Bom Natal

(Estátua de Sal, 24/12/2019)

Natal. Seja lá o que isso for. Não é por fazermos votos de bom Natal que passaremos a ter um Mundo melhor. Nem que a vida passe a ser melhor para milhões de deserdados e sofredores da iniquidade e de um sistema económico que prospera cada vez mais para poucos em detrimento da grande maioria.

Mas as comunidades também vivem de rituais e da partilha de comportamentos. As tradições são isso mesmo. Uma herança da memória de outros tempos, por vezes atavismos fora de época.
E essa partilha pode gerar uma resultante social, positiva ou não, construtiva ou não. Dinâmica para a esperança ou dinâmica para coisa nenhuma.

Natal. Seja lá o que isso for, é pelo menos uma pausa na rotina de muitos de nós. Algumas liturgias tomam conta do quotidiano. As prendas, as crianças, as ceias, os encontros e reencontros familiares, os presépios e outros símbolos para os crentes e até para os menos crentes.

E por isso mesmo, quer queiramos quer não, o Natal é sempre uma singularidade, no percurso do calendário anual. Quer para os que o vivem em esperança, em fervor e em otimismo, quer para os que amargamente sofrem o desânimo de nada ter para vivenciar, e para os quais o Natal é apenas mais um dia no caminho de um calvário repetido e constante. Lembremo-nos desses, reflitamos porque são as coisas assim e questionemos porque terão que ser assim.

E para que se mantenha a tradição, para todos os meus amigos e para todos os que me lêem. aqui ficam os meus votos de Bom Natal. Seja lá o que isso for. Seja lá o que cada um queira que seja.


A improvável jornada da luz de Natal que brilha em Damasco e se vê em Lisboa. Hoje como há dois mil anos

(Christiana Martins, in Expresso Diário, 2412/2018)

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Uma bola sem árvore, uma ceia com avós mas sem os netos, a saudade de tantos. E a luz, sempre a luz a brilhar. Nas lâmpadas e nos olhos de quem a quer ver. Porque é Natal, lá na Síria e aqui em Portugal. É Natal e há sempre tanta gente que falta. Um conto natalício sob a forma de retratos reais dos abraços que o pensamento é capaz de dar quando faltam os braços para se agarrar…


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Os incêndios e a chantagem sobre o Governo

(Por Carlos Esperança, in Facebook, 25/12/2017)

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Ninguém é insensível à dor e ao luto dos que perderam os entes queridos, no inferno dos fogos, e os haveres na voragem das chamas, mas há abutres que continuam atraídos pelo odor dos cadáveres e exploração dos sentimentos, sem respeito pelos defuntos.

Curiosamente, ninguém pergunta aos autarcas o que fizeram para prevenir incêndios e o que falhou nos planos de proteção civil, que lhes cabia elaborar e executar; ignora-se a EDP, cujos fios de alta tensão atearam fogos; esquecem-se incendiários que a PJ filmou em flagrante; isentam-se os donos das matas das obrigações de limpeza. Há quem ganhe com a desgraça e capitalize danos, enquanto a direita procura incinerar o Governo nos fogos que espevita.

Deixemos repousar os mortos e as famílias fazerem o luto, que as filmagens impedem e a oportunidade de aparecer na televisão, com o PR, dificulta.

É altura de saber por que motivo não há quem peça a um juiz que permita o acesso aos seguros dos que os tinham; se há forma de punir quem, tendo seguro, se candidatou aos subsídios concedidos; se é permitido vender as casas feitas para quem não as habita, e se deviam ser reconstruídas outras, onde os ex-moradores não querem voltar.

O circo mediático e os partidos da direita, ansiosos por acusarem este Governo e inaptos para escrutinarem IPSS de direito canónico, caucionam oportunismos e desonestidades.

Sob o ponto de vista material chegam ecos de que só há beneficiários e de que a pressão mediática levou a construir casas onde apenas havia ruínas, já isentas de IMI, para além de terem – e bem –, sido dotadas de instalações sanitárias as casas que não as tinham.

Na tempestade de afetos, por entre ralis de beijos e gincanas de abraços, a repetição dos itinerários oculta e estimula o oportunismo que medra no húmus da desgraça. O decoro e o pudor deviam moderar as filmagens de missas, viagens e encontros nos locais que a tragédia mediatizou. A dor não deve alimentar vaidades e oportunismos e, muito menos, benefícios indevidos e obscenos.

Ontem, o presidente das CEP relembrou os incêndios, para exumar os cadáveres para a mensagem de Natal. Referiu os corpos carbonizados e esqueceu 13 mortos e 52 feridos esmagados, à saída da procissão, em 15 de agosto, por um carvalho paroquial da igreja do Monte, no Funchal. Omitiu os que se finaram porque Deus foi servido de os chamar, e lembrou os que morreram por incúria do Governo da República.

O PR, que, depois de regressar do Funchal, não consta ter rezado uma só novena pelos mortos da procissão, regressou hoje, em pio necrotropismo, a mais uma missa, a apelar aos portugueses para visitarem as zonas ardidas de Pedrógão.

Ámen.