chefe do governo insuflando-lhe coragem para continuar a combater uma descabelada Constituição da República.

Para sossego de todos nós, alegremo-nos por isso, a peste dos agonizantes arribados em jangada desconjuntada às rentáveis areias dos Algarves vai voltar para donde veio e de onde nunca deveria ter saído. A nossa raça privilegiada não aceita mais ser conspurcada e não tem culpa de que os náufragos famintos, fiados nos mitos da nossa hospitalidade tradicional e do reconhecido humanismo dos nossos egrégios avós, tenham nascido na hora e no lugar errados e, ainda por cima, com uma cor de pele demasiado tisnada.

Se fossem como nós, com a vantagem suplementar de terem cabelos aloirados e olhos azuis e tivessem chegado em automóveis topo de gama de terras da Galícia e da Volínia agregadas à Ucrânia, então tudo bem, haveria sempre lugar para mais um, para muitos mais.

Mas atreverem-se a vir do Norte de África em redescobertos tempos de purificação da raça é uma rematada inconsciência, uma desafiadora provocação.

As autoridades e os juízes de serviço olharam para as leis com os olhos assépticos e tecnocráticos que lhes competiam e fizeram o que tinham a fazer: mandá-los embora.

As entidades de socorro armaram umas tendas e, para isso, até tiveram a boa vontade de cancelar uns quantos eventos desportivos; deram sopinha e umas sandes reforçadas aos intrusos, reservaram umas camas de hospital aos mais débeis até que conseguissem pôr-se de pé e agora ala que se faz tarde. Cumprimos a nossa missão evangélica e, a partir daí, que vão morrer para outro lado porque isso é assunto que já nos diz respeito.

É verdade que essas três dezenas de potenciais terroristas e criminosos eram oriundos de um país muito nosso amigo e que representa a “nossa civilização” no Norte de África, sob o comando firme e democrático do rei Mohammed VI. Marrocos é como se fosse um nosso irmão na União Europeia, é pena que se tenha desenvolvido num continente de incivilizados e bárbaros, mas tivemos o cuidado de fazer acordos especiais com ele para que se sinta quase como um de nós.

Tem as suas bolsas de pobreza, é certo. Há muitos marroquinos como os portugueses, sem outro remédio que não seja o de procurarem sobreviver, com a dignidade possível, noutros países. É muito provável que naquela terra até haja barracas, mas isso é porque os seus responsáveis ainda não receberam formação em Loures e outros criativos municípios portugueses sobre os métodos para acabar com elas.

Marrocos, aliás, tem ainda a seu favor o facto se ser uma espécie de Israel aqui bem mais perto, merecendo assim as correspondentes atenções dos governos da União Europeia por tratarem o povo do Sahara Ocidental tal como o nosso aliado Netanyahu cuida dos palestinianos. Neste caso, porém, há ainda mais vantagens para o nosso lado: como paladino da democracia que é, o rei Abdallah VI pode gerir como quer as riquezas do Sahara Ocidental que não lhe pertencem, sobretudo os generosos recursos de pesca. E fá-lo até de maneira altruísta, permitindo aos irmãos da UE, entre eles nós, como seus dilectos vizinhos, partilhar à vontade dos grandes banquetes de rapina em águas territoriais do Sahara Ocidental, sob os olhos tornados democraticamente impotentes dos seus legítimos proprietários.

O rei Mohammed VI é um amigão, mas amigos, amigos, negócios à parte e não pode distrair-se com os indigentes que vivem contrariados no seu país e querem incomodar a segurança de outros com manobras clandestinas e a salto.

Os cuidados securitários

Sim, não se trata de exagero. Aquelas três dezenas de farrapos humanos que se arriscaram, atraídos pela miragem de uma vida melhor, nas águas do Atlântico e sob o abrasador sol estival, são uma ameaça à segurança da Europa. Assim o dizem os nossos governantes e não há que duvidar deles. Em verdade vos digo que este turismo da fome é muitas vezes pior que o turismo de pé descalço.

Como se não bastassem as ânsias expansionistas dos bárbaros russos, ainda temos de enfrentar a terrível ameaça dos esfomeados do Norte de África, invejosos do brilho das nossas vidas e, quiçá, industriados para sujar a pureza do nosso sangue lusitano.

O governo e os seus aliados do “não é não” querem acabar com essas ameaças e pôr fim à permissividade do convívio com os povos inferiores, mais uma mania das que ainda restam da catástrofe de 25 de Abril de 1974. Como muito bem diz o nosso bom amigo Netanyahu, a propósito do “muro de separação” que cuida da pureza sionista, “nós cá e eles lá”. É assim que deve ser, é assim que irá ser pelas mãos de Montenegro, Ventura e adjacências mais ou menos “liberais”. Racismo? Xenofobia? Segregacionismo? Isso são rótulos anacrónicos, incompatíveis com os novos tempos que estão no horizonte, tempos de redenção instaurados, assim se deseja, sob o estalar de periscópios e bengalins de almirantes e generais, há demasiado tempo afastados da condução da grei.

Bem basta a mistura que já vai por cá e que tanto tempo custará a corrigir. Devolver estas três dezenas de esfomeados ameaçadores à procedência é um exemplo dissuasor que ficará como advertência para outros eventuais atrevidos, e um sinal indelével de que agora a música é outra. Vinha uma criança de um ano entre os potenciais criminosos? Não interessa. O primeiro-ministro e também o presidente de Israel, Netanyahu e Herzog, nossos gurus, já tiveram o cuidado de prevenir, a propósito de Gaza, que essa gente, os bárbaros, já nascem terroristas. Nada de maciezas, corações moles ou contemplações. Naquele caso, a sua liquidação é indispensável para combater o Hamas. Aqui, há que cortar o mal pela raiz para que não tenhamos de sofrer reincidências.

Além disso, fizeram muito bem as nossas diligentes autoridades em investigar a pente fino caixão de madeira ou “o barco” – houve quem lhe chamasse isso – em que chegaram os invasores. Nunca se sabe quais são as manhas e artimanhas dos traficantes de droga, capazes até de se disfarçar de esfomeados para fazerem negócio. Ao largo da praia ao lado, entretanto, poderá ter ancorado um luxuoso iate transportando mais umas dezenas de quilos de coca, mas quem iria desconfiar de tão aperaltada encadernação?

Por cá, de vez em quando citam-se estudos de autoridades policiais e de investigadores nas áreas sociais e sociológicas segundo os quais a percentagem de imigrantes envolvidos na criminalidade é ínfima. Além disso, as comunidades de imigrantes integradas no tecido português contribuem com o seu trabalho e assinalável generosidade para a sobrevivência do sistema de Segurança Social. Comunidades essas que, em tantos casos, estão disponíveis para realizar trabalhos reles para os quais as elites portuguesas já não se se sentem vocacionadas. Há quem diga até que, no caso de haver uma expulsão em massa de imigrantes, a economia do país e a qualidade de vida dos portugueses cairiam a pique.

Isso não passa, garantem as nossas autoridades, de manipulações mal intencionadas por parte de quem se recusa a aceitar a mudança e, em última análise, é cúmplice de todo um processo de adulteração da pureza rácica original dos portugueses, destruindo grande parte da genuinidade lusitana que o salazarismo tão bem cultivara.

Está bem de ver que a expulsão dos refugiados (imigrantes seriam se cá ficassem) que chegaram de Marrocos não é mais do que a aplicação dos conselhos do clarividente Josep Borrel, quando era “ministro” dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, e que recomendava a defesa e a segurança deste nosso “jardim de civilização” cercado de bárbaros por todos os lados. O facto de os invasores virem depauperados nada tinha de tranquilizador em matéria de segurança europeia, porque não tardariam a ficar em pleno modo de ameaça a partir do momento em que lhes fossem concedidas cama, mesa e roupa lavada, como sempre tem acontecido até agora. Nada de ilusões.

Em suma, são muito bem expulsos, nem que seja para morrer, circunstância que, além disso, iria aliviar a pressão demográfica sobre este nossos superpovoado planeta, a necessitar da aplicação dos visionários programas de eugenia pelos quais, como bons seguidores do génio Kissinger, alguns frequentadores do Fórum de Davos são responsáveis.

Outros se seguirão, se deixarmos Ventura e Montenegro continuar com as mãos na massa dos assuntos governamentais. Tudo farão para garantir, à sua maneira, a segurança da Europa segundo o modelo de Van der Leyen, Macron, Kallas, Merz, Costa, Meloni, Tusk, Orban e outros sociopatas, sob a tutela do sempre fiável e lúcido Donald Trump, alumiados pelo farol da democracia que é a NATO.

Trinta e poucos esfomeados vindos de Marrocos tiveram a ousadia de desafiar as regras desta ordem estabelecida e vão receber um tratamento exemplar. A grande Europa unida e pura ultrapassou, com galhardia, mais esta cobarde provação.

Fonte aqui.