Lesados do BPNESANIF

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 18/12/2015)

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     João Quadros

Lá vamos nós, outra vez. Agora é o Banif. Passamos de pátria de navegadores a país de socorros a náufragos da banca. Afinal, sobre a estabilidade do sistema financeiro, não era ao António Costa que o Cavaco tinha que pedir garantias. Era ao outro Costa.

Já sabemos que o BES não é o BPN, e que o Banif não vai ser o BES e não tem nada a ver com o BPN. Cada caso é um caso mas acabam todos na mesma: pagamos nós.

Eu estou farto de ter bancos. Começa a ser demasiado. Já salvava um “snack-bar” só para variar. Sempre bancos, acaba por ser dispendioso e monótono. Preferia tentar salvar o rinoceronte branco da extinção que o centauro do Banif. Nós somos a parte besta do símbolo do Banif. O banqueiro lá anda, de peito feito, sabendo que há uma cavalgadura que o suporta. E não o podemos deitar abaixo porque caímos com ele. Já aqui defendi que salvar a Mercearia Esperançosa da Palmeira ou o “snack-bar” O Caiaque devia fazer tanto sentido como salvar o Banif. E sai mais barato.

Dizia Luís Amado, presidente do Banif, a 6 de Dezembro de 2015, sobre o novo Governo: “Um país com a dívida que nós temos não pode embarcar em visões muito facilitadoras”. Eu também acho. Não vamos facilitar, a começar pelo Banif. O Luís Amado em vez de ir à rádio, e televisão, dar palpites como governar o país, devia embarcar com a sua equipa do Banif, no bote com um furo, e explicar que não dá para ter visões muito facilitadoras. Espero que o Luís Amado apanhe um susto que fique com o cabelo todo preto.

Quem foi surpreendido com isto do Banif foi o Marques Mendes. Na SIC, o sempre alerta Mendes falou sobre o jovem Renato Sanches do Benfica e disse zero sobre o Banif. Eu até fui espreitar o trio de ataque para ver se o João Gobern fazia alguma crítica ao Luís Amado. Eu parto do princípio que se Marques Mendes não sabia é porque não aconteceu.

Para muitos não é surpresa. O Banif é mais uma prenda deixada pelos recém-separados PàF e pelo seu mordomo no Banco de Portugal. Agora divorciam-se e ninguém tem culpa. Acho que o país não aguenta mais uns lesados da banca. – “Vais à manif do Banif?” – “Não posso, tenho lesados do BES às oito”. Não se pode viver assim.

Segundo as notícias, o Banif tinha interessados na compra, mas o anterior Governo não avançou com concurso. O Sérgio Monteiro não tem tempo para tudo. Era de esperar que o anterior Governo, de Passos e Portas, responsável, entre outros, pela reforma do Estado e pela venda do Novo Banco, tivesse deixado uma solução para o problema, como por exemplo, uma subscrição pública para ajudar na defesa dos lesados do Banif. Ou então, se calhar, a opção do ex-Governo foi deixar correr. Eles não nos pagam, “é dinheiro que está a render”, como disse o ex-PM. Portanto, enquanto eles não nos pagarem é dinheiro que rende a bom juro. Só temos de esperar e ficamos ricos.


TOP 5

Metade cavalo

1 Passos Coelho cede o seu lugar no Conselho de Estado a Francisco Balsemão – é o mínimo, depois de tudo o que a SIC fez por ele.

2 Vhils é personalidade de 2015 para a imprensa estrangeira em Portugal – mas quem derrubou o muro foi o Costa.

3 Passos declara o fim da coligação com o CDS – Portas vai fazer uma coligação com o partido de Rui Rio.

4 Banif processa TVI devido aos “danos irreparáveis” causados – a TVI foi para o Banif o que a Comissão Europeia foi para os bancos gregos.

5 CDS indica Adriano Moreira para o Conselho de Estado – Conselho de Estado é o novo panteão. PSD vai propor o cadáver de Salazar.

 

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Explicações e avisos de António Costa

(Nicolau Santos, in Expresso, 12/12/2015)

nicolau

Na entrevista que concedeu ao “Público”, a primeira a um jornal, o primeiro-ministro, António Costa, diz: “O objetivo deste Governo não é prosseguir com outras caras a política do anterior governo. O nosso objetivo é mudar de política, e ela passa por termos instrumentos distintos dos que foram empregues pelo anterior governo”. Estas palavras são importantes porque nos últimos quatro anos o anterior primeiro-ministro, Passos Coelho, obteve uma indiscutível vitória ideológica: colocou-nos quase todos a culpabilizar-nos pela crise como resultado dos nossos excessos consumistas; e colocou-nos quase todos a concordar que só saíamos da situação empobrecendo. Daí a quase todos aceitarmos o discurso de humilhação contra os funcionários públicos e de acusação contra os reformados e pensionistas foi um passo de anão. Assim como quase todos aceitámos o disparo no desemprego e a brutal emigração como coisas naturais decorrentes da crise — bem como a falência de milhares de empresas e a venda de grandes empresas públicas a capitais estrangeiros.

É bom, pois, para os que ainda não perceberam, que António Costa frise que este Governo não vai fazer o mesmo que o anterior com caras diferentes. Para isso, era melhor ter deixado estar lá o original. Não. Costa vai fazer diferente e deve ser julgado por isso. E se houve coisa que Costa disse foi que estava contra a privatização da TAP. Não é por isso estranho que revele que o Governo já está a negociar com os compradores da transportadora aérea, no sentido de o Estado voltar a ter a maioria do capital da empresa. Como não é estranho que diga que será revertida a privatização das subconcessões dos transportes coletivos de Lisboa e Porto, um contrato feito sob pressão e por ajuste direto, considerado ilegal pelo Tribunal de Contas — além de que, como sempre defendeu, a gestão dos transportes públicos nas cidades deve ser uma competência municipal.

Cheira a esturro. Carlos Costa perdeu isenção e semeou ventos. É natural que venha a colher tempestades

Quanto à banca, o primeiro-ministro sublinha que “estamos a trabalhar com o Banco de Portugal para (…) responder às questões que se colocam nas instituições bancárias onde é necessário assegurar intervenções para a estabilidade do sistema financeiro”. Ou seja, o Estado vai ser chamado a apoiar a banca nacional. Depois, Costa revela já ter dito ao governador do Banco de Portugal o que pensa da contratação pelo Fundo de Resolução do ex-secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, para vender o Novo Banco. E deduz-se que não pensa bem. Ora é muito perigoso abrir uma guerra com o governador, porque o seu cargo é inamovível e depende do BCE. Mas Carlos Costa não se pode queixar. Nos últimos quatro anos suportou publicamente as políticas do anterior governo, depois isentou-o de qualquer responsabilidade no caso BES e finalmente foi pedir ajuda a Sérgio Monteiro para o ajudar a resolver o problema. Cheira a esturro. Carlos Costa perdeu isenção e semeou ventos. É natural que venha a colher tempestades.


Putin e o petróleo do Daesh

Na sequência do abate de um avião russo por tropas turcas, Vladimir Putin acusou o seu homólogo turco, Tayyip Erdogan, de responsabilidades diretas no incidente. O motivo seria proteger as rotas de abastecimento de petróleo do Estado Islâmico, que passam pela Turquia. A acusação de Putin parece excessiva mas não anda longe da verdade. Por outras palavras, o EI vende no mercado negro o petróleo que controla. E escoa-o através do território fronteiriço turco. Se os compradores são turcos ou de outras nacionalidades ainda não se sabe, embora se suspeite. Mas que a Turquia fecha os olhos a essa atividade ou pelo menos se mostra completamente incapaz de lhe pôr cobro, isso é claro. Barack Obama apressou-se a dizer que a Turquia é membro da NATO. É verdade. Mas há sinais que mostram que o Presidente turco apoia os movimentos terroristas porque quer derrubar o Presidente sírio, Bashar al-Assad —, que por sua vez é apoiado por Putin. A NATO não esconde o lado escuro de Erdogan.


Homenagem a Silva Lopes

O Banco de Portugal presta no dia 14 uma justíssima homenagem a José da Silva Lopes. Com uma sólida formação académica, reconhecido nacional e internacionalmente, Silva Lopes atravessou todos os grandes momentos da vida económica nacional, desde a adesão à EFTA e à então CEE, passando pelos dois primeiros acordos com o FMI (1978 e 1983). Foi ministro das Finanças, governador do Banco de Portugal e consultor de vários governos. E deixou um indelével legado de ética e incorruptibilidade.


Classe média, a vítima

Um estudo divulgado pelo “Financial Times” mostra que, pela primeira vez desde há 45 anos, a classe média norte-americana (entre 46 mil e 126 mil dólares) é agora menor do que a soma dos que têm os mais baixos e os mais altos rendimentos. Em 1971, a classe média representava 61% do rendimento, em 2015 só 50%. A classe de rendimentos mais baixos (menos de 31 mil dólares) passou de 16% para 20%. A de rendimentos baixos (entre 31 mil e 42 mil dólares) manteve o mesmo peso: 9%. Em contrapartida, a classe de rendimentos mais altos (entre 126 mil e 188 mil dólares) aumentou ligeiramente (de 10% para 12%). Quem cresceu mais foram os mais ricos (mais de 188 mil dólares por ano), que mais do que duplicaram: de 4% para 9%. Explicação: as forças da mudança tecnológica e da globalização estão a conduzir ao esmagamento da classe média e ao aumento das desigualdades. É uma tendência que está a acontecer em todo o mundo. Para a economia não é uma boa notícia. Mas para a democracia também não.


Eis o estampido

que em noite gelada

em mim recolheu.

O frio era tanto

que o gelo estalava

com frio também.

A névoa era muita.

E um barco partia

bem colado à bruma.

E a morte seguia

com o frio que fazia

em cerco de espuma.

O gelo era tanto

que a mão do quebranto

a mim se estendeu.

Sentado num banco

o frio era tanto

que o frio era eu!

(João Rui de Sousa, in ‘Frio’, in “Quarteto para as próximas chuvas”, Publicações Dom Quixote, 2008)

A história é sempre surpresa

(José Pacheco Pereira, in Público, 05/12/2015)

Autor

           Pacheco Pereira

A história do passado pode obedecer a critérios científicos, pode fornecer uma interpretação analítica consistente do que se passou e explicar por que razão se passou, mas não permite fazer uma “história” do futuro, não sustenta qualquer futurologia, nem qualquer das muitas variantes neomalthusianas que por aí circulam e que se destinam a justificar políticas do presente com pseudotendências a verificar no futuro. Nem a história, nem a sociologia, nem a economia permitem previsões de futurologia e o rastro de visões falhadas do futuro está um pouco por todo o lado. Mesmo as melhores utopias, quase sempre distopias, são tanto mais interessantes quanto são feitas a partir do presente e são, na sua melhor expressão, uma metáfora sobre o presente, como é o caso do 1984 de George Orwell.

Vem isto a propósito de uma variante do “não há alternativa” que aí circula assente num discurso neomalthusiano sobre o futuro, baseado em má economia e numa política que nada tem que ver com a democracia. O futuro, eles sabem como vai ser, ou se seguem as “regras” da economia e da governação estabelecidas pelas troikas nacionais e da “Europa”, ou todos os cataclismos se vão abater sobre quem se “desviar”. A vulgata económica, repetida à saciedade por quase todos os jornalistas económicos, um instrumento essencial de suporte à ideologia do “não há alternativa”, é simples e envenena rapidamente os activistas dos comentários mais ou menos anónimos e os participantes nos fora que rádios e televisões produzem a um ritmo diário. Uma única escola da economia tornou-se tão dominante que deixou de ser uma “escola” para se tornar “a economia”, mesmo que, por ironia, a maioria dos mais recentes prémios Nobel da Economia como Stiglitz, Krugman e Angus Deaton tenham posições frontalmente contrárias a esta interpretação da economia. Aliás, perante a indiferença geral dos partidários do “economês”, Stiglitz veio dizer a Lisboa que era preciso cobrar mais impostos para investir e que a desigualdade era uma opção política. A desigualdade, por exemplo, não tem qualquer papel no discurso do “economês” e da política que o sustenta. Não importa, não interessa e é inevitável.

Os governos, sejam conservadores, sejam socialistas, sejam o que forem, estão condenados a seguir a mesma política económica e social, e é essa política que define o “arco da governação”, o clube de partidos em que o voto dos eleitores serve para governar. O resto é um voto de segunda, tribunício e ineficaz, quase lúdico. Durante quatro anos em Portugal, só um punhado de pessoas que se contavam pelos dedos de uma mão é que resistiu a esta “inevitabilidade”, e mesmo os revoltados com a situação ficavam deprimidos com a falta de saídas previsíveis.

Pois tenho novidades para vos dar, surpresa!, de repente, saímos e saímos com uma genuína ruptura. Voltemos à história. O que hoje se passa em Portugal mostra como a história é sempre surpresa e é por isso que é inovadora, para o bem ou para o mal. A maioria dessas surpresas é má, algumas muito más. Existe uma maldição, que passa por ser chinesa, embora tenha sido escrita por um inglês, e que diz: “Que vivas em tempos interessantes.”

Vivemos hoje em Portugal esses ”tempos interessantes”, com todos os riscos inerentes. A quantidade de coisas que mudou nas últimas semanas criou esse carácter poiético da história, criador e carismático, o que também significa que a sua novidade traz ao mesmo tempo esperança e insegurança.

Insisto: nada garante que o que se está a passar é, como dizem as pessoas, “para melhor”, mas apenas que é diferente. E essa diferença exactamente por ser genuína não pode ser prevista, e as suas consequências e “normalização” também não. Mas uma coisa é certa: exactamente porque é uma genuína alteração, uma mudança, as pontes com o passado foram cortadas e o caminho para trás é impossível. Isso não significa que as forças do passado não estejam cá connosco, ainda assarapantadas com o que aconteceu, mas não menos vivas e perigosas. “Que vivas tempos interessantes.”

O que é que já mudou? Nos últimos meses, formou-se uma aliança, minimalista, débil, mas proactiva e aguerrida (o primeiro acto da coligação foi derrubar um governo) entre três partidos da esquerda, incluindo partidos desavindos há quarenta anos como o PS e o PCP. Por muitos sinais que houvesse, e nem sequer havia muitos, tal não era previsível que acontecesse. O facto de acontecer teve que ver com a existência de condições para que acontecesse, a perda de maioria absoluta em eleições de uma coligação que governava Portugal, mas tal já se tinha dado no passado sem estas consequências. É a aliança PS-PCP-BE que é nova e o novo ambiente que traz à vida política à esquerda e o efeito de acantonamento que traz à direita.

Essa aliança faz-se em volta de um governo de centro-esquerda que permanece no mainstream da vida política nacional e europeia, e que é tudo menos radical. Dizer que é uma “frente popular” só pode ser dito por ignorância, mas, para não variar, a ignorância floresce nestes epítetos. O Governo minoritário do PS assenta numa aceitação, com muita má vontade, diga-se, dos constrangimentos do Tratado Orçamental e num gradualismo que encontrou na voz do PCP, no debate da moção de rejeição, a sua melhor expressão, também ela contra-intuitiva, mas mais razoável inclusive do que no BE — Jerónimo de Sousa a dizer: “O nosso povo sabe que não pode tudo ser feito ao mesmo tempo.”

Ao mesmo tempo, uma direita cada vez mais à direita, que vinha de um razoável resultado eleitoral, se se tiver em conta as circunstâncias adversas, muito agressiva na comunicação social, detendo cumplicidades extensas com sectores económicos e os novos think tanks de direita nas universidades e fundações, e que governou como quis e lhe apeteceu nos últimos quatro anos, viu-se subitamente colocada em minoria e bloqueada de um acesso ao poder que entendia ter por direito próprio. Essa minoria da direita estava inscrita nos resultados eleitorais, mas a direita nunca pensou que a maioria adversa fosse materializada num entendimento político.

Depois, um regime centrado no primeiro-ministro, com menorização do Parlamento foi substituído por uma forte parlamentarização do regime, deslocando para a Assembleia a negociação interpartidária e a formulação conjunta dos termos da governação. É uma fragilidade dos acordos e criará dificuldades na sua execução, mas foi o possível numa esquerda que nem sequer no Parlamento se atrevia até há pouco a dar palmas uns aos outros.

Esta mudança e o seu sentido de surpresa só são mitigados quando temos em conta o contexto internacional. Ela faz parte de uma tendência para os partidos socialistas e outros partidos mais radicais, como o Syriza, começarem a distanciar-se dos anos alemães do “não há alternativa” e de uma insatisfação generalizada com o monopartidarismo real a que tinha dado origem. A experiência falhada do Syriza revelou uma Europa autoritária e vingativa, mas, se para muitos acentuou a impotência, para outros acentuou a incomodidade: alguma coisa estava muito mal na Europa, para se ter passado o que se passou. Depois seguiu-se a vitória de Corbyn no Partido Trabalhista, com os membros do partido a preferirem o retorno a uma identidade partidária forte do velho trabalhismo, em detrimento de considerações eleitoralistas. Como pano de fundo, a crescente crise dos partidos do “arco da governação” em muitos países europeus, capazes ainda de “ganhar” eleições, mas cada vez com menos votos e sitiados por partidos à esquerda e à direita. Para o PPE, o outro lado da tempestade perfeita que foi a conjunção de uma maioria de direita na Europa com a crise financeira de 2008, os sinais são preocupantes, a começar por Espanha, onde o exemplo português vai muito provavelmente ser seguido. Os partidos mais à direita do PPE são capazes ainda de obter maiorias na relação partido a partido com os socialistas, mas estão a tornar-se pestíferos e a concitar todos contra eles. As coisas estão a mudar e é país a país que elas podem vir a mudar na “Europa”.

É por isso que o Presidente da República, que estudou todos os cenários possíveis, e enfatizou o “todos”, nunca imaginou que este viesse a acontecer. Mas a história é assim, surpresa.